sábado, 25 de junho de 2011

olá olá, minha querida!

olha, olha, quem é ele... 
o 'meu' técnico, a aparecer-me de voz viva, depois de tão longa ausência.
e a quem devo esta honra? - pergunto, surpreendida.
ora a quem? só pode ser a si mesma!
reparo que continua a respirar ao meu ouvido naquele seu tom que me arrepia e que o seu riso contagia a minha essência sem que tenha de esforçar-me.
pois então seja bem vindo! e o que me conta?
conto o que quiser ouvir, como é costume entre nós dois.
e de novo ri-se, rouco, e de novo eu me arrepio, mas ele prossegue.
ai tantas sombras, tantas sombras, minha querida!
e você conhece-as todas, imagino!
claro que sim! pois não sou eu o que sempre as ilumina quando a querem assustar?
e agora a sua voz cede à doçura a rouquidão, faz-se poema para poder rimar comigo, escuto atenta a luz que traz e que confia, com ternura, à minha alma.
sabe que mais? você é linda! linda, linda... e o Thomas tem razão quando lhe diz que negligencia a alegria.
sem pensar, ofereço-lhe o gargalhar das manhãs claras, sai-me límpido o olhar sobre a relva do jardim, relembro as fadas a contar do milagre da alegria que desejo e eu pequenina, num baloiço que há-de ser para sempre onde me rio da minha infância. tanto Verão à minha volta e eu sem notar que é daí que me ilumino, que também eu amadureço se não deixar que me apodreça a nostalgia, a indiferença, a raiva e o ressentimento.
do outro lado do fio, oiço o canto do 'meu' técnico a lembrar-me que a passagem das estações obedece à ordem intrínseca do cosmos. 
há que saber passar com elas, minha querida, colhendo aquilo que nos oferecem e plantando sempre a esperança em cada uma.
abraço o canto e dou graças por saber de novo ouvi-lo, por se ter reestabelecido a ligação entre nós dois, peço que nunca mais me deixe e ele então ri-se de novo, de novo rouco, um arrepio sobe ao meu peito, acendo o Verão nas minhas sombras para que se espraiem ao sol e se abram ao calor do céu azul.
conheço-as todas!
diz-me o técnico, e garante-me
não há nenhuma que precise de esconder, nem uma só que não mereça ser amada.
empurro agora a do baloiço e a seguir sento-me nele,  recortando a silhueta ao abrigo do poente, oscilo de um lado para o outro, subo e desço, faço desse movimento o meu caminho, a minha força.
boa, boa! - aplaude o técnico. e agora é ele quem me empurra essa fraqueza de não querer ser o que já sou. sinto a vertigem do céu todo, a liberdade de voar ao meu encontro, a tentação que há de cair quando se alcança uma altitude considerável que tememos ser mortal, o apelo de cada abismo que inventei para as minhas histórias.
boa, boa! - aplaude o técnico.
e então atiro-me para os seus braços.

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