quinta-feira, 7 de julho de 2011

os esplendores da luz perpétua *



Se a morte viesse a ser mais do que um sonho, não gostaria que Nosso Senhor a encontrasse no desmazelo dos últimos dias. O cabelo desalinhando-lhe as rugas na testa, a camisa de noite com nódoas de abóbora, borboto nas meias, vincos nos ossos, a dentadura à solta na boca murchando-lhe o riso e tornando mais magras ainda as pregas do rosto. Nosso Senhor não merecia aquela preguiça! Iria tomá-la pelo desencanto a que os velhos se entregam quando já ninguém quer saber deles para nada e, no seu caso, era ingrato, pois sempre tivera os sobrinhos a velar-lhe a velhice, até ao ano passado tivera saúde para ir à missa todos os dias, tinha a Deolinda no quarto dos fundos e, embora agora só fosse à missa aos Domingos, na companhia de Clara e de uma bengala que lhe amparava o reumático, rezava todas as noites, ultimamente com redobrado fervor, para que Nosso Senhor lhe enviasse um sinal a dizer se a Vida Eterna estaria para breve.
Não sendo velhinha, velhinha – fizera oitenta e seis anos em Março e agora era quase Novembro – estava moída e magrinha. Doíam-lhe as cruzes, o descompasso das extra-sístoles causava-lhe enjoos, nos últimos dias fora acometida por um ataque de gota que a deixara de rastos e lhe confinara os ossos à cama. E, no entanto, estava de consciência tranquila e o sonho da última noite fora bem claro.
 Felizes os servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes
dissera-lhe o anjo.
Muito mais claro do que os outros, um sonho muito mais nítido do que os das penúltimas noites, em que a seguir não havia mais nada, apenas o mesmo anjo de sempre, de caracóis loiros e rosado, olhos azuis transparentes, manto pálido, e que lhe dizia:
 Felizes os servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes
Logo depois acordava, normalmente a suar, o coração martelando-lhe o peito, tocava o sininho, chamava a Deolinda.
 - Tive outra vez aquele sonho!
E ela enxugava-lhe a testa e dizia:
 - Vai ver que já passa, minha senhora, isso já passa, vai ver.
Mas era precisamente o contrário o que queria: que não passasse, que não acordasse a suar, que não fosse preciso chamar a Deolinda, que continuasse a sonhar até vislumbrar um sinal inequívoco. E com tanto fervor implorou que, nessa noite, o anjo entoara para ela o pedido das paisagens celestes.
 Dai-me senhor o eterno descanso
 nos esplendores da luz perpétua
De um momento para o outro, abriu-se no sonho um imenso túnel de luz, vozes e asas entorpeceram-lhe a alma, uma coisa mesmo própria dos sonhos!, mas não acordou e subiu mais acima, ao extenso campo de azul onde a terra se dobra e o Paraíso desponta, quase alcançando o milagre divino. Lá no alto, no cume do sonho, a miragem perpétua da luz bateu-lhe de frente nos olhos e os maravilhosos esplendores do Reino de Deus ficaram subitamente mais perto. Podia quase tocá-los, mas nem sequer isso a fez estremecer. Não suou, o músculo aquietado no peito não lhe deu náuseas. Subiu mais ainda e viu Nosso Senhor envolto num manto lilás, só podia ser Ele, de braços abertos esperando por ela, talvez sentado à direita do Pai, mas isso não via.
 Bem vinda ao Reino dos Céus
disse-lhe, então, a voz doce e benigna apontando-lhe a porta da Sua Eterna Morada, com infinita bondade.
E, no entanto, ao ver-se subitamente naquele desleixo perante o Altíssimo, quis acordar e vestir-se a preceito e, aí sim, hesitou. Estremeceu, recuou dois ou três passos, distanciou-se do anjo, da luz, do Paraíso, e suou. Não queria que Nosso Senhor pensasse que vinha senil ou faminta, que lhe visse as gengivas à mostra e as tomasse pelo esgar moribundo e penado das almas sem redenção, que julgasse que os vincos nos ossos rangiam de incúria ou que as nódoas de abóbora denunciavam preguiça e, por isso, acordou.
Pouco depois, já totalmente desperta, tocou o sininho e chamou a Deolinda para que engomasse o vestido azul escuro com golas de renda. Era discreto, mas chique, talvez um pouco pesado para o Céu, destoando da claridade do sonho, mas não se atrevia a escolher um mais garrido, não fosse Nosso Senhor censurar-lhe a vaidade gaiteira. O azul escuro era sóbrio sem a ofensa do luto, a renda da gola, nas mãos da Deolinda, ficaria um leque de goma, enfeitá-la-ia mais tarde com o alfinete de pérolas, que herdara da avó.
- Nosso Senhor merece o melhor, não achas Deolinda?
A seguir, contou-lhe do sonho e da aflição que sentira ao ver-se perante o Altíssimo naquele triste desleixo.
- Como poderia eu entrar no Reino dos Céus em camisa de noite e sem dentadura, Deolinda, diz lá?
Fiel cão de guarda e servente amorosa há meio século ou mais da família Mendonça Athaíde, a Deolinda nem por um instante hesitou em tirar o vestido azul escuro do guarda fatos de mogno. Tão pouco pensou que a senhora perdera o juízo, ou que o sonho do anjo fosse um delírio febril. Tinha vindo de noite espreitá-la, como sempre fazia, mesmo que não ouvisse o sininho, e a luminescência que emanava do corpo fizera-a supor o mistério divino que se abatia sobre a sua santa patroa. Uma bruma dourada envolvia-lhe a fraca figura estendida ao comprido na cama, respirava baixinho e o compasso no peito era manso, não suava como era costume e quase podia jurar que lhe vira nos lábios o mesmo sorriso intacto dos anjos, irradiando o espanto e a glória dos que foram eleitos para viver nas Alturas.
Embora menos letrada, com menos horas de missa, recolhimento e genuflexões no confessionário do Padre Gregório, mais pesos na alma e mais pecados no corpo do que o seu porte ou carácter deixavam supor, há anos que testemunhava o fervor e a fé da senhora dona Maria do Carmo, admirando-lhe a compaixão, o altruísmo e a autenticidade.
A julgar pela forma exemplar como sempre vivera e se entregara a actos bondosos, estava segura de que mereceria o Reino dos Céus no exacto momento em que deixasse o mundo dos vivos. Se havia na terra alguém que merecesse o Paraíso Divino era a senhora dona Maria do Carmo de Mendonça Athaíde, puríssima noiva do Redentor, devota de Nossa Senhora, de S. Francisco de Assis e de Santa Teresinha, ela própria uma enviada dos céus, assim a via a Deolinda, que prontamente acorria aos enfermos, aos pobres e aos desvalidos, que dedicara a vida à paróquia e que acolhera os sobrinhos, Clara, Afonso e Pilar, numa materna doçura de virgem depois de os três terem ficado órfãos de mãe e de pai.  Há mais de meio século que entrara ao serviço e nunca lhe surpreendera uma falha, nunca a vira omitir o mais pequeno tremor, nunca lhe ouvira palavras injustas nem a surpreendera em movimentos ou actos que não fossem de amor, ou em poses que de alguma forma contradissessem a sua conduta irrepreensível de pura cristã.
Foi, por isso, com a certeza de que, mais logo, mais tarde, a senhora dona Maria do Carmo repousaria no seu eterno e merecido descanso junto ao Altíssimo que se apressou a ir engomar-lhe o vestido (...)


* primeira parte de um conto de um livro de contos, em que conto voltar a pegar num destes dias.

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