quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

tão balalão, tão balalança

fora do eixo, fico à mercê de pesos e contrapesos humanos. e perco a capacidade de não medir nada, deixando apenas que pelos dois pratos o movimento de cada coisa circule, sem que coisa nenhuma crie o resíduo do fundo e se acumule no meu peito.

fora do eixo, tudo me pesa, ora para um lado, ora para o outro, o equílibrio é instável, se não mesmo impossível, oscilo entre miragens, enjoo com as vertigens que a sensação de estar a pender para o abismo me traz, perco as referências da alma e do céu, de cada vez que as procuro  nas coordenadas da terra e da pele.  parece-me sempre que caio, quando não é o centro que ocupo, parece-me sempre que não pode nascer nenhuma unidade da dicotomia de ser tão balança e estar sempre tão dividida. 

fora do eixo, desdobro-me em esforços para colmatar o que sinto que falta e nem me dou conta de que não falta nada que já cá não esteja. boicoto a leveza, anulo a simplicidade de nada, afinal, ter peso ou medida ou referência, recorro a todos os truques que sei para interditar a mim mesma a simples magia de ser. 

fora do eixo, os altos e baixos sucedem-se e quando subo é a pique e quando desço é a medo e deixo-me contagiar pela crença de que a vida é uma enorme e gigante montanha russa de feira e que não tenho como parar a viagem que aqui vim fazer. fora do eixo, tudo é oposto. o branco e o preto, o bem e o mal, a luz e a sombra.

e então há os dias em que me deixo estar fora do eixo e em que não tenho senão os estilhaços de um espelho onde me vejo aos bocados e em que balanço e balanço e balanço, e os dias em que consigo centrar-me. e aí não há mais esforço nenhum, medida nenhuma, peso nenhum e só as referências da alma me dão as coordenadas para ser, a cada momento, o meu próprio centro. nesses dias, o movimento é como o do vento que passa e que não deixa resíduos no fundo de nada, pois nada tem fundo, e eu estou só de braços abertos a deixá-lo passar.

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