sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

é sempre novo


tudo aquilo que se liberta do passado e dos padrões. tudo o que ainda não deixou marcas de tempo em nenhum lado ou, simplesmente, as dissolveu. todas as primeiras vezes, cada assombro e cada espanto. 
é sempre novo o que se inventa a partir do que não há nem vai mais voltar a haver, o que se esboça sem referências, o sol em cada manhã, anunciando a luz intacta, a evidência de que o vento é só um sopro de passagem. é sempre novo o que não queremos  nem conter nem restringir, é de novo que expandimos o amor, de cada vez que respiramos, é tudo novo quando só dura um momento, é sempre novo cada instante, a cada dia que vivemos. é novo o que não tem tamanho e não tem peso, é de novo que estreamos cada coisa, quando as coisas não se medem em função de nenhum tempo. é novo o espaço, é nova a estrela, é sempre a novidade inteira que nos espreita e surpreende quando não nos embrenhamos na armadilha das memórias, é sempre claro o que é sem névoa. 
é novo o beijo, é nova a festa, é novo o gesto, é tudo novo porque nada se repete, nada foi como é agora, nada vai ser da maneira que já é, é sempre nova a madrugada no meu peito, quando me acordo e largo a noite. 
é novo o canto, é nova a voz, é novo o ano, sempre que não projectamos: nenhuma nota, nenhum timbre, nenhum plano. é de novo que me encontro, de cada vez que me olho ao espelho, e coincido na essência e no reflexo. e o que sou hoje só não é novo se o que fui ontem e o que vou ser amanhã me deixar crer que tenho idade e que envelheço. 
para além do tempo, todos nós somos sem tempo, todos sempre a novidade de nós mesmos, estreando tudo e cada coisa no instante em que as vivemos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

tão balalão, tão balalança

fora do eixo, fico à mercê de pesos e contrapesos humanos. e perco a capacidade de não medir nada, deixando apenas que pelos dois pratos o movimento de cada coisa circule, sem que coisa nenhuma crie o resíduo do fundo e se acumule no meu peito.

fora do eixo, tudo me pesa, ora para um lado, ora para o outro, o equílibrio é instável, se não mesmo impossível, oscilo entre miragens, enjoo com as vertigens que a sensação de estar a pender para o abismo me traz, perco as referências da alma e do céu, de cada vez que as procuro  nas coordenadas da terra e da pele.  parece-me sempre que caio, quando não é o centro que ocupo, parece-me sempre que não pode nascer nenhuma unidade da dicotomia de ser tão balança e estar sempre tão dividida. 

fora do eixo, desdobro-me em esforços para colmatar o que sinto que falta e nem me dou conta de que não falta nada que já cá não esteja. boicoto a leveza, anulo a simplicidade de nada, afinal, ter peso ou medida ou referência, recorro a todos os truques que sei para interditar a mim mesma a simples magia de ser. 

fora do eixo, os altos e baixos sucedem-se e quando subo é a pique e quando desço é a medo e deixo-me contagiar pela crença de que a vida é uma enorme e gigante montanha russa de feira e que não tenho como parar a viagem que aqui vim fazer. fora do eixo, tudo é oposto. o branco e o preto, o bem e o mal, a luz e a sombra.

e então há os dias em que me deixo estar fora do eixo e em que não tenho senão os estilhaços de um espelho onde me vejo aos bocados e em que balanço e balanço e balanço, e os dias em que consigo centrar-me. e aí não há mais esforço nenhum, medida nenhuma, peso nenhum e só as referências da alma me dão as coordenadas para ser, a cada momento, o meu próprio centro. nesses dias, o movimento é como o do vento que passa e que não deixa resíduos no fundo de nada, pois nada tem fundo, e eu estou só de braços abertos a deixá-lo passar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

hoje voltei a vê-la tão de perto

a morte.
nem sequer de uma pessoa que era próxima, mas ainda assim de perto porque próxima de quem me é próximo e tão querido. voltei a sentir aquilo que sempre sinto quando a tenho à minha frente, a paz imensa que transmite quando nenhum desgosto a tolda, a mansidão com que a pele esfria, a leveza que aparenta um corpo inerte quando a alma o desabita e se devolve à sua essência. 
confesso, 
tenho sempre alguma inveja de quem morre, não por não gostar da vida, 
gosto imenso!
mas por lembrar-me como era quando eu própria estava viva nesse espaço que se diz ser o da morte. quando sentia o céu inteiro por minha conta e tudo pulsava em mim sem eu sequer ter coração. quando era livre por não ter de fazer escolhas, por não ter peso nenhum, por não ter medo, não ter nada a não ser aquilo que sou, mas sem carregar um corpo e sem me disfarçar de gente. 
tenho sempre a sensação, quando vejo um corpo morto, de que a aparente imobilidade da matéria não é mais do que aquilo que sempre foi: energia condensada que por fim se dissipou e seguiu rumo ao seu centro, à sua fonte. que esta casca que sustenta e que alimenta cada órgão, cada músculo, cada célula, cada osso, que amadurece, que envelhece e por fim esfria é só uma forma que nos damos para exercitarmos a paciência, para experimentarmos o prazer, para ensaiarmos criações, para podermos dar-nos conta da tanta dor que nos causamos de cada vez que acreditamos que a forma também é conteúdo. e então tenho sempre este desejo, 
esta ilusão?
de que antes mesmo de voltar para casa um dia, eu consiga dar-me conta, e sem mais nenhum equívoco, de que esta forma que me dei não me contém, apenas me torna contida, de cada vez que me permito duvidar que sou amor e me detenho no pulsar (i)rregular do coração.
voltei a vê-lo tão de perto, 
o meu amor, 
não contido, mas conteúdo, nem sequer desenhado ou projectado na pessoa que me é próxima e tão querida, mas aqui dentro, a tomar conta de mim, de cada órgão, cada músculo, cada célula, cada osso do meu corpo como se também eu estivesse imóvel e sem pulso, tão viva e tão serena nesse espaço que se diz ser o da morte e sem apego por mais nada e nenhum medo. 
depois mexi-me e vim-me embora e o movimento devolveu-me outra vez a esta forma que é de gente. e senti esfriar os dedos, não por estar morta e imóvel, mas por estar viva e afinal ainda ter medo e tanto apego a tantas coisas...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

- olá, minha querida!

- que surpresa!... o 'meu' técnico ao telefone! olá, olá!... há quanto tempo...
- é verdade, há quanto tempo!!!
- é mentira!
- claro que é mentira... e então? está boazinha?
- mas, mesmo sendo mentira, é sempre bom falar consigo.
- muito bom... e temos falado tanto!
- é verdade, mas assim, em voz alta, não falávamos há muito...
- não, assim, em voz alta, e com toda a gente a ouvir, há muito tempo que não era. e então? está boazinha?
- outra vez?
- ainda não me respondeu...
- estou boa, sim. 
- com visões e previsões e tanta coisa...
- às vezes acho que você gosta de fingir ser quem não é... de se fazer passar por outro.
- acha que sim? mas olhe que não sou eu que finjo... 
- tem razão. sou eu que invento... acha mal?
- não acho nada. você faz o que entender.
- e quanto àquilo que não entendo, faço o quê?
- ah... isso pode ser mais complicado. se escolher ser complicado, é evidente... afinal, cada um escolhe aquilo que quer, não é verdade?
- sim, foi isso que eu escrevi agora mesmo.
- tal e qual. 
- e então ligou porquê? foi para dar as boas festas?
- dou-lhe sempre boas festas, a não ser quando se esquiva às minhas mãos...
- às suas asas, quer dizer...
- chame-lhes lá o que quiser... mas não, não foi por isso nem para isso que liguei.
- e foi porquê?
- estou à espera de saber. afinal, foi você que me pôs em alta voz.
- pois foi, ando a precisar de ouvir-me...
- isso sei eu.
- as coisas que você sabe!
- não sou só eu. ambos sabemos.
- o quê? que é tudo uma grande farsa?
- não é farsa nenhuma! é simplesmente aquilo que é.
- uma conversa a duas vozes de um só ser, acha que é isso?
- ora nem mais.
- e que se inventa a ser mais do que um só ser para ver se dá resposta àquilo que não sabe ser?
- que confusão que para aí vai!
- e então por isso é que ligou?
- para dar as boas festas?
- não! por causa das confusões...
- eu não liguei! eu estou ligado.
- até aí já percebi.
- mas é a partir daí que vai ter de perceber...
- explique lá de outra maneira...
- há um que humaniza a alma e outro que anima a humanidade... mas não são dois, ao contrário do que pensa, eu e você não somos dois.  somos só um e sempre o mesmo.
- e então como é possível falarmos tanto um com o outro?
- tudo é possível. até a ilusão de que podemos dividir o que é indivisível.
- e então depois dá nisto...
- é, e então depois dá nisto...
- nestas conversas que mais parecem ser conversas de malucos...
- são tão giras! gosto tanto...
- eu também! mas agora vou ali fazer pipocas. não se importa que desligue?
- desliga nada! até porque vou consigo. não se esqueça: é uma ilusão achar que se pode dividir o que é indivisível. de um lado isto, do outro aquilo... ahahahaha!
- 1:1= 0?
- não. 1+1+1+1+1+1+1+1+1+1=1.
- é o que eu digo: parece uma conversa de malucos... mais valia ter ligado a desejar as boas festas e assim enquadrava-se na época e no espírito e assim...
- e você lá gosta de enquadrar-se nessas coisas...
- tem razão. eu gosto mais quando é redondo.
- mas é tudo redondo, minha querida. 
- acredito... tipo assim?
- tipo isso! tudo redondo e colorido!
- boa! vamos lá fazer pipocas?
- vamos lá...
- e deixamos isto aqui?
- isto o quê?
- esta conversa, em voz alta e para toda a gente ouvir?
- claro que sim! ficou tão gira...
- mesmo gira, mesmo gira...

2011, visões e previsões



sobre as previsões para 2011, já muito foi dito e escrito. andam aí, mesmo à mão de semear, basta 'googlar' para encontrar centenas delas, algumas mais generalistas, outras feitas à medida, cada uma obedecendo à sua técnica e aos seus próprios simbolismos, recorrendo cada uma a diferentes perspectivas consoante os instrumentos que utiliza, decorrendo ora da análise dos astros e da posição que ocupam, ora das cartas ou das runas ou dos búzios ou dos números. 

de um ponto de vista exterior, todas são válidas. e, no entanto, quanto vale uma coisa que nos chega lá de fora se nos desresponsabilizamos de a validar dentro de nós? quanto vale a previsão desta ou daquela circunstância se não houver a visão clara de quem somos quando não estamos à mercê de nenhuma circunstância? se os astros dizem que uma quadratura assim ou uma oposição assado significam, por exemplo, que vamos ter um conflito no trabalho ou sofrer de um desgosto no amor, até que ponto será válido aceitá-las como um 'facto consumado', sem sequer equacionar que essas forças só nos arrastam para o conflito e para o desgosto se nos deixarmos ir na onda? pode até a quadratura ter o foco no trabalho e a oposição ser na área do amor, mas se será em conflito ou com desgosto cabe a cada um escolher...

sei do que falo. e mentiria se dissesse que não espreito previsões, que não analiso trânsitos, que não leio cartas, que não somo nem subtraio às equações da minha vida a arte da numerologia, que não vou atrás do que me diz este ou aquela em dada altura, que sou muito iluminada quando escrevo que 'tudo vai ser como e quando e onde tiver de ser e, a cada momento, o que for, como for, quando for e onde for vai estar certo.' seria muito mentirosa mesmo, se dissesse que sou, genuinamente e sempre, alguém que só acredita no agora e que aceita aquilo que é, como é, a cada instante. não sou, ainda não sou, não sei se um dia virei a ser, mas quando sou fico contente, porque isso me faz sentir bem.

por outro lado, é bem verdade que, ao longo dos últimos tempos, o agora tem sido o meu presente. um presente que me ofereço a cada instante, cada vez mais consciente, sempre que escolho ser agora em vez de antes ou depois ou qualquer outro dia destes. e, aí, as previsões ficam de fora. guio-me apenas pela visão daquele momento e só eu escolho aquilo que vejo. posso ver sol mesmo se chove e ver chover quando faz sol, eu é que escolho. o importante é ser fiel àquilo que sou, muito mais do que ir atrás de circunstâncias, expectativas, ilusões, oposições e quadraturas, dizeres dos outros, e aceitar aquilo que sou sem querer ser outra pessoa ou outra coisa, com as minhas limitações e os meus dons, a minha personalidade, as minhas crenças, os meus sonhos, as minhas escolhas e os meus medos, todas as partes do meu todo.

não sei se foi do solstício e/ou do eclipse - mais uma vez, coisas que vêm de fora e que têm o seu próprio simbolismo - mas acordei da noite mais longa do ano com uma visão que só valida as previsões se eu as olhar do interior, e à luz vertical do sol, que faz com que nada tenha sombra. 
e isso quer dizer o quê? que seja o que for que os astros digam, seja o que for que as cartas mostrem, seja qual for o resultado numerológico do ano, a visão de quem eu sou, AGORA, não está a projectar nenhuma sombra. se estou com uma quadratura do Plutão ao Sol, se nas cartas me saiu a Torre ou outra derrocada ainda pior, se a soma afinal é subtracção, nada muda aquilo que eu sou. nada do que vem de fora me vai dizer para onde vou, o que me espera se dobrar aquela esquina, o que ganho se fizer aquela escolha, o que perco se inverter a direcção.  sou eu que escolho, em cada agora, ser fiel àquilo que sou - sem apelos e sem agravos do exterior.

e, assim, e por mais que continue a consultar e a espreitar as previsões - e não interessa se é por vício, por mania, por fraqueza, insegurança, desespero ou outra coisa - apenas a visão clara de que o sol vai nascer a cada dia e de que eu vou estar acordada é a previsão segura do que poderá ser 2011.  e vai ser um ano INTEIRO, nem bom nem mau nem mais ou menos, com as trezentas e sessenta e cinco noites e os trezentos e sessenta e cinco dias que fazem parte da nossa contagem humana, mas com mais luz e menos sombras. porque é assim que, AGORA, eu escolho que seja. porque essa é a visão da minha realidade, e não a previsão do que eu espero realizar.  porque, quando prevemos, reagimos. mas, quando vemos, limitamo-nos a agir.

e que assim seja, mesmo se às vezes não for e o sol nascer oblíquo e projectar milhares de sombras :)


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

de 2010

e disso tudo o que já foi e já não é, ou que ainda é só porque foi. sem nostalgia e sem saudades, em profunda gratidão por cada dia que passou, pelos dias bons e os menos bons, por cada gesto, cada passo, cada abraço, cada festa, cada encontro... sabendo que nunca mais se volta atrás, mas que se pode olhar para trás e sentir que cada instante que vivemos nos conduz àquilo que somos. juntar os pedaços todos e saber que são um todo e fazem parte das memórias e das histórias que teremos para contar. paisagens que mudaram com as estações, mas que cá dentro ficaram como as vi e  que passaram a ser minhas. do branco em gelo da serra ao sol a arder sobre as águas da barragem, dos pinhais da primavera ao mar batido no outono, da figueira que ressuscitou quando o que queria era morrer afogada no inverno, do fogo que no coração nunca se apaga, porque é de todas as estações. profundamente grata, então, não só ao que foi 2010, mas ao que é e ao que sou e à vida que flui continuamente e se expressa a cada instante em cada gesto, em cada passo, em cada abraço, em cada festa e em cada encontro.


sábado, 11 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

retrógrados andamos todos


não é só o Mercúrio a fazer meia volta volver e a assombrar os mais temerosos com irregularidades nas comunicações, estragos nos electrodomésticos, excessos nos gastos e nos consumos, esqueci- mentos, atrasos, confusões e balbúrdias a cada virar de esquina, pinheiro ou presépio. basta olharmos para o mundo, nem sequer com muita atenção, para perceber que este movimento retrógrado não é exclusivo dos astros, mas que, aqui e ali, nos toca a todos. 

onde foi que fizémos meia volta volver e arrepiámos caminho não sei bem dizer. se foi quando a crise nos bateu à porta - embora há anos estivesse do lado de dentro de cada um a espreitar tudo aquilo que teimámos esconder, disfarçar, iludir, corromper - ou apenas quando, sem cerimónia, nos entrou pela casa adentro e se instalou na miséria que a lamúria alimenta e o queixume mantém. mas lá que andamos todos retrógrados, disso não tenho uma dúvida! e não é fatalmente mau, sobretudo se estivermos a tomar balanço para, quando voltarmos, como Mercúrio, a estar directos, atinarmos com a rota que nos espera e que não é a direito, que o direito dá sempre para o torto e todos sabemos. quando entrarmos directos no dia novo - que pode ser um dia qualquer, sendo sempre o mais indicado e o mais propício o dia de hoje, pois só hoje e agora se pode realmente fazer o que há para fazer - descobriremos que o movimento é ascendente e circular ao mesmo tempo e que nos cura de dentro para fora, em vez de nos fazer continuar a sonhar que de fora virá o que há-de curar-nos por dentro.
pois é, quando entrarmos directos no dia novo e, bem acordados, esfregarmos os olhos e percebermos que sonhar só é útil se for com os olhos abertos, vamo-nos rir do tanto tempo que andámos retrógrados, quiça à espera que o mundo virasse, melhorasse, mudasse para nos dar outro alento, outro rumo, e sem perceber que rumo e alento é cada um que  os dá ao mundo, quando se propõe ser a mudança que quer ver nele.

o Presente



'para mim, Natal é sinónimo de mãe transtornada', disse-me a minha filha Francisca um destes dias. tentei argumentar que era mentira, mas ela não cedeu um mílimetro. 'ó mãe, pense lá bem nos últimos anos e diga lá se não ficou transtornada só de pensar que ia ser Natal?' estávamos dentro do carro, a voltar para casa, e do banco de trás os meus outros três filhos juntaram-se à primogénita e clamaram em coro: 'é, é, mãe, a mãe quando começa a ver que vai ser Natal fica muit'a stressada!'
não sei quando foi que o Natal me começou a transtornar e a stressar desta maneira, mas acabei por concordar que, pelo menos nos últimos cinco ou seis anos, foi em estado alterado de transtorno e de stress que o senti  a aproximar-se, que o passei e que a seguir vivi a ressaca. 
depois recuei e fui mais atrás, à minha infância, onde o Natal era a maior magia do ano, quando ia com os meus pais comprar um pinheiro e depois para casa enfeitá-lo e depois havia o presépio montado na estante da sala e depois a missa do galo na Capela do Rato, onde o Menino Jesus recuperava o pulsar e a forma do sangue e do corpo e deslizava por nós e, logo a seguir, a comunhão do encontro estendia-se à ceia em família onde, em vez do pão e do vinho, havia bolinhos e um chocolante espesso a ferver caindo nas chávenas. recuei à excitação e ao espanto de adivinhar o que se escondia por debaixo da árvore, disfarçado de embrulho com laços - uma boneca? um jogo? uns patins? - ao brilho nos olhos quando o presente, enfim, se revelava, ao almoço em casa dos meus avós e à algazarra dos primos, aos sonhos da Joaquina cobertos de açúcar numa grande taça de vidro, à minha tia Mimi aproveitando meticulosamente cada pedacinho do papel dos embrulhos e enrolando as fitas dos laços em novelinhos às cores.
saltei uns anos para a frente e vi-me com a Francisca, minúscula e única ainda, a ajudar-me a pendurar bolas vermelhas, maçãs e cerejas e a rir com as luzinhas que ora se acendiam ora  se apagavam, uns anos depois também com o Lucas e os quatro, quando éramos quatro, a ouvir canções de Natal que o pai entoava à guitarra, mais uns anos e com as mais pequeninas, quando éramos seis, a aparecer de pijama e com os olhos a saltar-lhes das órbitas, à porta da sala, quando viam a quantidade de embrulhos que se amontoavam debaixo da árvore, mais uns anos e lá me descobri, enfim, transtornada, stressada, a amaldiçoar a globalização das luzes nas ruas quando ainda só era Outubro - antigamente, eram quase um exclusivo da Baixa, onde a minha mãe me levava de eléctrico, a meio de Dezembro - a maldizer a comercialização de presépios chineses em plástico, a desdenhar da voracidade com que se esventram embrulhos e nenhuma tia para fazer novelinhos dos laços, a enjoar com os anúncios com musiquinhas de sinos que a toda a hora passam na rádio, a angustiar-me, no fundo, com o Natal transformado em pretexto, o Natal convertido em pano de fundo, o Natal reduzido à frase feita e feliz dos postais, o Natal usurpado pelo consumo...
pois foi, de repente - não sei dizer quando - o Natal passou mesmo a ser sinónimo de um grande transtorno, a ponto de nos últimos anos me ter dado vontade de fugir para longe e  de só regressar quando já tivesse passado, a ponto de ameaçar toda a gente, com um ar maldisposto, 'este ano não há Natal para ninguém, nem presentes, nem nada!'
felizmente, este ano, hoje, agora - mesmo com as luzes a pender pelas ruas e os sininhos  que tocam  a toda a hora na rádio e os pinheiros do chinês a piscar, a piscar, a piscar, não estou transtornada. nem sequer estou stressada. não ando feita maluca de um lado para o outro a calcorrear lojas e shoppings à procura de prendas, não antecipo a correria que será ir do jantar em casa da mãe para a ceia em casa da sogra, se há ou não há toilletes de jeito para as crianças estrearem, não quero nada que já não tenha nem vou dar nada que já não seja. a grande magia, não só do Natal mas de todos os dias do ano, afinal, é dar e receber de presente o Presente. sem laços nem fitas, desembrulhado para que todos o vejam tal como é a cada momento, esse grande e enorme e maravilhoso Presente que, a cada momento, vivemos. nesse Presente, não há transtorno possível: recebe-se no exacto momento em que é oferecido e nunca se esgota, nunca se esventra, nunca passa de moda e não custa dinheiro.

very very very slow - inventos de um evento



assim como quem não quer impingir nada, deixo aqui a sugestão. nos dias 18 e 19 de dezembro, no restaurante Arriba, no Guincho, um amplo espaço envidraçado com o mar a entrar por ele adentro, vai haver aquilo as que as organizadoras do evento chamaram de Arriba Moments.


estando o Natal quase a chegar, é de prever que haja presentes para comprar. mas como o melhor presente é sempre aquele em que vivemos, estes Moments vão servir, seguramente, para muitas coisas mais... mais não seja olhar o mar a entrar pelos vidros dentro, beber um chá, um café ou uma imperial, dar dois dedos de conversa, circular, rever alguém que não se vê há muito tempo, partilhar, cuscar, lanchar e, até, dar um mergulho na piscina, porque não?

eu vou lá estar. com uma 'banquinha' de mandalmas, numa roda que promete. nesses dias, os mapas têm um desconto para quem quiser encomendar as cores da alma. não há nunca dois iguais e nenhum espaço onde os possa ver de perto.
sei que também vai haver quem venda roupas e malas e cintos e colares e outras coisas. umas novas e outras em segunda mão, que passar de mão em mão, sejam as coisas, as palavras, os afectos, os momentos... é sempre bom, por tudo o que faz circular e é bom quando a vida anda redonda...
o convite fica feito e não se paga para entrar nem para espreitar nem para girar ali por dentro.





quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

fifty fifty


andamos todos empatados numa 'luta' de metades, provavelmente a ver quem ganha, como  se a vida fosse um jogo ao qual assistimos da 'bancada', ou simplesmente a rasgar mais fundo ainda a visão de um Ser único e inteiro, todo ele feito de amor. 
não sei desde quando é que nos mentem, mas desconfio que é desde sempre e que esta ideia de que somos divididos à nascença se infiltrou com tanta força em todos nós que nos custa a admitir que não há um lado bom e um lado mau, um lado certo e um lado errado, um lado luz e um lado sombra. é TUDO o mesmo lado, TUDO um só lado, TUDO a mesma coisa.
reza a nossa humanidade que o espírito, ao descer sobre a matéria, não só a anima, como cede e se ajusta à densidade e que desse cruzamento vêm todos os dilemas. e então tudo o que é de carne e osso vai servindo de desculpa e de pretexto, quando se trata de elevar a frequência, a consciência, a vibração do puro amor que TUDO é, que somos TODOS. 
a mentira da dualidade - que nos contam desde sempre - virou verdade e álibi para os nossos actos. mesmo sabendo que é mentira, facilita-nos a vida transformá-la na verdade. facilita-nos a vida alegar 'não chego lá', argumentar 'não sou capaz', dizer 'não estou disposto', inventar 'hoje não consigo'. facilita-nos a vida o fifty fifty, esta divisão em dois, permitindo que as metades sejam cúmplices e que uma desculpe a outra.
e assim andamos todos, empatados e empatando a vida toda, à proporção de um fifty fifty que perpetua a ilusão desta existência de metades e que até faz com que nos pareça justa, de tão bem equilibrada, e à qual ninguém pode escapar, enquanto por aqui andar, com o corpo às costas... de um lado o lado 'bom', do outro o lado 'mau', e nós próprios dividindo a nossa essência, como se fosse divisível, entre o que é luz e o que é de sombra, entre o que é 'certo' e o que é 'errado', entre o peso e a leveza, entre o espírito e a matéria, entre o desejo de acordar  para um dia único e a vontade de ir dormir, todas as noites, a ouvir mitos e lendas...  nós - todos! - pactuando na mentira, talvez na maior de todas, de que há  uma escolha para fazer entre um e outro. mas entre um e outro quê se é tudo o mesmo? se é tudo cem por cento e não há nada dividido? é tudo INTEIRO e ÚNICO, tudo AMOR e tudo AGORA.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

relationships status

é assim um bocadinho à laia de restaurante. pede-se a lista e tem lá uma série de hipóteses e consoante o apetite, a carteira ou outra coisa qualquer escolhe-se o 'prato'. mesmo tendo em consideração que podem sempre existir imprevistos, é pouco provável escolher um bife e aparecer um peixe grelhado, ou pedir uma lasanha e ser-se presenteado com um bacalhau à moda da casa. e por isso é tão útil, às vezes, chamarmos nomes às coisas e saber que os nomes das coisas se referem às próprias coisas e não a outras coisas, às quais chamamos nomes diferentes. mesmo assim, pode sempre acontecer pedirmos um bife e vir um bife - porque bife é sempre o nome que chamamos à coisa bife - e ele não ser, afinal, o 'nosso' bife, ou seja, o nome bife não corresponder à 'coisa' que imaginámos como sendo um bife. fácil de perceber que, se imaginamos um bife do lombo tenro e suculento e nos aparece um bitoque mais tipo sola de sapato nervoso, ficamos perante o dilema de, afinal, o mesmo nome servir para duas coisas completamente diferentes, mesmo que as duas se chamem 'bife'.

ontem, ali às voltas no FakeBook, diverti-me a mudar o relationship status uma data de vezes, nem sequer para constatar que, seja nas relações, seja nos restaurantes, seja noutro contexto qualquer, o facto de existirem 'listas' não nos garante que os nomes que chamamos às coisas correspondam, de facto, às coisas a que chamamos os nomes. ou, então, os nomes trazem atrás tantas crenças - e muitas tão infundadas - que, quando os aplicamos às coisas, todas elas ficam aquém  ou para além do que julgamos estar a chamar-lhes.
a verdade é que, ao darmos nomes às coisas, 'colamos-lhes' uma série de outras palavras, de outras permissas, de outros conceitos e preconceitos - e de sei lá mais o quê! - que, achamos, fazem parte da mesma 'família'. 'casamento', por exemplo,  pode ser da mesma família de 'fidelidade'. ou de 'felicidade'. ou de 'família'. ou de milhares de outras coisas. e, tal como na história dos bifes, se 'pedimos'  ou imaginamos um casamento porque é da família da felicidade e nos calha, afinal, uma desgraçeira de uma infelicidade... sentimo-nos atraiçoados por tudo o que esse nome não trouxe para dentro da nossa 'coisa' - neste caso, do nosso casamento.
 
isto tudo, então, para concluir que é um despropósito esta coisa dos status, das listas, das crenças, dos conceitos e preconceitos, das definições de que nos vamos munindo, como se clarificassem as coisas. de certa forma, descubro que, quanto mais palavras usamos, mais dificilmente conseguimos ser livres - o que não abona nada em favor de uma escritora, pois é...  mas se 'no princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e no princípio ele estava com Deus', agora ele anda na boca dos homens e traz tanta coisa atrelada que depurar o sentido original desse verbo que estava com Deus se tornou praticamente impossível. e então chamamos às coisas nomes que elas são mas não são e os mesmos nomes servem para milhares de coisas diferentes e assim há-de continuar a ser, até ao dia em que o Verbo volte a ser Deus - e que se calhar não é mais do que todos falarmos, de novo, a língua comum do Amor.
 
(e se calhar ficou um bocado confuso, mas hoje apetece-me assim...)

o meu avô Henrique

que se apagou como, um dia, eu gostaria de apagar-me, aos noventa e quase sete anos de vida, durante a sesta a meio do Verão, protegido pelo crepúsculo das cortinas, na sua casa de Pedrouços, era Balança como eu e um homem muito bom e muito sério. lembrei-me hoje dele nem sei porquê, ou talvez saiba e seja por várias razões: porque era bom, porque era sério, porque chamava Luisinha à minha avó, porque deu um contributo inestimável à nação ao presidir à Assembleia Constituinte, em 1976, porque entalava o guardanapo no colarinho da camisa, à moda antiga, porque era anti-fascista, porque me punha na ordem sem me levantar a voz, porque era justo e generoso e corajoso e porque se apagou assim, sem alarido ou espalhafato e como um dia também eu gostaria de apagar-me, durante a sesta a meio do Verão, protegida pelo crepúsculo das cortinas, na minha infância de Pedrouços. 

não fui ao funeral, mas despedi-me dele a rir, imaginando a surpresa que não foi quando viu a Luisinha, minha avó, à sua espera e descobriu que afinal havia céu, ou outra coisa que lhe chamem, e que a vida era infinita. para o meu avô Henrique, a vida era pragmática e acabava-se no dia em que o coração paráva e foi por isso que me ri, porque ouvi, nitidamente, o seu coração aos pulos quando viu a Luisinha, minha avó, a abrir-lhe os braços e a chamá-lo, também ela, pelo seu diminutivo e a dizer-lhe
 ó Henriquinho, ainda bem que já cá está
e a irem de mãos dadas pelo céu fora, ou outra coisa que lhe chamem, descobrindo as maravilhas que a eternidade nos reserva.  

muito antes disso, no entanto, o meu avô percorreu muita terra e muito campo, ou não tivesse ele sido Engenheiro Agrónomo, professor de Economia Rural no Instituto Superior de Agronomia e autor de inúmeros estudos sobre Economia Agrária. é verdade que eram coisas que, na altura, sendo eu uma miúda, me diziam quase nada. para mim, o seu profundo amor à terra manifestava-se na forma como podava os xuxus, empoleirado num escadote, como colhia as tangerinas, as ameixas, as pêras ou os limões do jardim lá de Pedrouços e a ele devo as incursões pelas matas do Buçaco, onde sabia e me ensinava o nome de cada árvore, assim como o 'meu' quinhão de campo e a casa de Fiais. 

também a sua faceta de político, naquela altura, me escapava. quando Abril saiu à rua de cravos enfiados nas espingardas, eu estava em casa dele, mas não soube alcançar aquele brilho de alegria nos seus olhos e só muito mais tarde comprovei que era o brilho do sabor da liberdade. assim como só muito mais tarde dei valor ao seu papel de Presidente da Assembleia Constituinte, embora tenha estado presente no dia em que tomou posse e me lembre de ver as minhas tias muito aflitas porque alguém me tinha dado uns rebuçados que eu engolia de enfiada e que - achavam elas - me iam fazer mal à barriga.
hoje, perante a corja que tomou conta da política, dou ainda mais valor à sua enorme integridade e à vida simples que levava, mesmo enquanto foi ministro. as mordomias desse tempo resumiam-se a ter um polícia à porta - a quem as minhas tias levavam pratinhos de sopa e de arroz doce - e um camarote no S. Carlos - onde eu e a minha prima E., cansadas dos gritos estrídulos das óperas a que nos levavam, dormíamos no chão, enroladas nos visons da tia Maria Antónia. 
também me lembro de ter ido com ele e com a Luisinha, minha avó, votar nas primeiras eleições e de o Henriquinho, meu avô diminutivo sempre que o seu nome saía amorosamente da boca da minha avó, ficar muito aflito porque eu e a minha prima E. tínhamos levado umas bandeirinhas com as siglas I.E.V., que abanávamos furiosamente mesmo à boca das urnas. I.E.V queria dizer 'Inteiro Esculeguinhas Valentinhas'. 'Inteiro' porque ambas tínhamos jurado não pertencer nunca a um partido, 'Esculeguinhas' porque é assim que nos tratamos, desde que somos pequenas, e 'Valentinhas' porque sim. mas o meu avô Henrique, mesmo sendo o I.E.V brincadeira de crianças, estava aflito com a ideia de eu e a minha prima E. estarmos a fazer propaganda ilegalmente... e confiscou as bandeirinhas e pediu à Luisinha, nossa avó, que nos levasse dali.

pois foi, lembrei-me deste avô que acompanhei até ser muito velhinho e que hoje me apeteceu trazer aqui para dentro... por nada de especial ou, simplesmente, por tudo isto que escrevi acerca dele e que afinal foi tão pouco para tudo aquilo que foi e fez, mas sobretudo pela surpresa, quando morreu sem espalhafato ou alarido, protegido pela sesta e pelo crepúsculo das cortinas e vislumbrou a Luisinha, minha avó, à sua espera e a dizer-lhe
  ó Henriquinho, ainda bem que já cá está
e acho então que foi por isso e porque era, realmente, um homem bom.

sábado, 4 de dezembro de 2010

orgasmos

nada de sexo, apenas puro prazer. seja ele qual for, porque for, como for, onde for. dizem-nos muitas coisas e nós acreditamos. há anos e anos e anos que nos vão contando as mentiras mais extraordinárias, e nós acreditamos. acreditamos, por exemplo, que se o título de um texto é 'orgasmos' é porque o texto versa sobre sexo. acreditamos que as coisas são o que parecem. acreditamos que chamamos nomes às coisas para as coisas serem aquilo que lhes chamamos... blá blá blá, pois é :)
eu chamo 'orgasmos' a um texto e imagino a quantidade de gente que não virá abri-lo à espera de encontrar gemidos ou suspiros ou posições do kama sutra ou, até, confissões sobre o que faço ou deixo de fazer. na cama? pois, eu 'imagino' e, também aqui, pactuo nessa mentira de achar que o que imagino de alguma forma corresponde ao que é real. não sei se é. ou se não é. orgasmos, neste momento, neste texto, neste agora, são as bisnagas dos meus óleos saindo em jacto sobre as telas. suspiros, sim, de encarnados e laranjas e verdes e azuis e amarelos, cores espessas derramando em fundo negro esse dom de iluminar a escuridão e depois pegar em pedras e em missangas e em conchas e em paus e em arame e polvilhar a mandala a bel prazer. por puro prazer... a 'coisa' a acontecer vinda de dentro, sem planos para além daquilo que está a ser. criar sem querer. crer por crer. sentir prazer. sentir-me bem, esse tem sido o milagre a cada dia mais presente e mais constante. ser, a cada instante, aquilo que sou e nada mais. e ter prazer, quando as coisas são redondas e a espiral vai ascendendo e eu subo no balanço. quando as coisas são redondas, não há o risco de empancarmos numa esquina. de nos dobrarmos, comprimidos, de nos partirmos, de nos perdermos no que já foi ou no que poderá um dia vir a ser...
orgasmos, sim. de cada vez que sou inteira a fazer seja o que for. nem sequer só por prazer, mas puro amor, num agora cada vez mais recorrente, cada vez mais consciente de que só existo agora e de que só agora posso ser aquilo que sou. e blá blá blá e então chega de conversa e vou ali espremer mais umas cores porque é tão bom :)

blá blá blah


bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blah... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blah bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blah! bláblá blah. blah blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. bláhhhhhh!

domingo, 28 de novembro de 2010

meu querido Ego

mentiria se dissesse que me quero livrar de ti ou até fazer de conta que não és o habitante por excelência deste meu humano umbigo. sim, eu sei e reconheço a tua força, o teu desejo de poder, a sede de protagonismo, a voracidade com que me saltas das entranhas e com que exiges possuir todas as coisas e, até, controlá-las à medida da ambição que existe em ti. 
há quem diga que é defeito de fabrico e eu acredito, que o Ego humano se auto-criou para iludir uma verdade que lhe escapa, que se enraízou na carne convencido de que, assim, tudo pode obedecer-lhe, que basta um gesto para atingir aquilo que quer, que é rei e senhor deste mundo da matéria e que tudo manipula em seu proveito. 
sei a raiva que te assola de cada vez que as coisas falham, a frustração em que te afogas quando a vida não te corre de feição, a tristeza em que mergulhas quando alguém te  lambe as feridas, a auto-comiseração que legitima que tenhas pena de ti próprio e me apareças com esse ar de coitadinho a pedir colo. conheço quase todos os teus truques, a voz mansa em que me falas quando queres que eu acredite que te podes elevar e elevar-me, os álibis que pões à minha disposição quando te finges genuíno e generoso, as mil máscaras que vais tirando e pondo, na esperança de que alguma me convença a atribuir-te o papel principal na minha vida. 
a verdade, querido Ego, é que tenho a pouco e pouco abandonado a vontade de ceder às tuas birras, de me envolver nas tuas guerras, de dar ouvidos às razões que sempre evocas e que, sim, são sempre as mesmas e me querem fazer crer que resultam de alguns traumas muito antigos, de complexos da infância, de coisas mal resolvidas, de culpas várias e de outros tantos artifícios. e, no entanto, e estranhamente, isso tem feito com que, cada vez mais, eu seja condescendente. e isso irrita-te :) preferes que eu te faça frente, isso sei eu, que continue a guerrear e que assim tu me venças pelo cansaço. gostarias muito mais que, de cada vez que me saltas das entranhas, eu me armassse e desse luta, isso sei eu... 
mas, sabes, descubro, a pouco e pouco, que é na paz que podemos entender-nos. e que, já que os territórios que circundam o umbigo te pertencem - por defeito de fabrico ou outra coisa - vou deixar-te reinar neles traquilamente. afinal, o teu reino é apenas um minúsculo buraquinho sem a menor  das importâncias... e, desse minúsculo centro, não há nada que tu possas controlar ou exigir-me, nem quando esperneias muito ou me vens, lavado em lágrimas, com discursos comoventes de carências e assim. se a luta perpetua a guerra, a paz chega pela rendição. 
desejo-te um bom domingo :)

sábado, 27 de novembro de 2010

celebrar os que morrem vivos


é bom celebrar os que morrem vivos e os que morrem vivos são aqueles que nunca esquecemos e que, por isso, não morrem nunca. os que morrem vivos são os que nos permitem continuar a sentir a sua presença, mas que ao mesmo tempo nos pedem que em troca lhes demos, a pouco e pouco, a liberdade do desapego. os que morrem vivos são os que vivem para sempre nas nossas memórias, os que acompanham tudo aquilo que fazemos, pensamos, sentimos e, por isso, é muito bom quando somos finalmente capazes de não pensar neles com desespero ou tristeza, é muito bom quando sentimos que estão mesmo ali, do outro lado do véu, e que não se privam de nada para vir acudir às nossas saudades e aos nossos ataques de choro. os que morrem vivos são todos aqueles que nos garantem que nada tem fim e que o amor que a todos nos une é infinito e eterno. os que morrem vivos são aqueles que não merecem ver-nos em lágrimas, por puro egoísmo, mas a rir, a rir muito alto por sabermos que estão tão felizes agora. os que morrem vivos são os que só nos fazem falta quando caímos nessa ilusão de que nos deixaram sozinhos. os que morrem vivos são os que todos os dias se manifestam nas coisas mais simples, os que nos tocam a alma, os que nos pedem que os deixemos viver longe da nossa vista e tranquilamente se instalam cá dentro, no coração, os que já não precisam dos nossos abraços porque são eles próprios o céu, de braços abertos, à nossa volta.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

'voltar para casa'


 'a morte é a coisa mais difícil para quem está 
do lado de fora e enquanto se está do lado de fora. 
mas, uma vez lá dentro, prova-se uma tal plenitude, 
paz e realização que não se quer regressar.'


C. G. Jung

 ✼ ✼ ✼

tudo pode ainda mudar e o título não é definitivo. a ideia, porém, anda há já muito tempo comigo. depois de ter escrito o 'Morrer é só não ser visto', a morte voltou a ser tema de um outro livro, que escrevi quase até meio. o ponto de partida eram as conversas que várias pessoas tinham tido com a médium Anne Germain e o  objectivo saber até que ponto essas mesmas conversas tinham mudado a forma de cada um olhar para a morte.

cheguei a fazer as doze entrevistas, a desgravá-las e a editar a maior parte dos textos, tinha mais de meio livro pronto quando um dia, sem mais nem menos, falei à minha editora a dizer que, afinal, abandonava o projecto. acreditei, nessa altura, que a morte, enquanto tema de escrita, seria posta de lado e que me viraria para os vivos. existe em nós todos, ainda, esta crença de que os assuntos da morte são mórbidos e que andar por aí a 'escarafunchá-los' só nos pode trazer melancolia e tristeza. quantas vezes não me disseram, perante a minha insistência no tema da morte, que era muito melhor deixar esse assunto de lado e dedicar-me a 'coisas mais leves'. 

acredito que ninguém queira, ainda, admitir que a morte é a maior e a única certeza inabalável da nossa vida e que todos os dias morremos um pouco até ao dia em que, finalmente, voltamos para casa. afinal, é muito mais confortável escondê-la, fazer de conta que ainda não espreita o nosso horizonte, que todo este apego que temos à vida a poderá iludir para que não chegue antes do tempo. nesse tal livro que deixei a meio, uma das pessoas com quem falei dizia-me 'se, por acaso, eu morresse amanhã, seria terrível! tenho ainda tantas coisas que quero fazer...'
esta sensação de que a morte interrompe seja o que for que ainda houver para fazer é comum, acredito, à nossa espécie mortal. e o homem não se conforma com a sua mortalidade, a não ser no momento em que for capaz de sentir que mortal e perene é apenas o seu corpo físico e as coisas da Terra, mas que aquilo que o anima - chamemos-lhe alma ou espírito ou consciência - é e será sempre imortal. 

'voltar para casa' é então, e para já, o título de um próximo livro onde a morte, de novo, é o tema.  não tenho pressa nem prazo de entrega e procuro quem queira partilhar o seu testemunho. procuro quem, sabendo que a morte está perto, a olha de frente e se prepara para a próxima etapa. por mais que possa ainda existir aquele medo do desconhecido, acredito que existam pessoas que, de repente, se rendem. que se preparam para partir com a consciência de que tudo o que aqui deixam não tem importância nenhuma. e, não, não me sinto a 'escarafunchar' no que é mórbido e também não tenho a veleidade de estar a escrever para 'ajudar' quem quer que seja. sinto-me bem a escrever e é só e os mistérios da morte fascinam-me. 

quando era muito pequena, costumava dizer aos meus pais, a chorar, 'quero voltar para casa'. não tenho uma dúvida de que estamos aqui de passagem, de que a vida é um dom e de que vivê-la é uma aprendizagem maravilhosa e escolhida por cada um de nós. mas também tenho a certeza que a morte não põe fim a nada que não seja a matéria. e que quando nos é dado tempo para a vislumbrarmos no nosso horizonte - o que nem sempre acontece - podemos escolher se a olhamos de frente e nos preparamos para a grande viagem, ou se, pelo contrário, deixamos que o medo, de novo, tome conta de nós e nos invada.

ando então à procura dessa coragem e de quem dela me queira dar testemunho. de pessoas que, a curto ou médio prazo, tenham 'os dias contados' aqui na Terra e para quem a ampulheta do tempo não lhes virou a vida de cabeça para baixo, mas lhes reorganizou as prioridades, lhes alimentou a engrenagem do desapego e as direccionou para uma nova contagem. 
não tenho pressa nem prazos... e sei, como aconteceu com o 'Morrer é só não ser visto', que as pessoas que irão 'aparecer' serão aquelas cujos testemunhos darão do nosso regresso a casa a versão da viagem de serenidade, paz e realização de que fala Jung.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

a human(a)idade dos porquês

daqui
seja aos quatro, aos sete, aos vinte, aos trinta e cinco ou aos quarenta, aos cinquenta e um, sessenta e sete , setenta e oito, oitenta e três, noventa e quatro ou cento e dez, esta é mesmo aquela idade em que andamos iludidos a querer satisfazer porquês. e, sim, cheguei a achar que seria um  bom nome aqui para o blog e que de 'porque isto' e 'porque aquilo' em 'porque assim' e 'porque assado' lá chegaria, senão a uma resposta inequívoca, a outras tantas explicações mais ou menos convincentes... tão querida, eu, na humana idade da razão, absolutamente convencida de que humanizar as dúvidas seria meio caminho andado para universalizar porquês! afinal, foi assim que me ensinaram, a mim e a quase toda a gente. que tudo tem porquê  - como se tudo não fosse já aquilo que É, sem precisar de explicação.
e, então, já há uns dias que troquei a human(a)idade dos porquês pela varinha de condão. sete traços, uma estrela, oito bolinhas que não chegam para fazer essa magia de só ser, sem humana idade alguma e sem porquês, mas que dão um ar mais leve à 'coisa'. e a 'coisa', que é o blog, neste caso, é para ser. sem explicações e sem porquês.

pois foi. andei uns dias sem escrever e dei por mim pré-ocupada, a pensar que o néon devia ser diariamente alimentado e a consumir-me por não ter o que dizer e - lá está - a perguntar 'porquê?' 'porquê?' 'porquê?', como  se pudesse haver explicação para não ter inspiração, ou como se o simples acto de escrever me pudesse dar resposta a alguma coisa, para além daquilo que cada coisa É.

já repararam que os porquês só aparecem quando alguma coisa empanca? por exemplo, de manhã, quando o carro não funciona. 'mas porque é que não funciona?!' quando funciona, alguém pergunta 'ah, mas porque é que funciona'? é. só queremos saber porquê quando cremos que o que É devia ser de outra maneira ou outra coisa. mas porque é que há tanta guerra? porque gostamos mais da paz, é evidente. mas porque é que ele ou ela já não gosta mais de mim? porque queremos que ainda goste. mas porque é que fizeste isso? porque achamos que não devia ter feito. mas porque é que ele morreu cedo? porque, acreditamos, não é suposto morrer novo... e seguia por aí fora a dar exemplos.

e assim vamos andando. de porquê em porquê e em porquê, sempre à cata de ilusões. de  'porque assim' em 'porque assado', pondo aquele ar muito sério de quem sabe muitas coisas, dando muitas explicações. e 'porque isto' e 'porque aquilo' e 'porque eu sei' e 'porque eu acho' e todos, afinal, da mesma idade, humanamente imbuídos de razão, mas recusando a evidência de que tudo É aquilo que É, sem mais porquês.

AGORA, por exemplo, É o que É. a não ser que eu resolva complicar e começar a perguntar 'mas porque é que em vez de eu estar aqui a escrever este blá blá não vou mas é para a cama?' e lá vinha um grande rol de explicações atrapalhar o meu AGORA... e ele É tão maravilhoso que eu quero lá saber porquê!...

Histórias com Direitos

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Sentindo que a hora estava a chegar, a mãe deitou-se no chão e esperou. A barriga, dura como uma pedra, apontava para o céu. À sua volta a noite caía e ninguém parecia dar importância ao milagre que estava prestes a acontecer. Ninguém, excepto o pai, que em vão procurava alguém que pudesse ajudar o seu filho a nascer. Tinham chegado há três dias ao campo de refugiados, um baldio onde tendas improvisadas oscilavam ao vento e sucumbiam ao pó do deserto, acolhendo quem não tinha mais sítio nenhum para onde ir. Uns fugindo da violência e da guerra, outros do desamor e do frio ou, simplesmente, da escuridão que se abatera sobre eles.
Foi então que o pai e a mãe viram aproximar-se um homem que se apresentou como médico e se ofereceu para fazer o parto. Qual não foi, porém, o seu espanto ao espreitar o corpo da mãe e ao ver que o bebé se apresentava de pés, e não de cabeça, como é costume. Temeu o pior, até porque os pés, apesar de perfeitos, cada um com os seus cinco dedos minúsculos, estavam azuis. Deitada no chão, a mãe transpirava, enquanto o pai, ao seu lado, lhe amparava a cabeça no colo. Por mais bem preparado que um médico esteja para os imprevistos da vida, as probabilidades de fazer com que um bebé que se apresenta de pés e azul sobreviva são muito pequenas.
- Tenho impressão de que já não respira... – lamentou, nessa altura. Mas a mãe garantiu que ouvia o coração do filho a pulsar junto ao seu e não desistiu e fez força. Os pés do bebé tactearam o ar, como se estivessem à procura de chão e o pai, muito contente, exclamou:
- Está vivo, doutor, não desista...
Mexia-se, sim, e isso era certo, caso contrário os seus pés estariam inertes, gelados, e não à procura de um lugar onde pudessem pousar e menos ainda de um trilho que ousassem traçar. A mãe fez mais força e, mesmo sendo já noite cerrada, o céu aclarou-se, os pés do bebé escorregaram mais uns centímetros e quase tocaram na terra.
- Puxe-o, doutor, puxe-o para fora... – pediu o pai, que continuava a amparar a cabeça da mãe no seu colo, ao mesmo tempo que lhe fazia festas na testa. E, no entanto, o médico não foi capaz de fazer nenhum movimento, provavelmente com medo de que aquele bebé trouxesse alguma doença esquisita e contagiasse os seus dedos.
A pouco e pouco, como se conhecesse de cor o caminho que liga o Céu e a Terra, o bebé pousou finalmente os dois pés na poeira do chão e, logo a seguir, fez deslizar o resto do corpo azul e minúsculo para fora do corpo da mãe. Em vez de chorar, sorriu para as estrelas que, lá de cima, assomavam à espreita. Boquiaberto, o médico ofereceu-se para cortar o cordão com o seu bisturi, mas foi o pai quem acabou por fazê-lo, com um canivete que tinha no bolso e sem temer que aquele bebé o contagiasse de amor.
Assim que a mãe teve o filho no colo, bem junto ao seu peito macio, toda a gente acorreu a espreitá-lo. Murmuravam-se coisas, em surdina todos davam palpites, faziam juízos, nunca ninguém tinha visto um bebé como aquele, azul dos pés à cabeça, mas vivo, os olhos translúcidos como se fossem feitos de mar, a pele de veludo brilhando no escuro, imune ao pó que o deserto trazia, no peito o coração a pulsar devagar e pausado, como na língua dos pássaros. Foi então que alguém perguntou:
- E que nome vão dar ao menino?
O pai e a mãe olharam um para o outro, nenhum tinha ainda pensado num nome, e o médico balbuciou que talvez nem valesse a pena chamar-lhe coisa nenhuma, já que previa que não tivesse assim tantas horas de vida. A avaliar pela cor, o bebé padecia seguramente de um mal incurável, mas a mãe afastou os rumores, deu-lhe o peito e ele mamou, como se fosse o bebé mais saudável do mundo.
No céu, um novo dia nascia e, aos poucos, a multidão dispersou-se, cansada de murmurar coisas e depois de ter esgotado os palpites sobre aquele bebé azulado sem nome, sem raça, país, estranho demais para poder ser humano, quanto mais um filho de Deus. Nesse momento, a luz infiltrou-se no vento e nas tendas e até o pó do deserto amainou.
- Vai chamar-se Índigo – resolveu a mãe nessa altura, e o pai concordou.
Hoje, tantos anos depois do seu nascimento, ainda há quem continue a estranhar o seu tom de pele de veludo e a julgá-lo por tudo aquilo em que é diferente dos outros. E, no entanto, há sempre uma luz que se infiltra no vento e que afasta a poeira e as dores de quem quer que se cruze com ele por esses caminhos de Céu e de Terra que, afinal, todos nós percorremos. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

esta coisa do AGORA


é, realmente, a simples coisa 
que acontece a toda a hora. 
e é mesmo, mesmo boooooooa :) 
porque só É 
sem nenhum esforço para ser uma outra coisa.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

outro AGORA

AGORA. sempre AGORA. sempre bem quando é AGORA.

divagar rumo à infelicidade

daqui
as pesquisas valem o que valem e o que a ciência hoje valida pode muito bem já não ser válido amanhã. mas se o que interessa é o AGORA - como todos estamos fartos de saber e, mesmo assim, tantas vezes nos esquecemos - um estudo conduzido por dois psicólogos da Universidade de Harvard demonstra, numa base científica, por que razão viver fora do AGORA faz de nós seres infelizes.
Matthew Killingsworth and Daniel Gilbert chegaram à conclusão que só 4,6 % da nossa felicidade, num determinado momento, pode ser atribuída à actividade específica que está a ser realizada nesse mesmo momento. e, como momentos de extâse do AGORA, os psicólogos destacam o sexo, o exercício físico e uma boa conversa... e concluem que 46,9% do nosso tempo é passado a divagar... (desconfio que foram um bocadinho simplistas, os senhores psicólogos, e que na amostra de voluntários para o estudo não se encontravam pessoas que, para além do sexo, do exercício físico e das conversa, também fazem outras coisas que as mantêm no AGORA, mas adiante...)

deixando a ciência e os estudiosos de lado, e olhando para as nossas vidas de frente, tudo isto é tão verdadeiro que ninguém terá como negá-lo. muito do nosso tempo, se não a maior parte, é consumido em nostalgias e saudades do passado e outro tanto em projecções e expectativas para o futuro. todos, sem excepção, cantarolamos, à laia de fado, a música do António Variações. 'porque eu só estou bem aonde não vou, porque eu só estou bem aonde não estou.' 
num livro que ando a ler, há um pesonagem que diz que 'só recordamos o que nunca aconteceu'. e eu acrescento: 'só projectamos o que nunca irá acontecer.' entre uma e outra, então, entre a recordação e a projecção, entre o passado e o futuro, o que é que sobra? o AGORA, pois está claro, que tantas vezes não é mais do que um PRESENTE envenenado! venham os psicólogos que vierem, os Oshos e os Eckart Tolle e os Deepak Chopra da vida iluminar-nos com as suas teorias do AGORA... se AGORA, neste preciso momento, não formos capazes de estar no AGORA, o AGORA passou e no AGORA seguinte continuamos lá atrás, ou lá à frente, divagando pela infelicidade, recordando o que nunca aconteceu, projectando o que nunca irá acontecer.

sim, sim. falar é o mais fácil - já todos o sabemos e falamos todos muito... quantas vezes, sabendo  e dizendo isto tudo que escrevo, eu própria não passo dias inteiros lá atrás e dias inteiros lá à frente? mas depois há aqueles dias, como o de ontem, por exemplo, em que fui feliz em cada AGORA e descobri como, afinal, fazer é mais fácil do que parece... se a nossa mente é tão capaz de divagar, também tem de ser bem capaz de se focar. de se centrar. 
a acreditar no estudo, se em 46,9% do tempo divagamos, é porque sobram 53,1% para nos focarmos... e 53,1% de AGORA não me parece nada mau... sendo que é sempre e só de cada um de nós que depende aumentar ou baixar as percentagens e o resto... o resto é blábláblá... sendo, porém, verdade que este blábláblá que aqui fica a boiar foi um AGORA em que só estive aqui, sem recordar nem projectar coisa nenhuma. e que AGORA, que já é outro AGORA, vou ali... arrumar umas tralhas e assim :)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Shanti & Becky

foi há cerca de um ano que o Sky e a Lucy chegaram cá a casa. ele cinzento, ela branca, depressa se habituaram à nossa vida de humanos e nos brindaram com a sua magia, sem terem sequer de sair de cartola nenhuma, mas apenas correndo, livres, na relva, ou escondendo-se atrás dos troncos das buganvílias ou das folhas da hera. 
aqui da casinha onde escrevo e onde passo grande parte dos dias, via-os aos pulos, para cá e para lá. a Madalena estava encarregue da Lucy e a Luisinha do Sky, a convivência era pacífica, a Francisca e o Lucas achavam-lhes graça e até o Jimmy, o nosso hamster, era de vez em quando chamado para a brincadeira.
numa noite de frio em que não dormiu ninguém cá em casa, a nossa empregada chegou de manhã e encontrou o Sky 'desmaiado' e sem forças. pegou-o ao colo, aqueceu-o com um secador de cabelo, deu-lhe mimos, mas a verdade é que nunca mais foi o mesmo. não voltou a pular com a mesma alegria e estava mesmo, mesmo fraquinho...

acabou por morrer, poucos dias depois, ao meu colo e na altura fiquei em estado de choque. ainda que fosse só um coelho, nunca nenhum ser vivo me tinha morrido no colo e não me sentia capaz de dar destino ao seu corpo. foi só no dia seguinte que decidi cavar um buraco, debaixo ali da nespereira do fundo. devolvi à terra o corpo do Sky, tapei o buraco e enfeitei-o com flores e com conchas, e acreditei que a sua alma seguia a caminho do céu dos coelhos. depois, preparei-me para contar à Madalena e à Luisinha o que se tinha passado. a Luisinha desfez-se num pranto... durante os dias que se seguiram, ia até ao lugar onde o Sky estava enterrado e, quando voltava, sempre a chorar, confessava: 'não aguento ir àquele cemitério, mãe!' houve até uma vez em que me pediu: 'não contes à Lucy que o Sky morreu, porque eu disse-lhe que ele só tinha ido de férias...' a verdade é que, não sei se de tristeza e saudades ou apenas porque os coelhos são frágeis, a Lucy foi ter com o Sky ao céu dos coelhos pouco tempo depois. também dessa vez, eu não estava a casa.  regressava da Serra da Estrela quando as minhas filhas falaram a dar-me a notícia e a Madalena era agora a que estava mais triste.

hoje, depois de um almoço com uma amiga, vinha a passar pela rua quando as vi a olharem para mim, através do vidro da montra. não sabia ainda que eram duas meninas, cheguei a pensar que fossem o Sky e a Lucy reencarnados, e entrei na loja para os ver mais de perto. expliquei ao senhor que já tinha tido dois coelhinhos, mas que tinham vivido tão pouco tempo que tinha medo de voltar a levar mais dois para casa. o senhor riu-se e disse-me para ter cuidado com as verduras e para lhes dar ultra-levur assim que visse que estavam com diarreia e que o resto era a vida! ao contrário do que pensava, não eram outra vez macho e fêmea, mas duas meninas. assim que chegámos a casa, tirei-as da caixa e pu-las na relva. percebi que estavam muito assustadas... fiz-lhes festinhas e baptizei-as: Shanti, a branca e Becky, a outra malhada. 
chegámos há nem uma hora e já estão aos pulinhos na relva. vejo-as daqui a correr, mordiscam as ervas, não sei até que ponto lhes podem fazer diarreia... mas prendê-las o dia inteiro na 'gaiola' também não faz muito sentido... não tarda, saio para ir buscar a Madalena e a Luisinha. 
ainda não sabem, está claro, que voltou a haver magia na relva e já sei que logo ao jantar vai haver 'discussão' e todos vão querer que se chamem outra coisa que não Shanti e Becky... mas, independentemente dos nomes, aposto que vão ficar os quatro contentes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

não sei se quando nos vamos embora daqui


nos transformamos em anjos, em luz, em poeira de estrela, em ETs ou noutra coisa qualquer, o que sei é que, de vez em quando, tu me abres as asas, me abraças, e não é como se ainda estivesses aqui, porque não sinto o teu peso,  não há gravidade na força com que me abraças, não é como se ainda pudesses fazer alguma coisa por mim - pegar-me ao colo quando estou mais cansada, ir deitar as crianças, ajudar-me a trazer a lenha para cima, ir buscar a viola e cantar - não é nada disso, mas apenas a tua presença benigna a rondar-me, a tua imensa generosidade a acolher-me, a tua esperança a acordar-me e a eternidade a surgir, de uma forma tão clara, à minha frente... tal como neste desenho da Vera, feito para a história do Índigo, de vez em quando é assim que me sinto, contigo abrindo-me as asas e eu cabendo nelas inteira e em paz.

ah, o desapego!...

a acreditar no diccionário, 'desapego' é indiferença, é desinteresse, é desamor, é abandono. mas então porque será que tanta gente apregoa e enaltece o desapego, como condição sine qua non para acabarmos com os dilemas, com as angústias, com as sensações de posse e de controlo, com o sofrimento? como é que se pratica o desapego sem cair na indiferença? sem cultivar o desinteresse? sem regredir ao desamor? sem votar nenhum ser ao abandono? ou a definição no diccionário não está certa e 'desapego' é outra coisa, ou andamos, simplesmente, a negar a nossa essência. qualquer árvore, para crescer, tem de se apegar  à terra, pois é lá que se enraíza. o que seria se uma árvore, possuída pela nossa humanidade, decidisse que o seu apego à terra, afinal, era perverso?... como seria se, possuídos pelo espírito das árvores, nos permitíssemos apenas crescer como elas crescem? enraízarmo-nos na terra, sem indiferença pelo sol, sem desinteresse pela chuva, sem desamor por  quem se abraça ao nosso tronco ou vem colher dos nossos frutos, sem abandonar a esperança de um dia tocar no céu e co-criando a existência juntamente com o todo? como será se o 'desapego', num diccionário equivocado de emoções, nos criar essa ilusão de 'independência' e nos 'desconectar' do todo?...

domingo, 14 de novembro de 2010

encontros imediatos

daqui
foi na sexta-feira passada, na Fnac Chiado, depois da tal apresentação da sétima edição do meu livro. 'esgotados' os discursos na mesa, a palavra passou para a assistência. a M., que 'conheci' através do FB, e que 'perdeu' uma filha, partilhou o seu testemunho. a sala não estava cheia, mas estava composta, e logo a seguir ao testemunho da M., um senhor que estava de pé, encostado à parede, com uma das lentes dos óculos partida, pediu o microfone e disse qualquer coisa parecida com isto, em sotaque brasileiro: 'é uma pena que aqui na Terra ainda existam tantos sonâmbulos. se as pessoas estivessem mais acordadas, há muito que já teriam percebido que não há morte coisa nenhuma! mas não, anda tudo a dormir, tudo a sofrer, todo o mundo a chorar pelos cantos porque perderam este e aquele... talvez o que eu esteja a dizer ainda soe estranho a alguns, afinal não sei quantos sonâmbulos estarão aqui hoje, mas podem ter a certeza que anda todo o mundo enganado... o que é precisamente o que 'eles' querem... porque é através do medo e do sofrimento que 'eles' nos manipulam... se quiserem saber mais coisas, posso contar-vos, para já vou calar-me, para não ferir susceptibilidades...  mas está na hora de acordar, minha gente, e de entender que sempre fomos e sempre seremos e que não existe morte nenhuma...'
quando acabou de falar, perguntei-lhe como se chamava e agradeci-lhe estar 'acordado', no meio de tantos sonâmbulos, e que o título do livro de que ali se falava era isso mesmo: morrer é só não ser visto e a vida é só uma, ainda que em diferentes 'estádios'. a sessão acabou, fiquei ainda na mesa a assinar alguns livros, mas vi que à volta do senhor que tinha falado se juntavam pessoas. um 'acordado' desperta sempre o interesse!... juntei-me, então, à conversa e ali ficámos, não sei dizer quanto tempo, a ouvi-lo. tinha graça, ainda por cima, explicando que a lente quebrada dos óculos era precisamente um 'castigo' por andar por aí a contar o que  'eles' não querem que venha a público. 'mas afinal quem são 'eles'?', perguntei. olhou-me, sorrindo, e respondeu-me: 'isso era papo que não acabava...' 
estava com uma amiga minha e segredei-lhe 'e que tal se convidássemos este ET para jantar?', ao que ela me respondeu 'estava a pensar exactamente no mesmo!' e então formulei o convite em voz alta: 'não quer vir jantar connosco?', a acrescentei 'se tiver tempo, é claro...' 'tempo?' perguntou ele, 'menina, eu tenho a eternidade!'
e lá fomos os três, 'aterrar' numa esplanada ao ar livre, numa noite que não parecia ser de Novembro, e com um apetitoso menu tailandês. é claro que o ET tinha nome, mas não vou revelá-lo, pois não sei até que ponto gostaria que eu o fizesse. mas a conversa foi séria e não me pareceu que estivesse a 'gozar' ou que fosse apenas um doido, a dissertar sobre seres intergalácticos, sobre a ascensão do planeta, sobre vidas passadas, sobre a maravilha que é estarmos, de facto, todos ligados, sobre o que está a acontecer por aí neste preciso momento e... sobre 'eles'. 
'mas quem são 'eles'?' foi a pergunta que lhe fiz muitas vezes e à qual ele respondeu outras tantas. 'eles' são todos os que não vibram na frequência do amor, são os que se aproveitam dos nossos medos e das nossas sombras para atrasar a ascensão do planeta, são os que se infiltram em nós de cada vez que temos 'maus' pensamentos. 'você acha que tem privacidade?' perguntou o ET a certa altura. 'mas é que não tem mesmo... nem quando está sozinha a pensar você tem privacidade... o universo escuta tudo o que você pensa e te devolve isso mesmo... parece injusto dizer para alguém que caiu num buraco que só caiu porque pediu... mas é assim mesmo que isso funciona!'
a conversa continuou por ali fora, até altas horas da noite. percebemos que o ET está ligado à astronomia  e a muitos outros assuntos sobre os quais não pode falar, e que, além disso, é um melómano que também faz crítica de música para um jornal de grande tiragem. antes de nos despedirmos, convidou-nos para o acompanhar, no dia seguinte, a um concerto. mas nem eu nem a minha amiga podíamos. ficou, então, combinado, para um dia ainda sem data, um encontro com extra-terrestres. 'as pessoas acham que isso de OVNI é coisa inventada... mas eles andam aí e cada vez se mostram mais... um dia eu levo vocês, combinado? até lá, fiquem tranquilas, fiquem em paz... estar tranquilo é a única forma de 'eles' não nos conseguirem pegar...'
para quem quiser saber mais, o ET deixou um link. quem estiver interessado, pode espreitar. eu  cá gostei do que ouvi, gostei do ET e da perspectiva de em breve poder vir a ter outro 'encontro imediato'.

sábado, 13 de novembro de 2010

o semeador de estrelas *


durante o dia, é só uma estátua...


... mas, durante a noite, semeia ☆✩☆



* Kaunas, Lituânia

o pior piora, o melhor melhora


e a espiral é só uma
por ela abaixo tocamos na sombra
por ela acima tocamos na Luz
e a cada minuto podemos escolher a direcção que tomamos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

saber dizer: sim ♥

sim, eu não sei nada, nem quando digo que sei muitas coisas, erro e aprendo, sofro e tropeço, armo-me em forte, desfaço-me em lágrimas, mas todos os dias estou viva para recomeçar tudo de novo. sim, 'precisar' é um verbo que a mente conjuga, mas que a alma aprende a aceitar, de cada vez que nos estendem a mão e nos oferecem ajuda. sim, a humanidade atrapalha quando a usamos como uma barreira e fechamos os braços com medo de que venham roubar-nos alguma coisa ou pedir-nos o que achamos ter o direito de recusar  - ou, simplesmente, o que não queremos dar. sim, ando a aprender a casar-me comigo e a jurar-me fidelidade e só é justo o que for o melhor para mim. sim, ter expectativas faz parte, ter sonhos faz parte, faz parte ter ilusões e desilusões, só tomando o todo pelas partes seremos capazes de ir pondo de parte tudo aquilo que não nos faz falta, para esse todo que somos. sim, o amor é semente, planta-se e cresce, monda-se e vinga, rega-se e faz-se maior a ponto de nos transformar no seu próprio fruto. sim, temos padrões, temos heranças, temos debaixo da cama muitos fantasmas que nos assustam, temos feridas abertas, temos capacidade de cura. sim, somos aquilo que escolhemos a cada minuto, ontem já era, amanhã não sabemos. sim, é tudo tão duro e tão dócil, tudo tão simples e tão complicado, tudo tão bom e tão mau, tudo tão rápido e tão demorado, tudo tão luminoso e tão denso e tudo  É: direito e avesso. sim, somos elos de uma mesma cadeia, não viémos sozinhos trilhar os caminhos da Terra, somos um e o mesmo, cada um seguindo  o seu trilho a caminho de casa. sim, queremos todos a mesma verdade e todos contamos as mesmas mentiras. sim, estou aqui para dizer sim à vida e a tudo o que sou e, sim, é sempre possível escolher dizer não.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

da sabedoria do Tao, numa tirada aleatória *

'como regente da sua própria vida, o sábio declara: pratico o não-agir e o povo cuida de si próprio; não canso o povo nem esgoto os tesouros e o povo enriquece por si mesmo; opto pela tranquilidade e o povo corrige-se a si mesmo; liberto-me de todo o desejo e o povo retorna à simplicidade; liberto-me das emoções e o povo torna-se puro por si mesmo.'

* obrigada.



domingo, 7 de novembro de 2010

fnac chiado, 12 de novembro, 18h30

com a 7ª edição nas bancas e mais de 25 mil exemplares vendidos, os que vêem e são vistos juntam-se para falar do que não são vistos, mas continuam a ver-nos. 

na mesa vão estar, além de mim, dois psicólogos para abordar o tema do luto. na assistência, fica feito o convite a todos e todas que, tendo ou não lido o livro, queiram vir partilhar experiências e testemunhos ou, simplesmente, prefiram ficar a ouvir, em silêncio. 

até lá, deixo-vos, sobretudo aos que ainda não leram o livro, com algumas palavras de quem lhe deu voz e com a fé de que morrer é não ser visto... 


'Quase doze anos depois daquele acidente terrível, o que posso dizer é que valeu a pena ter escolhido viver. Valeu completamente a pena! Nunca poderei saber como teria sido a minha vida se a minha família não tivesse morrido. Mas, se eu tivesse morrido também, era uma pena não ter continuado a ter estas experiências, sobretudo a dar e a receber dos outros tudo o que tenho dado e recebido ao longo dos anos. É claro que ainda me lembro, ainda hoje me comovo e tenho muitas saudades. Mas também há muitas coisas que já arrumei. O que não significa que não me lembre da dor, do sofrimento, do desespero... Mas já não é disso que me alimento (...) Quando estive no hospital de Santana, houve uma irmã que me disse uma coisa que jamais esquecerei e que foi o seguinte: “Maria, tu és católica e acreditas em Deus. Então, lembra-te disto. As pessoas que são íntimas são aquelas a quem nós pedimos favores. Foi por seres íntima de Deus que Ele te pediu para que ficasses e servisses de testemunha. Tu foste, de facto, uma vítima de circunstâncias terrenas muito difíceis, mas és também uma pessoa especial para Deus. Permitiste que Deus se servisse de ti para ajudares os outros, para que os outros olhem para ti e vejam como é possível andar com a vida para a frente depois de uma tragédia tão grande.'  
 Maria Monteiro, 48 anos


'A morte, para mim, sempre foi uma coisa muito natural. A ponto de acreditar que a vida era quase um interregno. Vínhamos cá passar uns tempos, vivíamos o melhor que podíamos e sabíamos, e íamo-nos embora outra vez... E eu achava que, quando nos íamos embora, podíamos continuar a tomar conta dos que cá ficavam. Podíamos interceder por eles, ajudá-los... Mas agora o silêncio é tão grande que eu já não tenho a certeza de nada. Já não sei se isso é verdade.Às vezes, oiço barulhos de noite e... queria tanto que fosse ele! Mas não é! Ou é o gato, ou é uma porta que bate, ou o vento... Nunca é ele. Nós tínhamos combinado que o primeiro a morrer voltaria para contar ao outro como era... E, afinal, ele não veio. Talvez seja muito cedo, talvez seja ainda muito cedo... Ainda só se passaram sete meses. E também não sei que tipo de sinais é que eu quero. Talvez esteja à espera de coisas físicas e os sinais não passem por aí, por coisas físicas. Talvez tenha de procurar outro tipo de sinais, não é?'
Rosa Lobato de Faria, 76 anos

'Para mim, a morte é apenas uma coisa física, porque as pessoas não se vão embora. Ou seja, o corpo delas desaparece, mas aquilo que elas são permanece, há uma energia que fica. Mas acreditar nisso não impede que não sintamos a ausência física de uma pessoa e, em casa, foi muito complicado. Éramos cinco e ficámos quatro. Dei por mim muitas vezes a pôr cinco lugares da mesa, inconscientemente... Sempre falámos dele. Continuámos a falar sempre dele, das parvoíces que ele fazia... Era um miúdo muito engraçado, cheio de vida! Há pessoas que mergulham de tal forma no luto que não querem sequer falar de quem morreu. Ou que não tocam nas coisas, como se assim pudessem preservar a presença de quem já cá não está. Nós não. Continuámos sempre a falar dele, mudámos o quarto, guardámos apenas alguns desenhos e demos as suas roupas. (...)  
Se não tivesse passado pela morte do meu irmão, não sei de que forma teria sido capaz de passar pela morte de uma das minhas maiores amigas. Não teria seguramente reagido como reagi. Éramos muito, muito amigas! E conforta-me sentir que não deixei nada por dizer, nunca deixei de fazer nada por ela. Falámos muitas vezes da morte, até por causa da história do meu irmão. E ela dizia-me sempre: “Eu sou imortal! Eu tenho oitocentos e quarenta anos, já ando aqui há muito, muito tempo!” Dizia: “Quando eu morrer, quero que façam uma festa enorme, não quero que ninguém chore por mim. Não faz sentido nenhum as pessoas chorarem por alguém que morreu. Por isso, se eu morrer, celebrem a minha vida, em vez de chorarem a minha morte.”(...) 
Seja como for, não tenho uma dúvida de que tudo isto fazia parte do meu caminho. Não perdi o Pedro por acaso, não perdi a Samanta por acaso. Pelo contrário, as suas mortes foram completamente planeadas pelos deuses. E ambas fazem sentido, ou não teriam nunca acontecido...'  
Joana Cruz, 26 anos

'Tenho a certeza que, do espaço onde está, a Ana pode ver – e vê – a Catarina. Tenho a certeza disso... O horror é não poder interferir. Ela não pode interferir. Mesmo assim, tenho momentos em que estou quase a ceder em vestir à Camila aquilo que sei que a Ana gostaria que ela vestisse... E tenho reacções do género: “Não me chateeis muito, senão ponho-lhe o fato de treino jamaicano...” Ainda há pouco tempo estive em Porto Santo com a Catarina. E houve um dia em que estive na praia com ela do meio dia às seis e meia da tarde. Dentro de uma tenda que comprei, anti raios UV, com um guarda-sol e por cima e, ainda, um daqueles chapéus de palhinha... E senti o insulto da Ana, o seu olhar crítico. Mas não cedi um milímetro. Por isso, imagino o horror com que ela vê, sem poder interferir... Ou melhor, não consigo imaginar... Sempre fomos os dois muito senhores dos seus narizes. Normalmente, quando eu cedia, era porque não tinha mais paciência para aturá-la. Íamos, seguramente, chegar a momentos da nossa vida que seriam muito complicados. A Catarina ia ser uma gestão complicadíssima... E é tão assumido que não tenho a quem pedir opinião que sinto estas coisas todas, como se a Ana estivesse a ver-nos. Mas, aqui em baixo, na Terra, a vida continua... Por isso, se me apetece pôr meias de cores diferentes à Catarina, nem penso duas vezes... Mesmo sabendo que a Ana não só nunca o faria, como nunca me deixaria fazê-lo.' 
Rodrigo Cunha, 47 anos

'É importante que as pessoas percebam que o tempo, por si só, não faz maravilhas! É necessário admitir que, de um momento para o outro, ficámos sem chão e que precisamos de ajuda. E aceitar toda e qualquer ajuda que nos ofereçam. Houve uma altura em que as pessoas me mandavam roupa. Eu, felizmente, não tenho dificuldades financeiras... Mas adorava! Achava o máximo! Um dia, uma amiga minha disse-me: “As pessoas mandam-te roupa?! São malucas! Tu não precisas de roupa!” (Por acaso, até precisava. Porque tinha emagrecido muito, estava a usar dois números abaixo e nada me servia...) Mas a minha amiga achava aquilo ofensivo. Eu, pelo contrário, achava o máximo! Como é que eu me podia ofender com o facto de as pessoas me quererem ajudar? Quando via o saco chegar e pensava na maluquice das vidas que toda a gente tem hoje em dia e que, mesmo assim, alguém se tinha lembrado de pôr umas coisas de lado... achava o máximo! Penso que é esta abertura que deixa que as coisas venham ter connosco. Nós é que, às vezes, nos achamos muito auto-suficientes. Ou já nascemos ligados e conectados com qualquer coisa maior, e talvez haja pessoas assim, como Jesus Cristo, ou então há sempre uma grande solidão, uma perplexidade perante a vida, uma busca sem fim. Há uma solidão chata no ser humano. É preciso ultrapassar muitas cascas para realizar que nunca estamos sozinhos, mas o processo não é nada fácil. A morte do Pedro, de alguma forma, abanou as minhas estruturas, fez com que eu começasse a descascar-me. Não sei se teria sido capaz de o fazer sem esta perda, sem esta tristeza profunda, sem esta dor gigantesca.'  
Matilde Morais, 42 anos