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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

sabes?

(eu sei que tu sabes)

no Domingo passado, quando escrevi que nunca mais voltei à Capela do Rato, estava a mentir. de facto, voltámos lá os dois em Abril, a clarabóia no tecto era a mesma, estava um dia de sol e a luz era a pique que entrava por ela, não nos sentámos nos degraus do altar, mas nos lugares das pessoas crescidas. foi um alívio tão grande ver que, em vez do Cristo pregado na cruz, havia agora um paínel com uma pintura de flores e que a viola do Pepe era a mesma e que ambos sabíamos, ainda, as canções, e foi bom termos estado os dois de mão dada, durante a homilia que já não me lembro do que foi que falou, mas que calculo que fosse inspirada, como as homilias do Pe Alberto. 

a seguir fomos para casa e deitei-me na relva...

hoje voltei a sentir esse milagre de haver amor e bondade no mundo, ainda que nem sempre saibamos como é que ele se dá, nem como, nem onde. mas voltei a senti-lo, esse milagre do pão e do vinho que se transformam no corpo e no sangue de Cristo, voltei a sentir-te na minha carne e que estamos unidos em espírito.
onde é que isso nos pode levar ainda não sei. como te disse outro dia, não prevejo um cais de chegada - nem para nós, nem para ninguém nesta Terra - onde um dia atracamos o barco e para sempre ficamos a salvo das tempestades do mar, mas uma rota que vamos traçando ao sabor de marés e correntes. pode até ser que, um dia, o meu barco rume para norte e o teu se aventure a caminho do sul e, mesmo assim, o céu debaixo do qual navegamos seja um só e o mesmo, pintado de azul ou de outra cor que no momento possa compor a paisagem mais certa.
pode ser tudo e tu sabes. pode ser nada, e também sabes. sabes, até, que aquela história, de três capítulos, de eu ter metade da tua idade e tu o dobro da minha e de nos sentarmos os dois, nessa altura, nos degraus do altar da Capela do Rato foi um só 'romance' de escrita.
a verdade é que a nossa história se vai inscrevendo dentro de nós e revelando o silêncio que nenhuma palavra sabe dizer.

é por isso em silêncio que hoje agradeço - de novo - esta fé de que não há como não crer na alegria benigna da luz, não há como não querer a redenção natural de todos os seres através do amor.

domingo, 3 de outubro de 2010

hoje chovo

daqui
não sei quem foi que inventou que chover é um daqueles verbos intransitivos, impossíveis de conjugar na primeira - ou em qualquer outra - pessoa. eu hoje chovo e não me interessa a gramática. chovo como chove lá fora, com a mesma cadência da água que o céu nos envia, o mesmo murmúrio de pingo, até o cinzento da mancha é o mesmo que vejo a cair sobre a relva, a humidade rasa-me a pele, sou molhada dos pés à cabeça.
chover e chorar são coisas diferentes e é por isso que digo que
 hoje chovo.
ontem chorei, é verdade, mas hoje chovo como um verdadeiro dia de outono que sente o vento a libertá-lo das folhas mortas das árvores, deixando que os ramos despidos revelem a sua nudez.
talvez já me prepare para o inverno, ou então é apenas a liquidez do amor a tomar conta de mim e não há nenhum desespero nessa entrega.
apenas a confirmação de que passamos pelas estações, aceitando não só o que cada uma nos traz, mas também o que (nos) leva.

sábado, 2 de outubro de 2010

os dias da sombra


este chega directamente daqui

parei hoje um pouco para pensar em tudo o que já escrevi e, sobretudo, em tudo o que já publiquei. nove livros ao todo, um muito antigo (tinha 16 anos), outro há mais de uma década, os sete restantes ao longo dos últimos três anos.
parei também para sentir que, à minha volta, quase todos perseguem o mesmo: a paz interior, a luz ao fundo do túnel, a consciência de que não viemos à toa percorrer caminhos sem rumo, o encontro de cada um consigo próprio e com os outros, o tal amor incondicional no qual todos desejamos fluir.
trajectos que, tantas vezes, espelham acima de tudo os momentos mais bem conseguidos, ou tudo aquilo que ressoa pelo lado do brilho. basta-me dar uma volta aqui pelo FB para reparar como são tantos - eu própria incluída - os que inundam os seus murais com links ou citações de gurus e de outros 'mestres iluminados', ou mesmo com frases da sua autoria, e em que a mensagem é sempre 'boa'.
tudo isto para chegar onde?...
que andamos todos a tentar 'resolver-nos', não tenho uma dúvida. mas - e agora falo apenas por mim - a máscara da 'iluminada' - que até escreve, inspirada, sobre fadas, almas, desejos, índigos, dias de luz - só poderá começar a cair quando não existir mais o medo de mergulhar a fundo nas minhas sombras e de as trazer à superfície. quando não tiver mais pudor de espécie nenhuma em revelar o meu lado sombrio. acham o quê? que estou 'resolvida'?... 'crescida'? que pratico tudo o que digo? que a Balança supostamente amorosa não tem também os seus ódios?... as suas crises de auto-estima? que não manipulo, não controlo, que não componho cenários idílicos fingindo que já lá estive?!...
os Dias da Sombra são isso. levantar o tapete para ver para onde é que tenho andando a varrer o meu pó e mostrá-lo a quem quiser vê-lo. todos temos os nossos 'tapetes'. todos varremos o pó para lugares onde os outros não possam vê-lo. todos preferimos mostrar onde é que somos feitos de luz - porque o somos, de facto - e esconder as partes que estão na penumbra.
pois eu deixei de ter medo e vou pôr as sombras à mostra.
nem sequer com o intuito de que, expostas ao ar, se dissolvam e me iluminem, mas por fazerem parte de mim e porque estou mesmo farta de máscaras!

(e não, não é um exercício de auto-flagelação na praça pública, apenas... terapia :))

ultrapassadas as primeiras barreiras

de obstáculos - a saber: escolher o template, as cores, as descrições mais ou menos sumárias do que isto não é ou vai ser ou já se adivinha, a fotografia para que as palavras tenham um rosto - o sábado acaba. sinto que a luz já não se condensa na relva e que, afinal, não fui passear, como e com quem gostaria, nem imprimir uma mandalma, como devia e que tem de estar pronta daqui a dois dias, nem almocei nada de jeito e que passei todo o dia sentada à frente do computador e agora doem-me as costas e adoraria que me fizessem uma massagem.

muito bom, para primeiro dia, portanto. e aquela coisa do 'não faças planos para a vida para que a vida não estrague os planos que tem para ti' também hoje se encaixa de forma perfeita na tarde que acaba. e, no entanto, dentro da minha cabeça - que infelizmente não posso arrancar nem consigo ainda aquietar com nenhuma técnica zen - um porquê azucrina-me. ultimamente, tem sido sempre o mesmo porquê, a inquietação de não estar a ser movida pelo meu coração mas por um quindecile que a minha Vénus faz a uma Lua taurina. o que significa, traduzido para leigos, uma 'obsessão'.

as 'obsessões', todos sabemos, são doentias e raramente conduzem a desfechos felizes. mas parece que insisto - ainda - neste padrão. que ainda só vou a meio do caminho nessa descida ao abismo plutónico e que, volta não volta, desato outra vez a trepar por ele acima, com o pânico de que me engula para sempre e eu asfixie. bem diz o António que o mergulho é sem escafandro e as vezes que foram precisas para, enfim, regressarmos à tona irreconhecíveis. mesmo assim, há dias em que fico uma verdadeira medricas e em que não quero saber de mais nada a não ser voltar para a margem segura onde nada se passa e olhar para o abismo apenas de longe.
isso não cura e eu já sei, ficar na margem não cura ninguém. mas hoje queria tanto ter ido passear de mão dada e, se possível, partilhar as paisagens de olhos fechados e manter-me assim, quieta e feliz, até que a noite chegasse e me levasse ao colo para a cama. 

pois sim, há um tempo para tudo e isso às vezes consola. mas, hoje, esse compasso da espera desafina-me toda, que merda!