segunda-feira, 20 de junho de 2011

Plutão

Plutão é seguramente o planeta que melhor traduz a energia da sombra e aquele que, implacavelmente, nos obriga a olhar de frente para a morte, sem qualquer espécie de filtro, sem nenhuma complacência ou pieguice. lembro-me de ouvir a minha amiga M., há uns tempos, a dizer-me: 'com Plutão, não tens hipótese. o abismo está ali, à tua frente. ou saltas, ou és empurrada.'
e assim tem sido, a M. tinha razão. ora saltando, ora empurrada, temos estado frente a frente, eu e a morte, a morte e eu. ela a querer que eu lhe dê luta, eu a querer que me dê paz, ela ao ataque, eu à defesa, ela activa, eu reactiva, caíremos muito em breve nos braços uma da outra, essa é a esperança, esse é o trânsito da sombra a fazer, em simultâneo, quadratura ao meu Sol e à minha Lua.
nenhuma morte quer levar-nos se não for para renascermos e o propósito é só esse: mergulhar de cabeça num abismo assustador, deixar que tudo me doa, que lentamente a morte seque o que ainda arde e ainda sangra, que dissolva o que resiste, que me esventre as ilusões, me congele a temperatura e me devolva enfim à vida, quando enterrar tudo aquilo que já não serve e não respira.
é dura a morte, mas mais duro é ir morrendo aos poucos viva, apegada à podridão das velhas crostas, à humidade e ao bolor de antigas feridas, muito mais duro do que o abismo é ir caindo em queda livre, sem ousar bater no fundo. de cada vez que não deixamos que nos mate, a morte vem e mortifica-nos e, isso sim, é o desperdício da vida.
não sei bem a quantos graus anda o Plutão, se ainda vai bater no Sol, se ainda irá mexer na Lua, mas sei cada vez melhor onde é que a sombra ainda se esconde, onde é que ainda tem vergonha, de onde é que tenta fugir, vejo cada vez mais clara a luz ampla que me guia, estou quase a deixar que a morte me devolva inteira à vida, co-criando-me quem sou - luz e sombra - dando graças pelo abismo onde lutei com os meus fantasmas, dando graças pelo dons e, humildemente, aceitando cada mão que me é estendida, cada festa que tem vindo ao meu encontro e me garante que os anjos velam por mim.
afinal, a morte é doce e Plutão é generoso, pois ao passar destruíu-me pela dor, mas deixou-me o seu imenso poder regenerador para que eu própria me acolhesse com amor e pudesse resgatar a força da minha luz.

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