sexta-feira, 15 de outubro de 2010

'morrer e renascer'

há vários critérios objectivos que fazem de um livro um 'bom' livro. a qualidade da escrita, a originalidade da história, a construção e consistência dos seus personagens e a forma como se encadeia a narrativa são apenas alguns. e, no entanto, são os motivos subjectivos que nos fazem gostar mais ou menos de um livro. 
gostei mais - leia-se muito! - deste último livro da Maria José Costa Félix. é um livro intimista, quase todo ele contado na primeira pessoa singular de uma mulher que já foi jornalista, que é astróloga e escritora, mãe, avó e, sim, minha amiga. mas nem foi por nada disso que gostei tanto do livro. 
gostei porque, mesmo contado na primeira pessoa, o livro fala de nós. de todos nós que, ao longo desta viagem humana, vamos constantemente morrendo e renascendo para a vida e preparando, dessa forma, o nosso regresso à eternidade. gostei porque é um livro forte, onde as fragilidades ficam à mostra. porque é um livro desassombrado, que desmonta os fantasmas e as assombrações do passado ou da infância ou de onde quer que nos espreitem. porque é um livro claro, que aponta para 'a noite escura da alma'. porque é um livro simples, que nos explica porque somos, afinal, tão complicados. porque é um livro aberto, que não nos deixa mais fechar a porta a tudo o que não queremos ver nem saber. porque é um livro vivo, que nos fala da morte. 
um livro, acabado de nascer e de chegar às livrarias, que nos convida a renascer, a nós também, das nossas cinzas. dos fins doridos e comuns das relações, dos dias tristes, das ausências dos amigos, da solidão das estações frias, das tantas feridas a que a nossa carne é exposta, dos buracos que parecem sem saída e das saudades com que os 'mortos' nos deixaram. 
um livro obrigatório, que afinal não nos obriga a nada senão isto: revirarmo-nos por dentro e sentir onde é que ainda permitimos não nos tornarmos no que realmente somos: seres divinos a viajar por esta terra, humanamente trajados - e tantas vezes artilhados - para experienciar caminhos, mas animicamente dotados da mesma essência de Deus.
 

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