quinta-feira, 31 de maio de 2012

who cares ?



é um bom truque. usei-o milhares de vezes e há dias em que ainda o uso. costumava resultar, este meu truque. com a minha mãe, por exemplo, resultava muito bem. fechava-me no quarto e saboreava a insistência com que ela batia à porta e me pedia 
vá lá, deixa-me entrar.
e eu que não, que não deixava, e ao mesmo tempo desejando que insistisse, que não deixasse de pedir-me
vá lá, deixa-me entrar.
e, às vezes, eu deixava e o bem que me sabia!, confirmar que se importava, que me amava a ponto de não permitir que me trancasse ou que ficasse a tarde inteira a consumir-me, o bom que era ser capaz de consolar-me, mas também havia dias em que ela desistia e me deixava entre a raiva e a frustração, entre a carência e a agonia, imbuída em auto-comiseração e com a certeza - absoluta! - de que, afinal, a minha mãe já não me amava.
o mesmo truque foi usado com o pai, com a avó, com as tias, com amigas, namorados... e assim me afeiçoei a ele. mais do que um truque, era uma forma de aferir até que ponto é que os outros se importavam, até onde é que estavam disponíveis para amar-me e em que medida é que valia a pena investir neles.
e se hoje em dia ainda recorro ao truque, se muitas vezes continuo a erguer muros para que os outros os derrubem e me provem que se importam, para que venham dar-me colo e 'destrancar-me' o coração, também descubro que ninguém, a não ser eu, pode fazê-lo. só eu construo ou descontruo o que me une ou me separa. só eu me importo o suficiente para ir tendo a consciência de que ninguém derruba os muros que vou erguendo à minha volta a não ser eu.



segunda-feira, 14 de maio de 2012

*.






há dias que não cabem nas palavras porque as excedem. 
porque propositadamente as excluem.
..

hoje foi um desses dias *.

terça-feira, 8 de maio de 2012

atiras-te


na direcção dos meus braços e não tenho como não te acolher. há muito tempo que dizes que os abismos te atraem, que passas os dias à beira de precipícios, arribas, falésias, que é para tudo aquilo que te provoca vertigens que corres. mostro-te o disparate que é gostar do assombro quando nele não existe mistério nenhum, apenas lacunas, a inutilidade de te vires despenhar no meu colo com a estúpida esperança do caos...
há uma ordem na pele, ou não sabes?, uma elasticidade nos músculos, uma espécie de amparo na matéria que não permite que as almas se matem, um desígnio qualquer que impede que morram, por mais que os teus ossos estalem de encontro aos ossos do tempo e, mesmo assim, tu atiras-te. atiras-te à espera que eu feche os braços, 
é isso? 
à espera que o precipício te engula, que no chão da falésia o mar te dissolva e que seja a espuma, muito mais do que o sangue, a substância que irá dar brilho às estrelas.
atiras-te, 
vê só que ironia!, 
como se os braços não fossem os teus, afinal, não reparas sequer na penugem que os cobre, como se as asas humanas da mortalidade não pudessem cumprir o desejo que tens de voar, voar em vez de cair, voar em vez de atirar com o corpo para o fundo de um poço que o espaço não tem, voar em vez de mentir e ainda ontem te disse que é só na verdade que posso acolher-te, 
ou não disse? 
já te falei mais de mil vezes nas crenças que temos, mas que não passam disso, mostrei-te lugares que nem as palavras sabem dizer, acolhi-te de todas as vezes em que te atiraste, imagino que na expectativa de adivinhares o futuro e vê só no que deu, repara como é inútil fugir ao presente, a não ser para rapidamente o transformares em passado sem que o tenhas vivido, provado, sem teres saboreado um único dia de chuva, tal era a ansiedade com que esperavas pelo sol,
faz sentido?
é provável que não, que para quem nos veja de fora não faça sentido nenhum, que ninguém compreenda do que falamos, nós duas, quando uma se atira nos braços da outra e a outra não tem como não se acolher a si própria e o disparate que é,
estás a ver?
gostar do assombro quando nele não existe mistério nenhum.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

ontem

um amigo dizia-me que estava cansado das exigências de uma relação. nem sempre percebo, quando os outros me falam dos seus vários cansaços, ou até de outras coisas que sentem, por isso também não sei se percebi qual era, afinal, o cansaço a que ele se referia. porque é dele, não é meu. 
temos esta mania de que somos capazes de vestir a pele dos outros e de sentir o que eles sentem. não somos. mesmo assim, procurei na minha pele o cansaço. procurei todas as relações que me desgastam ou que sinto que exigem de mim o que acredito que não tenho para dar. não houve uma só que escapasse! a relação com a minha mãe, por exemplo. cansa-me ouvi-la a desfiar as doenças e a contar-me das idas ao médico e a pedir-me que dê atenção ao seu sofrimento. cansa-me, a relação com o meu pai, quando me faz mil perguntas sobre o que ando ou não ando a fazer, quando parece exigir que eu faça mais e melhor e me diz que tem pena de me sentir tão aquém das minhas capacidades. cansa-me, a relação com a minha filha mais velha, ultimamente numa montanha de altos e baixos, ora a rir-se que nem uma histérica, com a música aos gritos, ora a chorar-me nos braços e a perguntar-me "porquê" porquê? porquê?" cansa-me, a relação com o meu filho, às vezes tão malcriado que só me apetece dar-lhe tabefes na cara, abaná-lo e perguntar-lhe se acha que a vida é só futebol, obrigá-lo a estudar, pedir-lhe satisfações quando tem negativas nos testes. cansa-me, a relação com as duas mais novas. quando uma quer saber, naquele exacto momento, se pode convidar vinte amigos para os anos - que só irá fazer dali a seis meses - e a outra me esgota a paciência, quando demora vinte minutos a engolir um prato de sopa. 
cansa-me, sim, o quotidiano de que também são feitas as relações. cansa-me ter de gerir as rotinas, as expectativas, as ilusões e as desilusões, os contratempos, os desacertos, os ritmos... cansam-me, acima de tudo, os mil pensamentos que caem, a cada segundo, sem que eu sequer me aperceba. 
no fundo, o que mais me cansa é pensar. 
se for honesta, não é a relação com a minha mãe que me cansa, mas a ideia de que é cansativo ter uma mãe sempre a queixar-se e a expectativa de que seria tão bom se parasse. que descanso seria, se o meu pai nunca mais me perguntasse mais nada, porque só de pensar que vai perguntar, já fico cansada. se a filha mais velha não andasse aos altos e baixos, e os meus pensamentos aos altos e baixos, aos altos e baixos, aos altos e baixos, cansava-me menos. se não pensasse que o meu filho devia pensar noutras coisas, não me cansava a pensar nas coisas em que acho que ele devia pensar.
confuso? talvez. mas reparo que o cansaço, o cansaço maior, vem do que exijo de mim. que a relação que mais me desgasta, e afinal a única que posso mudar, é a que tenho comigo. cansa-me, aquele eu que se queixa e que me pede que dê atenção ao seu sofrimento. cansa-me o eu que me diz que estou aquém das minhas capacidades e que devia fazer muito mais do que faço, cansa-me o eu que vem dar aos meus braços num pranto e que me pergunta "porquê? porquê? porquê?". cansa-me acreditar que devia pensar noutras coisas e, afinal, pensar sempre nas mesmas. cansa-me antecipar, talvez não festas de anos, mas futuros para todos os planos, pormenores para cada um dos meus sonhos, cansa-me sobretudo pensar que provavelmente não sairão como quero, não serão como sonho. cansa-me demorar tanto tempo a engolir tantas coisas e mastigar outras tantas... 
canso-me, canso-me imenso, canso-me tanto, quando a relação que tenho comigo não me satisfaz, quando penso em tudo o que queria fazer, em vez de estar atenta ao que faço, ou quando penso que devia ter feito isto ou aquilo de outra maneira, quando penso em desfazer o que fiz e, em pensamento, desfaço e refaço e desfaço e refaço e desfaço e refaço... canso-me. quando penso mais logo, mais tarde, quando penso "e se?", "e depois?", quando vou buscar provas, acontecimentos, razões para me convencer de que tudo o que penso é verdade.
e então não sei se era deste cansaço que o meu amigo me falava ontem, se era desta exigência da mente, que nos faz estar sempre a pensar numa coisa qualquer, deste constante ir e vir que temos connosco, desta relação entre o corpo e a mente e o espirito, de todas as partes a que é preciso atender para sermos um todo. este cansaço de todos os dias nos vermos ao espelho, de nos relacionarmos com facetas de nós de que não gostamos, este cansaço de nos sentirmos humanos e frágeis e cheios de defeitos e a canseira que é, levarmos com isto todos os dias, sem nunca podermos fugir à relação que temos connosco e, acima de tudo, aos pensamentos que nunca paramos de ter :: sobre nós próprios e sobre os outros.



t e r r a *.


hoje voltei a lembrar-me. já noutro dia me tinha lembrado, quando cheguei ao ar livre e me cheirou a terra molhada. e precisei de tocá-la, porque só o cheiro não chegava, tinha de tê-lo colado aos meus dedos, apeteceu-me esfregar a cara, o corpo, a pele toda, queria que tudo tivesse a textura da terra, como daquela vez na cabana, em que suei e gemi de encontro ao seu ventre.
ando a revolver as águas maternas, talvez seja por isso que choro
ultimamente tenho chorado
tem chovido e o cheiro da terra devolve-me ao útero, reconduz-me às entranhas, aos lagos fecundos e femininos do corpo, às dores ancestrais das mulheres, à gestação dos afectos, à humidade do mundo. 
mães. é disso que tenho andado a tratar e, neste momento, tenho uma a queixar-se, uma mãe de papel que se queixa da ausência do pai, da ausência dos pais, como se assim só fosse metade.
metade de mãe.
levará o seu tempo até que descubra onde é que se parte, pode até ser que nunca descubra, ainda não sei.
chove e a terra traz-me a promessa: não há nada que me separe. e volto ao colo que me dá, de cada vez que me rendo. volto a lembrar-me de tudo, até sem saber o que é tudo. das viagens que faço de olhos fechados, do embalo das marés, da vulnerabilidade das aves, da orfandade dos anjos, coisas que invento, talvez seja disso que constantemente me lembro.
voltei a lembrar-me de mim, de me terem rasgado as entranhas, dos hinos de espanto e louvor que vieram dar ao meu colo, de as cicatrizes, umas por cima das outras, serem a prova inquívoca de que as dores saram.
voltei a lembrar-me de todas as mães que já tive. das mães todas que tenho.
heranças, memórias, paisagens, pinhais e tenho uma mãe que plantou um no campo, manso como convém a quem procura um abrigo debaixo da copa das árvores, mais uma mãe de papel expiando o contágio da carne, nunca sei se é na ficção que imito a realidade ou se é com a vida que atiro para cima das minhas mães de papel, para que me aliviem da carga.
não sei, mas voltei a lembrar-me.
naquele dia, voltei a lembrar-me e hoje, mais uma vez, a chuva promete voltar e molhar tudo em volta: a relva, as memórias, as pálpebras. há uma série de coisas que me atravessam a alma quando verto palavras, quando quero converter o que sinto na escrita, há sempre uma parte que falta, um lugar indizível ao qual as palavras não têm acesso, um intervalo entre a voz e o peito. averiguar a verdade é inútil, portanto. é inútil esquecer-me de tudo e foi disso mesmo que hoje voltei a lembrar-me.

sábado, 7 de abril de 2012

aleluia

que o torpor da morte não nos mergulhe no desespero de uma ausência, mas antes na doce tranquilidade da espera e no milagre de continuados renascimentos. há anos que não vou à missa, os dogmas em que a igreja se encerra estreitaram-me as margens do voo faz já muito tempo, prefiro a eternidade do espaço e do tempo às lei do jejum, a fé ampliada no peito às genuflexões em veludos de confesssionário, quando os homens se deixam levar pela bondade e abrem os braços, vejo neles a mesma penugem que cobre as asas dos anjos.
que me perdoem os crentes, que buscam na liturgia a redenção dos pecados e na hóstia o encontro com deus, a mim faz-me sentido o mundo inteiro e cada um dos seres que o habitam morrendo e ressuscitando a cada dia que passa, faz-me sentido o céu mudando de tonalidade ao longo do dia, a comunhão de todos os seres numa essência comum, faz-me sentido experienciar deus nos gestos mais simples do quotidiano.
cristo não é sequer - para mim - uma metáfora do mártir, mas um homem comum que soube elevar-se acima dos condicionamentos e das contrariedades e dos caprichos e que, benignamente, deixou que a sua luz ficasse ao alcance de todos aqueles que escolhem viver de olhos abertos.
aleluia e talvez o significado da morte não seja mais do que um momento de pausa, um intervalo entre o que fomos e o que iremos ser, a conscência de que a cada instante das nossas vidas somos tudo o que somos e de que há uma páscoa presente em cada uma das nossas células. e se é certo que os homens precisam de histórias, que precisam de uma linguagem de símbolos para se situarem na realidade dos mitos, não é menos verdade que a alma se sobrepõe aos arquétipos. de que nos serve a celebração do mistério pascal se ao longo do resto do ano, se ao longo do resto da vida, não formos capazes de ressuscitar do sono mortal de todas as noites e de, a cada manhã, nos descobrirmos abençoados pelas infinitas possibilidades de recomeçarmos tudo de novo?

sexta-feira, 6 de abril de 2012

tantas!



as coisas que tenho para te dizer e que trago guardadas à espera do dia em que me saibas ouvir. não é falta de tempo nem de vontade nem de paciência, é simplesmente não teres ainda focado a tua atenção no meu peito e continuares à procura do movimento e dos sons nos meus lábios. como se as coisas que tenho para te dizer estivessem no movimento e no som das palavras. não estão e é por isso que as trago guardadas. para já, estão guardadas em mim até sentir que és capaz de as ouvir sem que eu diga nada. parece-te estranho e eu sei, que achas estranho o silêncio atrás do qual me resguardo, estranha esta maneira que tenho de falar contigo sem que os músculos do meu aparelho fonético se ponham em marcha, estranha a possibilidade de poder haver um canal onde nenhum ruído humano interfere nas mensagens que o céu nos envia.

sim, podia escrevê-las aqui, é verdade, essas coisas que tenho para te dizer, mas que esperam pelo dia em que possas focar a tua atenção no meu peito. posso escrevê-las agora e esperar que as descubras, que afinal se revele o que guardo através de um canal de néon. mesmo não sendo sequer parecido com a luz que entrevejo cá dentro, é perfeitamente capaz de acolher o que sinto. aviso, porém, que aqui sim, há ruídos que podem interferir, ruídos humanos, como a polpa dos dedos tocando nas teclas, mas também o ruído dos pássaros todos lá fora, a esvoaçar sobre a relva e a debicar a roseira, o murmúrio do mar lá ao fundo, de cada vez que desata a dar beijos à areia, a plenitude da lua a encher-se de branco e hoje estará cheia, em Balança, homenageando, talvez, os desequilíbrios humanos e as metades que nem sempre sabemos juntar para nos tornarmos inteiros. a lua em Balança, o sol em Carneiro, é-me familiar o eixo que liga os dois astros e o desejo de que se encontrem a meio do caminho.

tantas!, já reparaste?, as coisas que já nos dissémos e que não passaram de ideias, as palavras todas com que afastamos presságios, a ilusão de que fazem sentido, a evidência de que geram equívocos. trago mil coisas guardadas cá dentro que só são verdadeiras porque não são dizíveis. mil coisas guardadas à espera do dia em que não seja mais preciso dizê-las porque as sentimos tal como são e não como nos parecem, quando são ditas e ficam aquém do que somos. 
como os olhos às cores que colei por cima dos teus e que apenas nos provam que a humanidade, no que a ti diz respeito, olha para o mundo através do azul. fosse eu acreditar que era só isso, humanidade e mais nada o que os teus olhos revelam, e nunca seria capaz de ver para além dela. e, no entanto, aqui estamos nós, separados pela distância ilusória do espaço e as nossas almas livres no éter, acima dos planos comuns que traçaram para os dois quando descemos à terra e as moldámos à carne e ao quotidiano. 

e, sim, é possível que de repente nada faça sentido, que tenhas perdido o fio à meada, que aches estranho o que eu escrevo, que não seja nunca possível dizer-te o que trago guardado a não ser que se deixem de ouvir os ruídos humanos que interferem com o desejo das almas. o que sei, o que sinto, é que vivemos cheios dos caprichos humanos, cheios dessa vontade comum dos mortais de esgotarem as forças, vivemos a acreditar na separação e na dualidade do preto e do branco. e, sim, agora perdi o fio à meada e a leveza que hoje sinto nem sequer vem das coisas que trago guardadas para te dizer, mas da certeza de que não há nada que te eu possa dizer que tu ainda não saibas.

e mais?


despregar os olhos da cruz


que o sofrimento engrandece e que aumenta exponencialmente as hipóteses de nos tornarmos mais fortes, mais sábios e mais evoluídos, já todos sabemos. e não é para quem quer, é só para quem pode, como se se tratasse de um luxo, de um mérito reservado aos eleitos, de uma qualidade dos mártires, embora também assole, afinal, todo e cada um ser mortal que se preze, feito da carne comum que a todos nos cobre. sofrer. sofrer muito. sofrer até que não haja mais nenhuma célula que não lateje de dor. sofrer nem sequer até dizer chega, porque não há nada que chegue, nem sempre há algo que faça passar, alguma coisa que cure, que alivie, a não ser sofrer ainda mais e aguentar firme, enquanto mágoas e dores nos rasgam por fora, ao mesmo tempo que nos comem por dentro. 
temos todos dias assim, vidas assim, manias assim. a imagem de Cristo na cruz, com as mãos e os pés esventrados por pregos e coroada de espinhos, deixou-nos gravada nos genes esta certeza de que só quem sofre até aos limites pode algum dia vir a alcançar as alturas, o paraíso, o reino dos céus. experimentem passar os vossos dias na calma beatitude dos que não padecem de qualquer espécie de mal, dos que não se queixam de nada, não são acometidos por espamos nem febres e verão como é pouco o respeito que colhem em troca. quem não sofre, por pouco que seja, não é digno de compaixão, de carinho, de mimos. tão pouco é normal, já que o normal, humanamente falando, é sofrer. e então agarramo-nos à normalidade, agarramos-nos ao sofrimento, carregamos cruzes às costas até ficarmos em sangue, até ficarmos exangues, esventramos os pés e as mãos e o peito e exibimos as feridas como se fossem medalhas de guerra. e assim vamos ganhando algum mérito, conquistando a compaixão dos que nos rodeiam, que nos pegam ao colo e que nos fazem festas e que nos limpam as lágrimas, ao mesmo tempo que dizem "pronto, pronto, já passa". com sorte, somos aquele ou aquela "que já sofreu tanto" e isso, de certa forma, dá-nos estatuto, dá-nos credibilidade, dá-nos alento e razões para não abrirmos mão de tudo o que nos queima por dentro. não concebemos sequer a possibilidade de o sofrimento ser só uma ideia, um conceito, um preconceito, uma herança. e sofremos até quando não queremos sofrer. sofremos para não sofrer mais.
despregar os olhos da cruz é negar a nossa própria humanidade e é por isso que nos é tão difícil fazê-lo. quem seríamos nós, sem dores e sem feridas? quem seríamos nós, se não houvesse mais nada de que nos queixássemos? quem seríamos nós, se Cristo afinal não tivesse sido cruxificado? e, no entanto, todos nós temos dias assim, pedaços de vida sem dor, momentos em que despregamos os olhos das feridas, alturas em que sofrer nos parece, afinal, o maior dos absurdos e o desperdício mais estúpido. quase me atreveria a dizer que, quando largamos as nossas dores, quando as esquecemos, quando nem sequer nos lembramos que as temos, não sabemos quem somos. a leveza que toma conta de nós parece irreal, levitamos como se não houvesse mais peso, tornamo-nos anormalmente felizes. humanamente, porém, é impossível que o sofrimento nos tenha deixado para sempre a gozar dessa anormalidade, ou então seríamos anjos ou qualquer outra coisa que a matéria não pudesse atingir. 
mas somos humanos, pois é. não deixou de haver carne nem sangue, não deixou de haver cruz, não se escoou do nosso corpo a memória das dores ancestrais, nem nós saberíamos o que fazer se o lugar onde sempre as guardámos desaparecesse sem deixar rasto do nosso mapa genético. e, de novo, sofremos. sofremos tanto, sofremos por tudo, sofremos por nada, sofremos até quando não sabemos por que é que sofremos, quase como se a dor fosse uma prova de vida, uma garantia de que continuamos aqui, uma maneira de ocuparmos o tempo, um mérito que um dia nos fará ser merecedores da redenção e da glória dos céus. 
e então desprego os olhos da cruz, palpo o meu corpo e não encontro uma única chaga, não há sequer cicatrizes de feridas antigas, não me dói nada. desfaço a noção que tenho de mim como um punhado perene de ossos, de órgãos, de células, de músculos e nada lateja. ponho as mentiras de lado e desligo os ecrãs onde, repetidamente, se projectam todos os filmes desde que nasci até hoje e alguns outros que nem sequer aconteceram ainda. escrevo 'paixão' na certeza de que as palavras nem sempre falam verdade. é sexta feira e a paixão de hoje exala um hálito trágico que não vou respirar. e escolho escrevê-la sem recorrer à memória de nada, mas apenas à terra que habito. pai chão. e Cristo surge-me então como uma luz de presença benigna. e o milagre da cura é segui-la sem deixar que se apague, já que é apenas no escuro que o sofrimento se acende.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

estende-se ao sol.


há dias e dias que o céu lhe chega banhado de azul
e agradece e diz
obrigada
em voz alta.
dias em que fala com ela, até quando parece que fala com ele.
obrigado
diz ele em voz baixa.
estende-se ao sol e isso é tudo o que importa neste momento ::
reparar no céu abaulado
tum tum
sentir-se banhada de azul ::
obrigada ~



de verde :
diz ele
e ela mostra-lhe a relva.
estende-se ao sol e mostra-lhe a relva e ele diz :
antigamente deitava-me aqui mas agora não posso porque a pintaste de azul.
é só uma crença
diz ela
e o céu fica banhado de verde. 
não tarda e haverá bunganvílias vermelhas a trepar pelos muros
é outra vez primavera
diz ela
e estende-se ao sol e renasce para o céu, renasce para a relva, renasce para ela.
tum tum
e ele nada ::
não quis banhar-se de azul nem lhe abriu as asas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ɐ l ʄ ɑ ɓ ɜ ʈ θ ʂ ~*.


acreditam que sim, que falam a mesma língua.
que ele dizer
amo-te
e ela
ɐɱθ~tɜ
os irá levar ao mesmo refúgio e que irão servir-se das mesmas metáforas, dos mesmos padrões, das mesmas vivências. 
ou seja, irão entender-se.
ele bate
tum~tum
ela ouve
⊺ʉɱ::⊺ʉɱ
e abre-lhe ɒ ƥθʀʈ∀
mas ele não entra, porque não vê porta nenhuma.
os alfabetos são como os afectos
diz ela
cada um tem os seus
e mostra-lhe os dela ::
ɐ l ʄ ɑ ɓ ɜ ʈ θ  ɖe ∀fəc⊺⊙ʂ
se lhe falarem de afectos, talvez não saiba o que são.
afectos
diz ele
e ela não sabe o que são.
∀ɱ⨀ʁ?
e ele não reconhece a expressão.
mas, sim, acreditam :: que falam do mesmo. 
falam de ʈuɗɸ e ʈuɗɸ é um mundo
tudo e nada e um mundo para ele
ʈuɗɸ ɜ ɴɐɖ∀ ⋿ ʋʍ ɱ∪nɖ⨀
para ela.
falam sempre do mesmo :
só que em línguas diferentes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ou é, ou é ::

e dispôs as palavras em círculo.
vais fazer uma mandalma?
quis ele saber.
vinha de humano, hoje vinha de humano e tinha voz de homem. não tinha batido à porta e entrara sem pedir-lhe licença
tum tum ::
quem entra assim é o anjo
disse ela
mas tu tens de pedir licença
e ele pediu :
posso entrar?
~
ou és um anjo, ou és um homem
disse ela
e dispôs mais palavras num círculo menor e já eram dois círculos, um dentro do outro.
tens a certeza?
perguntou ele
mas continuou a dispor as palavras em círculos e não respondeu e ele insistiu :
se for homem não posso ser anjo e se for anjo não posso ser homem, é isso?
não é isso
disse ela.
e já ia no sexto círculo.
são sete
e mostrou-lhe e ele disse
sempre é uma mandalma, afinal.
~
ou és um homem-anjo, ou és um anjo-homem
disse ela.
qual é a diferença?
quis saber ele.
concentra-te só na mandala  
disse ela.
e ele concentrou-se ::

ou és um homem-anjo e vês a mandala de fora para dentro, ou és um anjo-homem e és tu que a teces ::
de dentro para fora.
percebes?
o homem-anjo tece os casulos e o anjo-homem :: as asas
tum tum ::
ah
disse ela, quando o viu levantar-se
e só mais uma coisa :
da próxima vez :: bate à porta '


:: :: ::
continua

sábado, 11 de fevereiro de 2012

és carne viva

disse ela.
e ele encolheu-se e pediu-lhe
não toques.
mostrou-lhe as feridas:
aqui
e aqui
e aqui.
tantas!
disse ela.
ardem, não toques
voltou ele a pedir-lhe.
e então ela lembrou-se do anjo, lembrou-se de como nunca nada lhe ardia, nessa altura era ela quem se encolhia, apontava-lhe as feridas e o anjo lambia-as até que ficassem em crosta e dizia ::
põe-te ao sol que isso sara
e ela durante dias a fio exibindo as feridas à sombra.
aqui
e aqui
e aqui.
deitava-se à noite e as cartilagens rangiam, de cada vez que mudava a disposição dos fantasmas nos sonhos, as estrelas ardiam de cada vez que o céu não se abatia sobre ela.
põe-te à luz
dizia-lhe o anjo
apontava-lhe a carne viva do coração e ela dizia
arde
e pedia
não toques.


:: :: ::
continua

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

anda


disse ela
puxando devagarinho os seus olhos até ao lugar onde deixavam de ver.
fazia tão escuro que achou que cegava.
não puxes
e ela parou.
isso cansa
disse ele.
sabia que sim e que era por isso que adormeciam todos os dias estoirados, de luz apagada.
cegos
disse ela
e ele repetiu ::
isso cansa.




:: :: ::
continua

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

se havia ali um par de asas, ainda não se notava




mas notam-se os braços
disse ele.
e abriu-os para ela e estavam cobertos de penas humanas. 
não chega
disse ela
e doeu-lhe.
que pena
disse ele
e voltou a fechá-los.




:: :: ::
continua

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

a humana~idade do anjo

tum tum
e batiam à porta.
quem é
perguntou ela :
e era o técnico, desta vez para arranjar um esquentador empanado e por isso foi rápido, não houve conversas, tão pouco referiram as buganvílias que, nesta altura do ano, trepam sem flor às paredes, ele chegou a meio da manhã e foi directo ao esquentador empanado, demorou-se quarenta e cinco minutos, nem sequer levou muito caro - já que vinha da parte da pedicura da mãe de uma amiga - no final deu-lhe um aperto de mão e ela disse
muito obrigada
e foi tudo.
depois do almoço, batiam de novo e agora era ela
tum tum ::
e ele veio abrir e ela achou-o :
cansado ~


:: :: ::
continua


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

os anjos são fáceis de amar

disse ele.
tantos dias de ausência e ei-lo de volta, algodão a cair rente à janela do tecto, um novelo de luz mansa colando-se ao vidro
voltaste!
disse ela.
e sentiu o bater das asas aceso quando abriu os braços para o ir saudar ::
que saudades!
::
batia como já tinha batido outras vezes, batia naquela cadência que só os anjos sabem trazer, num silêncio pausado, profundo, batia sem descompasso nenhum ~ amorosamente ~ , a gravidade em torno do eixo puxava-o para o centro com tanta leveza que deu por ele instalado no peito.
tum tum.
os anjos são fáceis de amar
voltou ele a dizer, agora do lado de dentro e sem abrandar o pulsar
tum tum.
repara ::
e chamou-lhe a atenção, criando-lhe ainda mais espaço na alma, como se fosse uma espécie de ardor e a luz entrasse por ele às golfadas, e a seguir continuou a soprar.
somos perfeitos, bonitos, bondosos ::
os anjos são a graça de deus
brincou ela.
Graça
corrigiu ele 
e estendeu o milagre até Deus e depois distendeu-o de volta à humanidade e a seguir suspirou ::
os homens são difíceis de amar.
pareceu-lhe cansado e ela tossiu.
no peito, o novelo de algodão relembrou-lhe o pulsar
tum tum ::
olhos de luz
lembrou-se ela, e veio-lhe um travo a perfume.
diz-se que vêem o fundo do fundo...
diz-se que sim
disse o anjo.
e acrescentou que o fundo do fundo é :: cristalino ::
enroscaram-se mais e, de cada vez que se enroscam assim, ela lembra-se das bunganvílias e do terraço e de terem brindado à morte do anjo, pouco depois se ter despenhado na praia, e riem-se os dois. 
tum tum ::
se eu não fosse um anjo, tu não me amavas assim ~
disse o anjo.
e, quando ela voltou a tossir, ele dispôs-se a mostrar-lhe o seu lado humano e voltou a dizer-lhe :
- os homens são difíceis de amar.
::
ficaram assim. ainda enroscados e ela a lembrar-se do anjo à mercê da praia mortal, da multidão e das câmaras, do suor das palavras, das cartilagens sangrando e uma mancha de pele enclausurando-lhe as asas
já volto :
disse ele

e então também disse que, quando voltasse, teria voz de homem e ~ provavelmente ~ viria de luz apagada.
tum tum ~



:: :: ::
continua

daqui

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

e que não


que não a larga
diz o anjo
e ela ri-se. 
ri-se ao sol, ri-se da luz a entrar pela janela da casinha, dos planos onde ultimamente se abrem portas sem que as vejam, dos universos paralelos onde se têm encontrado, ri-se o anjo do impasse onde julgam que caíram. e ri-se o mundo inteiro girando e rodando em câmara lenta, em câmara ardente aquilo que os corpos já não guardam, ao pó o pó, ao pó as cinzas, tantas velas que se acendem para pedir tantos milagres e a chama acesa e limpa a arder ao ar, apenas isso.
apenas isso
diz o anjo
que não a larga a não ser quando decide não ouvir o que lhe sopra, quando se afasta da canção e não quer voltar a casa, quando regressa à escuridão que não é mais do que apagar-se, nada nada para cumprir a não ser compreender-se entre linhas invisíveis, transcender-se, co-criar-se e o anjo... ri-se.

e que sim



e que assim se vão cumprindo
diz o anjo.
na urgência que não têm um do outro e na esperança que dedicam a si mesmos. que assim, sim, fazem caminho, em cima dos próprios passos e abrindo cada um o seu par de asas e que a liberdade é isso, é dar voz à igualdade, sem cobrar o que não dão, sem pedir o que não têm, sem temer que lhes falte algo. uma mão cheia de tudo e a outra tão vazia, com tanto espaço para colher seja o que for que semearem, num canteiro, numa mandala ou no campo ou onde for, sujeito ao sol, sujeito à chuva e à passagem das estações - que a todos guiam e acabam por conduzir os beija-flores à primavera.
e que não, que não há pressa, não há tempo quando a vida se condensa num só ponto que é comum e que expandi-lo não depende mais das horas, nem dos dias, nem dos meses, nem dos anos, mas da alma e que é claro que se amam tanto!, o universo inteiro em espelho a reflectir a vibração, a criação, o embrião que em silêncio e às escuras se transforma e se transmuta e se dá à luz um dia, enfim livre do cordão e das entranhas que o tornavam dependente de alimento. e que a tontura, que sentiu a subir por ela acima, a vertigem de ver tudo a andar à roda, foi o centro que a ancorou ao seu eixo de balança. e que nele foi o vento e esse amanhecer das cinzas, de onde se faz fogo outra vez e se retoma a primazia que se tem na própria vida. 
e que então não é tudo, mas que é tanto
sopra o anjo
para dentro de um livro em branco...

domingo, 13 de novembro de 2011

as asas têm homens






disse-lhe ela,
quando o sentiu dentro das suas.
abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e pediu-lhe:
nunca mais feches os braços
senão volta a doer tudo.

os homens têm asas




disse-lhe o anjo.
a ele doíam-lhe os ombros, as costas, os braços, mudava a posição do sono de um lado para o outro e do outro para o mesmo e a noite assombrava-lhe o voo. pesavam-lhe as pálpebras e o sal condensava-se, de cada vez que o mar alto vinha bater-lhe nos ossos, pressagiando naufrágios, margem nenhuma onde pudesse atracar o peito, o navio, descansar, pisar terra firme, o horizonte tão longe da vista
só podes estar a brincar
e afastou o anjo do sonho.
não era sequer madrugada quando o ouviu repetir
têm asas, os homens, e voam!
o vento assobiava lá fora e a tempestade das estrelas era engolida e chovia, choviam-lhe tanto esses olhos que a cor do mar assombrava quando o céu fugia para longe, esquecia-os fechados, azuis, dormia evitando o brilho da luz, prisioneiro dos fantasmas que de repente irrompiam das ondas, e de novo afastou o anjo do sonho e virou-se, de um lado para o outro, do outro para o mesmo, doía-lhe tudo tão fundo
só podes estar a mentir.
amanheciam as cinzas, que não eram mais do que deus brincando ao jogo da luz e das sombras, quando o anjo, mais uma vez e mais perto, insistiu
vejo-as nascendo nas tuas costas
e tocou-lhe ao de leve nos ombros, tocou-lhe nos braços, tocou-lhe no peito, o murmúrio do mar azulou-se nas pontas dos dedos, as ondas beijavam-lhe as margens do corpo, o grande navio parecia-lhe agora muito mais leve, navegando à bolina do vento que tinha amainado, as estrelas tinham descido do céu para lhe iluminarem o dia, ao seu lado o anjo sorria
tudo o que tens de fazer é abri-las.
que não, que não queria. não cria, no fundo era isso. e tantos abismos se ousasse, a vertigem da queda presente quando, ainda menino, se aventurava nos precipícios e se estatelava no chão, as feridas abertas sangrando ao relento, o sol derretendo os sonhos de cera dos homens quando se armavam em deuses
por que razão seria diferente comigo?
limpa, tão limpa, varrida das cinzas, do medo, a luz tomava agora conta de tudo. das costas, dos ombros, dos braços, dos dedos, nos olhos abertos o mar desaguava em dois lagos azuis e talvez, talvez fosse verdade que lhe nasciam asas no peito, ouvia o pulsar, o rumor, a cadência do voo razando-lhe o corpo, o despertar do sono mortal, qualquer coisa a estalar debaixo da pele e o anjo amparou-o
não tenhas medo, prometo que não vais cair!
e já era tarde, já era de tarde quando rompeu finalmente a fronteira da carne e subiu ao poente, que derramava sobre ele as bençãos do ouro e da liberdade dos que ousam ser anjos na terra.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

do caos... para casa



a lua veio com a serpente e em troca ela ofereceu-lhe um mapa. que sim, que estava gasto e a ceder ao desalento, o chão de tábuas que o bolor tinha rompido. abria frinchas e exalava a liquidez das fundações, construída sobre o luto e sobre as lágrimas de quem nunca o pisara ou conhecera, ainda que o tivesse adivinhado muito antes da partida. e que não, que os mortos não podiam instalar-se e habitar a sala grande, habituar-se à penumbra circular e ao vidro fosco das auréolas, às poeiras do desgosto, que era urgente que as flores ressuscitassem noutros vasos, que se exorcizasse o pranto das crianças que assombravam os pinhais da sua infância e que retinham a alegria em copas bravas. sim,  arredondá-las, torná-las mansas como é, afinal, suposto serem, copas de ventre onde acolheu os outros quatro habitantes dessa casa, onde também moram fantasmas, moram anjos que de noite pousam na orla das portas e não há mal nenhum nisso, pelo contrário, há que dar graças quando os anjos habitam a nossa carne. 
que sim, que numa casa onde as escadas nos dividem entre os planos do que em baixo e do que em cima nos parece separado, seria sempre complicado o amor vingar, porque não vinga. não é um verbo que combine com aquilo que traz no peito, não é vingando-se de nada que algum dia terá paz, mas muito mais cruzando os planos, subindo e descendo as escadas, já que aquilo que está em baixo é aquilo que está em cima e aquilo que está em cima é aquilo que está em baixo.
que seria tão mais quente e tão mais acolhedor haver mais fogo e menos água, conter as infiltrações para que parassem de trazer-lhe as memórias do passado e de lhe encharcar o corpo, atacar a humidade com a chama viva das paixões que não nos deixam desistir de encontrar ouro no interior das nossas sombras. que a salamandra e a lareira e as histórias e as pessoas se alimentam disso mesmo, da chama viva das paixões, das doces brasas de um abraço, e que das cinzas se renasce a cada dia que passa, haja lenha para queimar quando o Inverno, devagar, chega e vem bater à porta.
que sim também, que a cama poderia e deveria ser maior, com cabeceira para que os sonhos não trepassem às paredes e se esvaíssem com a noite, que a manhã, clara e nova, entrasse num quarto sem história e sem gemidos de ninguém. que no fundo lhe parecia nunca ter acreditado que merecia tantas bençãos, tantos dons, o que era estranho, tendo em conta as árvores todas que cresciam no jardim e davam frutos, adivinhava-se na relva o nascimento de um caminho, as bunganvílias prometiam muito mais do que dar flor, como é que não via ainda a liberdade semeada nas roseiras sempre que choviam pétalas? que não deixasse, por favor, de acreditar na poesia, nem desistisse de rimar consigo própria, que deixasse a sala aberta para o jardim e uma passagem para onde quer que quisesse ir, que se cumprisse sem esperar mais por mais nada ou mais ninguém, porque podia de repente ficar tarde e o chão ruir, desta vez sem mais conserto.
e, no entanto, foi preciso arquitectarem-se os afectos para a mudança ser real. esvaziarem-se as casinhas que se enchiam de lembranças e de tralhas e de bichos, arrastar as velhas coisas lá para fora e deitar fora as que nunca mais serviram - há sempre tantas coisas que não servem e que, mesmo assim, guardamos! pôr ao sol o que era sol e à sombra o que era sombra e suspirar, ainda na velha cama, já sem esforço e só suando do prazer que lhes trazia estarem juntos a cumprir mais uma etapa do caminho ou apenas experimentando partilhar uma aventura.
foi preciso a visão dele, e o acordo dela, para mudarem de lugar este sofá, aquela cómoda, duas mesas lá de fora cá para dentro, um tapete para a cozinha, pega ali, arrasta aqui, a ideia era pintar tudo de branco, já que no branco pode sempre começar tudo de novo. foi preciso desenhar numa folha aos quadradinhos as medidas onde iria construir-se de raíz uma outra coisa e que sim, que ia ficar mesmo bonita, arejada e limpa, de branco como o resto das paredes, de branco como o resto do seu corpo, de branco como tudo aquilo que é novo, não fossem haver ainda tantas mágoas que os manchavam, tanta tinta a escorrer no meio dos dois, tanto caos, tanta desordem, tanto amor para pôr ao sol e os dois ainda a resgatar a sombra. 
que sim, que ficou presente em tudo, mesmo depois de se ir embora - é sempre a ele que se abandona. ficou presente na casinha das magias onde um anjo inspira as cores dos corações quando abre as asas, na transparência do cristal com que lhe resgatou a alma, algures no hemisfério sul da sua, na disposição das mesas para que possam estar mais perto e até tocar-se, mesmo estando um deles ausente, na visão de que o espaço se alargou de forma a dar-lhes muito mais do que os contornos da matéria e que é por isso que a presença se mantém tal qual a mesma. na disposição da relva, que acolhe a lua a cada noite que passa - mesmo que faça frio ou chova -, nas flores que lhe dão as boas vindas à entrada, de cada vez que chega a casa, na clarabóia onde vê nascer as estrelas e que a madrugada rompe, depois de sonhar com ele, na certeza de que as manchas de humidade e de mágoa e de bolor se dissipam à passagem do píncel. e que sim, que merecem, tantas bençãos, tantos dons e tanto amor. o fogo aceso, quando o Inverno lhes vier bater à porta, nem que para isso precisem de renascer das velhas cinzas de tudo aquilo que arde na dor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

bate pára bate pára bate pára...

o coração ~ bate, expande, pulsa, dança ~ bate pára bate pára bate... pára. e aos poucos vai matando os que não amam, contraindo a solidão, envelhecendo, enferrujando ~ bate, salta, treme, pula, bate de encontro ao meu peito e não arde e não magoa e não faz ferida e nunca sangra ~ bate pára bate pára bate pára ~ pára tudo quando não lhe apanho o ritmo ~ fica mudo, fica seco, fica tonto, fica inútil. bate dói ~ bate cura ~ bate solta ~ bate cria ~ bate crê ~ bate muito! bate cor, bate som, bate gente e corro a abrir. bate e pára no silêncio a quem lhe vem falar de amor ~ pára quieto, pára limpo, pára em paz no rumor da tua pele roçando a minha ~ e bate fundo e bate dentro e bate grato pela vida ~ bate pára bate pára bate... pára. numa ilusão breve da morte que lhe oculta o movimento e expande luz em vez de sangue ~ e de novo é contraído num suspiro do universo e bate além, muito além do que foi músculo, muito além do que foi carne, muito além do que foi meu ~ bate pára bate pára bate pára ~ bate por e para nós ~ bate para sempre em nós ~ bate tudo ~ bate tanto ♥


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

plutão... tão... tão... tão!


e quando, na prática, ela começou a mudar, ele mudou-se. observa a distância e não há, não existe, chega a parecer-lhe que nunca esteve tão perto. tão perto do quê? do seu centro, do ponto onde simplesmente se observa, contida numa medida de humanidade que por certo limita os seus movimentos mortais, mas ilimitada pela eterna visão que o universo lhe oferece. alguém tinha de ser o plutão, a bater-lhe ora no sol - identidade -, ora na lua - emoções -, e também por isso está grata. por o ter tido incarnado, ao seu lado, e ter ousado cair no abismo que lhe propôs, por maior que fosse a vertigem da queda. grata pela escuridão que tantas vezes tomou conta de tudo, apagando as referências que tinha do bem e do mal, do errado e do certo, do sim e do não. e, tantas vezes, sentia-se a vítima e dilacerava-se com a injustiça de a vida a ter atirado, sem complacência nenhuma, para o precipício. e subia-lhe ao peito aquela auto-comiseração, tão própria de quem não acredita que o poder da mudança está, unicamente, nas suas mãos.
senhor da morte e da transformação, plutão não parecia querer dar-lhe tréguas. acredite-se ou não na simbologia dos astros, compreenda-se ou não o que são 'trânsitos', tome-se ou não por referência o que nos é proposto quando há quadraturas no mapa, o certo é que a rota, lenta e gelada, do pequeno anão a obrigou a realizar que o abismo não era mais do que as suas próprias entranhas tomadas por crenças, dores do passado, mentiras que lhe foram contando ao longo dos anos... e de nada servia pedir-lhe: 'deixa-me em paz', 'sê doce comigo', 'dá-me um abraço'. enquanto o sol e a lua estivessem na mira da sua rota, a sua função era ir embatendo ora num, ora noutro, ora num, ora noutro... 
não sabe a quantos graus estará o plutão neste preciso momento, a sua rota, lenta e gelada, obedece ao movimento imparável do universo e é tudo. não tem de fugir, pedir-lhe coisa nenhuma. também ela se movimenta ao ritmo da vida e é tudo. o anão da morte e da transformação só nos encolhe e nos fere e nos mata se não tomarmos para nós o seu gigantesco poder de regeneração e de renascimento. 
ao realizar que o abismo não esteve nunca lá fora, mas que ela própria o transporta nas suas entranhas, faz dele uma espécie de ventre materno, translúcido e doce, e agradece o embrião luminoso que, afinal, esteve sempre presente, em todas as suas co-criações.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

noite das bruxas


e eu, que sempre vivi guiada por fadas, abro mão da magia e dos pós de encantar e mergulho. 
acendo o fogo e mergulho, para que me arda o passado e se queimem todas as feridas que teimo em abrir, de cada vez que acredito que sou este corpo de sangue e de carne.
diziam os celtas que dois deuses gémeos reinavam nas duas metades do ano. ao deus luminoso, cabia a metade do ano que ia do fim do inverno até à metade do verão, ficando o resto do ano entregue ao deus gémeo - o da escuridão. 
longe de ser um deus 'mau', o que reina a partir desta noite não representa mais do que o declínio da natureza, que em paz adormece e se retira para dentro da terra, de forma a poder renascer quando, de novo, o deus luminoso vier tomar conta da sua metade do tempo.
à semelhança das árvores, deixo que as folhas me caiam, sem temer a nudez nem o frio do inverno. deixo que a terra me acolha numa humidade de ventre materno, que os planos se cruzem sem véus e que do outro lado me atendam as preces. que o fogo consuma tudo o que já não me serve e que a chuva abençoe todas as minhas entregas. condenso o silêncio nos dedos, que entoam canções de embalar à medida que os pouso nas teclas, e deixo que os dons se recolham, mas não que adormeçam. 
a grande roda da vida não pára quando tudo mergulha na terra e se aquieta, há no ventre do fogo uma chama que chama o meu nome e que as bençãos da chuva, ao invés de apagarem, tornam ainda mais claro, quando o pronuncio dentro do peito, em silêncio *

sábado, 29 de outubro de 2011


tens a sensação de que escreves melhor quando sofres? 
perguntou-lhe ele. 
mastigou nos dedos as dores que as palavras convocam quando lhe suam as mãos, o embate no peito de cada vez que se debruça sobre o teclado do computador, há dois dias apenas havia ainda a janela por cima dos olhos e a luz entrava de frente, voltará provavelmente a trocar o lugar de tudo o que saiu do lugar, a figueira poderá nascer da parede e as folhas farão sombra ao anjo de loiça que, não sendo da guarda, ampara agora tudo o que de branco existe num livro começado há que tempos.
não sei, 
respondeu. 
e revolveu e reviu as letras que costumava alagar em prantos de insónia, as vírgulas parecendo soluços e os pontos finais em todas as histórias que lhe traziam de volta a lembrança das feridas antigas, a noite quando lhe entrava pela janela e a escuridão lhe batia de frente, revolve e revê o vulto da sombra no círculo da relva, a lua no céu a crescer ao relento e o espaço que foi nascendo entretanto, permitindo-lhe enfim que os passos sejam maiores do que as pernas, que nem sequer precise de pernas para sentir que caminha, retoma a dança que sente pulsar-lhe no peito só porque está viva e tão grata por tudo, e de novo o desenho é só um pretexto. 
tudo, afinal, é só um pretexto, quando à falta de rumo há alguém que se sente perdido. quando é tão fundo tão fundo que dói que respirar se torna impossível.
há quem para criar precise de se destruir, disse ele então, ao mesmo tempo que da janela a espreitava, atingindo agora os seus olhos de frente. 
provavelmente, 
disse ela.
e repara que nada saiu do lugar, já que nada se move sem o consentimento dos anjos, que o vulto da sombra no círculo da relva se encheu de nenúfares, que o amor se alimenta do espaço que foi nascendo entretanto e que a lua está sempre cheia, afinal, quer a veja crescente ou minguante no ângulo do peito. e por isso é em paz que contempla as paredes da casa pintadas de branco. sofrer é um verbo que a mente conjuga quando alguma coisa ou alguém ameaça tirar-lhe poder e o desenho deixa de ser só um pretexto, de cada vez que aceita o convite da vida e os dedos entram na dança.