sexta-feira, 6 de abril de 2012

tantas!



as coisas que tenho para te dizer e que trago guardadas à espera do dia em que me saibas ouvir. não é falta de tempo nem de vontade nem de paciência, é simplesmente não teres ainda focado a tua atenção no meu peito e continuares à procura do movimento e dos sons nos meus lábios. como se as coisas que tenho para te dizer estivessem no movimento e no som das palavras. não estão e é por isso que as trago guardadas. para já, estão guardadas em mim até sentir que és capaz de as ouvir sem que eu diga nada. parece-te estranho e eu sei, que achas estranho o silêncio atrás do qual me resguardo, estranha esta maneira que tenho de falar contigo sem que os músculos do meu aparelho fonético se ponham em marcha, estranha a possibilidade de poder haver um canal onde nenhum ruído humano interfere nas mensagens que o céu nos envia.

sim, podia escrevê-las aqui, é verdade, essas coisas que tenho para te dizer, mas que esperam pelo dia em que possas focar a tua atenção no meu peito. posso escrevê-las agora e esperar que as descubras, que afinal se revele o que guardo através de um canal de néon. mesmo não sendo sequer parecido com a luz que entrevejo cá dentro, é perfeitamente capaz de acolher o que sinto. aviso, porém, que aqui sim, há ruídos que podem interferir, ruídos humanos, como a polpa dos dedos tocando nas teclas, mas também o ruído dos pássaros todos lá fora, a esvoaçar sobre a relva e a debicar a roseira, o murmúrio do mar lá ao fundo, de cada vez que desata a dar beijos à areia, a plenitude da lua a encher-se de branco e hoje estará cheia, em Balança, homenageando, talvez, os desequilíbrios humanos e as metades que nem sempre sabemos juntar para nos tornarmos inteiros. a lua em Balança, o sol em Carneiro, é-me familiar o eixo que liga os dois astros e o desejo de que se encontrem a meio do caminho.

tantas!, já reparaste?, as coisas que já nos dissémos e que não passaram de ideias, as palavras todas com que afastamos presságios, a ilusão de que fazem sentido, a evidência de que geram equívocos. trago mil coisas guardadas cá dentro que só são verdadeiras porque não são dizíveis. mil coisas guardadas à espera do dia em que não seja mais preciso dizê-las porque as sentimos tal como são e não como nos parecem, quando são ditas e ficam aquém do que somos. 
como os olhos às cores que colei por cima dos teus e que apenas nos provam que a humanidade, no que a ti diz respeito, olha para o mundo através do azul. fosse eu acreditar que era só isso, humanidade e mais nada o que os teus olhos revelam, e nunca seria capaz de ver para além dela. e, no entanto, aqui estamos nós, separados pela distância ilusória do espaço e as nossas almas livres no éter, acima dos planos comuns que traçaram para os dois quando descemos à terra e as moldámos à carne e ao quotidiano. 

e, sim, é possível que de repente nada faça sentido, que tenhas perdido o fio à meada, que aches estranho o que eu escrevo, que não seja nunca possível dizer-te o que trago guardado a não ser que se deixem de ouvir os ruídos humanos que interferem com o desejo das almas. o que sei, o que sinto, é que vivemos cheios dos caprichos humanos, cheios dessa vontade comum dos mortais de esgotarem as forças, vivemos a acreditar na separação e na dualidade do preto e do branco. e, sim, agora perdi o fio à meada e a leveza que hoje sinto nem sequer vem das coisas que trago guardadas para te dizer, mas da certeza de que não há nada que te eu possa dizer que tu ainda não saibas.

e mais?


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