segunda-feira, 31 de outubro de 2011

noite das bruxas


e eu, que sempre vivi guiada por fadas, abro mão da magia e dos pós de encantar e mergulho. 
acendo o fogo e mergulho, para que me arda o passado e se queimem todas as feridas que teimo em abrir, de cada vez que acredito que sou este corpo de sangue e de carne.
diziam os celtas que dois deuses gémeos reinavam nas duas metades do ano. ao deus luminoso, cabia a metade do ano que ia do fim do inverno até à metade do verão, ficando o resto do ano entregue ao deus gémeo - o da escuridão. 
longe de ser um deus 'mau', o que reina a partir desta noite não representa mais do que o declínio da natureza, que em paz adormece e se retira para dentro da terra, de forma a poder renascer quando, de novo, o deus luminoso vier tomar conta da sua metade do tempo.
à semelhança das árvores, deixo que as folhas me caiam, sem temer a nudez nem o frio do inverno. deixo que a terra me acolha numa humidade de ventre materno, que os planos se cruzem sem véus e que do outro lado me atendam as preces. que o fogo consuma tudo o que já não me serve e que a chuva abençoe todas as minhas entregas. condenso o silêncio nos dedos, que entoam canções de embalar à medida que os pouso nas teclas, e deixo que os dons se recolham, mas não que adormeçam. 
a grande roda da vida não pára quando tudo mergulha na terra e se aquieta, há no ventre do fogo uma chama que chama o meu nome e que as bençãos da chuva, ao invés de apagarem, tornam ainda mais claro, quando o pronuncio dentro do peito.

sábado, 29 de outubro de 2011


tens a sensação de que escreves melhor quando sofres? 
perguntou-lhe ele. 
mastigou nos dedos as dores que as palavras convocam quando lhe suam as mãos, o embate no peito de cada vez que se debruça sobre o teclado do computador, há dois dias apenas havia ainda a janela por cima dos olhos e a luz entrava de frente, voltará provavelmente a trocar o lugar de tudo o que saiu do lugar, a figueira poderá nascer da parede e as folhas farão sombra ao anjo de loiça que, não sendo da guarda, ampara agora tudo o que de branco existe num livro começado há que tempos.
não sei, 
respondeu. 
e revolveu e reviu as letras que costumava alagar em prantos de insónia, as vírgulas parecendo soluços e os pontos finais em todas as histórias que lhe traziam de volta a lembrança das feridas antigas, a noite quando lhe entrava pela janela e a escuridão lhe batia de frente, revolve e revê o vulto da sombra no círculo da relva, a lua no céu a crescer ao relento e o espaço que foi nascendo entretanto, permitindo-lhe enfim que os passos sejam maiores do que as pernas, que nem sequer precise de pernas para sentir que caminha, retoma a dança que sente pulsar-lhe no peito só porque está viva e tão grata por tudo, e de novo o desenho é só um pretexto. 
tudo, afinal, é só um pretexto, quando à falta de rumo há alguém que se sente perdido. quando é tão fundo tão fundo que dói que respirar se torna impossível.
há quem para criar precise de se destruir, disse ele então, ao mesmo tempo que da janela a espreitava, atingindo agora os seus olhos de frente. 
provavelmente, 
disse ela.
e repara que nada saiu do lugar, já que nada se move sem o consentimento dos anjos, que o vulto da sombra no círculo da relva se encheu de nenúfares, que o amor se alimenta do espaço que foi nascendo entretanto e que a lua está sempre cheia, afinal, quer a veja crescente ou minguante no ângulo do peito. e por isso é em paz que contempla as paredes da casa pintadas de branco. sofrer é um verbo que a mente conjuga quando alguma coisa ou alguém ameaça tirar-lhe poder e o desenho deixa de ser só um pretexto, de cada vez que aceita o convite da vida e os dedos entram na dança.


~ sangue ~
deixo que escorra e abro-te as asas. 
obrigada pelas aguarelas. 
é tudo tão breve, já reparaste?

formas



o gelo derrete e continua a ser água. as montanhas desabam e são terra na mesma. as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. o vento amaina e o ar não se esgota.
formas.
só isso.
formas.
casas, árvores, cubos, caixas, pedras, pessoas.
medidas, pesos, tamanhos, enganos.
olhamos para as coisas e vemos as coisas. e quando uma casa desaba parece que deixou de ser casa. e quando uma árvore é cortada parece que deixou de ser árvore. e quando um cubo se amolga parece que deixou de ser cubo. e quando uma pedra é esmigalhada parece que deixou de ser pedra. e quando as pessoas se olham é carne que vêem e depois quando morrem parece-lhes que já não vêem mais nada.
formas.
só isso.
matéria que se condensa para nos dar aparência.
mesa, gato, folha, frasco, caneta, copo, papoila.
consistência, volume, textura, carácter, função.
a tudo atribuímos um nome. sem nomes o que seria da mesa, do gato, da folha, do frasco, da caneta, do copo?
papoila e a forma vem cor de vermelho, a consistência macia das pátalas, o pouco volume que ocupa nos campos, a textura de fino veludo, o carácter éfemero depois de colhida. funciona?
a espuma das ondas, a chuva de outono, o movimento do voo, a cadência dos passos, a ressonância das festas, um acorde menor, o aroma dos corpos... que formas temos para dar-lhes?
a ilusão de que sabemos como é que tudo se chama, de que para tudo há definições, a perspectiva e o ângulo, formas que mudam de fórmula para formar novas formas, milhares de partículas infinitamente minúsculas que brincam connosco e nos garantem que o mundo é redondo.
e o gelo derrete e continua a ser água. e as montanhas desabam e são terra na mesma. e as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. e o vento amaina e o ar não se esgota. e todos os dias milhares de pessoas abandonam o mundo das formas e, afinal, continuam a ser quem sempre foram.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

explicações metafísicas & outras considerações mais ou menos assim


 ~

foi hoje, enquanto nadava. a água tem esta maravilhosa particularidade de me aligeirar o corpo e a alma e só a mente, obstinada e teimosa, vai resistindo à liquidez do convite, mantendo-se à tona e fazendo-me crer que é à superfície que sei respirar. lembrei-me da frase da Frida Khalo que a Zicca postou há dias no FB - 'intenté ahogar mis dolores, pero elles aprendieron a nadar'. lembrei-me da frase que diz 'aquilo a que resistes persiste' e compreendo que as feridas da Frida só podiam mesmo ter aprendido a nadar, ninguém gosta de ser forçado a afogar-se e as dores, provavelmente, menos ainda. 

hoje, na piscina, e para dizer a verdade - se é que alguma vez se diz a verdade - eu não tinha dores nem queria afogar coisa nenhuma e deixei a alma boiar, deixei o corpo avançar deitado de bruços, deixei a mente onde gosta de estar, à superfície, envolta nos seus labirintos sinápticos e assim se passaram vinte minutos ou mais. a seguir, enfiei-me no borbulhar do jacuzzi, pouco depois fui pôr-me a suar dentro da casinha da sauna e foi aí que começaram as vir as explicações metafísicas que tenho a mania de querer encontrar para tudo o que se passa no mundo, sobretudo o mundo que ponho a girar no umbigo. 

o que é que uma coisa tem a ver com a outra, perguntam vocês, ou não perguntam, não sei, e aí é que está o umbigo: provavelmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. mas tantas vezes me esforço para que tenha e é a isso que chamo de 'explicações metafísicas'. por exemplo, imaginem que é suposto eu chegar a um encontro às 10h30, mas que me atraso, ou que me adianto, e que no atraso ou adiantamento me acontece outra coisa qualquer, do tipo encontrar uma nota de 100€ no chão, tropeçar e cair e partir uma perna, dar de caras com alguém que não vejo há que tempos. seja o que for, é só o que é, mas lá vem sempre a explicação metafísica do 'se foi assim só pode ter sido porque isto ou aquilo' ou 'ah, isto foi um sinal para eu perceber que quando me atraso parto uma perna', ou 'se me adiantar de todas as vezes que marco um encontro talvez encontre sempre 100€'
ok. provavelmente, não me estou a explicar muito bem. e observo que é maravilhoso não me estar a explicar muito bem. normalmente, esforço-me por me explicar muito bem. tudo tintim por tintim, sobretudo a escrever, parece que estou a tecer uma teia e ai do fio que fique fora do sítio, não vá a teia deixar de parecer uma teia, mas um emaranhado confuso de fios... e não sei mais o quê.

é. hoje fui nadar. e as considerações mais ou menos assim sobre nadar podiam ser infinitas. as explicações metafísicas sobre o posicionamento dos astros ao longo do dia de hoje e do de amanhã, como acabei de ler ainda há pouco, também no FB, indicam - consta - que são dias bons para 'fechamento do ciclo nos relacionamentos' e para a 'percepção do que deve ser deixado, em definitivo, para trás.'
'em definitivo', neste momento, é algo que não sei conceber. a não ser que, de facto, já tenha passado. a piscina, o jacuzzi e a sauna desta manhã, por exemplo, ficaram em definitivo para trás. assim como o copo de leite e a torrada que comi ao pequeno-almoço. a viagem até às escolas que fiz de manhã com as crianças.
baralhados? não faz mal nenhum! hoje a teia poderá ser confusa para quem está de fora e a vê já tecida. para mim, que estou aqui a tecê-la, a descoberta é que as explicações metafísicas apenas complicam a simplicidade da vida. as considerações mais ou menos assim, que a mente adora e que nunca se cansa de elaborar, são só isso mesmo: mais ou menos assim. 'ah, se me aconteceu isto foi porque a vida me queria dar um sinal' ou 'vou aproveitar a lua minguante para deixar definitivamente para trás um relacionamento.'
pois, pois. e, afinal, é só mais um texto: como outro qualquer.



domingo, 23 de outubro de 2011

fala-me da tua morte

e já tantos falaram. tenho as conversas gravadas, serão já nove ou dez, não me lembro, a ideia do livro entretanto mudou, o título por enquanto mantém-se.
fala-me da tua morte e houve alguém que me disse 'na pior da hipóteses é como dormir sem estar a sonhar' e observei-me a dormir, sem estar a sonhar, e não existe nem uma imagem que possa reter desse sono sem sonhos. e nem sequer faço ideia se é a pior das hipóteses, se haverá uma hipótese pior do que as outras, sei que a ideia da morte nos remete para a finitude dos corpos e que grande parte das nossas angústias vêm daí, de nos sabermos mortais, de nos sentirmos perenes, de estarmos sujeitos à impermanência das coisas, de acreditarmos que há qualquer coisa a separar-nos dos que estão mortos e de nos terem banido da eternidade quando, fisicamente, já não nos tocamos.
não sei. e é mesmo bom não saber. no livro, e aos testemunhos reais dos que ainda estão vivos, acrescentei a ficção dos que falam da morte do lado de lá, tão ou mais vivos do que os que ainda cá estão, afinal, e que encontraram, desse lado de lá, tudo o que imaginaram que encontrariam quando estavam ainda do lado de cá.
não sei. o lado de lá e o lado de cá foram, ao longo de anos e anos, dois lados que me esforcei por separar com muitas angústias e sempre cheia de dúvidas. a percepção, no entanto, é cada vez mais a de que não estão separados, não há um lado de lá, não há um lado de cá, há uma dança contínua de átomos, partículas e sei lá mais que poeiras que a olho nú são invisíveis que se juntam e se separam e de novo se juntam e se separam e que ora nos dão a ilusão da matéria, ora dissipam todas as formas e se consubstanciam na imensidão de um universo perfeito.
não sei. as próprias palavras - morte, morto, morrer - falam de crenças que ao longo dos séculos se entranharam em nós, sempre com muita dor à mistura, rituais mórbidos, pensamentos funestos, cemitérios onde enterramos as lágrimas, como se os corpos que aí deixámos contivessem ainda resquícios de afectos, de festas, de beijos.
e isto sei porque andei anos com o peso da morte a subir-me às entranhas. anos e anos a usá-lo como uma desculpa para me esvaziar de sentido, anos e anos até descobrir que, afinal, talvez fosse eu quem morria, ainda hoje me questiono se a morte não é, simplesmente, uma armadilha da língua, de cada vez que a usamos para significar o contrário da vida.
não sei. se me pedissem a mim
fala-me da tua morte
não faço ideia do que diria. mas sei, isso sei, que sempre que tomo a morte por ausência de vida me estou a enganar a mim própria. de cada vez que acredito que os que morreram se foram embora e me deixaram sozinha, estou a contar-me uma história da coitadinha. sei, isso sei, que a escuridão é onde me apago de cada vez que me afasto de mim, sei que a mente se pode treinar para ser cada vez mais capaz de não acreditar em mentiras, que o sofrimento em que tantas vezes mergulho é um gesto de auto-mutilação, tão humano, afinal, de cada vez que me esqueço que estou aqui, divinamente, a cumprir-me, ao serviço da vida e, tantas vezes, usando a morte como uma desculpa para me mortificar. se for mentira que são coisas opostas, a vida e a morte dançam em mim todos os dias e tudo o que há para fazer é seguir-lhes os passos.
mas nem isso sei. não sei nada, que bom! apenas a história que neste momento escolho contar-me e que, neste momento, seja de vida ou de morte, é de paz. luminosa e azul como esta imagem? sei lá!





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

pré-ocupados

há já muito tempo que deixei de ver telejornais. também não leio jornais. de manhã, a caminho das escolas, oiço as notícias das 8h00, na RFM. são rapidinhas, sucintas. chegam e sobram para ter uma ideia. uma ideia do quê? nem sei bem dizer. o que de verdadeiramente importante vai acontecendo na minha vida e na vida dos que me são próximos não é digno de ser relatado nas notícias das 8h00 da RFM. nem nos telejornais. nem nos jornais. 
há uns anos também, troquei uma entidade empregadora, um salário chorudo e um comodismo agradável pela aventura de ficar por conta própria, sem nunca saber quantos euros iria ganhar ou perder e a liberdade de não ter nem de agradar nem de obedecer a ninguém. ainda não me arrependi! 
há anos que não faço ideia do que é isso de ter subsídio de férias ou de natal, não me passou sequer pela cabeça, quando saí de um emprego onde estava há catorze anos, negociar subsídio de desemprego, ou começar a roçar-me pelas paredes, para me despedirem e levar uma indemnização para casa. na altura, diziam-me que eu era louca. talvez porque somos um povo habituado a reclamar muito os direitos e a cumprir pouco os deveres, não sei. sei que não era ético, sei que para mim não fazia sentido exigir fosse o que fosse ao 'patrão', mas apenas agradecer-lhe os anos de sã convivência e levar da experiência tudo o que me parecesse importante.
a brincar, costumo dizer que hoje sou precária por conta própria. continuo sem saber quantos euros vou ganhar, quantos euros vou perder, e o futuro só me assusta quando me pré-ocupo com ele. aí, sim, fico cheia de dúvidas, fico cheia de medos e é um rol desmedido de 'ai isto' e de 'ai aquilo' e de 'ses'. se há uns tempos me chamavam louca, hoje há quem me chame inconsciente, sobretudo quando reparam que não me pré-ocupo com o futuro. 
ainda ontem, o pai das minhas filhas mais novas alegava o direito de se pré-ocupar com o futuro das nossas filhas. ri-me. ri-me porque me ocupo delas todos os dias. hoje, por exemplo, ocupei-me a acordá-las, dei-lhes beijos, tomámos juntas o pequeno-almoço, levei-as à escola. sim, posso ficar o resto do dia a pré-ocupar-me com elas. não sei se resulta, duvido. observo que pré-ocupar-me raramente resulta.
há uns dias, a Madalena cortou-se. ocupei-me da ferida. pus betadine. a seguir, pus-lhe um penso. tudo com muita calma, enquanto ela dizia 'ai ai ai'. a certa altura, não sei se por me ver calma, a Madalena acusou-me de não estar nada pré-ocupada com ela. ri-me e sugeri-lhe que observasse se a minha pré-ocupação a ajudava. e desatei, também eu, num 'ai ai ai' desenfreado. foi a vez de ela se rir. percebeu que ocupar-me dela era mais eficaz do que pré-ocupar-me com ela. 
sim, é sempre mais eficaz. ocuparmo-nos do que nos é dado a viver a cada momento. na pré-ocupação, o espaço para o presente fica cheio dessa futura ansiedade e os momentos consomem-se, consomem-nos, tantas vezes sem darmos por eles. e, sim, continua a haver muitos dias em que, também eu, me pré-ocupo. e por isso conheço bem a diferença: entre os dias em que estou pré-ocupada e os dias em que estou, simplesmente, ocupada. agora, por exemplo, estou ocupada a escrever este texto. podia pré-ocupar-me a pensar se alguém irá lê-lo, pré-ocupar-me com o que vou fazer a seguir, pré-ocupar-me com tantas outras coisas, sei lá.
e a culpa, ah, a culpa! dos políticos, dos ladrões, dos lobbistas, dos ricos, dos outros, pois. todos tão pré-ocupados com o que os outros fizeram, desfizeram, tiraram, roubaram e por aí fora. e 2012, meu deus!, a pré-ocupação que por aí vai e, afinal, hoje é dia 19 de outubro de 2011 e de 2012 não há nadinha, nadinha que se possa, hoje, ter a certeza de que irá existir.  ou há? se houver, por favor digam...

e e ok. pré-ocuparmo-nos com o futuro. com o corte dos subsídios, com a falência do estado, com as pensões vitalícias dos políticos, com a saúde da prima, com as negativas do filho, tudo serve, afinal, para nos pré-ocuparmos...

hoje, escolho ocupar-me com o presente. olho pela janela e vejo a figueira. calculo que não esteja minimamente pré-ocupada com as folhas que lhe irão cair, não tarda muito. eu também não estou. pré-ocupada com coisa nenhuma. e é por isso que o espaço cá dentro hoje está assim, livre e desocupado. e então já irei ver o que vou fazer, agora que estou mesmo a acabar este texto. talvez pintar...