segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

não somos livres

e gemeu. gemia sempre, quando evocava a liberdade, agrilhoado pelas memórias do passado e reparei que, em vez dos olhos,  tinham-lhe arrancado um grito, um grito que não era dele,
era de quem?
de novo nua, uma mulher fechava os olhos e era magra e mexia nos cabelos, que eram compridos, ondulados, e ele gritava que ela o tinha abandonado, mas não tinha, e de novo a nudez era uma máscara para não ter de se despir à sua frente
à frente dela?
à frente dele
e repetiu
não estamos nus nem vamos estar.
palpo às cegas o seu grito e é tão fundo que parece vir de um fundo ainda mais fundo do que as sombras que conheço e se conheço!, tantas sombras, tantos gritos, tantos olhos arrancados
somos livres sim senhor
repeti eu.
passo a escrita a repetir que o amor é redentor, que a liberdade é ser agora aquilo que somos e mais nada, tantos dias a escrever e a despir-me, tantos outros a vestir-me e a pôr máscaras, tantas noites em que, nua, me arranquei tantos gemidos, tanta humanidade à solta quando tocamos no fundo, tantas vidas repetindo este equívoco mortal
tantos nós por desatar
repetiu ele
e é muito injusto...  que justamente este desenho seja o que me leva embora para que, agora, e só agora, eu seja livre.


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