sábado, 22 de janeiro de 2011

arranca-me os olhos

pediu-lhe ela
e vê com eles o que eu não mostro.
não era nem sequer manhã, embora houvesse já laivos de aurora a entrar pela janela. mas lá dentro, lá no fundo dos seus olhos, só havia a noite inteira. ele aproximou os dedos e palpou-a, densa e funda, essa  noite mais antiga do que o tempo e mais escura do que as trevas, quase tão áspera como a fome, quase tão seca como a casca do inverno, aproximou-se dos fantasmas desenhados sobre as pálpebras, da órbita dos pesadelos e do sal condensado da tristeza mareando-lhe as visões e, em vez de os arrancar, cravou-se neles. fez pressão e enterrou-os a caminho do seu peito e ela gemeu. a escuridão mostrou-lhe os escombros. por toda a parte havia sangue, havia pó, cheirava a mofo.
agora vês?
perguntou-lhe ela. 
enterrou-se até ao fundo no seu corpo e mostrou-lhe onde é que, às cegas, ela edificava as sombras. construções que se ampliavam a si mesmas e que o medo alimentava e que eram altas, de tanto terem crescido sem ninguém que as embalasse e que afinal, quando choravam, eram sombras de criança, mas mentiu-lhe e respondeu
não vejo nada.
a manhã já clareava o quarto inteiro e ela já não tinha olhos e o desenho a preto e branco que servira de pretexto aos dedos dele era apenas um presente de natal feito na véspera do milagre e transformado em amor sépia.
a mãe quer este?
e quis sem crer, que a cegueira a consumisse de uma vez, que dos escombros dos seus dedos renascesse um fundo novo, que o natal fosse para sempre não a véspera do milagre que é suposto esperar dele, mas do amor sem cheiro a mofo, e que ele se enterrasse nela e que lhe arrancasse a alma até fazer gemer as sombras.

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