quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
estende-se ao sol.
há dias e dias que o céu lhe chega banhado de azul
e agradece e diz
obrigada
em voz alta.
dias em que fala com ela, até quando parece que fala com ele.
obrigado
diz ele em voz baixa.
estende-se ao sol e isso é tudo o que importa neste momento ::
reparar no céu abaulado
tum tum
sentir-se banhada de azul ::
obrigada ~
de verde :
diz ele
e ela mostra-lhe a relva.
estende-se ao sol e mostra-lhe a relva e ele diz :
antigamente deitava-me aqui mas agora não posso porque a pintaste de azul.
é só uma crença
diz ela
e o céu fica banhado de verde.
não tarda e haverá bunganvílias vermelhas a trepar pelos muros
é outra vez primavera
diz ela
e estende-se ao sol e renasce para o céu, renasce para a relva, renasce para ela.
tum tum
e ele nada ::
não quis banhar-se de azul nem lhe abriu as asas.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
ɐ l ʄ ɑ ɓ ɜ ʈ θ ʂ ~*.
que ele dizer
amo-te
e ela
ɐɱθ~tɜ
os irá levar ao mesmo refúgio e que irão servir-se das mesmas metáforas, dos mesmos padrões, das mesmas vivências.
ou seja, irão entender-se.
ele bate
tum~tum
ela ouve
⊺ʉɱ::⊺ʉɱ
e abre-lhe ɒ ƥθʀʈ∀
mas ele não entra, porque não vê porta nenhuma.
os alfabetos são como os afectos
diz ela
cada um tem os seus
e mostra-lhe os dela ::
ɐ l ʄ ɑ ɓ ɜ ʈ θ ɖe ∀fəc⊺⊙ʂ
se lhe falarem de afectos, talvez não saiba o que são.
afectos
diz ele
e ela não sabe o que são.
e ele não reconhece a expressão.
mas, sim, acreditam :: que falam do mesmo.
falam de ʈuɗɸ e ʈuɗɸ é um mundo
tudo e nada e um mundo para ele
ʈuɗɸ ɜ ɴɐɖ∀ ⋿ ʋʍ ɱ∪nɖ⨀
para ela.
falam sempre do mesmo :
só que em línguas diferentes.
para ela.
falam sempre do mesmo :
só que em línguas diferentes.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
ou é, ou é ::
e dispôs as palavras em círculo.
vais fazer uma mandalma?
quis ele saber.
vinha de humano, hoje vinha de humano e tinha voz de homem. não tinha batido à porta e entrara sem pedir-lhe licença
tum tum ::
quem entra assim é o anjo
disse ela
mas tu tens de pedir licença
e ele pediu :
e ele pediu :
posso entrar?
~
ou és um anjo, ou és um homem
disse ela
e dispôs mais palavras num círculo menor e já eram dois círculos, um dentro do outro.
tens a certeza?
perguntou ele
mas continuou a dispor as palavras em círculos e não respondeu e ele insistiu :
se for homem não posso ser anjo e se for anjo não posso ser homem, é isso?
não é isso
disse ela.
e já ia no sexto círculo.
e já ia no sexto círculo.
são sete
e mostrou-lhe e ele disse
sempre é uma mandalma, afinal.
~
~
ou és um homem-anjo, ou és um anjo-homem
disse ela.
disse ela.
qual é a diferença?
quis saber ele.
concentra-te só na mandala disse ela.
e ele concentrou-se ::
ou és um homem-anjo e vês a mandala de fora para dentro, ou és um anjo-homem e és tu que a teces ::
de dentro para fora.
percebes?
o homem-anjo tece os casulos e o anjo-homem :: as asas
tum tum ::
ah
disse ela, quando o viu levantar-se
e só mais uma coisa :
da próxima vez :: bate à porta '
:: :: ::
continua
sábado, 11 de fevereiro de 2012
és carne viva
disse ela.
e ele encolheu-se e pediu-lhe
não toques.
mostrou-lhe as feridas:
aqui
e aqui
e aqui.
tantas!
disse ela.
ardem, não toques
voltou ele a pedir-lhe.
aqui
e aqui
e aqui.
e ele encolheu-se e pediu-lhe
não toques.
mostrou-lhe as feridas:
aqui
e aqui
e aqui.
tantas!
disse ela.
ardem, não toques
voltou ele a pedir-lhe.
e então ela lembrou-se do anjo, lembrou-se de como nunca nada lhe ardia, nessa altura era ela quem se encolhia, apontava-lhe as feridas e o anjo lambia-as até que ficassem em crosta e dizia ::
põe-te ao sol que isso sara
e ela durante dias a fio exibindo as feridas à sombra.
aquie aqui
e aqui.
deitava-se à noite e as cartilagens rangiam, de cada vez que mudava a disposição dos fantasmas nos sonhos, as estrelas ardiam de cada vez que o céu não se abatia sobre ela.
põe-te à luz
dizia-lhe o anjo
apontava-lhe a carne viva do coração e ela dizia
arde
e pedia
não toques.
:: :: ::
continua
põe-te à luz
dizia-lhe o anjo
apontava-lhe a carne viva do coração e ela dizia
arde
e pedia
não toques.
:: :: ::
continua
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
anda
disse ela
puxando devagarinho os seus olhos até ao lugar onde deixavam de ver.
fazia tão escuro que achou que cegava.
não puxes
e ela parou.
isso cansa
disse ele.
sabia que sim e que era por isso que adormeciam todos os dias estoirados, de luz apagada.
cegosdisse ela
e ele repetiu ::
isso cansa.
:: :: ::
continua
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
se havia ali um par de asas, ainda não se notava
mas notam-se os braços
disse ele.
e abriu-os para ela e estavam cobertos de penas humanas.
não chega
disse ela
e doeu-lhe.
que pena
disse ele
e voltou a fechá-los.
:: :: ::
continua
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
a humana~idade do anjo
e batiam à porta.
quem é
perguntou ela :
e era o técnico, desta vez para arranjar um esquentador empanado e por isso foi rápido, não houve conversas, tão pouco referiram as buganvílias que, nesta altura do ano, trepam sem flor às paredes, ele chegou a meio da manhã e foi directo ao esquentador empanado, demorou-se quarenta e cinco minutos, nem sequer levou muito caro - já que vinha da parte da pedicura da mãe de uma amiga - no final deu-lhe um aperto de mão e ela disse
e era o técnico, desta vez para arranjar um esquentador empanado e por isso foi rápido, não houve conversas, tão pouco referiram as buganvílias que, nesta altura do ano, trepam sem flor às paredes, ele chegou a meio da manhã e foi directo ao esquentador empanado, demorou-se quarenta e cinco minutos, nem sequer levou muito caro - já que vinha da parte da pedicura da mãe de uma amiga - no final deu-lhe um aperto de mão e ela disse
muito obrigada
e foi tudo.
depois do almoço, batiam de novo e agora era ela
tum tum ::
e ele veio abrir e ela achou-o :
cansado ~
:: :: ::
continua
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
os anjos são fáceis de amar
disse ele.
tantos dias de ausência e ei-lo de volta, algodão a cair rente à janela do tecto, um novelo de luz mansa colando-se ao vidro
voltaste!
disse ela.
e sentiu o bater das asas aceso quando abriu os braços para o ir saudar ::
que saudades!
::
batia como já tinha batido outras vezes, batia naquela cadência que só os anjos sabem trazer, num silêncio pausado, profundo, batia sem descompasso nenhum ~ amorosamente ~ , a gravidade em torno do eixo puxava-o para o centro com tanta leveza que deu por ele instalado no peito.
tum tum.
os anjos são fáceis de amar
voltou ele a dizer, agora do lado de dentro e sem abrandar o pulsar
tum tum.
repara ::
e chamou-lhe a atenção, criando-lhe ainda mais espaço na alma, como se fosse uma espécie de ardor e a luz entrasse por ele às golfadas, e a seguir continuou a soprar.
somos perfeitos, bonitos, bondosos ::
os anjos são a graça de deus
brincou ela.
Graça
corrigiu ele
e estendeu o milagre até Deus e depois distendeu-o de volta à humanidade e a seguir suspirou ::
os homens são difíceis de amar.
pareceu-lhe cansado e ela tossiu.no peito, o novelo de algodão relembrou-lhe o pulsar
tum tum ::
olhos de luz
lembrou-se ela, e veio-lhe um travo a perfume.
diz-se que vêem o fundo do fundo...
diz-se que sim
disse o anjo.
e acrescentou que o fundo do fundo é :: cristalino ::
enroscaram-se mais e, de cada vez que se enroscam assim, ela lembra-se das bunganvílias e do terraço e de terem brindado à morte do anjo, pouco depois se ter despenhado na praia, e riem-se os dois.
tum tum ::
se eu não fosse um anjo, tu não me amavas assim ~
disse o anjo.
e, quando ela voltou a tossir, ele dispôs-se a mostrar-lhe o seu lado humano e voltou a dizer-lhe :
- os homens são difíceis de amar.
::
ficaram assim. ainda enroscados e ela a lembrar-se do anjo à mercê da praia mortal, da multidão e das câmaras, do suor das palavras, das cartilagens sangrando e uma mancha de pele enclausurando-lhe as asas
::
ficaram assim. ainda enroscados e ela a lembrar-se do anjo à mercê da praia mortal, da multidão e das câmaras, do suor das palavras, das cartilagens sangrando e uma mancha de pele enclausurando-lhe as asas
já volto :
disse ele
e então também disse que, quando voltasse, teria voz de homem e ~ provavelmente ~ viria de luz apagada.
tum tum ~
:: :: ::
disse ele
e então também disse que, quando voltasse, teria voz de homem e ~ provavelmente ~ viria de luz apagada.
tum tum ~
:: :: ::
continua
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| daqui |
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
e que não
que não a larga
diz o anjo
e ela ri-se.
ri-se ao sol, ri-se da luz a entrar pela janela da casinha, dos planos onde ultimamente se abrem portas sem que as vejam, dos universos paralelos onde se têm encontrado, ri-se o anjo do impasse onde julgam que caíram. e ri-se o mundo inteiro girando e rodando em câmara lenta, em câmara ardente aquilo que os corpos já não guardam, ao pó o pó, ao pó as cinzas, tantas velas que se acendem para pedir tantos milagres e a chama acesa e limpa a arder ao ar, apenas isso.
apenas isso
diz o anjo
que não a larga a não ser quando decide não ouvir o que lhe sopra, quando se afasta da canção e não quer voltar a casa, quando regressa à escuridão que não é mais do que apagar-se, nada nada para cumprir a não ser compreender-se entre linhas invisíveis, transcender-se, co-criar-se e o anjo... ri-se.
e que sim
e que assim se vão cumprindo
diz o anjo.
na urgência que não têm um do outro e na esperança que dedicam a si mesmos. que assim, sim, fazem caminho, em cima dos próprios passos e abrindo cada um o seu par de asas e que a liberdade é isso, é dar voz à igualdade, sem cobrar o que não dão, sem pedir o que não têm, sem temer que lhes falte algo. uma mão cheia de tudo e a outra tão vazia, com tanto espaço para colher seja o que for que semearem, num canteiro, numa mandala ou no campo ou onde for, sujeito ao sol, sujeito à chuva e à passagem das estações - que a todos guiam e acabam por conduzir os beija-flores à primavera.
e que não, que não há pressa, não há tempo quando a vida se condensa num só ponto que é comum e que expandi-lo não depende mais das horas, nem dos dias, nem dos meses, nem dos anos, mas da alma e que é claro que se amam tanto!, o universo inteiro em espelho a reflectir a vibração, a criação, o embrião que em silêncio e às escuras se transforma e se transmuta e se dá à luz um dia, enfim livre do cordão e das entranhas que o tornavam dependente de alimento. e que a tontura, que sentiu a subir por ela acima, a vertigem de ver tudo a andar à roda, foi o centro que a ancorou ao seu eixo de balança. e que nele foi o vento e esse amanhecer das cinzas, de onde se faz fogo outra vez e se retoma a primazia que se tem na própria vida.
e que então não é tudo, mas que é tanto
sopra o anjo
para dentro de um livro em branco...
domingo, 13 de novembro de 2011
as asas têm homens
disse-lhe ela,
quando o sentiu dentro das suas.
abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e fechavam-se
e abriam-se e pediu-lhe:
nunca mais feches os braços
senão volta a doer tudo.
os homens têm asas
disse-lhe o anjo.
a ele doíam-lhe os ombros, as costas, os braços, mudava a posição do sono de um lado para o outro e do outro para o mesmo e a noite assombrava-lhe o voo. pesavam-lhe as pálpebras e o sal condensava-se, de cada vez que o mar alto vinha bater-lhe nos ossos, pressagiando naufrágios, margem nenhuma onde pudesse atracar o peito, o navio, descansar, pisar terra firme, o horizonte tão longe da vista
só podes estar a brincar
e afastou o anjo do sonho.
não era sequer madrugada quando o ouviu repetir
têm asas, os homens, e voam!
o vento assobiava lá fora e a tempestade das estrelas era engolida e chovia, choviam-lhe tanto esses olhos que a cor do mar assombrava quando o céu fugia para longe, esquecia-os fechados, azuis, dormia evitando o brilho da luz, prisioneiro dos fantasmas que de repente irrompiam das ondas, e de novo afastou o anjo do sonho e virou-se, de um lado para o outro, do outro para o mesmo, doía-lhe tudo tão fundo
só podes estar a mentir.
amanheciam as cinzas, que não eram mais do que deus brincando ao jogo da luz e das sombras, quando o anjo, mais uma vez e mais perto, insistiu
vejo-as nascendo nas tuas costas
e tocou-lhe ao de leve nos ombros, tocou-lhe nos braços, tocou-lhe no peito, o murmúrio do mar azulou-se nas pontas dos dedos, as ondas beijavam-lhe as margens do corpo, o grande navio parecia-lhe agora muito mais leve, navegando à bolina do vento que tinha amainado, as estrelas tinham descido do céu para lhe iluminarem o dia, ao seu lado o anjo sorria
tudo o que tens de fazer é abri-las.
que não, que não queria. não cria, no fundo era isso. e tantos abismos se ousasse, a vertigem da queda presente quando, ainda menino, se aventurava nos precipícios e se estatelava no chão, as feridas abertas sangrando ao relento, o sol derretendo os sonhos de cera dos homens quando se armavam em deuses
por que razão seria diferente comigo?
limpa, tão limpa, varrida das cinzas, do medo, a luz tomava agora conta de tudo. das costas, dos ombros, dos braços, dos dedos, nos olhos abertos o mar desaguava em dois lagos azuis e talvez, talvez fosse verdade que lhe nasciam asas no peito, ouvia o pulsar, o rumor, a cadência do voo razando-lhe o corpo, o despertar do sono mortal, qualquer coisa a estalar debaixo da pele e o anjo amparou-o
não tenhas medo, prometo que não vais cair!
e já era tarde, já era de tarde quando rompeu finalmente a fronteira da carne e subiu ao poente, que derramava sobre ele as bençãos do ouro e da liberdade dos que ousam ser anjos na terra.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
do caos... para casa
a lua veio com a serpente e em troca ela ofereceu-lhe um mapa. que sim, que estava gasto e a ceder ao desalento, o chão de tábuas que o bolor tinha rompido. abria frinchas e exalava a liquidez das fundações, construída sobre o luto e sobre as lágrimas de quem nunca o pisara ou conhecera, ainda que o tivesse adivinhado muito antes da partida. e que não, que os mortos não podiam instalar-se e habitar a sala grande, habituar-se à penumbra circular e ao vidro fosco das auréolas, às poeiras do desgosto, que era urgente que as flores ressuscitassem noutros vasos, que se exorcizasse o pranto das crianças que assombravam os pinhais da sua infância e que retinham a alegria em copas bravas. sim, arredondá-las, torná-las mansas como é, afinal, suposto serem, copas de ventre onde acolheu os outros quatro habitantes dessa casa, onde também moram fantasmas, moram anjos que de noite pousam na orla das portas e não há mal nenhum nisso, pelo contrário, há que dar graças quando os anjos habitam a nossa carne.
que sim, que numa casa onde as escadas nos dividem entre os planos do que em baixo e do que em cima nos parece separado, seria sempre complicado o amor vingar, porque não vinga. não é um verbo que combine com aquilo que traz no peito, não é vingando-se de nada que algum dia terá paz, mas muito mais cruzando os planos, subindo e descendo as escadas, já que aquilo que está em baixo é aquilo que está em cima e aquilo que está em cima é aquilo que está em baixo.
que seria tão mais quente e tão mais acolhedor haver mais fogo e menos água, conter as infiltrações para que parassem de trazer-lhe as memórias do passado e de lhe encharcar o corpo, atacar a humidade com a chama viva das paixões que não nos deixam desistir de encontrar ouro no interior das nossas sombras. que a salamandra e a lareira e as histórias e as pessoas se alimentam disso mesmo, da chama viva das paixões, das doces brasas de um abraço, e que das cinzas se renasce a cada dia que passa, haja lenha para queimar quando o Inverno, devagar, chega e vem bater à porta.
que sim também, que a cama poderia e deveria ser maior, com cabeceira para que os sonhos não trepassem às paredes e se esvaíssem com a noite, que a manhã, clara e nova, entrasse num quarto sem história e sem gemidos de ninguém. que no fundo lhe parecia nunca ter acreditado que merecia tantas bençãos, tantos dons, o que era estranho, tendo em conta as árvores todas que cresciam no jardim e davam frutos, adivinhava-se na relva o nascimento de um caminho, as bunganvílias prometiam muito mais do que dar flor, como é que não via ainda a liberdade semeada nas roseiras sempre que choviam pétalas? que não deixasse, por favor, de acreditar na poesia, nem desistisse de rimar consigo própria, que deixasse a sala aberta para o jardim e uma passagem para onde quer que quisesse ir, que se cumprisse sem esperar mais por mais nada ou mais ninguém, porque podia de repente ficar tarde e o chão ruir, desta vez sem mais conserto.
e, no entanto, foi preciso arquitectarem-se os afectos para a mudança ser real. esvaziarem-se as casinhas que se enchiam de lembranças e de tralhas e de bichos, arrastar as velhas coisas lá para fora e deitar fora as que nunca mais serviram - há sempre tantas coisas que não servem e que, mesmo assim, guardamos! pôr ao sol o que era sol e à sombra o que era sombra e suspirar, ainda na velha cama, já sem esforço e só suando do prazer que lhes trazia estarem juntos a cumprir mais uma etapa do caminho ou apenas experimentando partilhar uma aventura.
foi preciso a visão dele, e o acordo dela, para mudarem de lugar este sofá, aquela cómoda, duas mesas lá de fora cá para dentro, um tapete para a cozinha, pega ali, arrasta aqui, a ideia era pintar tudo de branco, já que no branco pode sempre começar tudo de novo. foi preciso desenhar numa folha aos quadradinhos as medidas onde iria construir-se de raíz uma outra coisa e que sim, que ia ficar mesmo bonita, arejada e limpa, de branco como o resto das paredes, de branco como o resto do seu corpo, de branco como tudo aquilo que é novo, não fossem haver ainda tantas mágoas que os manchavam, tanta tinta a escorrer no meio dos dois, tanto caos, tanta desordem, tanto amor para pôr ao sol e os dois ainda a resgatar a sombra.
que sim, que numa casa onde as escadas nos dividem entre os planos do que em baixo e do que em cima nos parece separado, seria sempre complicado o amor vingar, porque não vinga. não é um verbo que combine com aquilo que traz no peito, não é vingando-se de nada que algum dia terá paz, mas muito mais cruzando os planos, subindo e descendo as escadas, já que aquilo que está em baixo é aquilo que está em cima e aquilo que está em cima é aquilo que está em baixo.
que seria tão mais quente e tão mais acolhedor haver mais fogo e menos água, conter as infiltrações para que parassem de trazer-lhe as memórias do passado e de lhe encharcar o corpo, atacar a humidade com a chama viva das paixões que não nos deixam desistir de encontrar ouro no interior das nossas sombras. que a salamandra e a lareira e as histórias e as pessoas se alimentam disso mesmo, da chama viva das paixões, das doces brasas de um abraço, e que das cinzas se renasce a cada dia que passa, haja lenha para queimar quando o Inverno, devagar, chega e vem bater à porta.
que sim também, que a cama poderia e deveria ser maior, com cabeceira para que os sonhos não trepassem às paredes e se esvaíssem com a noite, que a manhã, clara e nova, entrasse num quarto sem história e sem gemidos de ninguém. que no fundo lhe parecia nunca ter acreditado que merecia tantas bençãos, tantos dons, o que era estranho, tendo em conta as árvores todas que cresciam no jardim e davam frutos, adivinhava-se na relva o nascimento de um caminho, as bunganvílias prometiam muito mais do que dar flor, como é que não via ainda a liberdade semeada nas roseiras sempre que choviam pétalas? que não deixasse, por favor, de acreditar na poesia, nem desistisse de rimar consigo própria, que deixasse a sala aberta para o jardim e uma passagem para onde quer que quisesse ir, que se cumprisse sem esperar mais por mais nada ou mais ninguém, porque podia de repente ficar tarde e o chão ruir, desta vez sem mais conserto.
e, no entanto, foi preciso arquitectarem-se os afectos para a mudança ser real. esvaziarem-se as casinhas que se enchiam de lembranças e de tralhas e de bichos, arrastar as velhas coisas lá para fora e deitar fora as que nunca mais serviram - há sempre tantas coisas que não servem e que, mesmo assim, guardamos! pôr ao sol o que era sol e à sombra o que era sombra e suspirar, ainda na velha cama, já sem esforço e só suando do prazer que lhes trazia estarem juntos a cumprir mais uma etapa do caminho ou apenas experimentando partilhar uma aventura.
foi preciso a visão dele, e o acordo dela, para mudarem de lugar este sofá, aquela cómoda, duas mesas lá de fora cá para dentro, um tapete para a cozinha, pega ali, arrasta aqui, a ideia era pintar tudo de branco, já que no branco pode sempre começar tudo de novo. foi preciso desenhar numa folha aos quadradinhos as medidas onde iria construir-se de raíz uma outra coisa e que sim, que ia ficar mesmo bonita, arejada e limpa, de branco como o resto das paredes, de branco como o resto do seu corpo, de branco como tudo aquilo que é novo, não fossem haver ainda tantas mágoas que os manchavam, tanta tinta a escorrer no meio dos dois, tanto caos, tanta desordem, tanto amor para pôr ao sol e os dois ainda a resgatar a sombra.
que sim, que ficou presente em tudo, mesmo depois de se ir embora - é sempre a ele que se abandona. ficou presente na casinha das magias onde um anjo inspira as cores dos corações quando abre as asas, na transparência do cristal com que lhe resgatou a alma, algures no hemisfério sul da sua, na disposição das mesas para que possam estar mais perto e até tocar-se, mesmo estando um deles ausente, na visão de que o espaço se alargou de forma a dar-lhes muito mais do que os contornos da matéria e que é por isso que a presença se mantém tal qual a mesma. na disposição da relva, que acolhe a lua a cada noite que passa - mesmo que faça frio ou chova -, nas flores que lhe dão as boas vindas à entrada, de cada vez que chega a casa, na clarabóia onde vê nascer as estrelas e que a madrugada rompe, depois de sonhar com ele, na certeza de que as manchas de humidade e de mágoa e de bolor se dissipam à passagem do píncel. e que sim, que merecem, tantas bençãos, tantos dons e tanto amor. o fogo aceso, quando o Inverno lhes vier bater à porta, nem que para isso precisem de renascer das velhas cinzas de tudo aquilo que arde na dor.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
bate pára bate pára bate pára...
o coração ~ bate, expande, pulsa, dança ~ bate pára bate pára bate... pára. e aos poucos vai matando os que não amam, contraindo a solidão, envelhecendo, enferrujando ~ bate, salta, treme, pula, bate de encontro ao meu peito e não arde e não magoa e não faz ferida e nunca sangra ~ bate pára bate pára bate pára ~ pára tudo quando não lhe apanho o ritmo ~ fica mudo, fica seco, fica tonto, fica inútil. bate dói ~ bate cura ~ bate solta ~ bate cria ~ bate crê ~ bate muito! bate cor, bate som, bate gente e corro a abrir. bate e pára no silêncio a quem lhe vem falar de amor ~ pára quieto, pára limpo, pára em paz no rumor da tua pele roçando a minha ~ e bate fundo e bate dentro e bate grato pela vida ~ bate pára bate pára bate... pára. numa ilusão breve da morte que lhe oculta o movimento e expande luz em vez de sangue ~ e de novo é contraído num suspiro do universo e bate além, muito além do que foi músculo, muito além do que foi carne, muito além do que foi meu ~ bate pára bate pára bate pára ~ bate por e para nós ~ bate para sempre em nós ~ bate tudo ~ bate tanto ♥
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
plutão... tão... tão... tão!
e quando, na prática, ela começou a mudar, ele mudou-se. observa a distância e não há, não existe, chega a parecer-lhe que nunca esteve tão perto. tão perto do quê? do seu centro, do ponto onde simplesmente se observa, contida numa medida de humanidade que por certo limita os seus movimentos mortais, mas ilimitada pela eterna visão que o universo lhe oferece. alguém tinha de ser o plutão, a bater-lhe ora no sol - identidade -, ora na lua - emoções -, e também por isso está grata. por o ter tido incarnado, ao seu lado, e ter ousado cair no abismo que lhe propôs, por maior que fosse a vertigem da queda. grata pela escuridão que tantas vezes tomou conta de tudo, apagando as referências que tinha do bem e do mal, do errado e do certo, do sim e do não. e, tantas vezes, sentia-se a vítima e dilacerava-se com a injustiça de a vida a ter atirado, sem complacência nenhuma, para o precipício. e subia-lhe ao peito aquela auto-comiseração, tão própria de quem não acredita que o poder da mudança está, unicamente, nas suas mãos.
senhor da morte e da transformação, plutão não parecia querer dar-lhe tréguas. acredite-se ou não na simbologia dos astros, compreenda-se ou não o que são 'trânsitos', tome-se ou não por referência o que nos é proposto quando há quadraturas no mapa, o certo é que a rota, lenta e gelada, do pequeno anão a obrigou a realizar que o abismo não era mais do que as suas próprias entranhas tomadas por crenças, dores do passado, mentiras que lhe foram contando ao longo dos anos... e de nada servia pedir-lhe: 'deixa-me em paz', 'sê doce comigo', 'dá-me um abraço'. enquanto o sol e a lua estivessem na mira da sua rota, a sua função era ir embatendo ora num, ora noutro, ora num, ora noutro...
não sabe a quantos graus estará o plutão neste preciso momento, a sua rota, lenta e gelada, obedece ao movimento imparável do universo e é tudo. não tem de fugir, pedir-lhe coisa nenhuma. também ela se movimenta ao ritmo da vida e é tudo. o anão da morte e da transformação só nos encolhe e nos fere e nos mata se não tomarmos para nós o seu gigantesco poder de regeneração e de renascimento.
ao realizar que o abismo não esteve nunca lá fora, mas que ela própria o transporta nas suas entranhas, faz dele uma espécie de ventre materno, translúcido e doce, e agradece o embrião luminoso que, afinal, esteve sempre presente, em todas as suas co-criações.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
noite das bruxas
e eu, que sempre vivi guiada por fadas, abro mão da magia e dos pós de encantar e mergulho.
acendo o fogo e mergulho, para que me arda o passado e se queimem todas as feridas que teimo em abrir, de cada vez que acredito que sou este corpo de sangue e de carne.
diziam os celtas que dois deuses gémeos reinavam nas duas metades do ano. ao deus luminoso, cabia a metade do ano que ia do fim do inverno até à metade do verão, ficando o resto do ano entregue ao deus gémeo - o da escuridão.
longe de ser um deus 'mau', o que reina a partir desta noite não representa mais do que o declínio da natureza, que em paz adormece e se retira para dentro da terra, de forma a poder renascer quando, de novo, o deus luminoso vier tomar conta da sua metade do tempo.
à semelhança das árvores, deixo que as folhas me caiam, sem temer a nudez nem o frio do inverno. deixo que a terra me acolha numa humidade de ventre materno, que os planos se cruzem sem véus e que do outro lado me atendam as preces. que o fogo consuma tudo o que já não me serve e que a chuva abençoe todas as minhas entregas. condenso o silêncio nos dedos, que entoam canções de embalar à medida que os pouso nas teclas, e deixo que os dons se recolham, mas não que adormeçam.
a grande roda da vida não pára quando tudo mergulha na terra e se aquieta, há no ventre do fogo uma chama que chama o meu nome e que as bençãos da chuva, ao invés de apagarem, tornam ainda mais claro, quando o pronuncio dentro do peito, em silêncio *
sábado, 29 de outubro de 2011
tens a sensação de que escreves melhor quando sofres?
perguntou-lhe ele.
mastigou nos dedos as dores que as palavras convocam quando lhe suam as mãos, o embate no peito de cada vez que se debruça sobre o teclado do computador, há dois dias apenas havia ainda a janela por cima dos olhos e a luz entrava de frente, voltará provavelmente a trocar o lugar de tudo o que saiu do lugar, a figueira poderá nascer da parede e as folhas farão sombra ao anjo de loiça que, não sendo da guarda, ampara agora tudo o que de branco existe num livro começado há que tempos.
não sei,
respondeu.
e revolveu e reviu as letras que costumava alagar em prantos de insónia, as vírgulas parecendo soluços e os pontos finais em todas as histórias que lhe traziam de volta a lembrança das feridas antigas, a noite quando lhe entrava pela janela e a escuridão lhe batia de frente, revolve e revê o vulto da sombra no círculo da relva, a lua no céu a crescer ao relento e o espaço que foi nascendo entretanto, permitindo-lhe enfim que os passos sejam maiores do que as pernas, que nem sequer precise de pernas para sentir que caminha, retoma a dança que sente pulsar-lhe no peito só porque está viva e tão grata por tudo, e de novo o desenho é só um pretexto.
tudo, afinal, é só um pretexto, quando à falta de rumo há alguém que se sente perdido. quando é tão fundo tão fundo que dói que respirar se torna impossível.
há quem para criar precise de se destruir, disse ele então, ao mesmo tempo que da janela a espreitava, atingindo agora os seus olhos de frente.
provavelmente,
disse ela.
e repara que nada saiu do lugar, já que nada se move sem o consentimento dos anjos, que o vulto da sombra no círculo da relva se encheu de nenúfares, que o amor se alimenta do espaço que foi nascendo entretanto e que a lua está sempre cheia, afinal, quer a veja crescente ou minguante no ângulo do peito. e por isso é em paz que contempla as paredes da casa pintadas de branco. sofrer é um verbo que a mente conjuga quando alguma coisa ou alguém ameaça tirar-lhe poder e o desenho deixa de ser só um pretexto, de cada vez que aceita o convite da vida e os dedos entram na dança.
formas
o gelo derrete e continua a ser água. as montanhas desabam e são terra na mesma. as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. o vento amaina e o ar não se esgota.
formas.
só isso.
formas.
casas, árvores, cubos, caixas, pedras, pessoas.
medidas, pesos, tamanhos, enganos.
olhamos para as coisas e vemos as coisas. e quando uma casa desaba parece que deixou de ser casa. e quando uma árvore é cortada parece que deixou de ser árvore. e quando um cubo se amolga parece que deixou de ser cubo. e quando uma pedra é esmigalhada parece que deixou de ser pedra. e quando as pessoas se olham é carne que vêem e depois quando morrem parece-lhes que já não vêem mais nada.
formas.
só isso.
matéria que se condensa para nos dar aparência.
mesa, gato, folha, frasco, caneta, copo, papoila.
consistência, volume, textura, carácter, função.
a tudo atribuímos um nome. sem nomes o que seria da mesa, do gato, da folha, do frasco, da caneta, do copo?
papoila e a forma vem cor de vermelho, a consistência macia das pátalas, o pouco volume que ocupa nos campos, a textura de fino veludo, o carácter éfemero depois de colhida. funciona?
a espuma das ondas, a chuva de outono, o movimento do voo, a cadência dos passos, a ressonância das festas, um acorde menor, o aroma dos corpos... que formas temos para dar-lhes?
a ilusão de que sabemos como é que tudo se chama, de que para tudo há definições, a perspectiva e o ângulo, formas que mudam de fórmula para formar novas formas, milhares de partículas infinitamente minúsculas que brincam connosco e nos garantem que o mundo é redondo.
e o gelo derrete e continua a ser água. e as montanhas desabam e são terra na mesma. e as chamas apagam-se e o fogo permanece nas brasas. e o vento amaina e o ar não se esgota. e todos os dias milhares de pessoas abandonam o mundo das formas e, afinal, continuam a ser quem sempre foram.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
explicações metafísicas & outras considerações mais ou menos assim
~
foi hoje, enquanto nadava. a água tem esta maravilhosa particularidade de me aligeirar o corpo e a alma e só a mente, obstinada e teimosa, vai resistindo à liquidez do convite, mantendo-se à tona e fazendo-me crer que é à superfície que sei respirar. lembrei-me da frase da Frida Khalo que a Zicca postou há dias no FB - 'intenté ahogar mis dolores, pero elles aprendieron a nadar'. lembrei-me da frase que diz 'aquilo a que resistes persiste' e compreendo que as feridas da Frida só podiam mesmo ter aprendido a nadar, ninguém gosta de ser forçado a afogar-se e as dores, provavelmente, menos ainda.
hoje, na piscina, e para dizer a verdade - se é que alguma vez se diz a verdade - eu não tinha dores nem queria afogar coisa nenhuma e deixei a alma boiar, deixei o corpo avançar deitado de bruços, deixei a mente onde gosta de estar, à superfície, envolta nos seus labirintos sinápticos e assim se passaram vinte minutos ou mais. a seguir, enfiei-me no borbulhar do jacuzzi, pouco depois fui pôr-me a suar dentro da casinha da sauna e foi aí que começaram as vir as explicações metafísicas que tenho a mania de querer encontrar para tudo o que se passa no mundo, sobretudo o mundo que ponho a girar no umbigo.
o que é que uma coisa tem a ver com a outra, perguntam vocês, ou não perguntam, não sei, e aí é que está o umbigo: provavelmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. mas tantas vezes me esforço para que tenha e é a isso que chamo de 'explicações metafísicas'. por exemplo, imaginem que é suposto eu chegar a um encontro às 10h30, mas que me atraso, ou que me adianto, e que no atraso ou adiantamento me acontece outra coisa qualquer, do tipo encontrar uma nota de 100€ no chão, tropeçar e cair e partir uma perna, dar de caras com alguém que não vejo há que tempos. seja o que for, é só o que é, mas lá vem sempre a explicação metafísica do 'se foi assim só pode ter sido porque isto ou aquilo' ou 'ah, isto foi um sinal para eu perceber que quando me atraso parto uma perna', ou 'se me adiantar de todas as vezes que marco um encontro talvez encontre sempre 100€'
ok. provavelmente, não me estou a explicar muito bem. e observo que é maravilhoso não me estar a explicar muito bem. normalmente, esforço-me por me explicar muito bem. tudo tintim por tintim, sobretudo a escrever, parece que estou a tecer uma teia e ai do fio que fique fora do sítio, não vá a teia deixar de parecer uma teia, mas um emaranhado confuso de fios... e não sei mais o quê.
é. hoje fui nadar. e as considerações mais ou menos assim sobre nadar podiam ser infinitas. as explicações metafísicas sobre o posicionamento dos astros ao longo do dia de hoje e do de amanhã, como acabei de ler ainda há pouco, também no FB, indicam - consta - que são dias bons para 'fechamento do ciclo nos relacionamentos' e para a 'percepção do que deve ser deixado, em definitivo, para trás.'
'em definitivo', neste momento, é algo que não sei conceber. a não ser que, de facto, já tenha passado. a piscina, o jacuzzi e a sauna desta manhã, por exemplo, ficaram em definitivo para trás. assim como o copo de leite e a torrada que comi ao pequeno-almoço. a viagem até às escolas que fiz de manhã com as crianças.
baralhados? não faz mal nenhum! hoje a teia poderá ser confusa para quem está de fora e a vê já tecida. para mim, que estou aqui a tecê-la, a descoberta é que as explicações metafísicas apenas complicam a simplicidade da vida. as considerações mais ou menos assim, que a mente adora e que nunca se cansa de elaborar, são só isso mesmo: mais ou menos assim. 'ah, se me aconteceu isto foi porque a vida me queria dar um sinal' ou 'vou aproveitar a lua minguante para deixar definitivamente para trás um relacionamento.'
pois, pois. e, afinal, é só mais um texto: como outro qualquer.
domingo, 23 de outubro de 2011
fala-me da tua morte
e já tantos falaram. tenho as conversas gravadas, serão já nove ou dez, não me lembro, a ideia do livro entretanto mudou, o título por enquanto mantém-se.
fala-me da tua morte e houve alguém que me disse 'na pior da hipóteses é como dormir sem estar a sonhar' e observei-me a dormir, sem estar a sonhar, e não existe nem uma imagem que possa reter desse sono sem sonhos. e nem sequer faço ideia se é a pior das hipóteses, se haverá uma hipótese pior do que as outras, sei que a ideia da morte nos remete para a finitude dos corpos e que grande parte das nossas angústias vêm daí, de nos sabermos mortais, de nos sentirmos perenes, de estarmos sujeitos à impermanência das coisas, de acreditarmos que há qualquer coisa a separar-nos dos que estão mortos e de nos terem banido da eternidade quando, fisicamente, já não nos tocamos.
não sei. e é mesmo bom não saber. no livro, e aos testemunhos reais dos que ainda estão vivos, acrescentei a ficção dos que falam da morte do lado de lá, tão ou mais vivos do que os que ainda cá estão, afinal, e que encontraram, desse lado de lá, tudo o que imaginaram que encontrariam quando estavam ainda do lado de cá.
não sei. o lado de lá e o lado de cá foram, ao longo de anos e anos, dois lados que me esforcei por separar com muitas angústias e sempre cheia de dúvidas. a percepção, no entanto, é cada vez mais a de que não estão separados, não há um lado de lá, não há um lado de cá, há uma dança contínua de átomos, partículas e sei lá mais que poeiras que a olho nú são invisíveis que se juntam e se separam e de novo se juntam e se separam e que ora nos dão a ilusão da matéria, ora dissipam todas as formas e se consubstanciam na imensidão de um universo perfeito.
não sei. as próprias palavras - morte, morto, morrer - falam de crenças que ao longo dos séculos se entranharam em nós, sempre com muita dor à mistura, rituais mórbidos, pensamentos funestos, cemitérios onde enterramos as lágrimas, como se os corpos que aí deixámos contivessem ainda resquícios de afectos, de festas, de beijos.
e isto sei porque andei anos com o peso da morte a subir-me às entranhas. anos e anos a usá-lo como uma desculpa para me esvaziar de sentido, anos e anos até descobrir que, afinal, talvez fosse eu quem morria, ainda hoje me questiono se a morte não é, simplesmente, uma armadilha da língua, de cada vez que a usamos para significar o contrário da vida.
não sei. se me pedissem a mim
fala-me da tua morte
não faço ideia do que diria. mas sei, isso sei, que sempre que tomo a morte por ausência de vida me estou a enganar a mim própria. de cada vez que acredito que os que morreram se foram embora e me deixaram sozinha, estou a contar-me uma história da coitadinha. sei, isso sei, que a escuridão é onde me apago de cada vez que me afasto de mim, sei que a mente se pode treinar para ser cada vez mais capaz de não acreditar em mentiras, que o sofrimento em que tantas vezes mergulho é um gesto de auto-mutilação, tão humano, afinal, de cada vez que me esqueço que estou aqui, divinamente, a cumprir-me, ao serviço da vida e, tantas vezes, usando a morte como uma desculpa para me mortificar. se for mentira que são coisas opostas, a vida e a morte dançam em mim todos os dias e tudo o que há para fazer é seguir-lhes os passos.
mas nem isso sei. não sei nada, que bom! apenas a história que neste momento escolho contar-me e que, neste momento, seja de vida ou de morte, é de paz. luminosa e azul como esta imagem? sei lá!
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
pré-ocupados
há já muito tempo que deixei de ver telejornais. também não leio jornais. de manhã, a caminho das escolas, oiço as notícias das 8h00, na RFM. são rapidinhas, sucintas. chegam e sobram para ter uma ideia. uma ideia do quê? nem sei bem dizer. o que de verdadeiramente importante vai acontecendo na minha vida e na vida dos que me são próximos não é digno de ser relatado nas notícias das 8h00 da RFM. nem nos telejornais. nem nos jornais.
há uns anos também, troquei uma entidade empregadora, um salário chorudo e um comodismo agradável pela aventura de ficar por conta própria, sem nunca saber quantos euros iria ganhar ou perder e a liberdade de não ter nem de agradar nem de obedecer a ninguém. ainda não me arrependi!
há anos que não faço ideia do que é isso de ter subsídio de férias ou de natal, não me passou sequer pela cabeça, quando saí de um emprego onde estava há catorze anos, negociar subsídio de desemprego, ou começar a roçar-me pelas paredes, para me despedirem e levar uma indemnização para casa. na altura, diziam-me que eu era louca. talvez porque somos um povo habituado a reclamar muito os direitos e a cumprir pouco os deveres, não sei. sei que não era ético, sei que para mim não fazia sentido exigir fosse o que fosse ao 'patrão', mas apenas agradecer-lhe os anos de sã convivência e levar da experiência tudo o que me parecesse importante.
a brincar, costumo dizer que hoje sou precária por conta própria. continuo sem saber quantos euros vou ganhar, quantos euros vou perder, e o futuro só me assusta quando me pré-ocupo com ele. aí, sim, fico cheia de dúvidas, fico cheia de medos e é um rol desmedido de 'ai isto' e de 'ai aquilo' e de 'ses'. se há uns tempos me chamavam louca, hoje há quem me chame inconsciente, sobretudo quando reparam que não me pré-ocupo com o futuro.
ainda ontem, o pai das minhas filhas mais novas alegava o direito de se pré-ocupar com o futuro das nossas filhas. ri-me. ri-me porque me ocupo delas todos os dias. hoje, por exemplo, ocupei-me a acordá-las, dei-lhes beijos, tomámos juntas o pequeno-almoço, levei-as à escola. sim, posso ficar o resto do dia a pré-ocupar-me com elas. não sei se resulta, duvido. observo que pré-ocupar-me raramente resulta.
há uns dias, a Madalena cortou-se. ocupei-me da ferida. pus betadine. a seguir, pus-lhe um penso. tudo com muita calma, enquanto ela dizia 'ai ai ai'. a certa altura, não sei se por me ver calma, a Madalena acusou-me de não estar nada pré-ocupada com ela. ri-me e sugeri-lhe que observasse se a minha pré-ocupação a ajudava. e desatei, também eu, num 'ai ai ai' desenfreado. foi a vez de ela se rir. percebeu que ocupar-me dela era mais eficaz do que pré-ocupar-me com ela.
há uns dias, a Madalena cortou-se. ocupei-me da ferida. pus betadine. a seguir, pus-lhe um penso. tudo com muita calma, enquanto ela dizia 'ai ai ai'. a certa altura, não sei se por me ver calma, a Madalena acusou-me de não estar nada pré-ocupada com ela. ri-me e sugeri-lhe que observasse se a minha pré-ocupação a ajudava. e desatei, também eu, num 'ai ai ai' desenfreado. foi a vez de ela se rir. percebeu que ocupar-me dela era mais eficaz do que pré-ocupar-me com ela.
sim, é sempre mais eficaz. ocuparmo-nos do que nos é dado a viver a cada momento. na pré-ocupação, o espaço para o presente fica cheio dessa futura ansiedade e os momentos consomem-se, consomem-nos, tantas vezes sem darmos por eles. e, sim, continua a haver muitos dias em que, também eu, me pré-ocupo. e por isso conheço bem a diferença: entre os dias em que estou pré-ocupada e os dias em que estou, simplesmente, ocupada. agora, por exemplo, estou ocupada a escrever este texto. podia pré-ocupar-me a pensar se alguém irá lê-lo, pré-ocupar-me com o que vou fazer a seguir, pré-ocupar-me com tantas outras coisas, sei lá.
e a culpa, ah, a culpa! dos políticos, dos ladrões, dos lobbistas, dos ricos, dos outros, pois. todos tão pré-ocupados com o que os outros fizeram, desfizeram, tiraram, roubaram e por aí fora. e 2012, meu deus!, a pré-ocupação que por aí vai e, afinal, hoje é dia 19 de outubro de 2011 e de 2012 não há nadinha, nadinha que se possa, hoje, ter a certeza de que irá existir. ou há? se houver, por favor digam...
e e ok. pré-ocuparmo-nos com o futuro. com o corte dos subsídios, com a falência do estado, com as pensões vitalícias dos políticos, com a saúde da prima, com as negativas do filho, tudo serve, afinal, para nos pré-ocuparmos...
hoje, escolho ocupar-me com o presente. olho pela janela e vejo a figueira. calculo que não esteja minimamente pré-ocupada com as folhas que lhe irão cair, não tarda muito. eu também não estou. pré-ocupada com coisa nenhuma. e é por isso que o espaço cá dentro hoje está assim, livre e desocupado. e então já irei ver o que vou fazer, agora que estou mesmo a acabar este texto. talvez pintar...
terça-feira, 20 de setembro de 2011
c de clara
- fala-me de ti
pediu ela, depois de ter chegado meia hora atrasada.
mas preferi falar delas. fazia um calor de plantar ananases, tinha estado a plantar um capsicum laranja e outro capsicum vermelho de manhã, as unhas ficaram cheias de terra, estive quase para ir assim para o almoço, com as unhas pintadas de terra e de capsicums, não me lembro de alguma vez as ter pintado nem de vermelho nem de laranja
pediu ela, depois de ter chegado meia hora atrasada.
mas preferi falar delas. fazia um calor de plantar ananases, tinha estado a plantar um capsicum laranja e outro capsicum vermelho de manhã, as unhas ficaram cheias de terra, estive quase para ir assim para o almoço, com as unhas pintadas de terra e de capsicums, não me lembro de alguma vez as ter pintado nem de vermelho nem de laranja
- são gostos!
sim. há gostos para tudo. desgostos, tragédias, coisas sem importância nenhuma que, volta não volta, transformamos em dramas, contei-lhe
- são nove.
- para quem está de fora, a conversa não faz sentido nenhum - não disse ela, mas apeteceu-me inventar.
pedimos a sopa e era de beterraba, chá frio de gengibre e limão, gosto da juba loira que não faço ideia como penteia, pois não acredito que exista um pente capaz de penetrá-la.
- vá, conta lá.
nada. calada. muda. a mudar de conversa e assim.
- são nove...
não sei dizer - nunca soube - se é a ficção que imita a realidade ou se é a realidade que imita a fixação das ficções, mas avisei-a
- não vou escrever com as regras do novo acordo ortográfico, ok?
saladas. de chèvre para ela, grega para mim. lembrei-me - mas foi só agora - da εντροπία - a tal da grandeza termodinâmica que aparece geralmente associada ao que se denomina por 'grau de desordem' -, continuo a acreditar que é mesmo assim.
- nove?
- nove.
disse-lhe os nomes e contei-lhe as histórias. continuava um calor de plantar ananases, suávamos, apesar do limão, do gengibre, do gelo. misturavam-se todas
- as nove?
para quem ainda não as conhece, é muito normal que as baralhe. nem eu sei o que lhes reservo, se lhes reservo seja o que for ou se são elas que me levam a mim e nem sei bem para onde. sei que vai dar-me jeito a Zicca - Zicca? - agora saber italiano, porque o marido da C. também é, italiano, fotógrafo, disse-lhe
- anda atrás dos cenários de guerra mas é sempre com a paz a saltar-lhe dos olhos que volta para casa.
- estou a gostar, estou a gostar, conta mais.
contei. falei-lhe da P., que de repente mudou, deixou de ser quem eu achava que era
- coisas da sombra
expliquei-lhe.
falei-lhe da R., tão deprimida, depois do aborto espontâneo, teve mesmo de ser. falei-lhe da V., que não é de Vitrine, mas podia ser, é a mais ausente das nove
- talvez.
talvez porque não sei. não sei de todo o que lhes acontece, há alturas em que são elas que mandam.
falei-lhe da M. e da R. da sorte de haver neste mundo uma criança que, quando uma mãe morre, ainda tem outra. falei-lhe da Dulce Rosa e ela sorriu
- Dulce Rosa. gosto do nome.
falei-lhe da F. imaginei-a a fugir para França para ir ter com a irmã que tinha emigrado há já muito tempo, escapando-se assim às sovas do A. e à gordura do Bruno Miguel.
- estou a gostar!
e pedimos café.
quere-o para abril, mas já lhe disse que não tenho agenda, apenas o ritmo dos dedos nas teclas, a realidade imitando a ficção, a ficção imitando a realidade, as fixações e de uma coisa tenho a certeza: que um facto é um facto e se escreve com 'c', porque caso contrário é um 'fato' e falei-lhe no F. advogado. o marido da R., vai sempre de fato e gravata para o escritório. falei-lhe no R., marido da V. falei-lhe do N., que deixou a P. com um filho no ventre sem querer saber mais coisa nenhuma a respeito de nada. falei-lhe do Z. um querido, o Z., taxista e assim
- marido da Dulce Rosa.
falei-lhe de mim, pois está claro. e das tantas histórias que, todos os dias, se atravessam na minha mente e do tanto que gosto de as ter, mais não seja para as escrever e assim cumprir o meu dom e depois acrescentei
- a de que eu gosto mais é a C.
e é mesmo.
- C. de Clara
por mais que tantas vezes escureça.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
45
diga?
quarenta e cinco.
ah, quarenta e cinco!
e a seguir pegou na chave. era um longo corredor quase sem luz, de um lado e de outro havia portas e em cada uma havia um número. 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29.
diga?
os alagarismos pareciam-lhe aranhiços, como se as portas fossem teias de madeira, punha a chave na ranhura e emaranhava-se nas voltas. uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, mas nenhuma porta abria e então era preciso dar de novo uma volta, duas voltas, cinco voltas, vinte voltas, agora em sentido contrário, para poder tirar a chave e experimentá-la na seguinte e repetir tantas voltas quantas fossem necessárias para achar o quarenta e cinco.
se em vez de 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29 visse escrito nove, doze, vinte e dois, cinquenta e sete, trinta e um, quarenta e seis, noventa e cinco, quinze, trinta e quatro, vinte e nove... era mais fácil?
não sabia.
a certa altura, o corredor clareava e, em vez de portas dos dois lados, passou a haver amplas janelas por onde entravam as paisagens mais remotas e mais belas. os pinhais mansos ocupavam uma delas por inteiro e espraiavam-se, indolentes, no rumor seco do verão. logo a seguir, era a chuva que caía sobre um rio plúmbeo, chumbo líquido que lhe trazia à memória o velho bruxo escanzelado que lhe comprimira as margens. fazia frio e através do vidro fosco pode entrever as mansas constelações que em tempos lhe apontara e que espantavam o inverno com o seu brilho perfeito. mais um passo e debruçava-se a saudar a lunar circunferência do amor, emoldurada pelos espelhos dos seus sonhos e reflectindo toda a esperança que sentia de cada vez que se banhava no seu colo de algodão doce. do lado oposto, o caixilho era de flores e o parapeito um extenso campo de onde colheu ervas de cheiro, frutos exóticos e várias espécies de sementes para a viagem.
quando de novo se estreitou - o corredor -, não deixando sequer espaço para haver portas ou janelas, nem de um lado nem do outro, manteve a chave no bolso e esperou quieta que surgisse a novidade. não tardou a acender-se uma minúscula clarabóia logo acima dos seus olhos e foi na sua direcção que se esticou. primeiro as mãos e o contacto estonteou-a, porque a luz tinha textura e a sentiu colada aos dedos. elevou depois o tronco e reparou como o chão se dissolvia. tirou a chave do bolso e meteu-a na ranhura do seu peito e de repente abriu-se o céu.
45.
diga?
quarenta e cinco!
repetiu, dando ordens ao seu corpo para que a acompanhasse, mas mais nada se moveu e já nem sequer fez caso.
o que é que disse?
que há-de voltar para o recolher quando acordar.
ou talvez não e repetiu:
45.
se em vez de 9, 12, 22, 57, 31, 46, 95, 15, 34, 29 visse escrito nove, doze, vinte e dois, cinquenta e sete, trinta e um, quarenta e seis, noventa e cinco, quinze, trinta e quatro, vinte e nove... era mais fácil?
não sabia.
a certa altura, o corredor clareava e, em vez de portas dos dois lados, passou a haver amplas janelas por onde entravam as paisagens mais remotas e mais belas. os pinhais mansos ocupavam uma delas por inteiro e espraiavam-se, indolentes, no rumor seco do verão. logo a seguir, era a chuva que caía sobre um rio plúmbeo, chumbo líquido que lhe trazia à memória o velho bruxo escanzelado que lhe comprimira as margens. fazia frio e através do vidro fosco pode entrever as mansas constelações que em tempos lhe apontara e que espantavam o inverno com o seu brilho perfeito. mais um passo e debruçava-se a saudar a lunar circunferência do amor, emoldurada pelos espelhos dos seus sonhos e reflectindo toda a esperança que sentia de cada vez que se banhava no seu colo de algodão doce. do lado oposto, o caixilho era de flores e o parapeito um extenso campo de onde colheu ervas de cheiro, frutos exóticos e várias espécies de sementes para a viagem.
quando de novo se estreitou - o corredor -, não deixando sequer espaço para haver portas ou janelas, nem de um lado nem do outro, manteve a chave no bolso e esperou quieta que surgisse a novidade. não tardou a acender-se uma minúscula clarabóia logo acima dos seus olhos e foi na sua direcção que se esticou. primeiro as mãos e o contacto estonteou-a, porque a luz tinha textura e a sentiu colada aos dedos. elevou depois o tronco e reparou como o chão se dissolvia. tirou a chave do bolso e meteu-a na ranhura do seu peito e de repente abriu-se o céu.
45.
diga?
quarenta e cinco!
repetiu, dando ordens ao seu corpo para que a acompanhasse, mas mais nada se moveu e já nem sequer fez caso.
o que é que disse?
que há-de voltar para o recolher quando acordar.
ou talvez não e repetiu:
45.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
ou tono, ou tono
não foi sequer premeditado, um dia apeteceu-lhe e pronto! justificou-se e escreveu a despedir-se, ah não sei quê e a humanidade quer é espanto e não porquês e mais isto e mais aquilo e então this is the end e muito obrigada a todos.
bluff?!
não. não era bluff. não era, que tivesse consciência, nenhuma farsa, não tinha cartas na manga e nesse dia, a essa hora, em que pôs fim ao chorrilho de palavras que a esventravam, acreditou que estava a salvo. do quê? nem ela sabe. e já nem sequer lhe interessa, salvar-se seja do que for, ou condenar-se a qualquer coisa, tanto lhe faz.
apego, é. vai-se a ver e é só isso. a humana idade tornando-se familiar a cada passagem de ano, o hábito da pele a transpirar ou a tremer, a sombra condensada sobre as pálpebras, a luz que tanto a vem espreitar dos sonhos, o carácter distorcido das mentiras, a brancura da verdade, as palavras, sempre as mesmas!, combinando novas frases e iludindo as perspectivas, a aventura da matéria que apodrece ao mesmo tempo que alimenta a eternidade,
que milagre!
e afinal aqui está ela. e tanto faz a quem chamo ela. tanto faz a quem chamo eu. tanto faz quem somos nós. a humana idade dos porquês é, afinal, deliciosa!
(diz o outro e muito bem)
sobretudo porque nunca tem resposta e, quando tem, ela varia e avaria e repete a sensação que se tem perante o espanto, afinal sempre é verdade, que queremos espanto, muito mais do que porquês. ou porque sim, ou porque não, vai dar ao mesmo.
ou talvez não.
e o que constato é que, vista daqui, ela se ri às gargalhadas. não faço a menor ideia se é de espanto, felicidade, masoquismo, insensatez, esquizofrenia, não me interessa. por mais que a queira controlar, nunca consigo. por mais que a cale, ela não cede e tem voz própria e faz o que lhe dá na gana. não sei se é original ou se uma cópia do que seja e, de novo, não me interessa e a ela também não. nada lhe pesa, ela é apenas a que sopra e é difícil traduzir quando é vento o que se sente aqui por dentro.
bluff?
bluff?!
não. não era bluff. não era, que tivesse consciência, nenhuma farsa, não tinha cartas na manga e nesse dia, a essa hora, em que pôs fim ao chorrilho de palavras que a esventravam, acreditou que estava a salvo. do quê? nem ela sabe. e já nem sequer lhe interessa, salvar-se seja do que for, ou condenar-se a qualquer coisa, tanto lhe faz.
apego, é. vai-se a ver e é só isso. a humana idade tornando-se familiar a cada passagem de ano, o hábito da pele a transpirar ou a tremer, a sombra condensada sobre as pálpebras, a luz que tanto a vem espreitar dos sonhos, o carácter distorcido das mentiras, a brancura da verdade, as palavras, sempre as mesmas!, combinando novas frases e iludindo as perspectivas, a aventura da matéria que apodrece ao mesmo tempo que alimenta a eternidade,
que milagre!
e afinal aqui está ela. e tanto faz a quem chamo ela. tanto faz a quem chamo eu. tanto faz quem somos nós. a humana idade dos porquês é, afinal, deliciosa!
(diz o outro e muito bem)
sobretudo porque nunca tem resposta e, quando tem, ela varia e avaria e repete a sensação que se tem perante o espanto, afinal sempre é verdade, que queremos espanto, muito mais do que porquês. ou porque sim, ou porque não, vai dar ao mesmo.
ou talvez não.
e o que constato é que, vista daqui, ela se ri às gargalhadas. não faço a menor ideia se é de espanto, felicidade, masoquismo, insensatez, esquizofrenia, não me interessa. por mais que a queira controlar, nunca consigo. por mais que a cale, ela não cede e tem voz própria e faz o que lhe dá na gana. não sei se é original ou se uma cópia do que seja e, de novo, não me interessa e a ela também não. nada lhe pesa, ela é apenas a que sopra e é difícil traduzir quando é vento o que se sente aqui por dentro.
bluff?
pode ser...
o mais provável, no entanto, é ser o vento do outono a aproximar-se de repente.
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