domingo, 21 de agosto de 2011

passo a passo

eis que se acerta o movimento de tentar mais uma vez entrar cá dentro e mudar de sítio as coisas que aqui estão há tanto tempo. a infância cristaliza a tal ponto as emoções que ao lá voltarmos, já crescidos, e como quem vai de visita, não queremos reconhecer-nos, muito menos abraçar-nos, não vá tudo o que deixámos lá para trás trazer de volta o que sentimos nessa altura, na maior parte das vezes sem que houvesse explicações. 

eu, por exemplo, sempre que volto aos pinhais e que me sinto cansada, opto por sentar-me um pouco e nem me passa pela cabeça ir pedir colo ao meu pai. pedi tanto, e tantas vezes, e de todas ouvi tanto 'tem perninhas é para andar', que me fui fazendo à estrada com a imagem do meu pai sem colo para mim. e nem o facto de hoje saber que isso é mentira - tenho uma lista que o prova, feita há menos de uma hora - me liberta, por enquanto, do desejo inconsciente da menina pequenina, que gosta de pedir colo aos homens da sua vida.

voltamos sempre à mesma história, a mais antiga deste mundo, por que razão haveria a minha infância de ser a excepção à regra? voltamos ao que sentimos, na maior parte das vezes sem que houvesse explicações, emoções que ninguém nos ajudava a desmontar e que no meu caso diziam: quando o meu pai me dá colo é porque gosta de mim, quando não dá é porque afinal não gosta. 

hoje, já sou capaz de desmontar que, quando o meu pai me dizia 'tem perninhas é para andar' estava provavelmente a dar-me, da melhor forma que sabia, ferramentas para eu tomar as rédeas da minha vida, mas a pobre coitadinha, pequenina e tão cansada, imaginava e construía um pai ingrato, que nunca lhe dava o colo que ela achava que merecia. e então tornou-se forte à força, para provar a esse pai que vai andar até cair, mas com a coitadinha à perna, pois está claro, a envenenar-lhe os passos, de cada vez que lhe dizia, e tantas vezes ainda diz
imagina, tão cansada e ninguém te pega ao colo, mas que injustiça!

depois de chorar as feridas, só dá vontade de rir! mas, para isso, há que ir revisitá-las quando ardiam e sangravam. entrar cá dentro e mudar de sítio as coisas que aqui estão há tanto tempo. há tanto tempo que aqui tenho um pai ingrato, tantos anos de cansaço a esforçar as minhas pernas, tanto colo para me oferecer - e ainda a sobrar para mais - e mesmo forte!, quando a pouco e pouco abraço as minhas fragilidades.

Sem comentários:

Publicar um comentário