quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

a seco


é isso: cansaço, paz, matéria, som, nudez, crueza, azul, bondade. 
em março
disse-me ela, naquele dia
em março, vais sentir-te mais tranquila e, quando espreito a primavera a anunciar-se na figueira, sei que não estava a mentir e que abril é o mês da liberdade. que as revoluções são a escolha da verdade. que prender-me a um passado é negar ao presente a simples graça de expressar-se e de exprimir-me. 
mas, sim, é verdade
respondi-lhe
cheguei a achar que os corações se estilhaçam como os cravos, que rebentam das espingardas com a pólvora da revolta e que secam quando a sede não se acalma a saciar-se.
hoje já sei que as mudanças são de paz. o mundo nunca irá mudar se não soubermos co-criar dentro de nós a sua imagem e, aí sim, seremos livres. 
em março
confirmou - e reparei que sorria quando o disse
não serão cravos, mas rosas
as rosas bravas?
mas calei-me.
as que vejo por florir e por engano e que são meros botões de inverno.
não são essas,
respondeu, mesmo sem eu ter recitado o poema de Camilo.
e se acaso perguntares o que é que isso quer dizer, sem ser a seco, eu digo: paz, matéria, som, nudez, azul, bondade e talvez ainda acrescente:
quer dizer que há liberdade, sim senhor.

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