quinta-feira, 11 de agosto de 2011

om, om, om


acreditei, durante anos, que um dia eu estaria 'lá'. e 'lá' era um lugar, ao mesmo tempo distante e luminoso, que os chamados 'evoluídos' alcançavam à custa de muitas meditações, abnegações, boas acções e a fé profunda de que somos, todos nós, luz e amor. 
a nova era incutiu-nos esta ideia estapafúrdia de que é possível transmutarmos a matéria mais imunda dos pecados dos mortais e que assim, e ainda em corpo, nos podemos elevar à divina transparência do nosso deus criador, imune a qualquer espécie de 'mal'. 
ah, doce promessa. ainda por cima, validada pelos mais sábios dos 'mestres', sustentada por milagres, por mensagens que provinham de esferas mais elevadas, canalizadas graças ao transe profundo de um punhado de eleitos. 
sim, um dia também eu estaria 'lá'. nesse lugar a que se chama de 'paraíso na terra' e se apresenta como um grande vale de paz onde, enfim, aquietaria as minhas ânsias, amaria tudo e todos, redimiria as minhas falhas e ficaria numa espécie de nirvana, a meditar, tranquilamente, e finalmente protegida dos malefícios das trevas.
om, om, om...
o engraçado é que, quanto mais acreditava que me estava a aproximar desse lugar, mais distante ele me parecia. e, então, empreendia novos esforços. meditava mais um pouco e parafraseava os mestres, lia mais dois ou três livros - ou mais cinco, dez ou quinze -, acendia muitas velas, castigava-me a mim própria por ser tão incompetente, na incondicional tarefa de amar tudo e toda a gente, acendia-me por fora para ver se, assim, as minhas entranhas escuras sucumbiam ao contágio das frases iluminadas que me enfeitavam a escrita, e estava disposta a tudo para alcançar esse vale de paz eterna onde a minha humanidade se iria render, enfim, à sua essência divina. 
deus segredava-me ao ouvido que eu estava no bom caminho, mas, a cada encruzilhada, esperava-me o diabo e... confundia-me. levou tempo a descobrir que a história que me contaram - que a história que me contei - não passa de uma mentira. o inferno e o paraíso não são dois lugares diferentes, separados pelas metáforas que criámos para 'mal' e para 'bem', o diabo é tão divino como deus é diabólico. 
mas vá-se lá entender isto quando para tentar explicá-lo recorremos às palavras. e, no entanto, a verdade é que, para mim, que as mastigo uma e outra e outra vez, as aniquilo, as substituo, as reinvento, as vomito para voltar a engoli-las e alterar-lhes o sabor, elas têm o condão de fazer com que um sim possa ser não e um não possa ser sim e não haver contradição, a não ser quando as obrigo a caminhar num só sentido.
e então há algum tempo que deixei de acreditar que um dia eu esteja 'lá'. afinal, 'lá' é 'aqui'. e 'aqui' é 'lá'. duas palavras, um só sítio. como a luz e a escuridão. como o amor e o ódio. como deus e o diabo. sempre uma só e a mesma coisa, provavelmente separadas pelo dia em que inventámos as palavras e desatámos a querer chamar nomes às coisas.

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