Mostrar mensagens com a etiqueta porque faz parte de mim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta porque faz parte de mim. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

mãe...






... quando tu eras pequenina, 
o mundo era  a preto e branco?






refaço o caminho e vejo-o, de facto, retratado apenas e só em tons de cinzento. quero convencer-me que era da máquina que não chegava para mais, que essa era a tecnologia da época em que as fotografias a cores ainda não eram assim tão comuns e que o meu pai fazia o melhor que podia e sabia quando captava, a preto e branco, os pinhais e as casinhas em pedra das Lages. quero crer as cores já existiam, mesmo que ainda não fosse possível fixá-las. que quando eu era pequena o mundo era a cores, sim, Luisinha, e que já continha todas as cores que existem em nós. do verde ora manso ora bravo do vento ao azul abaulado e turquesa do céu, do recorte acastanhado das serras ao rubor dos poentes, do ouro das searas de trigo magenta aos pomares em laranja e vermelho-maçã, da brisa lilás do crepúsculo ao brilho de  prata das estrelas, o mundo já era a cores quando eu era pequena, sim, Luisinha e as fotografias de mim pequenina, que vês espalhadas em casa da avó e que me mostram apenas a preto e branco não dizem nada da minha infância nem a repetem como dela me lembro, com as casinhas de pedra das Lages assim, iluminadas por Deus, mesmo quando eu fugia, já nessa altura, para debaixo das sombras...


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

patchamama

suar dentro das entranhas da terra é um ritual ancestral e xâmanico que purifica o corpo e o espírito.
a primeira vez que entrei numa 'cabana do suor' - uma espécie de iglo feita com paus e forrada com panos - foi em fevereiro de 2006.
lá fora, em plena serra algarvia, fazia um frio de rachar e o inverno parecia ter vindo, também, instalar-se dentro de mim. nessa altura, passava por uma crise profunda, a todos os níveis - creio que já era Urano, que iria opôr-se a si mesmo dali a uns tempos no meu mapa natal, a fazer-me um convite e a dizer-me
 deita fora isso tudo que já não te serve!
como em todas as primeiras vezes, sentia algum medo. não temia o calor, nem o escuro da cabana, mas a fragilidade que me consumia baixava as minhas defesas. não fazia a mínima ideia do que iria passar-se lá dentro e o facto de estar numa roda entre estranhos, à frente dos quais iria ter que despir-me, e ao mesmo tempo a sentir que nada em mim circulava, só aumentava a sensação do desconforto.

✻ ✻ ✻

como em todos os 'temazcallis', a cerimónia teve início ao redor da fogueira. dispostos em círculo, começámos por dar graças ao fogo, que nos aquecia naquela gelada noite de inverno, ao mesmo tempo que, em silêncio, pensávamos nas intenções que levaríamos para dentro do ventre da mãe. como se, dali a pouco, a oportunidade que nos ia ser dada de renascermos de novo pudesse alterar muitas coisas nas nossas vidas - sobretudo, nos nossos comportamentos e atitudes.
não me lembro ao certo o que foi que disse em voz alta, já que é sempre em voz alta que expressamos as intenções, para que todos os que fazem parte do círculo possam ouvi-las, mas sei que pedi. pedi tanto... tanto, tanto e tantas coisas! pedir é, afinal, tão humano, não é? pedir paz, pedir amor, pedir luz para o caminho é a prece diária de qualquer ser mortal, que assim tenta livrar-se - ou simplesmente integrar - a dualidade que encarna. pedir que o FOGO derreta os padrões, que a TERRA acolha as sementes e nos dê a colher os seus frutos, que a  ÁGUA dissolva os bloqueios e as emoções negativas, que o AR seja um alento para o espírito... assim pedi eu e pedi isso tudo! na companhia dos quatros elementos, nua e sozinha, despida de máscaras e recolhendo às minhas próprias entranhas, pedi paz e amor e muita luz para o caminho e, sobretudo, coragem para ultrapassar aquela crise profunda em que estava na altura.

✻ ✻ ✻

a intensidade de tudo o que se passou a seguir ficou marcada para sempre - no meu corpo e na minha alma. foram horas em que, esquecida do tempo, numa luta contra o calor que me comia por fora e o escuro que me aflorava por dentro, me desprendi de tudo o que era e me entreguei à mãe terra, como um recém-nascido que não sabe nada das coisas do mundo, mas que se lembra ainda de tudo o que trouxe do céu. lembro-me de estar enroscada, tal como um feto no útero materno, e de ter chamado  baixinho, a chorar, a terra de mãe. e de ela me ter acolhido e me ter abraçado e de só assim ter sido possível suportar tanto suor e tantas lágrimas.
   
✻ ✻ ✻

durante estes últimos anos, repeti o ritual outras vezes e, ontem, pela oitava - número que sempre associo à espiral infinita do movimento do cosmos  - voltei a suar e a chorar nas entranhas da terra.
estava uma noite morna de outono, a lua já não estava tão cheia, mas ainda branca e redonda num céu polvilhado de nuvens e estrelas e, se estou numa 'crise' - e creio que estamos sempre a passar por alguma - a minha é agora de crescimento e de (auto)cura, e já não de  impotência e desespero. não sei se por isso, a minha intenção foi tão clara que não tive uma dúvida quando, em voz alta, a expressei dentro do círculo, de olhos postos no céu e dirigindo-me a Deus
  já pedi tanto, e tantas coisas, e já tanto e tantas coisas me foram dadas ao longo da vida, que hoje venho oferecer-me. a Ti e ao Fogo e à Terra e à Água e ao Ar, para que a cura aconteça, de facto, e curada eu possa Servir na cura dos outros.
posso dizer-vos que foi o temazcalli mais duro, mais difícil e o mais intenso dos oito. e é por isso que me sinto tão grata.

sábado, 23 de outubro de 2010

ando a casar-me

estranha, a expressão? admito que sim. é mais comum ouvir-se dizer 'vou casar-me', 'casei-me', 'sou casada'... mas 'ando a casar-me'? a verdade é que ando. a tentar, pelo menos, que isto de um casamento tem tanto que se lhe diga, tantas voltas e reviravoltas, tantas esquinas e contratempos e, ao mesmo tempo, tantas potencialidades!... a minha sorte é que, desta vez, nenhum noivo espera por mim no altar e o anel que trago no dedo, apesar de ter sido oferecido, foi na condição de ser capaz de assumir um compromisso comigo. é de prata, mas podia ser de latão,  de cobre, de arame ou de outra substância qualquer, já que o mais importante é conseguir 'consubstanciar' corpo e espírito, no sentido mais íntimo, e quase biblíco, do termo: como a presença de Cristo, na Santíssima Trindade, sendo ela mesma. 

pois é, ando a casar-me comigo e a fazer por prometer-me fidelidade, nem sequer até ao fim dos meus dias, mas por toda a eternidade. a jurar amar-me e honrar-me, nas condições favoráveis, mas também nas adversas e a retirar, um a um, todos os véus com que as noivas tapam a cara  e enfeitam cabelos e que, na maior parte dos casos, as deixam às cegas, ou então apenas permitem que vejam o mundo através dos buraquinhos do tule...

não é fácil, creio que é até mais difícil casarmos connosco do que com outro. é muito mais complicado deitarmo-nos todas as noites e sermos capazes de nos abraçarmos sem nenhuma distância ou reserva, mesmo que pareça mais simples ter os braços do outro à nossa espera na cama. é muito mais verdadeiro, embora mais duro, exigirmos de nós fidelidade ao que somos, em vez de andar a morrer de ciúmes com as mentiras e as infidelidades do outro. é muito mais justo dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro nunca dizer 'amo-te'. é fundamental, é visceral,  eu diria, casar-me comigo, para que um dia, então, me case com outro - se for essa a escolha, se for esse o caminho... (e não tenho uma dúvida de que as Balanças é sempre isso que escolhem e sempre esse o caminho que tomam...)

já me casei duas vezes e sei do que falo. a primeira com tudo a que tinha direito - dia marcado, vestido de noiva, alianças, uma capela com vista para o rio, um coro afinadérrimo e uma homilia lindíssima, um copo de água abundante, uma lua de mel numa ilha, dois filhos maravilhosos e oito anos de um dia a dia de enorme partilha e cumplicidade. um casamento que, desconfio, se não tivesse acabado num atropelamento brutal, acabaria de outra maneira (ou talvez não e tudo o que forem especulações não passam de mera retórica e não cabem aqui...)
o segundo não teve dia marcado, nem alianças, nem padre, nem coro, nem capela, mesmo que tenha tido vista para o rio muitas vezes, sobretudo da cama de onde chegaram mais duas filhas maravilhosas, e que me deu, senão um marido, um amigo fiel. foram mais oito anos da minha vida e o facto de ter partido para eles já não vestida de noiva e de branco, mas de viúva e de luto,  talvez tenha feito toda a diferença - mas, mais uma vez, entro no campo das especulações e não quero. separámo-nos há já algum tempo, mas fico contente por termos sabido continuar juntos, partilhando em paz o que nos é comum e assim evitando cair em guerras antigas. 

se o provérbio está certo e 'não há duas sem três', hei-de voltar a casar-me de novo. não faço ideia com quem, nem onde, nem como, nem quando, se vestida de noiva ou de cigana,  se numa capela ou no campo ou na praia, se haverá coro ou apenas um mantra dito em silêncio por ambos, se a lua será de mel ou de uma luz ainda mais doce. por mais que neste momento até possa ter sonhos e desatar a fazer mil projecções sobre o futuro, o presente que tenho para me oferecer é só um: casar-me comigo e prometer ser minha para sempre.

amén.

sábado, 16 de outubro de 2010

das preces que fazemos

nos altares fora de nós, 


como se as pedras e as conchas e até a própria areia
nos fossem estranhas e alheias
  como se o Deus a quem pedimos que ilumine as nossas estradas
fosse outro que não nós
nós inteiros debruçados sobre a nossa própria alma
pedindo dons que afinal sempre tivémos
e que esperam 
simplesmente
que ao mundo os revelemos.


lume brando


o sonho do granito arde à sombra dos pinheiros e o corpo aquece 
quando o estendo sobre as pedras da infância
e o entrego à acalmia dos poentes
como se no céu se acendesse uma fogueira
e o lume brando no teu peito
resgatasse a urgência do silêncio.