em assuntos de astrologia, não sou leiga nem sábia e o pouco que sei é mais intuído do que fruto de estudos profundos. aqui e ali vou lendo umas coisas e aprendendo outras tantas, já fui vezes sem conta ouvir quem realmente percebe a linguagem dos astros falar do meu mapa, eu própria pinto mapas da alma, mas sempre guiada por intuições e por cores, mais do que por definições ou conceitos mentais. afinal, a astrologia é uma linguagem simbólica, onde podemos ver tudo e todos. onde, mesmo sem sermos peritos ou sábios nas coisas dos astros, intuímos do seu movimento as energias que nos dizem respeito e que de nós fazem parte.
uma Lua cheia em Carneiro diz-me respeito, não só porque é nesse signo que a tenho e que, por estar oposta ao meu Sol, em Balança, significa que, quando nasci, às dez e um quarto da noite, estava uma noite de Lua cheia, mas também porque neste momento da minha vida o meu oposto e complementar é Carneiro. sim, Carneiro é sempre o signo oposto e complementar de Balança, mas nem sempre foi o signo do 'meu' companheiro.
hoje, ao ler este texto e a reflexão que propõe, se a isso estivermos dispostos, mergulhei no tal eixo Carneiro-Balança que é, afinal, a relação do eu com o outro. há muitas formas de relacionarmos o eu com o outro. a mais fácil, mais comum e mais tentadora é projectar sobre o outro os desejos e as expectativas que o eu que é nosso transporta e esperar que ele as cumpra. mais cedo ou mais tarde, a frustração de o outro, afinal, ter desejos e expectativas diferentes e não poder, por isso, ajudar a que se cumpram as nossas virá ao de cima. com Saturno neste momento em Balança, as relações que funcionam no pressuposto de que virá um outro fazer-nos felizes para sempre têm os dias contados. a ilusão de que o alívio para as nossas feridas chega em regime de ambulatório pelas mãos de um 'enfermeiro' disponível, gentil, amoroso, impede que se manifeste o dom de curadores que todos nós temos. e o eu tem sempre feridas algures a precisarem de cura, buracos que ao longo dos anos não soube tapar, frinchas por onde a luz escapa, arestas que urge limar. pôr no outro essa responsabilidade é um equívoco a que já cedi muitas vezes. 'anda cá e dá-me colinho e diz que vais amar-me para sempre' é ladainha de belas adormecidas - patetas e alimentadas por anos e anos de contos de fadas - que decidiram que só acordavam quando o princípe viesse beijá-las.
eu dormi muito tempo esse sono encantado e até tive alguns princípes que me beijaram e que prometeram amar-me para sempre, é verdade. e, afinal, tudo em mim continuava dormente. as feridas, ainda, todas latentes, os buracos à vista e eu a escapar-me por eles, a afundar-me e sem querer sair lá de dentro para não ter de enfrentar o mundo da Alice, de pernas para o ar, sem as maravilhas - e sobretudo os maravilhosos - que julgava merecer.
mas a vida não é um conto de fadas e ainda bem que não é. o que não quer dizer que a magia não esteja presente em cada dia das nossas vidas... o perigo é confundirmos magia com ilusionismo e deslumbramo-nos com os seus truques banais. quantas vezes não me deslumbrei eu com coelhos que foram saíndo de tantas cartolas e não achei que o milagre da multiplicação de lenços de seda a sairem dos bolsos eram a prova provada de que, finalmente, um mágico tinha chegado aos meus braços? quantas vezes não quis entrar no baú forrado de estrelas para que as espadas me trespassassem e eu, afinal, saísse inteira e incólume do seu interior de fundos falsos e outras quimeras? quantas vezes não me entreguei a valetes de copas achando que, com esse trunfo nas mãos, o jogo só podia estar ganho?
ilusão e magia são mesmo coisas diferentes! e não há nenhum jogo, a não ser o dos espelhos - e mesmo esse está cheio de armadilhas e permite um sem fim de batotas, de cada vez que não temos coragem para mudar no eu o que o outro nos mostra, e preferimos esperar que seja o outro a mudar o que nele, afinal, não gostamos de ver. a própria Lua, que esta noite será Lua cheia, em Carneiro, não ilumina o meu Sol em Balança, porque o Sol, ao contrário da Lua, tem sempre luz própria.
hoje, o desenho que ilustra este texto e que fiz numa altura em que ainda me deixava iludir pelo brilho ofuscante da Lua - quiça pela personalidade esquizóide que alguém com o Sol e a Lua opostos no mapa sempre revela - vem mostrar-me que o eixo que liga o eu e o outro, apesar de contínuo, é feito de etapas, estações e apeadeiros e que talvez nem agora, depois de tanto caminho já feito, as duas espirais possam unir-se para dar origem ao movimento do oito infinito...
primeiro, é preciso que cada uma seja infinita em si mesma, e inteira, acima de tudo, já que o mito da 'cara metade' é só e apenas outra versão dos contos de fadas. relações assentes na divisão de um ser em metades - tu completas a minha e eu eu troca completo-te a tua - são coisas de telenovela e das tais Belas que adormeceram a vê-las.
talvez eu própria ainda tenha algum sono e outros tantos resquícios de anos e anos de encantamentos, diria que quase genéticos, mas a verdade é que me sinto cada vez mais desperta. bela, mas acordando do sonho infantil das princesas patetas que se enfiam em redomas de vidro e ficam à mercê da chegada dos príncipes. Balança capaz de equilibrar tudo o que em mim não é complementar, mas oposto, tapando os buracos com terra e com ar e com fogo e com água. sarando o que tanto, e ainda, me dói, limando as arestas e ouvindo o meu coração que bate
e que bate
e que bate
e que bate
e desta vez entrando na dança que me propõe, muito mais do que caindo na ilusão de me agarrar a esse pulsar e lhe contar as batidas, para que encaixe numa qualquer pauta pré-concebida que só serve de banda sonora aos romances dos filmes.

