segunda-feira, 14 de novembro de 2011

e que não


que não a larga
diz o anjo
e ela ri-se. 
ri-se ao sol, ri-se da luz a entrar pela janela da casinha, dos planos onde ultimamente se abrem portas sem que as vejam, dos universos paralelos onde se têm encontrado, ri-se o anjo do impasse onde julgam que caíram. e ri-se o mundo inteiro girando e rodando em câmara lenta, em câmara ardente aquilo que os corpos já não guardam, ao pó o pó, ao pó as cinzas, tantas velas que se acendem para pedir tantos milagres e a chama acesa e limpa a arder ao ar, apenas isso.
apenas isso
diz o anjo
que não a larga a não ser quando decide não ouvir o que lhe sopra, quando se afasta da canção e não quer voltar a casa, quando regressa à escuridão que não é mais do que apagar-se, nada nada para cumprir a não ser compreender-se entre linhas invisíveis, transcender-se, co-criar-se e o anjo... ri-se.

e que sim



e que assim se vão cumprindo
diz o anjo.
na urgência que não têm um do outro e na esperança que dedicam a si mesmos. que assim, sim, fazem caminho, em cima dos próprios passos e abrindo cada um o seu par de asas e que a liberdade é isso, é dar voz à igualdade, sem cobrar o que não dão, sem pedir o que não têm, sem temer que lhes falte algo. uma mão cheia de tudo e a outra tão vazia, com tanto espaço para colher seja o que for que semearem, num canteiro, numa mandala ou no campo ou onde for, sujeito ao sol, sujeito à chuva e à passagem das estações - que a todos guiam e acabam por conduzir os beija-flores à primavera.
e que não, que não há pressa, não há tempo quando a vida se condensa num só ponto que é comum e que expandi-lo não depende mais das horas, nem dos dias, nem dos meses, nem dos anos, mas da alma e que é claro que se amam tanto!, o universo inteiro em espelho a reflectir a vibração, a criação, o embrião que em silêncio e às escuras se transforma e se transmuta e se dá à luz um dia, enfim livre do cordão e das entranhas que o tornavam dependente de alimento. e que a tontura, que sentiu a subir por ela acima, a vertigem de ver tudo a andar à roda, foi o centro que a ancorou ao seu eixo de balança. e que nele foi o vento e esse amanhecer das cinzas, de onde se faz fogo outra vez e se retoma a primazia que se tem na própria vida. 
e que então não é tudo, mas que é tanto
sopra o anjo
para dentro de um livro em branco...

domingo, 13 de novembro de 2011

as asas têm homens






disse-lhe ela,
quando o sentiu dentro das suas.
abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e pediu-lhe:
nunca mais feches os braços
senão volta a doer tudo.

os homens têm asas




disse-lhe o anjo.
a ele doíam-lhe os ombros, as costas, os braços, mudava a posição do sono de um lado para o outro e do outro para o mesmo e a noite assombrava-lhe o voo. pesavam-lhe as pálpebras e o sal condensava-se, de cada vez que o mar alto vinha bater-lhe nos ossos, pressagiando naufrágios, margem nenhuma onde pudesse atracar o peito, o navio, descansar, pisar terra firme, o horizonte tão longe da vista
só podes estar a brincar
e afastou o anjo do sonho.
não era sequer madrugada quando o ouviu repetir
têm asas, os homens, e voam!
o vento assobiava lá fora e a tempestade das estrelas era engolida e chovia, choviam-lhe tanto esses olhos que a cor do mar assombrava quando o céu fugia para longe, esquecia-os fechados, azuis, dormia evitando o brilho da luz, prisioneiro dos fantasmas que de repente irrompiam das ondas, e de novo afastou o anjo do sonho e virou-se, de um lado para o outro, do outro para o mesmo, doía-lhe tudo tão fundo
só podes estar a mentir.
amanheciam as cinzas, que não eram mais do que deus brincando ao jogo da luz e das sombras, quando o anjo, mais uma vez e mais perto, insistiu
vejo-as nascendo nas tuas costas
e tocou-lhe ao de leve nos ombros, tocou-lhe nos braços, tocou-lhe no peito, o murmúrio do mar azulou-se nas pontas dos dedos, as ondas beijavam-lhe as margens do corpo, o grande navio parecia-lhe agora muito mais leve, navegando à bolina do vento que tinha amainado, as estrelas tinham descido do céu para lhe iluminarem o dia, ao seu lado o anjo sorria
tudo o que tens de fazer é abri-las.
que não, que não queria. não cria, no fundo era isso. e tantos abismos se ousasse, a vertigem da queda presente quando, ainda menino, se aventurava nos precipícios e se estatelava no chão, as feridas abertas sangrando ao relento, o sol derretendo os sonhos de cera dos homens quando se armavam em deuses
por que razão seria diferente comigo?
limpa, tão limpa, varrida das cinzas, do medo, a luz tomava agora conta de tudo. das costas, dos ombros, dos braços, dos dedos, nos olhos abertos o mar desaguava em dois lagos azuis e talvez, talvez fosse verdade que lhe nasciam asas no peito, ouvia o pulsar, o rumor, a cadência do voo razando-lhe o corpo, o despertar do sono mortal, qualquer coisa a estalar debaixo da pele e o anjo amparou-o
não tenhas medo, prometo que não vais cair!
e já era tarde, já era de tarde quando rompeu finalmente a fronteira da carne e subiu ao poente, que derramava sobre ele as bençãos do ouro e da liberdade dos que ousam ser anjos na terra.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

do caos... para casa



a lua veio com a serpente e em troca ela ofereceu-lhe um mapa. que sim, que estava gasto e a ceder ao desalento, o chão de tábuas que o bolor tinha rompido. abria frinchas e exalava a liquidez das fundações, construída sobre o luto e sobre as lágrimas de quem nunca o pisara ou conhecera, ainda que o tivesse adivinhado muito antes da partida. e que não, que os mortos não podiam instalar-se e habitar a sala grande, habituar-se à penumbra circular e ao vidro fosco das auréolas, às poeiras do desgosto, que era urgente que as flores ressuscitassem noutros vasos, que se exorcizasse o pranto das crianças que assombravam os pinhais da sua infância e que retinham a alegria em copas bravas. sim,  arredondá-las, torná-las mansas como é, afinal, suposto serem, copas de ventre onde acolheu os outros quatro habitantes dessa casa, onde também moram fantasmas, moram anjos que de noite pousam na orla das portas e não há mal nenhum nisso, pelo contrário, há que dar graças quando os anjos habitam a nossa carne. 
que sim, que numa casa onde as escadas nos dividem entre os planos do que em baixo e do que em cima nos parece separado, seria sempre complicado o amor vingar, porque não vinga. não é um verbo que combine com aquilo que traz no peito, não é vingando-se de nada que algum dia terá paz, mas muito mais cruzando os planos, subindo e descendo as escadas, já que aquilo que está em baixo é aquilo que está em cima e aquilo que está em cima é aquilo que está em baixo.
que seria tão mais quente e tão mais acolhedor haver mais fogo e menos água, conter as infiltrações para que parassem de trazer-lhe as memórias do passado e de lhe encharcar o corpo, atacar a humidade com a chama viva das paixões que não nos deixam desistir de encontrar ouro no interior das nossas sombras. que a salamandra e a lareira e as histórias e as pessoas se alimentam disso mesmo, da chama viva das paixões, das doces brasas de um abraço, e que das cinzas se renasce a cada dia que passa, haja lenha para queimar quando o Inverno, devagar, chega e vem bater à porta.
que sim também, que a cama poderia e deveria ser maior, com cabeceira para que os sonhos não trepassem às paredes e se esvaíssem com a noite, que a manhã, clara e nova, entrasse num quarto sem história e sem gemidos de ninguém. que no fundo lhe parecia nunca ter acreditado que merecia tantas bençãos, tantos dons, o que era estranho, tendo em conta as árvores todas que cresciam no jardim e davam frutos, adivinhava-se na relva o nascimento de um caminho, as bunganvílias prometiam muito mais do que dar flor, como é que não via ainda a liberdade semeada nas roseiras sempre que choviam pétalas? que não deixasse, por favor, de acreditar na poesia, nem desistisse de rimar consigo própria, que deixasse a sala aberta para o jardim e uma passagem para onde quer que quisesse ir, que se cumprisse sem esperar mais por mais nada ou mais ninguém, porque podia de repente ficar tarde e o chão ruir, desta vez sem mais conserto.
e, no entanto, foi preciso arquitectarem-se os afectos para a mudança ser real. esvaziarem-se as casinhas que se enchiam de lembranças e de tralhas e de bichos, arrastar as velhas coisas lá para fora e deitar fora as que nunca mais serviram - há sempre tantas coisas que não servem e que, mesmo assim, guardamos! pôr ao sol o que era sol e à sombra o que era sombra e suspirar, ainda na velha cama, já sem esforço e só suando do prazer que lhes trazia estarem juntos a cumprir mais uma etapa do caminho ou apenas experimentando partilhar uma aventura.
foi preciso a visão dele, e o acordo dela, para mudarem de lugar este sofá, aquela cómoda, duas mesas lá de fora cá para dentro, um tapete para a cozinha, pega ali, arrasta aqui, a ideia era pintar tudo de branco, já que no branco pode sempre começar tudo de novo. foi preciso desenhar numa folha aos quadradinhos as medidas onde iria construir-se de raíz uma outra coisa e que sim, que ia ficar mesmo bonita, arejada e limpa, de branco como o resto das paredes, de branco como o resto do seu corpo, de branco como tudo aquilo que é novo, não fossem haver ainda tantas mágoas que os manchavam, tanta tinta a escorrer no meio dos dois, tanto caos, tanta desordem, tanto amor para pôr ao sol e os dois ainda a resgatar a sombra. 
que sim, que ficou presente em tudo, mesmo depois de se ir embora - é sempre a ele que se abandona. ficou presente na casinha das magias onde um anjo inspira as cores dos corações quando abre as asas, na transparência do cristal com que lhe resgatou a alma, algures no hemisfério sul da sua, na disposição das mesas para que possam estar mais perto e até tocar-se, mesmo estando um deles ausente, na visão de que o espaço se alargou de forma a dar-lhes muito mais do que os contornos da matéria e que é por isso que a presença se mantém tal qual a mesma. na disposição da relva, que acolhe a lua a cada noite que passa - mesmo que faça frio ou chova -, nas flores que lhe dão as boas vindas à entrada, de cada vez que chega a casa, na clarabóia onde vê nascer as estrelas e que a madrugada rompe, depois de sonhar com ele, na certeza de que as manchas de humidade e de mágoa e de bolor se dissipam à passagem do píncel. e que sim, que merecem, tantas bençãos, tantos dons e tanto amor. o fogo aceso, quando o Inverno lhes vier bater à porta, nem que para isso precisem de renascer das velhas cinzas de tudo aquilo que arde na dor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

bate pára bate pára bate pára...

o coração ~ bate, expande, pulsa, dança ~ bate pára bate pára bate... pára. e aos poucos vai matando os que não amam, contraindo a solidão, envelhecendo, enferrujando ~ bate, salta, treme, pula, bate de encontro ao meu peito e não arde e não magoa e não faz ferida e nunca sangra ~ bate pára bate pára bate pára ~ pára tudo quando não lhe apanho o ritmo ~ fica mudo, fica seco, fica tonto, fica inútil. bate dói ~ bate cura ~ bate solta ~ bate cria ~ bate crê ~ bate muito! bate cor, bate som, bate gente e corro a abrir. bate e pára no silêncio a quem lhe vem falar de amor ~ pára quieto, pára limpo, pára em paz no rumor da tua pele roçando a minha ~ e bate fundo e bate dentro e bate grato pela vida ~ bate pára bate pára bate... pára. numa ilusão breve da morte que lhe oculta o movimento e expande luz em vez de sangue ~ e de novo é contraído num suspiro do universo e bate além, muito além do que foi músculo, muito além do que foi carne, muito além do que foi meu ~ bate pára bate pára bate pára ~ bate por e para nós ~ bate para sempre em nós ~ bate tudo ~ bate tanto ♥


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

plutão... tão... tão... tão!


e quando, na prática, ela começou a mudar, ele mudou-se. observa a distância e não há, não existe, chega a parecer-lhe que nunca esteve tão perto. tão perto do quê? do seu centro, do ponto onde simplesmente se observa, contida numa medida de humanidade que por certo limita os seus movimentos mortais, mas ilimitada pela eterna visão que o universo lhe oferece. alguém tinha de ser o plutão, a bater-lhe ora no sol - identidade -, ora na lua - emoções -, e também por isso está grata. por o ter tido incarnado, ao seu lado, e ter ousado cair no abismo que lhe propôs, por maior que fosse a vertigem da queda. grata pela escuridão que tantas vezes tomou conta de tudo, apagando as referências que tinha do bem e do mal, do errado e do certo, do sim e do não. e, tantas vezes, sentia-se a vítima e dilacerava-se com a injustiça de a vida a ter atirado, sem complacência nenhuma, para o precipício. e subia-lhe ao peito aquela auto-comiseração, tão própria de quem não acredita que o poder da mudança está, unicamente, nas suas mãos.
senhor da morte e da transformação, plutão não parecia querer dar-lhe tréguas. acredite-se ou não na simbologia dos astros, compreenda-se ou não o que são 'trânsitos', tome-se ou não por referência o que nos é proposto quando há quadraturas no mapa, o certo é que a rota, lenta e gelada, do pequeno anão a obrigou a realizar que o abismo não era mais do que as suas próprias entranhas tomadas por crenças, dores do passado, mentiras que lhe foram contando ao longo dos anos... e de nada servia pedir-lhe: 'deixa-me em paz', 'sê doce comigo', 'dá-me um abraço'. enquanto o sol e a lua estivessem na mira da sua rota, a sua função era ir embatendo ora num, ora noutro, ora num, ora noutro... 
não sabe a quantos graus estará o plutão neste preciso momento, a sua rota, lenta e gelada, obedece ao movimento imparável do universo e é tudo. não tem de fugir, pedir-lhe coisa nenhuma. também ela se movimenta ao ritmo da vida e é tudo. o anão da morte e da transformação só nos encolhe e nos fere e nos mata se não tomarmos para nós o seu gigantesco poder de regeneração e de renascimento. 
ao realizar que o abismo não esteve nunca lá fora, mas que ela própria o transporta nas suas entranhas, faz dele uma espécie de ventre materno, translúcido e doce, e agradece o embrião luminoso que, afinal, esteve sempre presente, em todas as suas co-criações.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

noite das bruxas


e eu, que sempre vivi guiada por fadas, abro mão da magia e dos pós de encantar e mergulho. 
acendo o fogo e mergulho, para que me arda o passado e se queimem todas as feridas que teimo em abrir, de cada vez que acredito que sou este corpo de sangue e de carne.
diziam os celtas que dois deuses gémeos reinavam nas duas metades do ano. ao deus luminoso, cabia a metade do ano que ia do fim do inverno até à metade do verão, ficando o resto do ano entregue ao deus gémeo - o da escuridão. 
longe de ser um deus 'mau', o que reina a partir desta noite não representa mais do que o declínio da natureza, que em paz adormece e se retira para dentro da terra, de forma a poder renascer quando, de novo, o deus luminoso vier tomar conta da sua metade do tempo.
à semelhança das árvores, deixo que as folhas me caiam, sem temer a nudez nem o frio do inverno. deixo que a terra me acolha numa humidade de ventre materno, que os planos se cruzem sem véus e que do outro lado me atendam as preces. que o fogo consuma tudo o que já não me serve e que a chuva abençoe todas as minhas entregas. condenso o silêncio nos dedos, que entoam canções de embalar à medida que os pouso nas teclas, e deixo que os dons se recolham, mas não que adormeçam. 
a grande roda da vida não pára quando tudo mergulha na terra e se aquieta, há no ventre do fogo uma chama que chama o meu nome e que as bençãos da chuva, ao invés de apagarem, tornam ainda mais claro, quando o pronuncio dentro do peito, em silêncio *

sábado, 29 de outubro de 2011


tens a sensação de que escreves melhor quando sofres? 
perguntou-lhe ele. 
mastigou nos dedos as dores que as palavras convocam quando lhe suam as mãos, o embate no peito de cada vez que se debruça sobre o teclado do computador, há dois dias apenas havia ainda a janela por cima dos olhos e a luz entrava de frente, voltará provavelmente a trocar o lugar de tudo o que saiu do lugar, a figueira poderá nascer da parede e as folhas farão sombra ao anjo de loiça que, não sendo da guarda, ampara agora tudo o que de branco existe num livro começado há que tempos.
não sei, 
respondeu. 
e revolveu e reviu as letras que costumava alagar em prantos de insónia, as vírgulas parecendo soluços e os pontos finais em todas as histórias que lhe traziam de volta a lembrança das feridas antigas, a noite quando lhe entrava pela janela e a escuridão lhe batia de frente, revolve e revê o vulto da sombra no círculo da relva, a lua no céu a crescer ao relento e o espaço que foi nascendo entretanto, permitindo-lhe enfim que os passos sejam maiores do que as pernas, que nem sequer precise de pernas para sentir que caminha, retoma a dança que sente pulsar-lhe no peito só porque está viva e tão grata por tudo, e de novo o desenho é só um pretexto. 
tudo, afinal, é só um pretexto, quando à falta de rumo há alguém que se sente perdido. quando é tão fundo tão fundo que dói que respirar se torna impossível.
há quem para criar precise de se destruir, disse ele então, ao mesmo tempo que da janela a espreitava, atingindo agora os seus olhos de frente. 
provavelmente, 
disse ela.
e repara que nada saiu do lugar, já que nada se move sem o consentimento dos anjos, que o vulto da sombra no círculo da relva se encheu de nenúfares, que o amor se alimenta do espaço que foi nascendo entretanto e que a lua está sempre cheia, afinal, quer a veja crescente ou minguante no ângulo do peito. e por isso é em paz que contempla as paredes da casa pintadas de branco. sofrer é um verbo que a mente conjuga quando alguma coisa ou alguém ameaça tirar-lhe poder e o desenho deixa de ser só um pretexto, de cada vez que aceita o convite da vida e os dedos entram na dança.


~ sangue ~
deixo que escorra e abro-te as asas. 
obrigada pelas aguarelas. 
é tudo tão breve, já reparaste?

formas



o gelo derrete e continua a ser água. as montanhas desabam e são terra na mesma. as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. o vento amaina e o ar não se esgota.
formas.
só isso.
formas.
casas, árvores, cubos, caixas, pedras, pessoas.
medidas, pesos, tamanhos, enganos.
olhamos para as coisas e vemos as coisas. e quando uma casa desaba parece que deixou de ser casa. e quando uma árvore é cortada parece que deixou de ser árvore. e quando um cubo se amolga parece que deixou de ser cubo. e quando uma pedra é esmigalhada parece que deixou de ser pedra. e quando as pessoas se olham é carne que vêem e depois quando morrem parece-lhes que já não vêem mais nada.
formas.
só isso.
matéria que se condensa para nos dar aparência.
mesa, gato, folha, frasco, caneta, copo, papoila.
consistência, volume, textura, carácter, função.
a tudo atribuímos um nome. sem nomes o que seria da mesa, do gato, da folha, do frasco, da caneta, do copo?
papoila e a forma vem cor de vermelho, a consistência macia das pátalas, o pouco volume que ocupa nos campos, a textura de fino veludo, o carácter éfemero depois de colhida. funciona?
a espuma das ondas, a chuva de outono, o movimento do voo, a cadência dos passos, a ressonância das festas, um acorde menor, o aroma dos corpos... que formas temos para dar-lhes?
a ilusão de que sabemos como é que tudo se chama, de que para tudo há definições, a perspectiva e o ângulo, formas que mudam de fórmula para formar novas formas, milhares de partículas infinitamente minúsculas que brincam connosco e nos garantem que o mundo é redondo.
e o gelo derrete e continua a ser água. e as montanhas desabam e são terra na mesma. e as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. e o vento amaina e o ar não se esgota. e todos os dias milhares de pessoas abandonam o mundo das formas e, afinal, continuam a ser quem sempre foram.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

explicações metafísicas & outras considerações mais ou menos assim


 ~

foi hoje, enquanto nadava. a água tem esta maravilhosa particularidade de me aligeirar o corpo e a alma e só a mente, obstinada e teimosa, vai resistindo à liquidez do convite, mantendo-se à tona e fazendo-me crer que é à superfície que sei respirar. lembrei-me da frase da Frida Khalo que a Zicca postou há dias no FB - 'intenté ahogar mis dolores, pero elles aprendieron a nadar'. lembrei-me da frase que diz 'aquilo a que resistes persiste' e compreendo que as feridas da Frida só podiam mesmo ter aprendido a nadar, ninguém gosta de ser forçado a afogar-se e as dores, provavelmente, menos ainda. 

hoje, na piscina, e para dizer a verdade - se é que alguma vez se diz a verdade - eu não tinha dores nem queria afogar coisa nenhuma e deixei a alma boiar, deixei o corpo avançar deitado de bruços, deixei a mente onde gosta de estar, à superfície, envolta nos seus labirintos sinápticos e assim se passaram vinte minutos ou mais. a seguir, enfiei-me no borbulhar do jacuzzi, pouco depois fui pôr-me a suar dentro da casinha da sauna e foi aí que começaram as vir as explicações metafísicas que tenho a mania de querer encontrar para tudo o que se passa no mundo, sobretudo o mundo que ponho a girar no umbigo. 

o que é que uma coisa tem a ver com a outra, perguntam vocês, ou não perguntam, não sei, e aí é que está o umbigo: provavelmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. mas tantas vezes me esforço para que tenha e é a isso que chamo de 'explicações metafísicas'. por exemplo, imaginem que é suposto eu chegar a um encontro às 10h30, mas que me atraso, ou que me adianto, e que no atraso ou adiantamento me acontece outra coisa qualquer, do tipo encontrar uma nota de 100€ no chão, tropeçar e cair e partir uma perna, dar de caras com alguém que não vejo há que tempos. seja o que for, é só o que é, mas lá vem sempre a explicação metafísica do 'se foi assim só pode ter sido porque isto ou aquilo' ou 'ah, isto foi um sinal para eu perceber que quando me atraso parto uma perna', ou 'se me adiantar de todas as vezes que marco um encontro talvez encontre sempre 100€'
ok. provavelmente, não me estou a explicar muito bem. e observo que é maravilhoso não me estar a explicar muito bem. normalmente, esforço-me por me explicar muito bem. tudo tintim por tintim, sobretudo a escrever, parece que estou a tecer uma teia e ai do fio que fique fora do sítio, não vá a teia deixar de parecer uma teia, mas um emaranhado confuso de fios... e não sei mais o quê.

é. hoje fui nadar. e as considerações mais ou menos assim sobre nadar podiam ser infinitas. as explicações metafísicas sobre o posicionamento dos astros ao longo do dia de hoje e do de amanhã, como acabei de ler ainda há pouco, também no FB, indicam - consta - que são dias bons para 'fechamento do ciclo nos relacionamentos' e para a 'percepção do que deve ser deixado, em definitivo, para trás.'
'em definitivo', neste momento, é algo que não sei conceber. a não ser que, de facto, já tenha passado. a piscina, o jacuzzi e a sauna desta manhã, por exemplo, ficaram em definitivo para trás. assim como o copo de leite e a torrada que comi ao pequeno-almoço. a viagem até às escolas que fiz de manhã com as crianças.
baralhados? não faz mal nenhum! hoje a teia poderá ser confusa para quem está de fora e a vê já tecida. para mim, que estou aqui a tecê-la, a descoberta é que as explicações metafísicas apenas complicam a simplicidade da vida. as considerações mais ou menos assim, que a mente adora e que nunca se cansa de elaborar, são só isso mesmo: mais ou menos assim. 'ah, se me aconteceu isto foi porque a vida me queria dar um sinal' ou 'vou aproveitar a lua minguante para deixar definitivamente para trás um relacionamento.'
pois, pois. e, afinal, é só mais um texto: como outro qualquer.



domingo, 23 de outubro de 2011

fala-me da tua morte

e já tantos falaram. tenho as conversas gravadas, serão já nove ou dez, não me lembro, a ideia do livro entretanto mudou, o título por enquanto mantém-se.
fala-me da tua morte e houve alguém que me disse 'na pior da hipóteses é como dormir sem estar a sonhar' e observei-me a dormir, sem estar a sonhar, e não existe nem uma imagem que possa reter desse sono sem sonhos. e nem sequer faço ideia se é a pior das hipóteses, se haverá uma hipótese pior do que as outras, sei que a ideia da morte nos remete para a finitude dos corpos e que grande parte das nossas angústias vêm daí, de nos sabermos mortais, de nos sentirmos perenes, de estarmos sujeitos à impermanência das coisas, de acreditarmos que há qualquer coisa a separar-nos dos que estão mortos e de nos terem banido da eternidade quando, fisicamente, já não nos tocamos.
não sei. e é mesmo bom não saber. no livro, e aos testemunhos reais dos que ainda estão vivos, acrescentei a ficção dos que falam da morte do lado de lá, tão ou mais vivos do que os que ainda cá estão, afinal, e que encontraram, desse lado de lá, tudo o que imaginaram que encontrariam quando estavam ainda do lado de cá.
não sei. o lado de lá e o lado de cá foram, ao longo de anos e anos, dois lados que me esforcei por separar com muitas angústias e sempre cheia de dúvidas. a percepção, no entanto, é cada vez mais a de que não estão separados, não há um lado de lá, não há um lado de cá, há uma dança contínua de átomos, partículas e sei lá mais que poeiras que a olho nú são invisíveis que se juntam e se separam e de novo se juntam e se separam e que ora nos dão a ilusão da matéria, ora dissipam todas as formas e se consubstanciam na imensidão de um universo perfeito.
não sei. as próprias palavras - morte, morto, morrer - falam de crenças que ao longo dos séculos se entranharam em nós, sempre com muita dor à mistura, rituais mórbidos, pensamentos funestos, cemitérios onde enterramos as lágrimas, como se os corpos que aí deixámos contivessem ainda resquícios de afectos, de festas, de beijos.
e isto sei porque andei anos com o peso da morte a subir-me às entranhas. anos e anos a usá-lo como uma desculpa para me esvaziar de sentido, anos e anos até descobrir que, afinal, talvez fosse eu quem morria, ainda hoje me questiono se a morte não é, simplesmente, uma armadilha da língua, de cada vez que a usamos para significar o contrário da vida.
não sei. se me pedissem a mim
fala-me da tua morte
não faço ideia do que diria. mas sei, isso sei, que sempre que tomo a morte por ausência de vida me estou a enganar a mim própria. de cada vez que acredito que os que morreram se foram embora e me deixaram sozinha, estou a contar-me uma história da coitadinha. sei, isso sei, que a escuridão é onde me apago de cada vez que me afasto de mim, sei que a mente se pode treinar para ser cada vez mais capaz de não acreditar em mentiras, que o sofrimento em que tantas vezes mergulho é um gesto de auto-mutilação, tão humano, afinal, de cada vez que me esqueço que estou aqui, divinamente, a cumprir-me, ao serviço da vida e, tantas vezes, usando a morte como uma desculpa para me mortificar. se for mentira que são coisas opostas, a vida e a morte dançam em mim todos os dias e tudo o que há para fazer é seguir-lhes os passos.
mas nem isso sei. não sei nada, que bom! apenas a história que neste momento escolho contar-me e que, neste momento, seja de vida ou de morte, é de paz. luminosa e azul como esta imagem? sei lá!





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

pré-ocupados

há já muito tempo que deixei de ver telejornais. também não leio jornais. de manhã, a caminho das escolas, oiço as notícias das 8h00, na RFM. são rapidinhas, sucintas. chegam e sobram para ter uma ideia. uma ideia do quê? nem sei bem dizer. o que de verdadeiramente importante vai acontecendo na minha vida e na vida dos que me são próximos não é digno de ser relatado nas notícias das 8h00 da RFM. nem nos telejornais. nem nos jornais. 
há uns anos também, troquei uma entidade empregadora, um salário chorudo e um comodismo agradável pela aventura de ficar por conta própria, sem nunca saber quantos euros iria ganhar ou perder e a liberdade de não ter nem de agradar nem de obedecer a ninguém. ainda não me arrependi! 
há anos que não faço ideia do que é isso de ter subsídio de férias ou de natal, não me passou sequer pela cabeça, quando saí de um emprego onde estava há catorze anos, negociar subsídio de desemprego, ou começar a roçar-me pelas paredes, para me despedirem e levar uma indemnização para casa. na altura, diziam-me que eu era louca. talvez porque somos um povo habituado a reclamar muito os direitos e a cumprir pouco os deveres, não sei. sei que não era ético, sei que para mim não fazia sentido exigir fosse o que fosse ao 'patrão', mas apenas agradecer-lhe os anos de sã convivência e levar da experiência tudo o que me parecesse importante.
a brincar, costumo dizer que hoje sou precária por conta própria. continuo sem saber quantos euros vou ganhar, quantos euros vou perder, e o futuro só me assusta quando me pré-ocupo com ele. aí, sim, fico cheia de dúvidas, fico cheia de medos e é um rol desmedido de 'ai isto' e de 'ai aquilo' e de 'ses'. se há uns tempos me chamavam louca, hoje há quem me chame inconsciente, sobretudo quando reparam que não me pré-ocupo com o futuro. 
ainda ontem, o pai das minhas filhas mais novas alegava o direito de se pré-ocupar com o futuro das nossas filhas. ri-me. ri-me porque me ocupo delas todos os dias. hoje, por exemplo, ocupei-me a acordá-las, dei-lhes beijos, tomámos juntas o pequeno-almoço, levei-as à escola. sim, posso ficar o resto do dia a pré-ocupar-me com elas. não sei se resulta, duvido. observo que pré-ocupar-me raramente resulta.
há uns dias, a Madalena cortou-se. ocupei-me da ferida. pus betadine. a seguir, pus-lhe um penso. tudo com muita calma, enquanto ela dizia 'ai ai ai'. a certa altura, não sei se por me ver calma, a Madalena acusou-me de não estar nada pré-ocupada com ela. ri-me e sugeri-lhe que observasse se a minha pré-ocupação a ajudava. e desatei, também eu, num 'ai ai ai' desenfreado. foi a vez de ela se rir. percebeu que ocupar-me dela era mais eficaz do que pré-ocupar-me com ela. 
sim, é sempre mais eficaz. ocuparmo-nos do que nos é dado a viver a cada momento. na pré-ocupação, o espaço para o presente fica cheio dessa futura ansiedade e os momentos consomem-se, consomem-nos, tantas vezes sem darmos por eles. e, sim, continua a haver muitos dias em que, também eu, me pré-ocupo. e por isso conheço bem a diferença: entre os dias em que estou pré-ocupada e os dias em que estou, simplesmente, ocupada. agora, por exemplo, estou ocupada a escrever este texto. podia pré-ocupar-me a pensar se alguém irá lê-lo, pré-ocupar-me com o que vou fazer a seguir, pré-ocupar-me com tantas outras coisas, sei lá.
e a culpa, ah, a culpa! dos políticos, dos ladrões, dos lobbistas, dos ricos, dos outros, pois. todos tão pré-ocupados com o que os outros fizeram, desfizeram, tiraram, roubaram e por aí fora. e 2012, meu deus!, a pré-ocupação que por aí vai e, afinal, hoje é dia 19 de outubro de 2011 e de 2012 não há nadinha, nadinha que se possa, hoje, ter a certeza de que irá existir.  ou há? se houver, por favor digam...

e e ok. pré-ocuparmo-nos com o futuro. com o corte dos subsídios, com a falência do estado, com as pensões vitalícias dos políticos, com a saúde da prima, com as negativas do filho, tudo serve, afinal, para nos pré-ocuparmos...

hoje, escolho ocupar-me com o presente. olho pela janela e vejo a figueira. calculo que não esteja minimamente pré-ocupada com as folhas que lhe irão cair, não tarda muito. eu também não estou. pré-ocupada com coisa nenhuma. e é por isso que o espaço cá dentro hoje está assim, livre e desocupado. e então já irei ver o que vou fazer, agora que estou mesmo a acabar este texto. talvez pintar...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

c de clara

- fala-me de ti
pediu ela, depois de ter chegado meia hora atrasada.
mas preferi falar delas. fazia um calor de plantar ananases, tinha estado a plantar um capsicum laranja e outro capsicum vermelho de manhã, as unhas ficaram cheias de terra, estive quase para ir assim para o almoço, com as unhas pintadas de terra e de capsicums, não me lembro de alguma vez as ter pintado nem de vermelho nem de laranja
- são gostos!
sim. há gostos para tudo. desgostos, tragédias, coisas sem importância nenhuma que, volta não volta, transformamos em dramas, contei-lhe
- são nove. 
- para quem está de fora, a conversa não faz sentido nenhum - não disse ela, mas apeteceu-me inventar.
pedimos a sopa e era de beterraba, chá frio de gengibre e limão, gosto da juba loira que não faço ideia como penteia, pois não acredito que exista um pente capaz de penetrá-la. 
- vá, conta lá.
nada. calada. muda. a mudar de conversa e assim.
- são nove...
não sei dizer - nunca soube - se é a ficção que imita a realidade ou se é a realidade que imita a fixação das ficções, mas avisei-a
- não vou escrever com as regras do novo acordo ortográfico, ok?
saladas. de chèvre para ela, grega para mim. lembrei-me - mas foi só agora - da εντροπία - a tal da grandeza termodinâmica que aparece geralmente associada ao que se denomina por 'grau de desordem' -, continuo a acreditar que é mesmo assim.
- nove?
- nove.
disse-lhe os nomes e contei-lhe as histórias. continuava um calor de plantar ananases, suávamos, apesar do limão, do gengibre, do gelo. misturavam-se todas
- as nove?
para quem ainda não as conhece, é muito normal que as baralhe. nem eu sei o que lhes reservo, se lhes reservo seja o que for ou se são elas que me levam a mim e nem sei bem para onde. sei que vai dar-me jeito a Zicca - Zicca? - agora saber italiano, porque o marido da C. também é, italiano, fotógrafo, disse-lhe
- anda atrás dos cenários de guerra mas é sempre com a paz a saltar-lhe dos olhos que volta para casa.
- estou a gostar, estou a gostar, conta mais.
contei. falei-lhe da P., que de repente mudou, deixou de ser quem eu achava que era
- coisas da sombra
expliquei-lhe. 
falei-lhe da R., tão deprimida, depois do aborto espontâneo, teve mesmo de ser. falei-lhe da V., que não é de Vitrine, mas podia ser, é a mais ausente das nove
- talvez.
talvez porque não sei. não sei de todo o que lhes acontece, há alturas em que são elas que mandam.
falei-lhe da M. e da R. da sorte de haver neste mundo uma criança que, quando uma mãe morre, ainda tem outra. falei-lhe da Dulce Rosa e ela sorriu
- Dulce Rosa. gosto do nome.
falei-lhe da F. imaginei-a a fugir para França para ir ter com a irmã que tinha emigrado há já muito tempo, escapando-se assim às sovas do A. e à gordura do Bruno Miguel. 
- estou a gostar!
e pedimos café. 
quere-o para abril, mas já lhe disse que não tenho agenda, apenas o ritmo dos dedos nas teclas, a realidade imitando a ficção, a ficção imitando a realidade, as fixações e de uma coisa tenho a certeza: que um facto é um facto e se escreve com 'c', porque caso contrário é um 'fato' e falei-lhe no F. advogado. o marido da R., vai sempre de fato e gravata para o escritório. falei-lhe no R., marido da V. falei-lhe do N., que deixou a P. com um filho no ventre sem querer saber mais coisa nenhuma a respeito de nada. falei-lhe do Z. um querido, o Z., taxista e assim
- marido da Dulce Rosa.


falei-lhe de mim, pois está claro. e das tantas histórias que, todos os dias, se atravessam na minha mente e do tanto que gosto de as ter, mais não seja para as escrever e assim cumprir o meu dom e depois acrescentei
- a de que eu gosto mais é a C.
e é mesmo.
- C. de Clara
por mais que tantas vezes escureça.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

45

diga?
quarenta e cinco.
ah, quarenta e cinco!
e a seguir pegou na chave. era um longo corredor quase sem luz, de um lado e de outro havia portas e em cada uma havia um número. 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29.
diga?
os alagarismos pareciam-lhe aranhiços, como se as portas fossem teias de madeira, punha a chave na ranhura e emaranhava-se nas voltas. uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, mas nenhuma porta abria e então era preciso dar de novo uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, agora em sentido contrário, para poder tirar a chave e experimentá-la na seguinte e repetir tantas voltas quantas fossem necessárias para achar o quarenta e cinco.
se em vez de 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29 visse escrito nove, doze, vinte e dois, cinquenta e sete, trinta e um, quarenta e seis, noventa e cinco, quinze, trinta e quatro, vinte e nove... era mais fácil?
não sabia.
a certa altura, o corredor clareava e, em vez de portas dos dois lados, passou a haver amplas janelas por onde entravam as paisagens mais remotas e mais belas. os pinhais mansos ocupavam uma delas por inteiro e espraiavam-se, indolentes, no rumor seco do verão. logo a seguir, era a chuva que caía sobre um rio plúmbeo, chumbo líquido que lhe trazia à memória o velho bruxo escanzelado que lhe comprimira as margens. fazia frio e através do vidro fosco pode entrever as mansas constelações que em tempos lhe apontara e que espantavam o inverno com o seu brilho perfeito. mais um passo e debruçava-se a saudar a lunar circunferência do amor, emoldurada pelos espelhos dos seus sonhos e reflectindo toda a esperança que sentia de cada vez que se banhava no seu colo de algodão doce. do lado oposto, o caixilho era de flores e o parapeito um extenso campo de onde colheu ervas de cheiro, frutos exóticos e várias espécies de sementes para a viagem.
quando de novo se estreitou - o corredor -, não deixando sequer espaço para haver portas ou janelas, nem de um lado nem do outro, manteve a chave no bolso e esperou quieta que surgisse a novidade. não tardou a acender-se uma minúscula clarabóia logo acima dos seus olhos e foi na sua direcção que se esticou. primeiro as mãos e o contacto estonteou-a, porque a luz tinha textura e a sentiu colada aos dedos. elevou depois o tronco e reparou como o chão se dissolvia. tirou a chave do bolso e meteu-a na ranhura do seu peito e de repente abriu-se o céu.
45.
diga?
quarenta e cinco!
repetiu, dando ordens ao seu corpo para que a acompanhasse, mas mais nada se moveu e já nem sequer fez caso.
o que é que disse?
que há-de voltar para o recolher quando acordar.
ou talvez não e repetiu:
45.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ou tono, ou tono

não foi sequer premeditado, um dia apeteceu-lhe e pronto! justificou-se e escreveu a despedir-se, ah não sei quê e a humanidade quer é espanto e não porquês e mais isto e mais aquilo e então this is the end e muito obrigada a todos.
bluff?!
não. não era bluff. não era, que tivesse consciência, nenhuma farsa, não tinha cartas na manga e nesse dia, a essa hora, em que pôs fim ao chorrilho de palavras que a esventravam, acreditou que estava a salvo. do quê? nem ela sabe. e já nem sequer lhe interessa, salvar-se seja do que for, ou condenar-se a qualquer coisa, tanto lhe faz.
apego, é. vai-se a ver e é só isso. a humana idade tornando-se familiar a cada passagem de ano, o hábito da pele a transpirar ou a tremer, a sombra condensada sobre as pálpebras, a luz que tanto a vem espreitar dos sonhos, o carácter distorcido das mentiras, a brancura da verdade, as palavras, sempre as mesmas!, combinando novas frases e iludindo as perspectivas, a aventura da matéria que apodrece ao mesmo tempo que alimenta a eternidade,
que milagre!
e afinal aqui está ela. e tanto faz a quem chamo ela. tanto faz a quem chamo eu. tanto faz quem somos nós. a humana idade dos porquês é, afinal, deliciosa!
(diz o outro e muito bem)
sobretudo porque nunca tem resposta e, quando tem, ela varia e avaria e repete a sensação que se tem perante o espanto, afinal sempre é verdade, que queremos espanto, muito mais do que porquês. ou porque sim, ou porque não, vai dar ao mesmo.
ou talvez não.
e o que constato é que, vista daqui, ela se ri às gargalhadas. não faço a menor ideia se é de espanto, felicidade, masoquismo, insensatez, esquizofrenia, não me interessa. por mais que a queira controlar, nunca consigo. por mais que a cale, ela não cede e tem voz própria e faz o que lhe dá na gana. não sei se é original ou se uma cópia do que seja e, de novo, não me interessa e a ela também não. nada lhe pesa, ela é apenas a que sopra e é difícil traduzir quando é vento o que se sente aqui por dentro.
bluff?
pode ser...
o mais provável, no entanto, é ser o vento do outono a aproximar-se de repente.




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

'abri a arca sem saber'

leu, nessa altura, míope com o tamanhinho das letras, as pupilas dilatadas pela grandeza do talento. e então soube que não ia mais voltar aqui e que assim como guardou, durante anos e anos, 'viagens, homens, retrocessos', assim irá ficar guardado aquilo que não é mais secreto. já todos sabem, repeti-lo é cansativo. ser a pessoa singular da sua história é cansativo. tanto faz se usa o tempo no presente ou se o conjuga no passado, não há futuro mais que perfeito a não ser que não exista e então é isso mesmo: 
a descoberta.
a despedida. 
diz-se adeus e não tem pena. o que está naquele baú é igual ao que flutua por aqui, virtualmente. e alguém abre sem saber, abre sem crer, e lê aquilo que quiser ler. 'viagens, homens, retrocessos.' não tem mais nada para dizer sobre si própria e a partir daqui é livre para escrever sem o 'eu' que, tantas vezes, a atrapalha. 
a gosto, acabam-se os porquês. a humanidade quer é espanto e não respostas. e em setembro - a haver setembro - comemora aquilo que já sabe que gosta, aquilo que gosta de fazer, e agradece.
a ela, 'as coisas em que se pensa sempre' e os 'livros interditos'.
a ele, o perdão que lhe pediu sem arrogância e as férias grandes.

and this is...


domingo, 21 de agosto de 2011

passo a passo

eis que se acerta o movimento de tentar mais uma vez entrar cá dentro e mudar de sítio as coisas que aqui estão há tanto tempo. a infância cristaliza a tal ponto as emoções que ao lá voltarmos, já crescidos, e como quem vai de visita, não queremos reconhecer-nos, muito menos abraçar-nos, não vá tudo o que deixámos lá para trás trazer de volta o que sentimos nessa altura, na maior parte das vezes sem que houvesse explicações. 

eu, por exemplo, sempre que volto aos pinhais e que me sinto cansada, opto por sentar-me um pouco e nem me passa pela cabeça ir pedir colo ao meu pai. pedi tanto, e tantas vezes, e de todas ouvi tanto 'tem perninhas é para andar', que me fui fazendo à estrada com a imagem do meu pai sem colo para mim. e nem o facto de hoje saber que isso é mentira - tenho uma lista que o prova, feita há menos de uma hora - me liberta, por enquanto, do desejo inconsciente da menina pequenina, que gosta de pedir colo aos homens da sua vida.

voltamos sempre à mesma história, a mais antiga deste mundo, por que razão haveria a minha infância de ser a excepção à regra? voltamos ao que sentimos, na maior parte das vezes sem que houvesse explicações, emoções que ninguém nos ajudava a desmontar e que no meu caso diziam: quando o meu pai me dá colo é porque gosta de mim, quando não dá é porque afinal não gosta. 

hoje, já sou capaz de desmontar que, quando o meu pai me dizia 'tem perninhas é para andar' estava provavelmente a dar-me, da melhor forma que sabia, ferramentas para eu tomar as rédeas da minha vida, mas a pobre coitadinha, pequenina e tão cansada, imaginava e construía um pai ingrato, que nunca lhe dava o colo que ela achava que merecia. e então tornou-se forte à força, para provar a esse pai que vai andar até cair, mas com a coitadinha à perna, pois está claro, a envenenar-lhe os passos, de cada vez que lhe dizia, e tantas vezes ainda diz
imagina, tão cansada e ninguém te pega ao colo, mas que injustiça!

depois de chorar as feridas, só dá vontade de rir! mas, para isso, há que ir revisitá-las quando ardiam e sangravam. entrar cá dentro e mudar de sítio as coisas que aqui estão há tanto tempo. há tanto tempo que aqui tenho um pai ingrato, tantos anos de cansaço a esforçar as minhas pernas, tanto colo para me oferecer - e ainda a sobrar para mais - e mesmo forte!, quando a pouco e pouco abraço as minhas fragilidades.

sábado, 20 de agosto de 2011

quando as mães boas fazem coisas... boas

o que já me atazanei de culpas e remorsos por ser uma má mãe dava mais prosa do que toda a que aqui escrevi ultimamente! há dezassete anos e uns meses - idade da minha filha mais velha - que esmiuço as falhas e os pecados da minha maternidade. ora é porque não lhes ligo o que devia, ora porque me excedo e lhes dou umas palmadas, ora porque faço deles uns mariquinhas-pé-de-salsa, quando lhes apaparico mil caprichos e cedo às suas vontades, ou porque digo coisas que não lembram ao diabo e os insulto... e então acaba tudo por ir dar à sensação de que cada um dos quatro só tem um quarto de mãe, do tanto que me divido a querer chegar sempre para tudo.

na mesma proporção ou mais, já que dura há quarenta e quatro anos, atazanei-me com queixinhas e queixumes e com traumas e angústias e um dedo apontado à minha mãe: 'a culpa é sua!'
e então ia escrever, como título deste texto, 'quando as mães boas fazem coisas más' - num plágio descarado do título do livro da Debbie Ford.

foi então que dei por mim a gozar de um sossego como nunca tive igual. há quase um mês que estou sem nenhum dos quatro em casa, há quase um mês que não os oiço a chamar 'mããããeeeee' e a parecer que me arrancam as goelas para responder no mesmo tom, há quase um mês que não me divido em quatro a tentar chegar a tudo, há quase um mês que não lhes ligo, não me excedo, não lhes bato, não lhes digo aquelas coisas que não lembram ao diabo e, em vez da mãe mariquinhas-pé-de-salsa que, para mostrar que é boa mãe, agora iria dizer
  há quase um mês que não os vejo!, ai, estou cheiinha de saudades
realizo como sou boa, mesmo boa, por me ter dado este espaço, por me der dado este tempo, por me ter dado esta paz, este descanso, este sossego.

como fui mesmo, mesmo boa mãe, quando pedi aos avós que tomassem conta deles para eu ir fazer a Escola. como fui mesmo, mesmo boa mãe, quando confiei que a Francisca ia gostar de ter a casa de Lisboa só para ela e a deixei responsável por si própria. como fui mesmo, mesmo boa mãe, quando organizei as coisas para o Lucas ir passar quinze dias à Comporta com o padrinho - que vê pouco, mas que adora - e como nem sequer lhe disse nada, quando chegou e, uma hora depois e em vez de cá ficar, como estava combinado, improvisou uma ida para casa de um amigo no Algarve. como fui mesmo, mesmo boa mãe, com as duas mais pequenas a passear por Inglaterra com o pai duas semanas e nem sequer lhes telefonei com as 'melguices' do costume - se estavam boas, se andavam a comer bem, a dormir bem, a gostar e por aí fora, nem sequer com a desculpa 'era só para ouvir a vossa voz'.

mesmo, mesmo boa mãe. quando a Francisca me ligou ainda há pouco a dizer que não sabe se tem dinheiro para voltar do Minho de camioneta e, caso não tenha, se eu posso ver se não dá para lhe comprar o bilhete pela net e já vou ver. mesmo, mesmo boa mãe, agora mesmo, vendo a mensagem do Lucas a dizer que já chegou a Lisboa e se não posso ir buscá-lo, porque está sem dinheiro para o autocarro e já hei-de ir, assim que acabar o texto. mesmo, mesmo boa mãe, quando ontem a Luísa e a Madalena me fizeram a supresa de aparecer aqui em casa, acabadas de chegar do aeroporto, e me vieram convidar para jantar com elas e com o pai - para casa de quem voltaram a seguir, porque o que está combinado é que, para aqui, só vão voltar na quarta-feira.

mesmo boa, a mãe inteira, em vez da esfrangalhada em quatro e tão má para ela própria.
 

Porto Santo, Agosto 2006






agora que até já sei umas coisas, anda cá que eu ensino-te

a tentação é enorme! enorme, e falo só por mim. quantas vezes, ultimamente, não dei já por mim a querer meter-me nos negócios dos outros, dando-lhes dicas para que desmontem a sua sombra? posso até justificar-me, arranjar mil desculpas do tipo 'não é normal que queira ajudar?', ou 'foi uma coisa importante para mim e só estou a querer que seja importante para os outros'.
e, então, se preciso de me justificar, é porque estou a contar uma história. e essa história é assim: 'eu sei o que é melhor para ti.'

afasto a tentação da boa aluna tão boa que até já quer ser professora e foco-me apenas em mim. e descubro que ninguém me ensinou coisa nenhuma, fui eu que aprendi - e que continuo a aprender, ao meu ritmo e à minha medida. 
e então foi assim: um dia, cheguei ao Emídio através do Henrique. simplesmente, porque ele partilhou um texto da Sombra Humana no seu mural e eu li - mas ele nunca me disse 'olha, lê isto, porque é mesmo bom!' - embora o pudesse ter dito, mas esse negócio é dele :) ele próprio - calculo - tinha encontrado esse texto noutro mural e levou-o consigo. calculo que só porque sim. e não porque alguém lhe tivesse dito 'olha, lê isto, porque é mesmo bom!' - mas nem isso sei...

sei, isso sim, que aquele texto bateu-me! 'apanhei-o', sem que ninguém mo tivesse impingido, e foi a ponta de um fio de uma meada que não mais larguei. alguém me ensinou como se desenrolava a meada? não, fui eu que aprendi. ou que fui aprendendo, que vou aprendendo, porque é uma meada para o resto da vida - que privilégio :)
desse texto saltei para os outros, disponíveis no blog. lembro-me de ter ficado a lê-los pela noite dentro e, na manhã seguinte, mandei um e-mail ao Emídio. não o conhecia de parte nenhuma, ninguém me ensinou como podia entrar em contacto com ele, o e-mail estava ali, nos contactos, escrevi-lhe porque me apeteceu.

depois ficámos amigos no FB. ainda que só virtualmente, acompanhava-o. lia o que escrevia e havia dias, confesso, em que ele me irritava! aquele 'delicioso!' chegava a ser uma afronta, sobretudo nos dias em que eu me sentia frustrada, irritada, zangada. havia mesmo alguns dias em que pensava: 'mas como é que este gajo está sempre tão bem disposto?' havia outros em que nem sequer era 'gajo', era mesmo 'cabrão', e nesses dias eu estava mesmo, mesmo zangada... comigo.
mas, lá no fundo, era isso que eu queria aprender: a delícia de estar em paz com a vida, fossem quais fossem as circunstâncias, os desafios, as pessoas que se relacionavam comigo. mas nunca o Emídio veio até mim para me dizer: 'anda, anda que eu vou ensinar-te.' pelo contrário, sempre me disse 'a mim tanto me faz que venhas ou não.'
também nunca o 'impingi' a quem quer que seja, embora pusesse os seus textos no meu mural, acreditando que, assim como eu, quem quisesse ler mais, saber mais, aprender, iria atrás dele como eu tinha ido.

conheci-o algum tempo depois, numa conversa que lhe pedi para um livro que estava a escrever. hoje, dou-me conta de que talvez tenha usado esse artíficio para o conhecer, a cores e ao vivo, antes de me meter a fazer mais coisas com ele, mas não tenho a certeza. 
não sei quantos meses já se tinham passado - de muitas leituras, escritas, perguntas, voltas e reviravoltas, desabafos como os que já revelei - quando enfim fiz o primeiro workshop com ele. uma tarde que me soube a pouco - mas onde ouvi falar do livro da Debbie Ford. mais uma vez, ninguém me ensinou que devia ir comprá-lo, nem me foi impingido. fui porque sim. fui porque quis. e aprendi mais qualquer coisa, enquanto o lia. depois disso, fiz um workshop de um fim de semana. e, a seguir, a semana na Escola

note-se que nada disto é publicidade ao Emídio, porque ele não precisa de publicidade para nada. é apenas mais um exercício - comigo e para mim. se hoje já me desmonto com algum à vontade, se já sei ver que é sempre de mim que se trata, se pego na coitadinha de mim e a abraço e lhe digo 'olha lá, minha parva, que tal fazeres uma lista do que esse queixume ou essa mágoa significam para ti?', se até já sou capaz de dizer 'que delícia' quando me furam um pneu do carro e sentir que a paz me atravessa... é só graças a mim. fui eu quem se disponibilizou para aprender. e, não, não tenho nada para ensinar a ninguém e até os textos que escrevo são, antes de mais, pelo gosto que tenho em escrevê-los. 
quanto ao resto, vou estar mais atenta, porque a tentação de me armar em boa aluna tão boa que até já quer ser professora é enorme!
e se por acaso alguém me vier perguntar o que é isso da sombra e estiver interessado em descobrir-se... não chega falar-lhes de mim e do que tenho aprendido. se é assim tão delicioso e tão fácil como aquilo que apregoo, há que dar o exemplo e continuar a aprender. todos os dias um pouco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

era uma vez uma coitadinha muito infeliz e assim

há dias em que a coitadinha assume o protagonismo e pede-me espaço para carpir as mágoas. ombros caídos, olhar cabisbaixo, um aperto no peito como se o mundo estivesse a esmagá-lo, e uma data de maus à espreita na esquina, prontinhos para lhe darem cabo do pêlo e lhe infernizarem a vida. é claro que a mais má de todas sou eu, sempre que a deixo acreditar que é uma vítima. aliás, não só deixo, como confirmo
pois é, coitadinha de ti
e ponho-lhe ainda mais peso nos ombros caídos, olho-a ainda mais cabisbaixa e cheiinha de pena
ai, ai coitadinha
esmago-lhe o peito até que sufoque de mágoa, acrescento uns gemidos ao pranto
ai ai ai
e alivio-lhe a responsabilidade de tomar conta de si, ao mesmo tempo que afago o pêlo de que todos os maus lhe querem dar cabo, quando lhe digo ao ouvido
nesse estado, coitada, ninguém é capaz de tomar conta de nada
alivio-me da incompetência de também não saber tomar conta de nada e lá ficamos as duas 
coitadas!
ombros caídos, olhar cabisbaixo, o peito apertado pelas conspirações dos maus e do mundo em geral.
ai tantas mágoas
diz ela.
ai tantas dores
gemo eu. 
depois aquilo passa, quando enfim sou capaz de a mandar dar uma volta, quando a afasto de mim como se fosse uma estranha doente que só me atrapalha, uma infeliz de uma egoísta de merda a querer contaminar-me com os seus ais.
até hoje, não resultou e há sempre um dia em que ela volta
ai, coitadinha
ombros caídos, olhar cabisbaixo, um aperto no peito como se o mundo estivesse a esmagá-lo, e uma data de maus à espreita na esquina, prontinhos para lhe darem cabo do pêlo e lhe infernizarem a vida. talvez por isso, ultimamente tenho tentado outra técnica. assim que pressinto que os ombros se encolhem e que os olhos procuram o chão, tomo-a no colo e embalo-a, apenas o tempo suficiente para que não adormeça e acorde. 
olha lá, minha parva
e digo parva com condescendência, às vezes até com carinho, e prossigo sem fazer caso dos olhos a ficarem húmidos
olha lá, minha parva, és capaz de me fazer uma lista das mágoas por escrito, em vez de começares a carpi-las só porque hoje acordaste virada para aí?
e ela começa
ninguém gosta de mim...
abraço-a e faço-lhe festas
isso é mentira, eu gosto de ti
o mundo é perigoso
e aponto-lhe a paz do meu colo
os outros são maus
e mostro-lhe como os maus são bons a ponto de lhe mostrarem onde é má para si própria e ela funga, a pedir compaixão, eu percebo, sai-lhe um suspiro muito grande, cai-lhe uma lágrima, sabe que se suspirar e se fungar e se chorar e se insistir, eu acabarei por ceder, não tarda e estarei a dizer-lhe outra vez
ai coitadinha
e então desenrola outra lista, a lista do 'devia ser'
eu devia ser mais capaz, mais feliz, mais inteligente, mais gira, mais competente, mais corajosa, mais forte, mais limpa...
desato-me a rir. e mostro-lhe, como a uma criança pequena qua parece ainda não ter consciência dos paradoxos do mundo, onde sou tão capaz de lhe dar colo e de a abraçar com verdadeira ternura e sem a julgar. onde sou tão feliz por a ter sempre por perto. onde sou inteligente a ponto de ter percebido, com mais lucidez nestes últimos tempos, que era urgente mudar de técnica. onde sou gira - gosto dos olhos, da boca, do riso, do rabo, dos braços, do ar de miúda. onde sou competente e tenho a coragem de nos trabalhar, a mim e a ela, para que cada vez possamos sentir-nos menos distantes uma da outra, para sermos só uma e completa. mostro-lhe onde sou forte e levanto-me, ainda com ela ao colo, sustenho o seu peso nos braços, e limpo-lhe as lágrimas.
quando vieres outra vez com a história da coitadinha para cima de mim
digo-lhe, a rir,
é provável que ainda acredite que tens alguma razão.
e ela ri-se também, possivelmente porque sentiu que, afinal, continua a ter chances de me enrolar
mas já nem sequer é ao meu colo que a tenho, mas aqui dentro, aqui dentro do peito que não está esmagado por mundo nenhum que me seja exterior, e é lá para dentro que falo, quando lhe digo, quando me digo,
a história do era uma vez uma coitadinha muito infeliz e assim é mesmo só isso: uma história. provavelmente, a mais velha história do mundo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

onde é que (ainda) me esvazio?

saí de manhã para ir ao aki comprar tinta. estacionei quase à porta e entrei. provavelmente com mais olhos que barriga, resolvi trazer um balde de 20 litros. pesava. imenso!
arrastei-o mais ou menos até à caixa, ao mesmo tempo que puxava um carrinho com meia dúzia de outras coisas. na caixa, avisei a senhora que não conseguia pôr o balde lá em cima e ela disse
não faz mal
e passou aquela coisa que lê o código de barras com o balde da tinta no chão.
paguei e percebi que não ia conseguir levar o balde e o saco, com a meia dúzia de outras coisas lá dentro, ao mesmo tempo para o carro. a senhora, então, perguntou a um colega simpático, ali mesmo ao lado, se não me queria ajudar. era mesmo simpático, o colega, porque disse logo que sim e agarrou-me no balde e lá fomos os dois, ele com o balde e eu com o saco e o carro ali quase à porta, que sorte, apontei-o
é aquele ali, está a ver?
ainda não estávamos lá e já o colega simpático me apontava um dos pneus 
olhe, tem um furo!
confirmei. um dos pneus de trás estava completamente vazio e faltava-lhe o pipo. tinha-me demorado quinze minutos nas compras, era completamente impossível aquilo ser um furo e pensei
houve um cabrão filho da puta que me esvaziou o pneu, olha que engraçadinho!
mas como até ando mais acordada do que era costume, parei o insulto e pensei
ok. houve um querido a querer mostrar-te onde é que te esvazias. 
entretanto, o colega simpático provou-me que também era prestável e foi lá para dentro, a ver se me arranjava uma bomba, apesar de estar convencido que aquilo era um furo, simplesmente, e não uma maldade. voltou pouco depois com outro colega prestável, simpático, e com a tal bomba. provou-se que era mesmo um delito quando o colega, o segundo, reparou que alguém tinha usado uma chave para desenroscar a válvula, o que fazia com que o ar que entrava saísse logo a seguir.
traz-me uma chavinha de fendas
pediu o segundo colega ao primeiro. e lá foi o primeiro e trouxe a chavinha de fendas com que o segundo tentou atarrachar a válvula, mas não conseguiu.
isto fizeram-lhe aqui um bonito serviço
disse já não me lembro qual dos colegas. e eu já com uma lista bem grande do bonito serviço na minha cabeça.
- esvazio-me quando não dou valor ao que faço.
- esvazio-me quando me sinto uma merda.
- esvazio-me quando não acredito que estou sempre cheia.
- tiro-me o ar quando fumo cigarro atrás de cigarro...
a senhora vai fazer o seguinte
interrompeu-me então o segundo colega
eu vou encher-lhe isto o máximo que conseguir e pôr o pipo ali do outro pneu e a senhora vai daqui directa à norauto e pede para eles lhe apertarem isto com uma chavinha que eles têm e que é mesmo própria para isto. 
e depois, virando-se para o primeiro colega, pediu
e agora dás tu à bomba, que eu tenho serviço à espera.
e ali ficámos, eu e o primeiro colega, eu em silêncio e ele dando à bomba e desfiando o seu rol de críticas.
não há direito, isto está mesmo mal, esta gente não tem o que fazer, qualquer dia estamos piores do que o Brasil, anda para aí uma malta, ai anda, anda, isto é que é uma vida... mas o que é que lhes passou para cabeça para lhe virem aqui esvaziar um pneu? qual era a ideia?
sorri e perguntei-lhe
está-lhe a saber bem ser-me útil? está a gostar de poder ajudar-me?
respondeu-me que sim - era mesmo simpático.
então talvez fosse essa a ideia. fazerem-me uma maldade para o senhor me poder fazer uma bondade
e escusei-me a explicar-lhe que, para além disso, eu já tinha uma lista de 'esvaziamentos'.
o colega sorriu-me de volta
pois, só se foi isso.
disse-lhe adeus, agradeci-lhe e segui para a norauto, ali mesmo ao lado. outro senhor muito simpático usou logo a tal chavinha de que o segundo colega me tinha falado, atarrachou-me a válvula num instantinho e sugeriu-me que fosse ali à bomba do Jumbo, encher mais o pneu e ver a pressão. agradeci-lhe e já estava dentro do carro, quando de novo saí para lhe perguntar se sabia onde podia encontrar um pipo para a válvula daquele pneu. prestável, simpático, o senhor da norauto enfiou a mão numa lata e estendeu-me uma mão cheia de pipos.
e foi aí que tudo bateu!... há doze anos, 'roubaram-me' o Pyppo - para quem ainda não sabe, o Pyppo era o pai dos meus filhos mais velhos, atropelado à minha frente por um camião destravado. esvaziei-me com essa morte até às entranhas. é muito possível que ainda hoje me esvazie, que ainda acredite que a sua morte me deixou um vazio. e então ali estava o senhor da norauto com uma mão cheia de pipos estendida para mim. 

é como diz o 'outro', não é?... d e l i c i o s o ! !

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

sabes quem é a pessoa que gosta mais de ti no mundo inteiro?

perguntei ontem ao K.
a mãe!
respondeu ele, sem uma única hesitação. 
ri-me e abanei a cabeça,
errado!
o pai?
perguntou-me ele, e de novo abanei a cabeça
errado...
esgotadas as duas possibilidades mais fortes, o K. ficou em silêncio, provavelmente pensando quem, para além do pai e da mãe, poderia gostar assim tanto dele. esperei que descobrisse a resposta, sem dizer nada, ao mesmo tempo que o imaginava a esgotar todas as outras possibilidades dentro da sua cabeça. ao fim de algum tempo, um pouco inseguro, o K. perguntou-me
sou eu?
já tinha feito este exercício com as minhas filhas mais novas e as duas me tinham dado as mesmas respostas
o pai e a mãe.
há uns tempos atrás, talvez lhes tivesse dito que estavam certíssimas - e a seguir enchia-as de beijos, para que não pudesse restar uma única dúvida. aliás, se quiser ser verdadeira, perco a conta às vezes que já disse a cada um dos meus quatro filhos, 
és a pessoa de quem gosto mais no mundo inteiro!
e só isso é a prova de que lhes estava a mentir, a não ser que quatro pessoas diferentes possam ser a mesma pessoa de quem gosto mais no mundo inteiro.
se, por outro lado, disser à minha mãe que descobri que as pessoas de quem gosto mais no mundo inteiro, afinal, não são os meus filhos, tenho a certeza de que me irá criticar
és uma ingrata!
e desenrolar um breve discurso sobre a qualidade das mães que se dedicam aos filhos, que vivem por eles e para eles e, na maioria das vezes, com sacrifícios, e as outras, assim mais tipo eu, que vendo bem até sempre fui um bocado desaparafusada e que com o tempo me tenho vindo a tornar numa grande egoísta. e depois os meus filhos
coitados!
diz ela, e suspira
andam aí ao deus dará!
pois eu gostava que a minha mãe, quando eu era pequena, me tivesse explicado que a pessoa que mais gostava de mim no mundo inteiro só podia ser eu. por mais que também ela gostasse, claro!, e o meu pai, e a minha avó, e o meu avô, e as minhas tias e por aí fora. mas nunca é assim e não posso dizer que a minha infância tenha sido a excepção. e então é assim que todos crescemos, com esta crença danada que nos jura a pés juntos que, para estarmos vivos e de saúde, não nos pode faltar o amor dos outros. e se houver alguém que nos queira amar mais do que si próprio, está montado o cenário de dependência para todos os filmes futuros.
habituados a ter alguém que goste, acima de tudo, de nós, vamos esforçar-nos o mais possível por lhe agradar e fazer o que seja preciso para lhe chamar a atenção. o objectivo é que goste de nós, que nos valide, nos apaparique e nos faça sentir importantes, nem que para isso passemos a vida inteira a fingir não ser o que somos: perfeitamente imperfeitos.

e lembro-me daquele anúncio, não sei se de um leite ou de um iogurte, em que uma loira meia despida - estão sempre meias despidas, as loiras que fazem anúncios - olhava para a câmara e perguntava
se eu não gostar de mim, quem gostará?
e é isso então que quero mostrar aos meus filhos: o egoísmo de amar-me mais a mim do que a eles, de ser a pessoa que mais gosta de mim no mundo inteiro. e desejo do fundo da alma que sejam tão egoístas, tão egoístas que sintam o mesmo em relação a eles próprios.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

a velha gorda

faz-me ver onde sou gorda e faz-me ver onde sou velha. sou velha quando me agarro aos padrões do passado, quando repito, repito, repito e me engasgo, quando não me abro ao que é novo, quando me aforro às poupanças e me contenho nos gastos, quando me enrugo, desgasto e me desato em moralidades, quando digo 'ah, no meu tempo não era assim' ou 'já ninguém tem mais respeito por nada', quando me pesam os anos e então também é aí que sou gorda. no peso excessivo que ainda dou à opinião de terceiros, nos pensamentos a escorrer celulite, na gula mental com que me enfarto a dizer mal dos outros, na obesidade das opiniões.

a invejosa de merda que tem a mania que é boa mostra-me o que quero ter e não tenho, a merda que faço, a mania de que sou melhor do que os outros. quero ter e não tenho sossego, invejo o alheio quando não sei valorizar o que sou, quando afinal me sinto pior do que os outros e a mania é só mais uma máscara, mais uma capa de merda para tentar provar que sou boa. sou boa, mas não tão boa, é precisamente aqui que sou má, que sou uma merda, quando me abandono e deixo a tarefa de ser amada para os outros, não admira depois que os inveje, quando me amam mais do que eu própria, as manias são sempre uma prova de como nos agarramos a pensamentos que não são nossos. e volto a ser gorda de cada vez que me empanturro até à náusea com eles.

a mulherzinha que não tem onde cair morta revela-me a mesquinhez das inhas todas que sou, diminutiva em tantos aspectos, mazinha, intriguistazinha, picuinhas, parvinha. caio morta de todas as vezes que a vida me acolhe e a recuso, mortifico-me com dores invisíveis, morro até quando respiro e tomo a benção por esforço, ponho-me a arfar como se o ar não fosse de borla, entupo de fumo os pulmões, mato-me à espera que me ressuscitem, mas nunca resulta.

o cabrão do filho da puta que nos anda a roubar nos impostos é seguramente o mesmo cabrão filho da puta que rouba a verdade, sempre que conta uma história pela metade que mais lhe convém, somos sempre nós próprios, gamando aqui e ali tudo o que não nos pertence, tomando posse dos outros, fazendo da propriedade um direito. roubamo-nos sempre que não mostramos tudo o que somos, subtraímos defeitos para que os outros nos considerem pessoas boas e são tantas as condições que lhes impomos! 'tens de ser isto e aquilo', 'não sejas assim', 'se ao menos fosses mais compreensivo', 'já te disse para não seres tão bruto comigo'. cobramos. 'se não fizeres o que te peço já não gosto de ti'. impostores! todos nós. quando desabafamos em público contra o sistema, e depois o cumprimos, em silenciosa obediência, e nos roubamos a liberdade de agir como seria mais justo.

a boa rapariga. tira a máscara da linda e põe a da amorosa. tira a da amorosa e põe a da linda. tira a da linda e põe a da bem comportada. tira a da bem comportada e põe a da lúcida. tira a da lúcida e põe a da boa aluna. tira a da boa aluna e descobre que se sufoca com elas, com tantas camadas de máscaras, de capas, que maquilha os comportamentos, põe batôn nas palavras, blush nas poses, cora a palidez com uma base compacta para que não se notem as imperfeições e até nisso é fingida, na dissimulação das cicatrizes na cara, não se importa assim tanto que lhe descubram as crostas, mas nem sempre se atreve a arrancá-las para que purguem de vez velhas feridas. 

sombra. como se fosse um refúgio fresco e seguro debaixo da copa das árvores.
não é. 
torra-nos mais do que o sol, queima-nos mais do que a luz e faz-nos arder lentamente na sua penumbra de amor por quem somos.
é bom.

ah!

não era um suspiro, embora parecesse.
tanta coisa que parece e não é
disse alguém.
e viraram-se todos para ver quem era, mas afinal não era ninguém, porque andam sem dono os ahs deste mundo, parecem suspiros e nem sempre o são, talvez sejam apenas maneiras de expelirmos o ar fazendo barulho, pode até ser um ah! de satisfação, pode ser ah! de espanto, pode ser uma simples vogal seguida da consoante do homem e de um ponto de exclamação. ah!, então está bem e nesse caso é um ah de concórdia, mesmo que em desacordo com a harmonia das coisas, pode ser um pretexto para dar rumo à prosa, pode ser um ralhete da mãe, um ah com que então!, pode ser o prazer do orgasmo e nesse caso prolonga-se pelo corpo adentro
aaaaahhhh...
ah. troca-se a ordem, põe-se um acento e então há. há tantas coisas em que já não acredito, há tanto tempo que já não te vejo, há sempre diferentes pontos de vista para tudo, não há nada que se possa dizer
isto é verdade, acredita.
ah ah ah e são gargalhadas. borboletas à solta. estridências felizes. ou apenas o eco que devolve os suspiros a quem está perdido numa montanha. ah pois há, tanta gente perdida, tanto eco chamando a nossa atenção para o que não queremos ouvir, montanhas de coisas que não queremos ver como são, planícies de paz ao alcance de todos, ah!, que maravilha, ah!, que lindo, ah! que desperdício, gastarmo-nos tanto em suspiros, em lamentações, em caprichos, tantos ahs com que expelimos a dor, tantos sopros à solta no mundo, há quem diga que são os sopros dos anjos e quem não acredite que um simples par de asas chegue para tanto. ah, tanto me faz, dizem os cépticos, eles que voem para aí. ah ah ah. o riso de novo, a provocação, o alento, a onomatopeia afigurando-se um termo, pôr termo à vida com um ah de abandono, saudá-la com um ah e um ar de surpresa, tantos ahs à solta no mundo, as mesmas letras para sentimentos distintos, ah de tristeza, ah de certeza, há mesmo muitas cadências, compassos de espera, entoações
ah!...
diz alguém
então está tudo bem.
e está mesmo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

a polpa dos dedos ardia-lhe

não de escrever, mas de intuir que das mãos saem gestos que não controlamos. e, no entanto, achamos que sim. que controlamos os dedos, as mãos, as pernas, o corpo e que o que acontece obedece à razão. duas horas de sono, cinco horas de insónia, a polpa dos dedos peganhenta dos figos que lhe mataram a fome ainda há pouco, a roseira enfim descansando da aurora dos pássaros, não tarda o relento virá pousar sobre a relva, as buganvílias recolhem-se, a lua mingua no céu e dentro dela cresce a certeza de que não controla coisa nenhuma, afinal. tem as pálpebras secas, mesmo que os olhos lhe brilhem onde o sal se condensa, de novo vêm à tona as pedras, os lagos, as estrelas que os sonhos dos homens querem pôr a secar longe do mar, os caranguejos, os polvos, as conchas que pôs num frasco de vidro e que beijam os búzios quando se sentem em paz.
arde-lhe um fogo manso no peito, uma cor de poente, um lastro de sangue e nem sequer sabe dizer como é que as polpas dos dedos alcançam as teclas e escreve o que escreve. não sabe. mas sabe, isso sabe, que o sol amanhã vai nascer sem precisar que lhe peça, sabe que o mundo gira e avança como uma nave redonda envolvida por espaço, que o tempo se inventa como desculpa para já ser tão tarde ou ainda ser cedo e nunca é tarde nem cedo, mas a hora certa para tudo, a cada momento. sabe, isso sabe, que a relva lhe deixa marcas frescas nos pés quando a pisa, sobretudo depois de regada, sabe que a sede se mata se nunca esperar que lhe ofereçam água e a for colher directamente dos poços. sim, abrem-se poços de cada vez que mergulha nos lagos, os mesmos das estrelas, dos caranguejos, dos polvos, abre-se um sulco nas ondas quando se põe a escrever sobre o mar, não pode sequer dizer que navega, mas que é navegada, que há algo mais forte que a leva através das correntes da água, que agosto é o mês em que as férias lhe parecem maiores porque, em pequena, tudo era tão grande.
arde-lhe o brilho dos fósforos quando acende um cigarro e o segura nos dedos ao mesmo tempo que escreve. o vento lá fora passa a lembrá-la do espanto que é ver as folhas moverem-se sem pensarem sequer por que é que se movem, a vida só passa a correr quando não damos por ela, quando fora de nós nos demoramos nos outros, quando ansiamos por voltar a casa e nem reparamos que temos a chave da porta no bolso. a vida acontece sem nos pedir nada em troca, a não ser para a vivermos como ela nos mostra: perfeita e constante no seu movimento de se bastar a si mesma e é só. e é tanto!
e é tudo: por hoje.