terça-feira, 13 de setembro de 2011

45

diga?
quarenta e cinco.
ah, quarenta e cinco!
e a seguir pegou na chave. era um longo corredor quase sem luz, de um lado e de outro havia portas e em cada uma havia um número. 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29.
diga?
os alagarismos pareciam-lhe aranhiços, como se as portas fossem teias de madeira, punha a chave na ranhura e emaranhava-se nas voltas. uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, mas nenhuma porta abria e então era preciso dar de novo uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, agora em sentido contrário, para poder tirar a chave e experimentá-la na seguinte e repetir tantas voltas quantas fossem necessárias para achar o quarenta e cinco.
se em vez de 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29 visse escrito nove, doze, vinte e dois, cinquenta e sete, trinta e um, quarenta e seis, noventa e cinco, quinze, trinta e quatro, vinte e nove... era mais fácil?
não sabia.
a certa altura, o corredor clareava e, em vez de portas dos dois lados, passou a haver amplas janelas por onde entravam as paisagens mais remotas e mais belas. os pinhais mansos ocupavam uma delas por inteiro e espraiavam-se, indolentes, no rumor seco do verão. logo a seguir, era a chuva que caía sobre um rio plúmbeo, chumbo líquido que lhe trazia à memória o velho bruxo escanzelado que lhe comprimira as margens. fazia frio e através do vidro fosco pode entrever as mansas constelações que em tempos lhe apontara e que espantavam o inverno com o seu brilho perfeito. mais um passo e debruçava-se a saudar a lunar circunferência do amor, emoldurada pelos espelhos dos seus sonhos e reflectindo toda a esperança que sentia de cada vez que se banhava no seu colo de algodão doce. do lado oposto, o caixilho era de flores e o parapeito um extenso campo de onde colheu ervas de cheiro, frutos exóticos e várias espécies de sementes para a viagem.
quando de novo se estreitou - o corredor -, não deixando sequer espaço para haver portas ou janelas, nem de um lado nem do outro, manteve a chave no bolso e esperou quieta que surgisse a novidade. não tardou a acender-se uma minúscula clarabóia logo acima dos seus olhos e foi na sua direcção que se esticou. primeiro as mãos e o contacto estonteou-a, porque a luz tinha textura e a sentiu colada aos dedos. elevou depois o tronco e reparou como o chão se dissolvia. tirou a chave do bolso e meteu-a na ranhura do seu peito e de repente abriu-se o céu.
45.
diga?
quarenta e cinco!
repetiu, dando ordens ao seu corpo para que a acompanhasse, mas mais nada se moveu e já nem sequer fez caso.
o que é que disse?
que há-de voltar para o recolher quando acordar.
ou talvez não e repetiu:
45.


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