quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

voltou três dias depois

e tocou-lhe à campaínha com o indicador da mão esquerda, enquanto com a mão direita segurava nos três cadernos. 
a sua consulta é só para a semana
disse ele, quando lhe abriu a porta.
reparou que a bata já não era branca, mas verde, fininha, e que não tinha nódoas de sopa na gola. estava sem óculos, o que lhe tornava os olhos ainda mais negros, as mãos enfiadas num par de luvas assépticas e tinha tapado a careca com um barrete.
peço imensa desculpa
disse ela, que estava de calças de ganga, t-shirt, as mãos com os dedos à vista, o cabelo pelos ombros.
a seguir, e pedindo também
com licença
entrou e esperou que ele fechasse a porta.
pois muito bem!
exclamou ele
já que veio sem consulta marcada, tenho pouco mais de quarenta minutos para a atender.
ela pousou os cadernos em cima da secretária e pareceu estar de acordo que quarenta minutos eram mais do que suficientes para o que lhe queria mostrar. sentou-se, cruzou a perna esquerda sobre a direita, pegou num dos cadernos, abriu-o ao calhas e leu:

'11 de março de 1993
Lucibel pisou o último degrau da escadaria que a conduzia ao átrio do SPLEUG (Sanatório Para Loucos Em Último Grau) com o mesmo ar tranquilo que toda a vida a caracterizara. assim que entrou, levaram-na ao gabinete do director. era muito magrinho e estava sentado numa poltrona eléctrica e com eléctrodos colados às têmporas esquerdas.
- olá Lucibel - gritou-lhe o director, na sua voz alucinada.
- como está? - perguntou Lucibel, e fez-lhe uma vénia.
- não me agrada nada o seu estilo nos diálogos - observou o director. - não podia antes pô-los todos seguidos, sem tracinhos nem linhas?
Lucibel tomou nota 'diálogos sem tracinhos nem linhas' e continuou, parece-me que o senhor director é completamente chanfrado! claro que sou, concordou o director, feliz por reparar que já não havia tracinhos nem linhas. aqui somos todos malucos, comentou o secretário-adjunto, que entrou nessa altura com a bandeja do chá. é servida? obrigado, Alfredo, enterneceu-se o director. para mim é sem açúcar, pediu Lucibel.'

sem que nada o fizesse prever, e sem que ele estranhasse - não se faziam ali previsões de espécie nenhuma e estranheza era assunto para outras conversas - ela fechou o caderno. 
a seguir, pegou noutro, abriu-o ao calhas e leu:

'7 de agosto de 1992
Adriana abriu o caderno que a mãe lhe tinha comprado na papelaria Fernandes com o entusiasmo próprio das meninas da sua idade e a ingenuidade de quem acreditava que, um dia, seria uma grande escritora. tantas folhas!, exclamou satisfeita. ao contrário de Adriana, Lucibel não se impressionava, e muito menos se emocionava ou satisfazia, com o facto de existirem cadernos cheios de folhas em branco por preencher. para ela, eram um desperdício de tempo, tinta e palavras. sabia, além disso, que por mais que Adriana escrevesse, as histórias permaneceriam sempre no mesmo lugar onde ela as tinha inventado, apensas às folhas que se encheriam de gatafunhos a esferográfica, e que nunca poderiam cumprir os seus sonhos. és má, disse Adriana, que tinha este dom de a ouvir a pensar. Lucibel não fez caso. mais cedo ou mais tarde, a escrita esgotar-se-ia numas quantas frases sem nexo, empilhadas umas em cima das outras, mas acabou por dar o braço a torcer. ok, Adriana, até tens uma letra redonda e certinha, os gatafunhos foram só uma metáfora para a inutilidade da tinta e do tempo que gastas a consumir-te.'

o terceiro caderno em que pegou estava forrado com papel autocolante às pintinhas e tinha uma barra de frutos colados em baixo. desta vez, folheou-o, sem ser ao calhas, pareceu-lhe, e depois leu:

'23 de maio de 1993
o fim de semana foi sonolento e Adriana dedicou-o à família. a chuva não incentivava passeios ao ar livre e o tédio instalou-se. no sofá ou isso! nem sempre se pode ter graça, lembrou Lucibel, que escolhera a cadeira em frente ao sofá e ao tédio para se sentar. pois não, concordou Adriana, mas hoje falta-me, sobretudo, a paciência. que pena, lamentou Lucibel, detesto ficar parada na mesma linha. também eu, respondi-lhes. e olharam para mim a pensar quantos mais fins de semana iria pará-las ali, naquele tédio de morte, enquanto lá fora a chuva caía.'

tinham-se passado exactamente trinta minutos, faltavam dez para as cinco, era segunda-feira, lá fora estava um dia radioso de sol, ali dentro tinha caído um silêncio soturno. foi ela a primeira a quebrá-lo.
não estou bem a ver de que forma é que isto possa causar-nos problemas
e olhou-o nos olhos.
o facto de você ser completamente tarada deixa-me desconfortável
confessou ele.
ela riu-se, pegou nos cadernos, depois levantou-se e despediu-se com um aperto de mão. quando estava quase na porta, ainda lhe disse
com que então completamente tarada?!... essa é boa, ó doutor!

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