terça-feira, 25 de outubro de 2011

explicações metafísicas & outras considerações mais ou menos assim


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foi hoje, enquanto nadava. a água tem esta maravilhosa particularidade de me aligeirar o corpo e a alma e só a mente, obstinada e teimosa, vai resistindo à liquidez do convite, mantendo-se à tona e fazendo-me crer que é à superfície que sei respirar. lembrei-me da frase da Frida Khalo que a Zicca postou há dias no FB - 'intenté ahogar mis dolores, pero elles aprendieron a nadar'. lembrei-me da frase que diz 'aquilo a que resistes persiste' e compreendo que as feridas da Frida só podiam mesmo ter aprendido a nadar, ninguém gosta de ser forçado a afogar-se e as dores, provavelmente, menos ainda. 

hoje, na piscina, e para dizer a verdade - se é que alguma vez se diz a verdade - eu não tinha dores nem queria afogar coisa nenhuma e deixei a alma boiar, deixei o corpo avançar deitado de bruços, deixei a mente onde gosta de estar, à superfície, envolta nos seus labirintos sinápticos e assim se passaram vinte minutos ou mais. a seguir, enfiei-me no borbulhar do jacuzzi, pouco depois fui pôr-me a suar dentro da casinha da sauna e foi aí que começaram as vir as explicações metafísicas que tenho a mania de querer encontrar para tudo o que se passa no mundo, sobretudo o mundo que ponho a girar no umbigo. 

o que é que uma coisa tem a ver com a outra, perguntam vocês, ou não perguntam, não sei, e aí é que está o umbigo: provavelmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. mas tantas vezes me esforço para que tenha e é a isso que chamo de 'explicações metafísicas'. por exemplo, imaginem que é suposto eu chegar a um encontro às 10h30, mas que me atraso, ou que me adianto, e que no atraso ou adiantamento me acontece outra coisa qualquer, do tipo encontrar uma nota de 100€ no chão, tropeçar e cair e partir uma perna, dar de caras com alguém que não vejo há que tempos. seja o que for, é só o que é, mas lá vem sempre a explicação metafísica do 'se foi assim só pode ter sido porque isto ou aquilo' ou 'ah, isto foi um sinal para eu perceber que quando me atraso parto uma perna', ou 'se me adiantar de todas as vezes que marco um encontro talvez encontre sempre 100€'
ok. provavelmente, não me estou a explicar muito bem. e observo que é maravilhoso não me estar a explicar muito bem. normalmente, esforço-me por me explicar muito bem. tudo tintim por tintim, sobretudo a escrever, parece que estou a tecer uma teia e ai do fio que fique fora do sítio, não vá a teia deixar de parecer uma teia, mas um emaranhado confuso de fios... e não sei mais o quê.

é. hoje fui nadar. e as considerações mais ou menos assim sobre nadar podiam ser infinitas. as explicações metafísicas sobre o posicionamento dos astros ao longo do dia de hoje e do de amanhã, como acabei de ler ainda há pouco, também no FB, indicam - consta - que são dias bons para 'fechamento do ciclo nos relacionamentos' e para a 'percepção do que deve ser deixado, em definitivo, para trás.'
'em definitivo', neste momento, é algo que não sei conceber. a não ser que, de facto, já tenha passado. a piscina, o jacuzzi e a sauna desta manhã, por exemplo, ficaram em definitivo para trás. assim como o copo de leite e a torrada que comi ao pequeno-almoço. a viagem até às escolas que fiz de manhã com as crianças.
baralhados? não faz mal nenhum! hoje a teia poderá ser confusa para quem está de fora e a vê já tecida. para mim, que estou aqui a tecê-la, a descoberta é que as explicações metafísicas apenas complicam a simplicidade da vida. as considerações mais ou menos assim, que a mente adora e que nunca se cansa de elaborar, são só isso mesmo: mais ou menos assim. 'ah, se me aconteceu isto foi porque a vida me queria dar um sinal' ou 'vou aproveitar a lua minguante para deixar definitivamente para trás um relacionamento.'
pois, pois. e, afinal, é só mais um texto: como outro qualquer.



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