terça-feira, 26 de julho de 2011

Previsões astrológicas e psicológicas para 2012

Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora.
Aviso crucial a si, leitor ou leitora:
Neste texto não encontrará as previsões tradicionais, signo a signo.
Se é isso que procura, desista já de ler.

Previsões astrológicas e psicológicas para 2012
Texto por António Rosa e Susana Vitorino
Ilustrações de Inês de Barros Baptista
Este texto/lustrações é publicado em simultâneo nos blogues dos co-autores:
assim como no «SAPO Astral» [Portugal], na revista electrónica «Hierophant» [Brasil],
e no site «Escola de Astrologia Nova-Lis»

Este texto foi especialmente ilustrado por
Inês de Barros Baptista
Conheça os seus blogues,
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«A maioria dos homens passa a vida sem perceber e 
muitas vezes sem ao menos se perguntar,
o motivo real de sua presença na Terra.»
Trigueirinho

«...um imenso país financeiro chamado FMI»
André Louro de Almeida


Introdução

Este é um texto longo. Ainda por cima, feito a 6 mãos e 3 cabeças. Duas das cabeças dedicadas à escrita e uma, ilustrando lindamente o texto.  Desde já, o meu agradecimento à Susana Vitorino e à Inês de Barros Baptista. A Inês, com os seus vastíssimos conhecimentos de astrologia, bem que poderia estar a «escrevinhar», mas escolheu ilustrar, o que é uma enorme mais valia. É tão bom ter amigos. Como é que isto aconteceu? No Facebook, pedi ajuda pública e estas amigas ofereceram-se. É o lado luminoso das redes sociais.

Por favor, leitores, sejam espertos e não escrevam nos comentários, como costumam fazer, coisas do género: «apesar de longo...», pois isso mesmo acabou de ser confirmado.

Este texto sobre 2012 foi idealizado com a intenção de podermos fazer pedagogia astrológica, sem assustar ninguém, pois apenas pretendemos informar, educar e ajudar na discussão sobre um dos anos mais emblemáticos dos tempos actuais.
  
Susana Vitorino, que em boa hora aceitou o pedido para colaborar neste texto, é uma astróloga analista Junguiana por natureza. Excelente a fazer psicologia analítica. Fiquei muito satisfeito e feliz com esta colaboração, e o seu excelente texto está imediatamente a seguir a esta introdução. 

Com estas análises, ou entraremos numa das muitas listas negras, ainda existentes, ou muitos assobiarão para o lado, pensando mais ou menos isto: «Coitados deles!». O certo é que a Susana, a Inês e eu, apreciámos muito esta tarefa. 

O melhor será guardar este texto nos seus favoritos (para isso basta clicar no título do post e guardá-lo) ou copiar para o seu computador, para ir lendo, com calma. Por outro lado, se está à espera de previsões tradicionais do género, signo-a-signo, não vai encontrar isso. Portanto, quem avisa, amigo é.

Antes de mais, vamos dar realce a esta informação: o planeta regente de 2012 é a Lua. Curiosamente, esta luminária começa o ano estando no signo Carneiro/Áries, dando um impulso inicial a esta fase, desejando tomar iniciativas, querendo concretizar acções. Todos aqueles astrólogos que se debruçam com muita atenção sobre os eclipses que ocorrem, terão oportunidade de no ano em que a Lua é regente, verificarem que essa atenção será redobrada. Depois, será uma questão de critério e de maior ou menor ênfase nas suas análises. 

Reconheço que sou muito descuidado sobre este assunto e raramente me entusiasmo - astrologicamente falando -, sobre o tema dos eclipses e pouco tenho escrito sobre o assunto. Há astrólogos muito bem sucedidos nesta área. [exemplos de astrólogos bem sucedidos nesta área: aqui - aqui - aqui - aqui - aqui e há mais.]

Tentarmos fazer previsões para o ano de 2012, é como caminhar por um campo minado, pois tornou-se num ano mítico. Muito falado, muito comentado, muito empolado, pertence àquele género de coisas que fazem parte das convicções pessoais de cada pessoa. O ano de 2012 tornou-se num fenómeno global, onde imperam milhares de textos para todos os gostos, até deu um filme à Hollywood [aqui], gerou imensos vídeos, enfim, toda uma panóplia informativa.

Como disse, sobre o 2012 há interpretações para todos os gostos. Tentando simplificar, diria que há duas correntes maioritárias e opostas:

1 - Aqueles que advogam a possibilidade de um cataclismo tremendo para o nosso planeta: teorias e profecias sobre o calendário Maya, a existência de um planeta intruso, vários alinhamentos astronómicos e fórmulas numerológicas têm sido relacionadas com esta data, que conduzem à crença que em 21 Dezembro 2012 haverá uma ocorrência de tal magnitude, que conduzirá a profundas transformações físicas e catastrofistas do nosso planeta. Uma simples consulta no Google dar-lhe-á imensa informação sobre este assunto.

2 - E há a corrente contrária, também ela muito diversificada nos seus posicionamentos, que vão dos cientistas que rejeitam a visão catastrofista, até aos meios espiritualistas [diga-se que muito divididos] que advogam outros conceitos de transformação planetária, mas com suavidade, sem nenhuma conotação com catástrofes apocalípticas. 

Por isso, ter dito mais acima, que fazer previsões astrológicas para 2012 é como caminhar por um campo minado.

A nossa visão pessoal e astrológica sobre 2012 pertence à corrente pacífica do tema.

Não apreciamos a palavra «previsões» para estas análises que tenho feito nos últimos anos. Pois não é isso que fazemos. Mas como é assim que é chamado pela maioria das pessoas, sentimos que se deve usar, apesar de não corresponder ao estilo que desenvolvemos.

Vou colocar-me, desde já, na posição do descrente na catástrofe planetária. Crente, sim, em como o planeta está em transformação. Adianto já que estou à espera de ouvir as vozes que soarão, ao longo de 2012, com profecias a propósito da ocorrência de vulcões, terramotos, tufões, tempestades, ciclones e outros cataclismos próprios da natureza (aqui, mas da linha 'esperança' / aqui, da linha 'dura'). Mas também ouvirei as vozes extasiadas e deslumbradas daqueles que verão nestes mesmos fenómenos, temas transcendentais e místicos (aqui). Ambas as partes sentem que estão dentro da verdade universal. E, sinceramente, não sei qual delas é a mais cristalina.

Enquanto «o pau vai e vem, folgam as costas», pelo que não me importaria nada de ver uma nave ET gigantesca no rio Tejo. Isso, sim, deixar-me-ia empolgado.

Vamos mas é ler a análise brilhantíssima de Susana Vitorino, já a seguir.

Alguém acha, em consciência, que o planeta não está em fase de transformação?


Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora.

A análise de Susana Vitorino


Falar sobre o ano 2012 é um bocadinho como profanar a campa que já muitos Velhos do Restelo e Amigos da Desgraça Colectiva adornaram com tanta veemência e prazer mórbido. Vou fazê-lo. Vou profanar essa campa, ou não fosse eu Escorpião, com um Mercúrio em Escorpião (peregrino: i.e. : sem aspectos) e com uma Lua que vive de braço dado com Plutão no IC. Até já estou a arregaçar as manguinhas. E sim, trouxe a minha malinha de CSI: claro! Para recolher as impressões digitais e mentais. Para procurar vestígios do sémen de quem tem prazer orgásmico só de pensar no dia do Juízo Final, fazer esfregaços em línguas bífidas para identificação de ADN Apocalíptico e procurar vestígios de sangue. Do que já foi derramado e do que ainda virá a ser...

Porque, meus amigos, let’s face it! como dizem os “amaricanos”: Bad News are Good News.E as más notícias vendem como pãezinhos quentes. Aqui, e em qualquer parte do mundo dito ocidentalizado. Vendem livros. Vendem capas de revista. Até vendem lenços para os que choram por antecipação o fim do mundo...

Chamem-me ingénua, louca, descrente, inculta, herege (hmmm! que sensação de déjà vue...), mas não acredito em nenhuma das correntes fundamentalistas que proliferam como silvas pela internet. A saber: a corrente que dá como certo o fim do mundo, porque o Calendário Maia termina numa data específica, e outros sábios da antiguidade o apregoaram. Como se, de um dia para o outro, o mundo fizesse: PUM! e fossemos todos varridos da face da terra. Hiroshima e Nagasaki revisitados? Talvez. Mas como nos diz o Sting numa canção que compôs ainda no tempo da Guerra Fria: The Russians Love Their Children Too. Portanto, por mais bunkers e panic rooms que haja por aí escondidos por esse mundo fora.... se o Planeta explodisse, o máximo que poderia acontecer era outras formas de vida inteligente estarem a apreciar um belíssimo fogo de artifício. Se fosse uma nova bomba atómica... Bom... “Ó Maria! Temos a despensa cheia de conduto, mas agora os miúdos não têm com quem brincar.” 

Deve ser triste. Digo eu, que sou filha única e gosto de dizer coisas.

A outra  corrente, é a corrente Cor de Rosa. Já li de tudo! Desde dizerem que virá uma nave que nos vai salvar. Ou que de repente, como que por magia, o ser humano dará um salto quântico evolutivo sem dor ou privação... no fundo, o «Imagine» do John Lennon tornado numa realidade em que basta enterrar a cabeça na areia como as avestruzes, e juntar água.

As aparições de Fátima foram em 1917 e os cogumelos continuam a fazer efeito! Uau!

A História mostra-nos que tudo acontece ciclicamente. Curiosamente, a Astrologia também. Ele há coisas do Arco da Velha! MEMORANDO PARA OS MAIS DISTRAÍDOS: Tudo na Natureza é cíclico.

Sempre que houve grandes convulsões na História da Humanidade, três palavras se fazem presentes: Fome, Peste e Guerra. Como se irá revelando esta trilogia no anos vindouros? Não sei. A Fome está instalada e a Guerra também. Mas agora já não se passa só lá naquele Continente belo, exótico e convenientemente distante ao qual chamam África. Passa-se mesmo debaixo dos nossos olhos e nos carrinhos vazios de qualquer Continente... 

A Peste... Bom, a Peste já la vamos. Tal como à Astrologia.

A Peste já não é a peste bubónica - mais conhecida por Peste Negra,  que dizimou milhares de pessoas na Baixa Idade Média. Esta não é a única referência a uma Peste ao longo da História, mas é, talvez, a mais conhecida. A Peste dos dois séculos que atravessamos, para mim, (e vale o que vale, como qualquer ponto de vista ou opinião) é o Medo e a Resistência e não Aceitação da Mudança. Clinicamente chamam-lhe: DEPRESSÃO. Há uns bons meses tive uma discussão com alguém do sexo masculino (sim, porque a Depressão é uma coisa de mulheres...), e ligado à área da saúde, que quase me pegou fogo por eu ter dito isto. “E o Cancro?” - espumava ele. “E a Sida?” A SIDA, digam-me o que me disserem (até já ouvi chamar-lhe um castigo divino por causa dos loucos anos Sessenta e Setenta: Make Love not War!), tenho a convicção de que foi uma doença criada laboratorialmente. Ponto. I rest my case. Podemos discutir isso noutra ocasião.

Cancro... ainda não tinha sido concebida, já lidava com essa estranha doença que é o corpo antropofágico. E continuo a lidar. Todos os dias. Um corpo que se consome a si mesmo a partir do interior. Por mais que doa, especialmente quando é no nosso quintal, é-me muito óbvio que advém de um auto desamor, de raivas internas que consomem como lava, do medo da Vida e de depressões não assumidas e mal tratadas. Poderia agora dissertar muito sobre isso, mas deixo o link de uma das pessoas que mais considero a nível mundial sobre o assunto: Lise Bourbeau (AQUI). O seu livro “Escuta o teu Corpo” marca uma viragem na minha vida, sem dúvida.

Jung dizia que os estados de Alienação (Depressão) eram estados de passagem. Ritos internos que nos faziam parar e pôr em perspectiva coisas das nossas vidas que de outra forma não ponderariamos. Na Astrologia esses estados são-nos dados pelos trânsitos de Saturno e com uma mãozinha delicada de Plutão, por vezes. Hélàs! Que entramos na Astrologia!

A maior parte de nós, quando cai num destes estados, fica em looping. Passa a ser um hamster girando continuamente na sua roda. 

O que se avizinha para o tão temido ano 2012 e suas imediações? Onde estamos a ser teimosamente hamsters?

De tudo aquilo que o António Rosa já falou, acrescentarei algumas coisinhas que me chamaram assim pelo cantinho do olho...

Começo então a destacar os coelhos que me saltaram da cartola:

1) A famosa quadratura de Úrano em Carneiro a Plutão em Capricórnio. Cruz Cardinal. Vai-nos dar ainda muita água pela barbinha... 

2) A Cruz Mutável, com a entrada de Neptuno em Peixes e Kiron em Peixes também. A entrada de Júpiter em Gémeos. O Eixo da Cura (XII -VI) ultra activado, e o da Comunicação (III-IX) também.

3) Na Cruz Fixa, e com a passagem ainda longa de Júpiter em Touro, vamos trabalhar o nosso Eixo do Despojamento (II - VIII), quando Saturno entrar em Escorpião.


A maior parte de nós, quando cai num destes estados, fica em looping. Passa a ser um hamster girando continuamente na sua roda. O que se avizinha para o tão temido ano 2012 e suas imediações? Onde estamos a ser teimosamente hamsters? 

Como o António avisou, e muito bem, no início deste artigo – não esperem previsões por signo ou “comuns”.

Tentarei  (“Se a tanto me ajudar o engenho e a arte”) compilar as três alíneas anteriores em texto corrido, quase conversado, convosco.

Antes de mais, gostaria de começar por colocar uma questão: Se andamos a viver como os hamsters na sua eterna roda giratória, então: Qual é o Caminho para sair da roda?

Eu diria que: Começar a ver para além da Matriz. E para começar a ver para além da Matriz vamos ter que começar a despir camadas e camadas e camadas de cima de nós, como se fossemos uma cebola, até ficarmos nus. Despidos. Literalmente. Neófitos.

Despojamento e retorno às origens. Voltar ao contacto com a Natureza. Gaia: Terra Mãe. A Lua como regente do ano deve ser só uma coincidência, não acham? Vivemos um movimento que nos impele para um resgate das energias Yin (femininas) e para um reequilíbrio entre Yin e Yang  (Feminino e Masculino), que tanto têm vivido desagregados e em polaridade. O Eixo da Cura, como referi, estará muito activado. Neptuno em Peixes vai requerer de nós um trabalho interno que poderá não ser nem óbvio, nem palpável. Está na altura de buscarmos as respostas dentro e não fora, pois estas estão viciadas. Sigam o vosso coração – aí reside o vosso tesouro. Para uma sociedade habituada a viver no primeiro quadrante e numa espécie de pinball no Eixo IV-X,  esta é a grande hecatombe que já começou e que o ano 2012 testará aos limites. Passo a explicar-me. 

A maior parte da população em todo o mundo (mundo ocidentalizado, industrializado e [suspostamente] educado incluído) vive entre a Casa I e a IV, fazendo ricochete para a X.

Bolas! E eu que nem pedi para nascer, mas foi mais forte que eu: Carneiro
Preciso ter roupa no corpo e comida na mesa e um tecto: Touro
Preciso de me Comunicar com os meus semelhantes:  Gémeos
Pertenço a um núcleo familiar, primeiro de sangue, depois escolhido por mim: Caranguejo
Quero sair lá para fora para o Mundo, ser alguém, mas, como não consigo sair da IV acabo por obedecer às ordens de cima – ao Governo, ao Patrão, às expectativas dos outros: Capricórnio
O resto do zodíaco é bonito para enfeitar. Especialmente se tiver o dedo mágico da Inês Barros Baptista.

Só variam os graus. Se isto for vivido na favela ou em grande parte do continente Africano, a grande questão é se vou chegar ao dia de amanhã. Se isto for vivido com mais verniz, a questão é: compro um BMW ou um Audi? Vou jantar ao 'Bica do Sapato' ou ao 'Gambrinus'? Mas a vibração é exactamente a mesma e o patamar também. Basicamente é em Touro que muita coisa se decide. Um menino do Ruanda deseja comer um prato de arroz. Um menino da sociedade dita ocidentalizada e de primeiro mundo deseja o último gadget informático.

Mais introspecção. Mais silêncio. Kiron é o regente de Virgem. Estará no seu oposto complementar: Peixes. Está na altura de pôr o dedo na ferida mais mítica do ser humano: a de que estamos sós. Ou alienamos de vez, ou iluminamos. Mas para iluminar é preciso percorrer o caminho de solitude (não de solidão) do Eremita. Erguer a candeia para alumiar os caminhos da Fé. Do Invisível. A medicina e a ciência poderão sentir-se ultrapassadas por conceitos que não querem aceitar. As Famílias Cósmicas, que fazem parte do território da Casa XII, começaram a (re)encontrar-se verdadeiramente, e não de uma forma mental. Poderão ter início exôdos como o de Atlântida – começará por se chamar Imigração. Serão anos fantásticos para aceder aos restantes 80% das suas capacidades cerebrais. Será que Neo vai conseguir dobrar  a colher?? Ver Aqui.

Tradução:
Rapaz: Não tentes dobrar a colher. É impossível. Em vez disso tenta apenas tomar consciência da verdade.
Neo: Que verdade?
Rapaz:  A colher não existe.
Neo: A colher não existe?
Rapaz: Depois verás que não é a colher que se dobra: és tu.

Bonito, não é? Pois é. Mas para que isto aconteça teremos que encontrar a nossa voz: única, pessoal e intransmissível: Úrano em Carneiro.  Está nas nossas mãos mudar. Não deixemos que a famosa frase de Gandhi, tantas vezes citada: “Sê a mudança que queres ver no mundo”, se transforme numa daquelas frases batidas e feitas. Está na altura de assumir a responsabilidade e não delegar no Pai Externo. Resgatar o poder pessoal. Plutão em Capricórnio. Tem que se ser claro e muito correcto nas intenções, senão o Senhor do Submundo arrasta-nos com ele. Rectidão, Verdade e Honestidade, são palavras a reter. Deixar de ser passivo e AGIR. (Ai, a culpa é do Governo, a culpa é do Pai Natal, a culpa é da Coca Cola… ) Agir: Úrano em Carneiro. Deitar abaixo os velhos paradigmas cristalizados e usar um bom produto anti-traças: Plutão em Capricórnio, mas sempre com rectidão, porque o Mestre Saturno não perdoa. Colherás o que semeares. Não será pacífico, como nenhuma quadratura o é. Mas as esquinas podem dobrar-se como a colher do Neo…

O António tem material mais que suficiente e esclarecedor para esta famosa quadratura. Eu apenas gostaria de deixar aqui uma referência cinematográfica para se ponderar sobre tudo isto que se está a passar no Mundo. Aconselho o visionamento do filme OS FILHOS DO HOMEM [um cheirinho, aqui], adaptado do romance da escritora P.D. James (1992) e realizado por Alfonso Cuarón em 2006 (antes de ter rebentado a grande crise, portanto!). A acção passa-se em 2027… Façam contas. Não falta muito. Percebam o lado visionário desta mulher nascida em 1920. O visionamento deste filme, poupar-me-á vários caracteres. A gerência agradece e o murro no estômago é necessário. Depois conversamos sobre a urgência de se trabalhar, honrar e integrar o feminino e o equilíbrio entre as duas energias. Hieros Gamos (ou casamento sagrado): precisa-se. Urgente.

Gostaria agora de falar um pouco sobre a passagem de Júpiter em Touro, uma vez que ela vai durar um ano, e  Júpiter só entrará em Gémeos a meio de 2012. Júpiter expande tudo aquilo em que toca. Até aqui, nada de novo. Mas um pormenor me chamou a atenção: é que durante a passagem de Júpiter quer em Touro, quer em Gémeos, a Lua Negra vai andar quase sempre de braço dado com Júpiter. Têm-me chamado a atenção várias capas de revista: nomeadamente a capa em que o tema era a droga o consumo e o tráfico, cada vez mais descarados nas universidades portuguesas. E outra em que o tema é a troca de favores sexuais entre alunos e professores, por boas notas, por passagens de ano, por dinheiro… vale tudo, menos… estudar. E ainda a procissão vai no adro. Estas conjunções da Lua Negra ao Júpiter ao longo destes dois signos são dignas de observação. O brilho de Júpiter pode ganhar contornos obsessivos, manipuladores, obscuros. Mas atenção! E aqui entra o Eixo II-VIII: todos os excessos cometidos apenas em nome do desejo, da vontade de TER, dos esquemas falaciosos, terão uma factura elevada quando Saturno entrar em Escorpião. O Fiscal das Finanças é Implacável. Aproveitem para iniciar ou voltar a estudar, escrever, expandir conhecimentos, quando o Júpiter estiver em Gémeos. Evitem o “diz-que-disse”. Evitem “emprenhar” pelos ouvidos.  Filtrar muito bem a informação que entra e a que sai. “A Verdade não se impõe, irradia.” Sejam arautos da Luz e não da vibração rasteirinha.

Não consigo terminar este assunto sem falar de dois casos lusos que me chocaram muito recentemente, mas que dão que pensar. O acidente com a actriz Sónia Brazão, e o acidente fatal  com o Cantor/Actor Angélico Vieira. Beleza e dinheiro não lhes faltava: TOURO. Famosos e badalados nas revistas com alguma assiduidade, passaram a ser capa de revista pelos piores motivos e os menos felizes. Júpiter expandiu, é um facto. A Lua Negra, fundiu. Não sei se me estou a fazer entender, até porque a Lua Negra é ainda um assunto um pouco distante para muita gente. A mim, fascina-me. (Mas, daqui a pouco isto é uma tese e não um artigo.) Para mim são sinais muito claros. Sinais de que está na altura de começar a viver o Júpiter Vertical – o que nos RE-Liga à Fonte, e não o Júpiter Horizontal, que quer sempre mais e mais e nunca está satisfeito. O Auto Indulgente. O Pantagruélico. Zeus montado em cima das ninfas ou das Mortais… Como sabemos, o resultado nunca foi bom.

Não esquecer que Júpiter é também o regente de Peixes – onde está o Neptuno e o Kiron. Resgate supremo de valores espirituais – em Verdade, não em “lindinho”. 

Para não me alongar mais, quero apenas deixar aqui uma grande acha nesta fogueira: Sedna.

Órbita de Sedna.

Glifo astrológico para Sedna
Sedna é um planeta TransNeptuniano descoberto a 14 de Novembro de 2003, anunciado ao mundo a 15 de Março de 2004. A Revolução Solar de Sedna é de cerca de 10.500 a 12 mil anos. Atingirá o seu Periélio (maior proximidade do Sol) no ano de 2076. O último Periélio de Sedna deu-se quando o planeta estava no fim da Idade do Gelo. Diz-vos alguma coisa? Há campaínhas a tocar aí dentro? Óptimo!

Este planetóide tem 2/3 o tamanho de Plutão e uma temperatura de -240º. Foi descoberto no signo de Touro. Está de momento no grau 21º de Touro.  Pela primeira vez na história da Astronomia / Astrologia foi dado a um planeta, um nome fora do panteão greco-romano. Sedna é uma Deusa Inuit, que se diz ter gerado as criaturas do Ártico. A sua história/mito tem muito em comum com Plutão. Para mim, Sedna está para a Civilização, como Plutão para o Colectivo. Sedna bem poderia ser a «Noiva Cadáver» de Tim Burton. Uma espécie de upgrade da Perséfone.

Descobri um artigo de muita qualidade sobre Sedna, entre a nossa rede bloguista. Do mais interessante que encontrei até agora a nível astrológico e psicológico sobre o tema. Queiram fazer o favor de ler no blog «Autoconhecimento e Astrologia, da Christiane» [clicar no título]. Muito bem alicerçado. Mais um para guardar.

Para que não fiquem a matutar demasiado no pseudo fim do mundo, este artigo autodestruir-se-á dentro de cinco segundos

Até já, no próximo apeadeiro*


Ilustração de Inês de Barros BaptistaProibido reproduzir sem autorização da autora.


A análise de António Rosa



Assinalo os seguintes eventos astrológicos que, em meu entender, são os mais significativos do ano, que desenvolveremos mais abaixo: 

A - Entre 2011 e 2017, Úrano, em Carneiro / Áries e Plutão, em Capricórnio, farão uma enorme quadratura no mapa do céu, que durará anos. Esperam-se mudanças tremendas em todo o tipo de governos e organizações no nosso planeta. E, em nós, também. Aguardemos para confirmar. (Um exemplo desta quadratura, aqui.)

B - Neptuno, finalmente, ingressa no signo Peixes, do qual é regente. Não vou insistir muito neste tema, pois convido-os a ler mais, aqui, pois é um assunto já tratado em 2011.

C - Júpiter ingressa em Gémeos, em Junho.

D - Saturno ingressa em Escorpião, em Outubro.

E - Vénus ficará retrógrado entre 16 Maio e 27 Junho, sempre no signo Gémeos. Assinalo isto porque Vénus só faz este movimento retrógrado a cada 16 meses.

F - Já agora, o famoso 21 Dezembro 2012, final do Calendário Maia de Contagem Longa, com o ciclo de 5.125 anos, o que alguns interpretam como o fim do mundo. No entanto, creio ser um disparate fazer uma análise ao mapa desta data. Talvez o faça na altura própria.


Mapa do Céu da quadratura
entre Úrano e Plutão

Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora


Clicar no mapa para aumentar.
Repito: entre 2011 e 2017, Úrano, em Carneiro / Áries [aqui] e Plutão, em Capricórnio [aqui], ambos em signos cardinais, farão uma enorme quadratura no mapa do céu, que durará anos. Esperam-se mudanças em todo o tipo de governos e organizações no nosso planeta. E, em nós, também. Aguardemos para confirmar. (Um exemplo desta quadratura, aqui.)

Uma mudança ligeiramente significativa em Portugal, já se deu na banda da política, e foi a eleição de uma mulher para Presidente da Assembleia da República. Poderão perguntar: que mudança é esta? E a resposta óbvia é, alguma mudança de mentalidades. Imaginem quão mortificados terão ficado os «Velhos do Restelo» mencionados pela Susana Vitorino, mais acima. No entanto, quero deixar claro o seguinte: isto que se toma como «novo», em Portugal, não é tão novo assim, pois há décadas tivemos uma mulher como Primeiro-Ministro (os mais velhos lembram-se). Por outro lado, em termos esotéricos não tem nenhum significado, apenas a relevância de ser uma mulher a presidir à Assembleia dos representantes do povo. É um tema simples, bastante pobrezinho, mas de qualquer maneira, é sempre bem-vindo. Não vale a pena deitar foguetes, porque a maioria dos políticos actuais, para terem acesso a lugares de poder no actual contexto planetário, vão aos poucos abandonando a sua alma (uma ideia do André Louro de Almeida, com a qual concordo em absoluto).

Úrano em Carneiro/Áries [coisas repentinas, o inesperado, internet] a fazer funcionar a muito esperada quadratura [uma situação tensa e difícil, como esticar e rebentar] com Plutão em Capricórnio [o poder instituído], Em signos cardinais, dando maior ênfase aos acontecimentos.



Bom, para nos situarmos de imediato: esta quadratura é a maior responsável pelos escaldantes acontecimentos ocorridos no Médio-Oriente, que todos sabemos, ainda em 2011. E vai continuar, não se ficando apenas pelo que já aconteceu. Presidentes e governos foram derrubados. Mudanças enormes a se efectuarem. E os donos dos petro-dólares sempre do lado dos vencedores, a corrompê-los. Habitualmente, associa-se Úrano à Voz de Deus. Nestes casos islâmicos, nunca melhor aplicado. É sempre o novo [Úrano] a enfrentar o poder instituído [Plutão].



Em Portugal, e tudo ainda em 2011, manifestações gigantescas da auto-intitulada «Geração à rasca», conceito que se expandiu por outros países. É sempre o novo [Úrano] a enfrentar o poder instituído [Plutão]. Outro exemplo do que falo, foi o bota abaixo fulminante do governo Sócrates. É sempre para mexer e remexer. Haveria muitos exemplos a dar, mas creio que os leitores ficarão prevenidos para novas ocorrências que seguramente acontecerão no mundo. 



Antes de avançarmos com esta parte da análise, reproduzo aqui uma citação recente [23-6-2011] e muito oportuna de André Louro de Almeida, na sua página do Facebook (aqui): «Algum economista ou académico que possa nos explicar de forma clara que tipo de DÍVIDA Portugal tem, a quem, porquê e desde quando? Se isso era previsível já em 2007? Se o problema foi de falta de competência, falta de desenvolvimento, corrupção ou inércia? É que se o racional tanto se aplicar a Portugal como aos 50 países no mundo em crise financeira séria, temos bases para conceber a situação como global, estrutural e internacional e deixar de ver Portugal como dramaticamente responsável. Portugal é guardião da Tradição Templária Joanina, a Irlanda é guardiã da Tradição Celta e a Grécia é guardiã da Tradição Egipcio-Helenica. Estes 3 países estão em processo de se tornarem sub-sectores de um imenso país financeiro chamado FMI no qual os EUA tem 17% de quota, e que reflecte claramente os interesses da comunidade da alta finança ocidental. Mas gostava de ouvir os economistas.»



Cá temos a síntese desta quadratura: «um imenso país financeiro chamado FMI». Aos quais eu acrescentaria - um imenso poder de 3 agências de rating, que apenas zelam pelos interesses americanosComo a História nos ensinou, as mudanças de ciclos dão-se em simultâneo, quando se atingem os picos. É um processo típico de Plutão que vem ser alterado por Úrano.


Outro exemplo foi o caso «Blogger» em Maio 2011. Neste caso,  Plutão era representado pelos mega empreendedores da net Google / Blogger / YouTube / Twitter /Facebook / e os grandes servidores de todo o mundo. Tinha que estourar por algum lado. Estourou pelo lado que atinge milhões e milhões de pessoas em todo o mundo: na internet. Na prática deve-se interpretar como o «poder moderno» [Plutão] sendo confrontado com a «voz de Deus» [Úrano].

Se estivermos atentos a outras notícias do mundo, percebemos que há um «grande plano» em acção significativo desta quadratura. Recordemos apenas estes casos 'inesperados' muito recentes: os EUA mataram Bin Laden e em retaliação, a Al-Kaeda, provocou o ataque bombista que matou 80 pessoas no Paquistão. Nesta quadratura, é sempre o «poder» [Plutão] a ser confrontado. Por exemplo: o «poderoso» Bin Laden, senhor da Al-Kaeda (sobrevieu a 10 anos de intensas buscas) foi confrontado e... foi abatido. O «poderoso» e atómico Paquistão, na prática, hospedeiro de Bin Laden e sua organização, foi confrontado dentro das suas fronteiras pela Al-Kaeda, a quem dava abrigo escondido e camuflado, e os seus cidadãos foram abatidos.


Quem tiver tempo e pre-disposição, leia este artigo aqui, de 2008. Mas não é para ser lido às cegas, com um grande «amén», ok? É para reflectirmos nos acontecimentos mundiais.


Também reproduzo uma citação do livro «A Violência do Mundo» (2004) de Edgar Morin e Jean Baudrillard: «A probabilidade do triunfo absoluto do capitalismo não me parece certa ainda, mas é uma grande probabilidade. Contra ela existem, cada vez mais, forças que se levantam e que se levantarão ainda e ainda. Ora, os movimentos particularistas que apenas vêem o seu próprio problema estão muito dispersos e são, assim, incapazes de criar uma resposta mundial para um problema mundial. Hoje torna-se necessário caminhar para a busca de uma resposta ou de uma multiresposta mundial para um problema que nos diz respeito a todos (...)»


Ainda mantendo-nos em Portugal, gostaria de voltar à frase «Portugal é guardião da Tradição Templária Joanina, a Irlanda é guardiã da Tradição Celta e a Grécia é guardiã da Tradição Egipcio-Helenica» [e outros países, também] para levantar esta questão, à qual não tenho respostas: que  preparam as Hierarquias Espirituais destes países para os respectivos povos e habitantes? Falando apenas de Portugal, será que esta quadratura levará a que o nosso país saia dessa 'coisa' chamada «Euro»? E se voltarmos à antiga moeda, o «escudo», como será a situação? Voltará aos níveis que tinha quando aderimos à zona Euro, ou seja, a moeda irá desvalorizar-se para metade? Já imaginou que hoje pode ter um salário 'simpático' de 1.500 euros, que na prática correspondem a 300.000 escudos (300 contos), mas que, de um momento para o outro, se começar a receber em «escudos» pode acontecer que o salário se desvalorize para metade? Se a ideia for reduzir os custos e os preços, será que as empresas vão aguentar esses salários? Há quem tenha muito menos e consiga viver. Assistiremos, nos próximos anos, a um choque emocional de proporções épicas de uma só vez? Tenciono desenvolver este assunto, mais adiante, quando falarmos mais apropriadamente em «dinheiro», na secção Saturno em Escorpião. Vá pensando nisso, se vive em Portugal, independentemente da sua nacionalidade. Ou nos outros países mencionados. Se isto acontecer, os mais novos, que nem fazem ideia do que é o «escudo» vão andar mesmo 'zarabatinados'. Lá se vão as Playstation último modelo por água abaixo, porque continuarão a serem importadas e pagas em euros ou dólares, devidamente cambiados em escudos. Podemos intuir que há claramente 2 fases para estes acontecimentos poderem ocorrer: de 2012 a 2017 e, depois, até 2022.


Outra questão igualmente pertinente é que podemos continuar todos na zona euro, mas com a existência de um «euro» com 2 ou 3 câmbios diferentes. Um «euro» em Portugal, Grécia, Irlanda ou Itália não terá o mesmo valor que um «euro» na Alemanha, Holanda ou França. (ver aqui).


Tudo isto deveria merecer a nossa atenção e aplicar a nós mesmos, ao nosso interno, ao nosso poder pessoal. Ao nosso guerreiro interno. Em simultâneo, deveríamos estar atentos à vozinha que na nossa cabeça nos tenta dizer umas coisas e habitualmente, não ligamos nenhuma. A Susana Vitorino já explicou muito bem esta necessidade interna.

Investiguem nos vossos mapas natais onde cai esta quadratura e aí terão algumas das crises das vossas vidas. Se quiserem aprofundar um pouco mais, poderão clicar aqui. Isto não é mais do que uma continuação muito cerrada a assuntos já mencionados em 2010, aquiaqui e aqui. Ou, em linhas gerais e com mais variedade, aqui. Também temos, recentemente, o caso da Moody's que classificou como «lixo» a dívida pública portuguesa - ler aqui.

Quem quiser entender, a nível mais esotérico ou espiritual, este assunto da crise económica global, recomendo que leiam as conferências de André Louro de Almeida, dadas em 1998, sobre a «Matriz Melquisedeque» [tema completo: aqui - aqui - aqui - aqui], a «Matriz Cristóide» e «24 Portais locais em Portugal», que se tornaram mais actuais que nunca. A actual crise global foi descrita em detalhe nestas conferências. O assunto em geral, anda à volta da desactivação dos pilares da actual civilização do nosso planeta.


Antes de terminar o assunto da quadratura de Úrano a Plutão, estou interessado em recordar os leitores esta sigla - BRICS. São as iniciais em inglês, de 5 países em franco desenvolvimento e que serão, no futuro, os manda-chuvas do planeta: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Tal como a ilustração nos mostra quase na totalidade, pois falta a zona verde da África do Sul. Quem gosta destes assuntos deveria deter-se na questão Norte - Sul. São países gigantescos.

«Há fortes indícios de que os quatro países iniciais do BRIC têm procurado formar um "clube político" ou uma "aliança", e assim convertendo o seu crescente poder económico em uma maior influência geopolítica. Em 16 de Junho de 2009, os líderes dos países do BRIC realizaram a sua primeira reunião, em Ecaterimburgo, e emitiram uma declaração apelando para o estabelecimento de uma ordem mundial multipolar. Desde então, os BRICs realizam cúpulas anuais e, em 2011, convidaram a África do Sul a se juntar ao grupo, formando o BRICS.» - Fonte: Wikipedia

O potencial económico destes países é de tal ordem que poderiam tornar-se as cinco economias dominantes do mundo até o ano 2050. Estes países mudaram os seus sistemas políticos e adoptaram o capitalismo global. Não é por acaso que eventos de magna amplitude como os Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo de Futebol se realizem nestes países. Até dá a impressão que não sofrem o efeito desta quadratura entre Úrano e Plutão. Sofrem sim, mas de outro jeito, que à maneira portuguesa dizemos assim: «Quem sofre é o mexilhão»

Em todos estes países a classe média baixa adquiriu poder de consumo, a classe média alta aumentou o seu poder e os pobres continuam a ser pobres e explorados. Talvez tenham salários um pouco melhores. Quanto aos donos do «capital», ficaram ainda mais ricos. É o lado mais sombrio da humanidade.

Não me posso pronunciar muito sobre o Brasil porque não vivo lá e desconheço, na prática do dia-a-dia, a realidade tridimensional local. Mas não é preciso ser-se um génio para se perceber que, pelo seu gigantismo, o Brasil está divido em 3 grandes partes (com inúmeras sub-culturas): as grandes metrópoles, os outros e os esquecidos de Deus. Um passeio pela blogosfera brasileira e redes sociais mostram-nos à saciedade qual a egrégora dominante actual. Devido às suas origens com imensas misturas, o Brasil é pródigo em 'espiritualidade' de todos os géneros, por sua vez, aparentemente impregnadas das mais amplas e fantásticas conciliações de diversas fontes. 

Para quem quiser aprofundar, deixo aqui o mapa mais corrente do Brasil:

Ilustração de «Meio do Céu»

«O Brasil é de Virgem (signo ordeiro sim) e o Sol formava um trígono com Saturno (ordem, disciplina) naquela tarde de 7 de Setembro de 1822 por volta das 17hs, quando D.Pedro declarou nossa independência.» - Da mesma fonte de onde recolhi o mapa, o blogue «Meio do Céu», por Haroldo Mendonça.

Para os apreciadores de canalizações vagas, mas bonitinhas, sobre 2012, deixo-vos este link, por ser bastante inofensivo, mas ser revelador de uma certa correste espiritualista.

Esta quadratura, entre Úrano e Plutão, está e estará muito activa nos nossos mapas, nos signos cardinais: Carneiro/Áries, Câncer/Caranguejo, Libra/Balança e Capricórnio.



Neptuno em Peixes

Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora
Este tema já foi muito debatido nos últimos tempos.
Seria cansativo repetir aqui.
No entanto, pode ler uma análise completa sobre Neptuno em Peixes, clicando aqui.
Também aqui.


Mapa do Céu quando
Vénus ficará retrógrado entre 16 Maio e 27 Junho,
sempre no signo Gémeos.
Assinalo isto porque Vénus só faz este movimento retrógrado a cada 16 meses.

Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora


Clicar para aumentar.
O mês de Junho 2012 será marcado por eventos de grande importância planetária, pois irão ocorrer 3 momentos de grande significado para o nosso planeta, a saber:

1 - A 11 de Junho o planeta Júpiter ingressa no signo Gémeos, o que só ocorre a casa 12 anos.

2 - Vénus ficará retrógrado entre 16 Maio e 27 Junho, sempre no signo Gémeos. Assinalo isto porque Vénus só faz este movimento retrógrado a cada 16 meses.

3 - A 24 Junho vai verificar-se a quadratura exacta, no grau 8, entre Úrano e Plutão. Uma série de conjunções exactas.


Para mim é nos planetas retrógrados, quer natais, quer em trânsito, que vejo a “Inteligência Superior” a funcionar através da Astrologia, como linguagem meta-superior ou divina.

Procuro ver os retrógrados para além da “função interior da mente”. Entendo como sendo um estado de alma. Nesse sentido suspeito que ultrapassa a mente, indo directo às emoções, porque é destas que parte a vibração de como vivemos na crosta do planeta.

Um planeta numa situação de retrógrado, está de igual maneira para os 3 corpos da materialidade do ser humano - físico, mental e emocional. Por serem os corpos descartáveis de Nós mesmos, enquanto Seres. Porque a aprendizagem do ser humano é feita através da interacção da energia do planeta com os corpos da materialidade.

Existe “ali” uma certa dificuldade em se realizar. As “coisas” têm que ser feitas dentro de um registo peculiar que difere de planeta para planeta. Em linguagem corrente podemos chamar “medo” a esse aprisionamento do retrógrado. 



Um retrógrado, para mim, é como se quisesse dizer: “tens que fazer o exame para poderes prosseguir os estudos”. Que estudos? Os de mim mesmo. Acredito que sou apenas um corpo e vivo apenas para o materialismo mais imediato? Ou acredito que sou uma Alma provisoriamente num corpo, para fazer a experiência da fisicalidade?

É nesta subtil divisão que o retrógrado pode manifestar-me: se há um certo trânsito e transcendo-me... Habitualmente, com dor e sofrimento. Porque tenho que Me merecer a Mim mesmo. É aqui que entram as múltiplas definições de “destino”. E foi nesta base que a Astrologia perdeu credibilidade no fim do século 19 até aos anos 80, quando Plutão ajudou a que esta arte fosse recuperada e massificada.

A irredutibilidade do chamado “destino” enquanto “obrigação” de cumprirmos o que supostamente nos é atribuído. Ou esse “destino”, enquanto construtor da minha própria vida”. É aqui que os trânsitos dos retrógrados me obrigam a escolher.

- Ou escolho repetir e repetir e repetir. E aí estamos perante aquilo que se chama (e bem) de “função interior da mente”. E repito, repito, repito… sem querer ver que estou sempre a cair no mesmo padrão limitativo. 

É mais óbvio de constatar quando o planeta está Rx no natal. É a percepção equivocada que Eu sou apenas o meu corpo e gero os padrões repetitivos que atraio para mim mesmo e que me faz "pensar" e "dizer" que "não tenho sorte", ou que "tenho azar" (no amor, na saúde, no trabalho, etc.)

- Ou escolho não repetir. E aí estamos perante a função superior do Ser, através da Alma. Conseguimos sair dos padrões. Realizando e reconstruindo o próprio destino. Aqui Plutão e Saturno em trânsito têm uma enorme responsabilidade na actuação desse retro, levando com eles o lixo psíquico que temos em enorme quantidade.

Vénus retrógrado em trânsito em Gémeos

Neste signo da adolescência, em que o Ser ainda não atingiu a sua polaridade sexual, Vénus retrógrado indica uma instabilidade afectiva nas existências anteriores, nas quais a pessoa vivia o amor como um jogo meio leviano; deve agora aprender a se comprometer seriamente. resistindo à tentação de jogar os seus parceiros um contra o outro!

Vénus trata do Amor com maiúsculas. Estou a imaginar a cara de muitos espiritualistas à espera de textos mais conformes com as suas crenças. O Amor é universal. E ponto!


Vou facilitar a vida dos leitores dando umas pistas do significado deste trânsito retrógrado pelas casas nos mapas natais. Tratem de constatar se as ideias contidas nessas mini-pistas vos servem: clicar AQUI.

Mapa do Céu do ingresso de Júpiter em Gémeos
no dia 11 Junho 2012, às 18h22 TMG (Lisboa, Londres...)
Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora

«Para que um indivíduo possa manifestar-se livre e criativamente, num planeta de quarta dimensão, é necessário uma atitude mental completamente diferente da atitude humana actual.»
André Louro de Almeida

Júpiter está em exílio ou detrimento no signo de Gémeos, pois este está em oposição ao signo de Sagitário, do qual é regente. Antes de mais nada, relembro a bela interpretação de Susana Vitorino, sobre este Eixo da Comunicação. Júpiter entrará neste signo no dia 11 de Junho.


Durante alguns dias de Junho 2012 vamos assistir a um fenómeno raro no signo Gémeos: os benéficos do zodíaco, Júpiter e Vénus, terão a companhia do todo poderoso Sol e a nada depreciável ponta sul do Eixo Nodal. E a juntar-se à festa, a Lua vai bater à porta. A comunicação e a mensagem estarão em alta. 


Como este ajuntamento em Gémeos vai coincidir com a quadratura partil (em grau exacto) de Úrano a Plutão é de esperar uma enorme controvérsia em todo o mundo. Não faço ideia que evento seja esse que irá provocar uma autêntica explosão nas informações dos media.




Alguém se lembra da série de tv «V»? Uma coisa dessas poderia provocar tamanho alvoroço. Isto sou eu já a delirar, depois de vários dias à volta com estas análises. 


Mas nas nossas vidas pessoais as coisas estarão igualmente em ebulição, variando apenas em que casas temos nos nossos mapas natais os signos de Gémeos, Carneiro e Capricórnio. O melhor é aguardar, tanto mais que Júpiter não se sente cómodo neste signo, por estar em detrimento.


Lembrei-me agora que em Junho realizar-se-á o 14º Campeonato Europeu de Futebol, na Polónia e na Ucrânia. Será muito comentado. Outros eventos internacionais que terão muita repercursão são estes: o Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II [se ainda for viva] que marca o 60 º aniversário da sua ascensão ao trono do Reino Unido; o centenário do naufrágio do «Titanic»; eleições presidenciais na França; Jogos Olímpicos de Verão de 2012 em Londres; e, obviamente, as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América.


Olhando para todo o ano de 2012, o mês de Junho será bem mais «forte» do que o famigerado dia 21 Dezembro 2012. Se pensarmos que em Maio anterior verificar-se-á o eclipse solar anular, tudo isto deve funcionar de forma intensa. Mas os especialistas em eclipses já se encarregarão de analisar esta particularidade, tanto mais que em Novembro ocorrerá um eclipse solar total, visível no nordeste da Austrália e no Pacífico sul.

Aproveitando que estamos a tratar de Júpiter em Gémeos, e apenas pelo sentido que isto possa ter para qualquer um de nós, deixo a seguir as datas de diferentes calendários, tendo como referência o ano de 2012:



Calendário gregoriano - 2012 - MMXII
Ab urbe condita - 2765
Calendário arménio - 1461
Calendário chinês - 4708 – 4709
Calendário hebraico - 5772 – 5773
Calendários hindus
- Vikram Samvat - 2067 – 2068
- Shaka Samvat - 1934 – 1935
- Kali Yuga - 5113 – 5114
Calendário persa - 1390 – 1391
Calendário islâmico - 1433 – 1434
Calendário rúnico - 2262


É caso para perguntar: ‘Então, em que ficamos? Com tantos calendários que existem, ficámos todos travados apenas no Calendário Maia de Contagem Longa?

Nesta parte do artigo, contrariamente ao que tenho feito mais para trás, em vez de deitar uma olhada ao mundo no seu geral, irei dedicar a análise mais à pessoa em si, do que aos fenómenos mundiais ou nacionais massificados.

O compasso de «espera» que se vive actualmente, com Júpiter em Touro, uma espécie de «estar à espera de algo», será mudado para um maior frenesim. Por exemplo, a blogosfera neste momento vive momentos de maior calmaria (vejo por mim próprio), excepto para aqueles que são eternamente saltitantes, indo aqui e acolá, em busca de comentários para os seus próprios espaços. Este grupo específico da internet irá ao rubro quando Júpiter entrar em Gémeos. O mesmo se passará nas redes sociais. O Facebook vai enfrentar uma séria concorrência com o novo projecto «Google+», uma nova rede social a emergir. Ver aqui a demo. Tudo isto entrará em grande expansão já em breve. Sei bem do que falo, pois tenho o signo Gémeos muito acentuado no meu mapa. E tanto!

Ora, esta agitação frenética, está no extremo oposto daquilo que os «Instrutores» [não confundir com «Mestres»] mais credenciados em língua portuguesa recomendam: silêncio e interioridade. Deixo apenas 3 nomes que eu pessoalmente aprecio muito: Trigueirinho, André Louro de Almeida e Satyaprem. Não meto mais ninguém nesta lista muito selecta e reduzida, tá? Também não entra nenhum astrólogo nesta lista, tá? O resto que anda por aí são meros «aprendizes» de qualquer coisa. São muitos e adoram chamarem-se «Mestres» uns aos outros. Pronto, lá desatei a minha tola língua geminiana. Nem São Pancrácio me vai ajudar.

Júpiter transitando em Gémeos pode manifestar-se na pessoa, na forma de um conhecimento amplo, uma necessidade de querer saber «tudo». Isto pode provocar uma grande dose de superficialidade, ou um conhecimento teórico sem nenhum apoio da experiência prática. Para evitar que assim seja, de tão tridimensional e cerebral, é necessário, que as pessoas de Gémeos, Sagitário, Peixes e Virgem consigam subir uma oitava superior e se esforcem por contactarem os seus os seus guias, anjos ou hierarquia espiritual. Aí, verificarão as diferenças.

Júpiter ao transitar pelo signo de Gémeos indica amor pela filosofia e pelo estudo de ideias importantes na história da religião, da espiritualidade, do esoterismo, da educação, do direito e da filosofia. A resultante expansão da mente abre novas linhas de comunicação e áreas de contacto social, que trazem benefícios em viagens, na escrita, no estudo e nos negócios relacionados ao desenvolvimento de novas ideias. E, sobretudo no desenvolvimento pessoal. Vale a pena reler este texto de André Louro de Almeida, aqui.

No entanto, é necessário um cuidado extremo na utilização do nosso corpo mental, pois pode induzir-nos em equívocos constantes. Os neurologistas já descobriram que, para os neurónios, não existe diferença entre algo vivido e algo imaginado. É tudo a mesma coisa, sendo a cilada, a potencialidade da nossa mente, nos mentir. É preciso sentir. É fundamental validar o que o coração nos pede.

As pessoas neste trânsito irão passar por uma curiosidade intelectual que poderá levar ao desenvolvimento mental, e, assim, poderem ser considerados intelectualmente avançados, mesmo que não tenham recebido uma educação formal.

Júpiter em Gémeos pode proporcionar ampla compreensão intelectual que abrange diversas áreas. As pessoas tendem a ser mentalmente inquietas, a realizar muitas viagens e dedicar-se superficialmente a muitas áreas de estudo.

Aqui, tenho que citar o brasileiro Satyaprem, de forma pouco comum, deixando um link e o leitor que vá lá ler: aqui. Apesar de eu gostar muito deste moderno Instrutor, reconheço que ele é um falador incansável. Só que aprecio o ‘main speach’ dele.

Se levada a extremos, essa actividade mental pode produzir um diletante intelectual. Contudo, a grande variedade de diferentes experiências intelectuais permite que estas pessoas reúnam o perfil geral das tendências sociais, políticas e históricas, o que lhes dará insights sobre o futuro e o destino da humanidade. Pois é! Preso por ter cão, ou preso por não o ter. Se não se faz silêncio, fica tudo em torno do ego. Se se faz um silêncio enorme, pode-se perder um posicionamento astrológico que permite sucessivos insigths, visões.

Obviamente, que a questão é sempre a mesma: que visões tenho? Serão como aquelas muitas pessoas que não me conhecem de lado nenhum, excepto desta coisa dos blogues e do Facebook e que me escrevem a anunciarem-me as maiores desgraças só porque sonharam comigo? Deixem-me respirar fundo. Até já aconteceu uma cliente telefonar para o centro «Cristal de Cura», onde dou consultas de astrologia, a solicitar uma consulta urgente porque tinha tido um sonho comigo. A data foi marcada e cancelada pela própria cliente 48 horas depois, com o argumento que tinha recebido uma iluminação para não ir. Só mesmo rindo. Depois dizem-me que ando céptico e que maltrato as pessoas, englobando muita gente numa coisa que chamo de «espiritualidade lindinha»

Devido ao trígono natural de Gémeos com Balança/Libra e Aquário, estas pessoas atraem muitos conhecidos e pseudo-associados, e assim podem ampliar os seus horizontes intelectuais em direcções novas e incomuns. Esses contactos sociais também podem proporcionar oportunidades para a expressão criativa da mente.

A lição de Mercúrio em Virgem, mostra-nos que o conhecimento mais preciso, detalhado, vem da experiência directa no trabalho pessoal. Este trânsito de Júpiter, ao contrário, corre o risco de criar um erudito sem nenhuma prática, a não ser que outros factores no mapa encorajem a experiência prática. 


Mapa do Céu do ingresso de Saturno em Escorpião
no dia 5 Outubro 2012, às 21h34 TMG (Lisboa, Londres...)
Ilustração de Inês de Barros Baptista.
Proibido reproduzir sem autorização da autora
Clicar para ampliar.
«...um imenso país financeiro chamado FMI»

«O Eixo do Despojamento»
Susana Vitorino
«Os Estados Unidos saem sempre mais fortes das fases finais dos ‘ciclos longos’ e a sua capacidade de aprender com a história, a partir do exterior, e capazes de se adaptarem às novas realidades, construírem sobre o que já existe e não perderem tempo, como fazemos na Europa, revendo constantemente o que já foi resolvido
Luis Riestra Delgado
Economista espanhol
Profundo conhecedor de astrologia.
Texto  daqui.
Para amenizar esta parte do texto, aqui fica este vídeo.


Este trânsito é, sem dúvida, o tema mais escaldante de 2012. Saturno inicia o seu trânsito por Escorpião. Convém não nos esquecermos que estamos a viver sob a influência do gigantesco ciclo Saturno - Plutão, que dura sensivelmente 40 anos. Estamos na ponta final e numa das fases difíceis. Recomendo que leiam o texto sobre esse assunto, aqui.

O actual ciclo iniciou-se em 1982, com Saturno ainda em Balança, mas já a preparar-se para ingressar em Escorpião. Com a conjunção entre estes dois planetas, deu-se início a uma era de prosperidade e de inclusão social. As ditaduras tremeram e caíram, excepto 2 ou 3 casos (Cuba, Coreia do Norte). Entretanto, o ciclo evoluiu e está em fase decrescente.

Quando falamos do ciclo Saturno-Plutão, a nível mundano [países, regiões, planeta] estamos sempre a tratar de dois assuntos em simultâneo: economia e finanças. Saturno rege a economia e Plutão, as finanças. E ambos, em aspecto, podem tratar de outro tema: a guerra.

O actual ciclo Saturno-Plutão iniciou-se com a conjunção em 1982. Desde então, este ciclo passou por três picos muito importantes: uma quadratura em 1993, uma oposição em 2001 e a actual quadratura que teve início em 2010. O ciclo terminará com um novo, ainda um pouco distante no tempo: a conjunção de Janeiro de 2020, em Capricórnio. É importante lembrarmo-nos que esses eventos têm uma duração muito mais ampla. Ocupa um período de cerca 2 a 3 anos, pois há que contar com as retrogradações e os diversos encontros e aproximações que os planetas fazem entre si.

Tudo isto para reafirmar que em 2012 ainda estaremos sob o efeito da quadratura de 2010. E aquilo que assistimos no momento é a esta crise mundial, sendo intensamente prejudicados pela avidez e ganância de uns quantos, contra o resto do mundo.

O que realmente dá para vermos é que 3 agências de rating norte-americanas são o rosto visível do Governo Sombra do nosso planeta. Sabendo-se que a dívida norte-americana está praticamente descontralada, estas agências continuam a dar a notação máxima dos «AAA», como se tudo estivesse no melhor dos mundos.

Obviamente, a verdadeira «guerra» chama-se dólar versus euro.

Se isto, o dinheiro (dos outros), não é assunto de Escorpião, vou ali e já venho.

Como muito bem se sabe, há diferentes abordagens para o mesmo posicionamento astrológico. Há pessoas que se ficam pelo lado mais esotérico ou espiritual da interpretação, assim como há outras que são mais pragmáticas e analisam pelo lado mais terreno e tridimensional. Tentaremos fazer uma abordagem mista.

Convém relembramos que até Outubro de 2012, Saturno permanece em Balança/Libra, signo onde este planeta encontra a sua exaltação. Saturno gosta de estar nesta zona do zodíaco. Ao ingressar em Escorpião, a mudança será sentida imediatamente, pois não se sente confortável em signos do elemento Água.

Procedi a uma breve investigação dos acontecimentos mundiais ocorridos na última vez que Saturno esteve em Escorpião (1982 a 1985) e é muito interessante percebermos, em retrospectiva, a forma como este planeta associado a este signo funcionaram, numa altura de crescimento económico mundial e não de crise aberta como a que hoje se vive. Percebe-se, de alguma maneira, que os países que constituem o actual BRICS estiveram muito em foco com estes acontecimentos dignos de nota:

a) 1982 foi o Ano Internacional de Mobilização pelas Sanções à África do Sul, pela ONU, dando início às enormes mudanças de regime verificadas naquele país, que hoje é conhecido como um dos 5 grandes países emergentes no mundo.

b) Deu-se a maxi-desvalorização do cruzeiro no Brasil que provocou que milhares de desempregados promovessem uma onda de saques ao comércio da cidade de São Paulo. Foi um choque emocional em grande escala, que mexeu com o planeta. Pouco depois ocorreu o fim do regime militar brasileiro, com a eleição indirecta do primeiro presidente civil em 20 anos, seguindo-se as primeiras eleições directas para as prefeituras (Câmaras municipais) das capitais. O Brasil entrou em depressão económica profunda, mas os seus governantes souberam cumprir com o plano acordado com o FMI, fazendo daquele país, actualmente, um dos mais prósperos do planeta.

c) O Reino Unido e a República Popular da China assinaram o tratado inicial para a devolução do território de Hong Kong à China em 1997. Mais tarde, Portugal fez o mesmo com Macau. Era a criação de um país e dois regimes económicos: o comunista e o capitalista. O esclavagismo encoberto na China ainda não tinha desaparecido (nem sei se desapareceu). A China é um dos grandes detentores da dívida pública dos EUA. Ironias do nosso planeta.

d) O soviético Mikhail Gorbatchov foi eleito secretário-geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética). Foi o ponto de partida para o desmantelamento da União Soviética e o surgimento de inúmeros países. A Rússia, hoje em dia, faz parte do BRICS.

e) A primeira-minista Indira Gandhi foi assassinada, com tudo o que foi de terrível na época, mas os seus sucessores descobriram que ela deixara um Estado avançado e preparado para enfrentar as grandes potências mundiais. Hoje, é parte integrante do BRICS, por mérito próprio. O outsorsing dos EUA beneficiaram directamente a Índia, provocando desequilíbrios enormes na América, nomeadamente na área da informática.

Além destas ocorrências nos actuais BRICS, aconteceram no mundo eventos muito significativos neste período em que Saturno transitou por Escorpião:

- A Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, dando início à Guerra das Malvinas, contra a Inglaterrra. Raúl Alfonsín foi eleito presidente da Argentina, substituindo o último presidente da ditadura.

- Em Portugal, Mário Soares foi eleito para o cargo de primeiro-ministro e incrementou a permanência, por direito próprio, na União Europeia e posterior adesão ao «euro».

- Deu-se invasão da minúscula Granada pelas forças norte-americanas. Ronald Reagan defendeu a intervenção com a necessidade da defesa dos interesses norte-americanos. Estava na cara que era um recado que os EUA queriam dar ao mundo, a anteceder o fim da «Guerra Fria», com o desmantelamente da antiga URSS.

- A película «Gandhi» arrebatou oito estatuetas no Oscar desse ano. Com todo o simbolismo pacifista que a película possui. A Índia de Gandhi, actualmente, faz parte do selecto clube BRICS.

- Oscar Niemeyer concebeu o Sambódromo, com tudo o que isso acarretou de prestígio para o Rio de Janeiro e o Brasil. Maravilhoso.

- Aconteceu o Live Aid, que foi assistido por mais de um bilião de pessoas.

- José Saramago publicou o livro «Memorial do Convento», iniciando a sua caminhada até ao Prémio Nobel, anos mais tarde.

- Michael Jackson lançou o seu lendário álbum «Thriller», tornando-se no álbum mais vendido da história  da música.

- A Espanha tornou-se membro da NATO, reforçando o poderio estratégico concedido ao Atlântico Norte, em detrimento de outras regiões do globo.

- A Apple lançou o computador Macintosh, que viria a revolucionar a história da computação.

Depois destes breves apontamento sobre os acontecimentos mais relevantes da anterior estadia de Saturno em Escorpião, vamo-nos debruçar sobre o momento actual.

Mas antes disso, convém olharmos um pouco para o simbolismo de Saturno: o mestre, o velho sábio, o eremita, o monge, as pessoas idosas, os avós, os antepassados. O juiz, o agente governamental e o polícia. O pai, o professor e o patrão (em simultâneo com o Sol). Os inimigos e os falsos amigos. E as suas funções são: delimitação, fronteira, diferenciação, selectividade, contracção, contenção, auto-controlo, realismo, amadurecimento, inserção social (como Júpiter, mas com um sentido mais hierárquico e estrutural — baseado no respeito e na adequação às regras e aos valores instituídos), superego, sombra (sentido junguiano), cristalização e materialização, medo e sentimento de culpa, vergonha.

Como olhar para Escorpião? 

O signo Escorpião apresenta estas características positivas básicas: magnéticos, enérgicos, intensos, independentes, solitários, corajosos. O lado menos luminoso pode apresentar-se assim: arrogante, obstinado, destruidor, manipulador, sugador emocional. Acção luminosa de Escorpião: o perseverante. Acção sombria: o destruidor. Pensamento luminoso de Escorpião: o profundo. Pensamento sombrio: a pessoa obstinada. Sentimentos luminosos de Escorpião: a pessoa poderosa. Sentimentos sombrios deste signo: o sugador emocional. Frases deste signo: Eu desejo – Eu manipulo – Eu quero. Palavra-chave: Intensidade.

Juntar este dois - Saturno e Escorpião -, não é propriamente a visão do Paraíso. É o planeta a mudar as  regras sociais, a alterar os planos político-ideológico. Como nos aguentaremos nesta barca tão insegura? Nenhum governo sabe. Nenhum político sabe. Nenhum banqueiro sabe. Eu, também não.

Que lado você irá escolher para a sua vida? A acção luminosa ou a sombria? O menu está servido e a escolha é sua.

Alguém duvida que este posicionamento astrológico irá trazer um acentuar daquilo que se vive hoje em dia e que chamamos de «crise»?

Uma coisa tenho a certeza: estamos todos a atravessar uma enorme mudança planetária. O sistema económico dominante vai desaparecer para dar lugar a um novo paradigma, que não se sabe ainda qual será. Excepto no seguinte conceito: o «Ter» irá dar lugar ao «Ser». Leiam e escutem um dos três grandes «Instrutores» do mundo lusófono - Satyaprem (aqui) e perceberão do que estou a falar. Dou outra ajudinha, no final deste texto, com a transcrição de um magnífico texto de outro «Instrutor», o português André Louro de Almeida.

Não vos quero deixar mais nervosos, por isso, o restante texto é de tom mais pessoal e não tanto dedicado à «astrologia mundana».

Saturno ao transitar pelo signo de Escorpião vai indicar responsabilidade em assuntos financeiros, como recursos corporativos, finanças conjuntas, impostos, heranças, seguros e questões relativas a propriedades alheias. Esta é a visão tridimensional deste trânsito.

A actividade nos negócios provavelmente irá lidar com financiamento empresarial, seguros, contabilidade, impostos. Se Saturno estiver sob tensão em Escorpião, podem ocorrer conflitos a respeito de heranças, impostos e finanças conjuntas, que, com frequência, provocam batalhas legais e perdas através de litígios.

As pessoas terão tendência a serem mais perfeccionistas no seu trabalho. Tentarão melhorar a estrutura do status quo. Se esta tendência for levada a extremos, podem adquirir a reputação de pessoas muito duras. Irão demonstrar pouca paciência com atitudes que reflectem preguiça ou má vontade no trabalho, pois não aceitarão a falta de perseverança nos outros, bem como em si mesmos. Há o potencial de utilizarem muita energia e força de vontade em realizações práticas.

A grande aprendizagem deste trânsito será a nível emocional, pois tudo será muito intenso, sobrecarregando o corpo com elevados níveis de tensão, podendo dar lugar a doenças muito graves. Vamos todos precisar de aprender a lidar com estas situações, de maneira calma e eficiente à medida que surgem. Meticulosidade, persistência e determinação são a regra de Saturno em Escorpião, proporcionando um impulso para o sucesso, igualado apenas por algumas outras posições. Falei em sucesso? Sim, mas na balança, do outro lado está a derrocada, o falhanço. Mais uma vez, somos nós quem escolhe.

Notar-se-á no ar o desejo ardente de mais autoridade e lutarão muito para realizar as suas ambições; se utilizam ou não meios honestos, dependerá dos aspectos de Saturno. É necessário que  pessoas percebam que é um trânsito rigoroso, pois seremos capazes de nutrir profundo ressentimento quando sentimos que fomos tratados injustamente. A possibilidade de fanatismos é muito grande.

Quando Saturno em trânsito estiver sob tensão com outros planetas, pode existir tendência a intrigas e conspirações. Podem também estar presentes o desejo de vingança e incapacidade para esquecer ofensas passadas.

Recomendo muito cuidado com as questões de saúde.

Quero deixar este pensamento: esta nossa humanidade é muito recente no nosso planeta. Estamos cá à apenas 12.000 anos. Isto comparado com o tempo de vida do planeta, quer dizer qualquer coisa. Os esotéricos chamam à nossa civilização, a 5ª Raça Raiz. Já coabitam no nosso planeta a 6ª Raça Raíz, que se perdeu um pouco pelo caminho, mas já começaram a chegar os integrantes de uma futura civilização a ser construída.

Em 12 mil anos passámos da condição de nómadas bípedes a construtores de arranha-céus. Esta nossa civilização convenceu-se que poderia dominar o nosso planeta. Como se isso fosse possível! As consequências estão à vista.

Será mesmo que já removeram os pilares desta nossa civilização? Eu penso que sim.

Pareceu-me oportuno terminar esta secção dedicada à entrada de Saturno em Escorpião, com umas palavras de André Louro de Almeida, que escreveu em 2008 e se mantém actuais, podendo ser encontrada no Facebook, clicando aqui.


«Um plano para "recuperar a economia" é, nesta etapa, um artificio para ganhar tempo. Esta crise foi criada em gabinetes secretos para forçar as nações do mundo a aceitarem regimes para-totalitários Com base no medo e na insegurança e não será por medidas económicas que pode ser evitada, pois está desenhada para eclodir, com ou sem planos financeiros de emergência.

A crise é artificial mas tem um imenso poder. E tem poder porque a Humanidade adormeceu e se fixou em símbolos de valor que são insuficientes para representar o Homem. A nossa moeda é uma moeda-número e não uma moeda-trabalho ou uma moeda-inteligência ou uma moeda-sensibilidade, representa um valor quantitativo divorciado da qualidade do homem.

O poder deste tipo de instabilidade para gerar pânico só é possível na medida em que as pessoas perderam amplitude emocional e serenidade existencial em relação aos "símbolos de valor". As agências obscuras que despoletaram esta crise fazem-no na certeza de que o valor é representado por quantidade-dinheiro e não por qualidade-dinheiro. E sem um símbolo de valor, consensual, uma sociedade desagrega-se rapidamente.

E a crise significa que chegou o momento da Humanidade, começando pelos que detêm o poder politico, financeiro e executivo, compreender que os nossos "símbolos de valor" - entre eles o dinheiro, um dos mais interessantes e eficazes - servem para criar a sequência: 


1 Desenvolvimento » 2 Sustentabilidade » 3 Saciabilidade » 4 Identidade » 5 Liberdade » 6 Pesquisa » 7 Libertação

... não para funcionarem como uma droga irresponsável que mantém o planeta em transe.
  
Desta crise pode emergir uma moeda-qualidade: uma forma de dinheiro desconhecida, que depende directamente da qualidade psíquica da vida para ter qualquer valor. Esse é o cenário futuro positivo. Uma nova moeda baseada no Ser. Uma moeda que simbolize valor real: trabalho + sustentabilidade ecológica + qualidade social + expansão de consciência.
  
Se assim não for creio que teremos rapidamente que recuperar a nossa relação rural com a Natureza.

Isto implica que o momento do reencontro e reunião, daqueles que estão interiormente em contacto com o plano para a iluminação da Terra, nas áreas de protecção às quais se sentem ligados, está a aproximar-se.»

Eckhart Tolle - 2012 e o fim do mundo
Duração: 1h 09m 06s






PARTE FINAL

Tal como fiz nas previsões para 2011, agora, em voz colectiva:

Só para si. Em voz baixa, muito baixinho.
Aqui fica um conselho apenas a quem realmente leu este texto.

«Esqueça-o, vire-lhe as costas e viva o seu dia-a-dia, fazendo surf com a vida.»
Contra nós, falamos, obviamente.

 O melhor mesmo é consultar um bom astrólogo, que não invente coisas,
nem diga tolices, pois trabalhará exclusivamente sobre o seu mapa pessoal.

Nós, os 3 autores deste post,
estamos neste universo:

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Blogues de Susana Vitorino:
Blogues de Inês de Barros Baptista:
[às vezes não tem título, mas sim umas estrelinhas e bolinhas]


Blogues de António Rosa:

Nós, no Facebook:
António Rosa e aqui



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sexta-feira, 15 de julho de 2011

let's go to the movies!

sintam-se :) é grátis! e em vez de meros espectadores, aproveitem para verificar como, todos os dias, inventam os vossos próprios enredos, normalmente no género dramático, e se perdem a vê-los, em sessões doentiamente contínuas que se vão projectando nas vossas cabeças.
'why do we make films?' é hoje a pergunta no mural do Emídio. 'because we like to go to the movies?' é a minha pergunta. e vejo como nenhum porquê? tem nunca resposta, apenas um rol infidável de novas perguntas. e é aí que o filme começa... apaguem a luz e assistam.

para já, não há argumento, apenas um facto. simples, como todos os factos. escolham o que quiserem, com a condição de ser só um facto. por exemplo, 'está sol'. por exemplo, 'o meu filho está doente'. por exemplo, 'não tenho dinheiro.' por exemplo, 'fui despedida'. por exemplo, 'a minha relação acabou.'
se se ficarem pelo facto em si mesmo, não há filme nenhum. mas então lá se vai a distracção, o entretenimento da mente e, com medo de que o vazio possa surgir, rapidamente um simples facto serve de mola para mil argumentos.

reparem... um, dois, três... acção!

'está sol e a relva tão seca, coitada, se ao menos chovesse mais logo, sempre poupava na conta da água. assim vou ter de ligar a rega automática, mas que chatice estar tanto calor, deve ser esta coisa do aquecimento global, não me lembro de alguma vez ter sentido o sol tão intenso, não há dúvida de que demos cabo de tudo, é muito possível que venha aí uma seca como não temos memória e o que será de nós e da Terra se não chover durante que tempos? como é que vamos sobreviver?...'

'eu logo vi que ele estava doente, que chatice, cheio de febre e logo hoje, que não tenho com quem o deixar. e com tantas olheiras, coitado, ai custa-me tanto vê-lo assim, sofro sempre que vejo o meu filho sofrer. não o devia ter deixado ir à piscina, eu sabia que não devia... mas é tão difícil contrariá-lo. eu bem que lhe disse, 'põe o chapéu!', 'sai da piscina que estás cheio de frio!', mas não me liga nenhuma, nunca liga ao que eu digo... parecia que estava a pedi-las... mas, afinal, não sou eu a mãe dele? onde é que eu falho, meu Deus? como é que o deixei ficar na piscina? e agora queixo-me que esteja com febre? parece que estava a pedi-las, ou não? e é muito bem feita, para a próxima, quando lhe disser para sair da piscina, sai mesmo! ai, mas coitadinho... parece que a febre está a subir... custa-me tanto vê-lo doente... e logo hoje, que não tenho com quem o deixar e com mil coisas para fazer...'

'estou falido... merda da crise e dos cabrões dos políticos que deram cabo deste país! e quem paga é quem não tem culpa nenhuma... os juros da casa a subir, as prestações do carro atrasadas, os putos sempre a pedirem mais coisas... como é que o dinheiro há-de chegar com tantos ladrões por aí? é tudo a roubar, tudo a roubar... e o pior está para vir! e depois ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade... atrasados mentais!... é tudo a roubar, tudo a roubar...'

'isto não fica assim, juro que não fica... era o que faltava! dez anos de casa e posta na rua desta maneira. quer dizer... eu sou posta na rua e a puta da L., que não faz nenhum e se anda a roçar pelas paredes, continua com o seu lugarzinho... não há direito! aposto que faz favores ao patrão... estou mesmo a vê-la, com aquela carinha de sonsa, na volta vai para a cama com ele... mas eu, que sempre fui íntegra e nunca lhe dei uma abébia, sou posta na rua... mas juro que vou pôr-lhe um processo, vou mesmo. posta no olho da rua desta maneira, era o que faltava! enquanto não me vingar não descanso... vão ver, ah mas vão mesmo, vão ver do que eu sou capaz...'

'eu sabia! eu sabia que ele tinha outra! o mentiroso, o farsante... sempre a dizer-me que era o trabalho, que as reuniões se prolongavam pela noite adentro, que tinha assuntos para despachar... aldrabão! como é que pôde enganar-me desta maneira?! e que lata! vir dizer-me que a nossa relação acabou!... assim, sem mais nem menos... e confrontei-o 'tens outra, não é?' e nem assim confessou, o palhaço! são todos iguais, todos iguais! homens... tarados! mas vou descobrir quem é a galdéria com quem anda metido. vai ter de me dar explicações. vai ter de contar-me, tintim por tintim, há quanto tempo é que anda a comê-la... aldrabão! mentiroso! palhaço!...'

you liked it?
boa:) há sessões a todas as horas, para todos os gostos e argumentos bem mais complicados, bem mais dramáticos e, normalmente, com fins infelizes. e grátis, que sorte!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

de rabo na boca

- what is love?
- the total absence of fear, said the Master.

- what is it we fear?
- love, said the Master.


Anthony de Mello



se o amor é a total ausência de medo e se aquilo de que temos medo é do amor... somos pescadinhas de rabo na boca. e, não, não quero que me expliquem como saímos daqui. como tiramos o rabo da boca, como deixamos de andar encolhidos, em círculos, de que forma podemos deixar de ter medo ou qual é o segredo para sermos, na sua ausência total, apenas amor. e não quero porque não há explicações, não há receitas, não há teorias, não há sequer uma fórmula que possamos usar para ter a experiência de uma total ausência de medo. 
a 'espiritualidade lindinha', à qual tanto nos agarramos - eu incluída -, na esperança de nos iluminarmos, não é mais do que um logro. a ponta branca e brilhante de um iceberg que esconde no fundo a solidão e a solidez do seu gelo. não sei se teremos, alguma vez, a possibilidade, enquanto humanos, de derreter este congelamento mortal, em que assentam dores, padrões e memórias. isso significaria, afinal, abdicarmos também da ponta branca e brilhante do iceberg, de onde avistamos o sol. 
também não posso pedir a ninguém que me ame, para eu deixar, enfim, de ter medo. não posso ter medo de amar, se quiser ter a experiência imortal de quem sou. de pouco ou nada me servem as teorias iluminadas dos outros - a não ser quando quero que, na minha ponta branca e brilhante, os outros vejam como sou 'boa aluna', tão amorosa e tão bem resolvida e tão sábia e assim. 
é no gelo lá do fundo, é na solidão da penumbra, na base compacta dos nossos padrões, das nossas dores e das nossas memórias que reside o tesouro. quando o medo derrete e deixa de haver sustentação para uma ponta fictícia, ficamos gasosos. e talvez isso seja, então, o amor. a ausência de forma, a liberdade do vento, o sopro de cosmos. mas há que liquefazer tanta coisa que - todos nós - mantemos o rabo na boca e continuamos às voltas, às voltas, às voltas... mantemos a nossa ponta branca e brilhante à tona da água e, gelados, ficamos presos ao fundo do fundo.

sábado, 9 de julho de 2011

abre-te, abre-te, abre-te...

a história - metáfora, parábola ou o que quiserem chamar-lhe - foi contada pelo Emídio, durante um workshop da Sombra. e é a história de nós todos, sempre a querer mudar os outros...

pense num botão de rosa, à espera de florescer. insista as vezes que quiser, pedindo que o faça para si, naquele momento em que o deseja e apenas porque acredita que esse é o momento certo para admirar as suas pétalas. fique o tempo que quiser a olhar para ele e a pedir-lhe que se abra. canse-se à espera. desespere porque não cede. invoque tudo o que aprendeu sobre 'pensamento positivo', releia, as vezes que quiser, as passagens de 'O Segredo', acenda velas e medite, entoe os mantras do youtube, reescreva as frases que copia com a cabeça, um pouco daqui e dali, mentalize o seu poder e repita para si mesmo 'whatever the mind wants, the mind can achieve' ou outra coisa parecida. leve-se a sério. não desista. repita o ritual todos os dias. de frente para o botão de rosa, feche os olhos e repita: abre-te, abre-te, abre-te... 
espiritualize-se e emane para aquele ser 'energias amorosas' e 'bons fluídos' - que hoje em dia estão na moda e são bem vistos. e no dia em que, finalmente, o botão de rosa abrir, sinta o seu ego a inchar de vaidade e de orgulho e de alegria e diga ao mundo: consegui!... 
e passe ao botão seguinte, delirante com o poder que sente em si, com a prova irrefutável de que é graças a si que aquela rosa conseguiu enfim florir, com a ilusão de que controla a vida alheia... enquanto isso, no seu peito, murcha a esperança de dar rumo ao seu milagre. e o seu botão - a sua alma - irá murchando, sem talvez nunca saber o que é florir.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

os esplendores da luz perpétua *



Se a morte viesse a ser mais do que um sonho, não gostaria que Nosso Senhor a encontrasse no desmazelo dos últimos dias. O cabelo desalinhando-lhe as rugas na testa, a camisa de noite com nódoas de abóbora, borboto nas meias, vincos nos ossos, a dentadura à solta na boca murchando-lhe o riso e tornando mais magras ainda as pregas do rosto. Nosso Senhor não merecia aquela preguiça! Iria tomá-la pelo desencanto a que os velhos se entregam quando já ninguém quer saber deles para nada e, no seu caso, era ingrato, pois sempre tivera os sobrinhos a velar-lhe a velhice, até ao ano passado tivera saúde para ir à missa todos os dias, tinha a Deolinda no quarto dos fundos e, embora agora só fosse à missa aos Domingos, na companhia de Clara e de uma bengala que lhe amparava o reumático, rezava todas as noites, ultimamente com redobrado fervor, para que Nosso Senhor lhe enviasse um sinal a dizer se a Vida Eterna estaria para breve.
Não sendo velhinha, velhinha – fizera oitenta e seis anos em Março e agora era quase Novembro – estava moída e magrinha. Doíam-lhe as cruzes, o descompasso das extra-sístoles causava-lhe enjoos, nos últimos dias fora acometida por um ataque de gota que a deixara de rastos e lhe confinara os ossos à cama. E, no entanto, estava de consciência tranquila e o sonho da última noite fora bem claro.
 Felizes os servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes
dissera-lhe o anjo.
Muito mais claro do que os outros, um sonho muito mais nítido do que os das penúltimas noites, em que a seguir não havia mais nada, apenas o mesmo anjo de sempre, de caracóis loiros e rosado, olhos azuis transparentes, manto pálido, e que lhe dizia:
 Felizes os servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes
Logo depois acordava, normalmente a suar, o coração martelando-lhe o peito, tocava o sininho, chamava a Deolinda.
 - Tive outra vez aquele sonho!
E ela enxugava-lhe a testa e dizia:
 - Vai ver que já passa, minha senhora, isso já passa, vai ver.
Mas era precisamente o contrário o que queria: que não passasse, que não acordasse a suar, que não fosse preciso chamar a Deolinda, que continuasse a sonhar até vislumbrar um sinal inequívoco. E com tanto fervor implorou que, nessa noite, o anjo entoara para ela o pedido das paisagens celestes.
 Dai-me senhor o eterno descanso
 nos esplendores da luz perpétua
De um momento para o outro, abriu-se no sonho um imenso túnel de luz, vozes e asas entorpeceram-lhe a alma, uma coisa mesmo própria dos sonhos!, mas não acordou e subiu mais acima, ao extenso campo de azul onde a terra se dobra e o Paraíso desponta, quase alcançando o milagre divino. Lá no alto, no cume do sonho, a miragem perpétua da luz bateu-lhe de frente nos olhos e os maravilhosos esplendores do Reino de Deus ficaram subitamente mais perto. Podia quase tocá-los, mas nem sequer isso a fez estremecer. Não suou, o músculo aquietado no peito não lhe deu náuseas. Subiu mais ainda e viu Nosso Senhor envolto num manto lilás, só podia ser Ele, de braços abertos esperando por ela, talvez sentado à direita do Pai, mas isso não via.
 Bem vinda ao Reino dos Céus
disse-lhe, então, a voz doce e benigna apontando-lhe a porta da Sua Eterna Morada, com infinita bondade.
E, no entanto, ao ver-se subitamente naquele desleixo perante o Altíssimo, quis acordar e vestir-se a preceito e, aí sim, hesitou. Estremeceu, recuou dois ou três passos, distanciou-se do anjo, da luz, do Paraíso, e suou. Não queria que Nosso Senhor pensasse que vinha senil ou faminta, que lhe visse as gengivas à mostra e as tomasse pelo esgar moribundo e penado das almas sem redenção, que julgasse que os vincos nos ossos rangiam de incúria ou que as nódoas de abóbora denunciavam preguiça e, por isso, acordou.
Pouco depois, já totalmente desperta, tocou o sininho e chamou a Deolinda para que engomasse o vestido azul escuro com golas de renda. Era discreto, mas chique, talvez um pouco pesado para o Céu, destoando da claridade do sonho, mas não se atrevia a escolher um mais garrido, não fosse Nosso Senhor censurar-lhe a vaidade gaiteira. O azul escuro era sóbrio sem a ofensa do luto, a renda da gola, nas mãos da Deolinda, ficaria um leque de goma, enfeitá-la-ia mais tarde com o alfinete de pérolas, que herdara da avó.
- Nosso Senhor merece o melhor, não achas Deolinda?
A seguir, contou-lhe do sonho e da aflição que sentira ao ver-se perante o Altíssimo naquele triste desleixo.
- Como poderia eu entrar no Reino dos Céus em camisa de noite e sem dentadura, Deolinda, diz lá?
Fiel cão de guarda e servente amorosa há meio século ou mais da família Mendonça Athaíde, a Deolinda nem por um instante hesitou em tirar o vestido azul escuro do guarda fatos de mogno. Tão pouco pensou que a senhora perdera o juízo, ou que o sonho do anjo fosse um delírio febril. Tinha vindo de noite espreitá-la, como sempre fazia, mesmo que não ouvisse o sininho, e a luminescência que emanava do corpo fizera-a supor o mistério divino que se abatia sobre a sua santa patroa. Uma bruma dourada envolvia-lhe a fraca figura estendida ao comprido na cama, respirava baixinho e o compasso no peito era manso, não suava como era costume e quase podia jurar que lhe vira nos lábios o mesmo sorriso intacto dos anjos, irradiando o espanto e a glória dos que foram eleitos para viver nas Alturas.
Embora menos letrada, com menos horas de missa, recolhimento e genuflexões no confessionário do Padre Gregório, mais pesos na alma e mais pecados no corpo do que o seu porte ou carácter deixavam supor, há anos que testemunhava o fervor e a fé da senhora dona Maria do Carmo, admirando-lhe a compaixão, o altruísmo e a autenticidade.
A julgar pela forma exemplar como sempre vivera e se entregara a actos bondosos, estava segura de que mereceria o Reino dos Céus no exacto momento em que deixasse o mundo dos vivos. Se havia na terra alguém que merecesse o Paraíso Divino era a senhora dona Maria do Carmo de Mendonça Athaíde, puríssima noiva do Redentor, devota de Nossa Senhora, de S. Francisco de Assis e de Santa Teresinha, ela própria uma enviada dos céus, assim a via a Deolinda, que prontamente acorria aos enfermos, aos pobres e aos desvalidos, que dedicara a vida à paróquia e que acolhera os sobrinhos, Clara, Afonso e Pilar, numa materna doçura de virgem depois de os três terem ficado órfãos de mãe e de pai.  Há mais de meio século que entrara ao serviço e nunca lhe surpreendera uma falha, nunca a vira omitir o mais pequeno tremor, nunca lhe ouvira palavras injustas nem a surpreendera em movimentos ou actos que não fossem de amor, ou em poses que de alguma forma contradissessem a sua conduta irrepreensível de pura cristã.
Foi, por isso, com a certeza de que, mais logo, mais tarde, a senhora dona Maria do Carmo repousaria no seu eterno e merecido descanso junto ao Altíssimo que se apressou a ir engomar-lhe o vestido (...)


* primeira parte de um conto de um livro de contos, em que conto voltar a pegar num destes dias.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

hoje escolho não deixar para amanhã


ontem, a vida abanou-me, que bom!... na prática, isso significou confrontar-me com as consequências de situações - muito concretas - que andava a adiar há que tempos. há que tempos que andava a somar uma dívida à Segurança Social. pesava-me e, sempre que me aparecia, ainda que só mentalmente, um valor superior ao do dia anterior, fazia a coisa aparentemente mais simples: empurrava-a para o dia seguinte, para não ter de fazer nada AGORA. passei dois anos assim.
há que tempos também que a Madalena se andava a queixar de uma cárie num dente. mas não era a mim que doía e, como também a ela não lhe doía por aí além, fui adiando a ida ao dentista.
ontem, o senhor dos correios chegou com o papelinho da minha dívida à Segurança Social e já não era uma soma mental, mas um número real - e gigantesco! - que vou ter de pagar. podia adiar? claro que podia! arrumava o papelinho numa gaveta - coisa que costumo fazer, aliás, não só aos papelinhos incómodos mas a outros assuntos - e continuaria a somar mentalmente a minha dívida e a sentir aquele peso das coisas que ficam pendentes, à espera do dia em que vamos, então, resolvê-las.
ontem, a Madalena foi ao dentista. a cárie já era tão grande que se pôs a possibilidade de desvitalizar aquele dente. fiquei a olhar para ela enquanto a dentista escarafunchava no nervo - e ela, valente!, sem dizer um ai - e eu a escarafunchar-me na culpa de não a ter levado ao dentista mais cedo.
depois percebi, felizmente, que escarafunchar-me era inútil. a culpa doía, mas não resolvia. a culpa nunca resolve as coisas para trás, mas é o sinal mais abençoado com que a vida nos pode brindar, se a aproveitarmos para agir no momento em que surje e dali para a frente, em vez de a usarmos como desculpa, pelo que não fomos capazes de fazer lá para trás.
e então hoje lá fui eu para a Segurança Social. uma só funcionária e quarenta e cinco pessoas à minha frente fizeram com que me apetecesse voltar a deixar para amanhã. mas amanhã é possível que só lá esteja a mesma funcionária e que à minha frente estejam sessenta e nove pessoas. há outra maneira de resolver o assunto? sim, e já estou a fazê-lo. AGORA! e há mais alguma coisa pendente que HOJE possa fazer? sim, e já estou a fazê-la. mas podia - podia! - continuar a dormir e a pensar 'amanhã já acordo'? podia, mas HOJE quero estar acordada.
e vejo o logro que é quando acreditamos que é doloroso acordar. vejo o desperdício que é o AGORA quando apenas nos serve para deixar para DEPOIS. sinto o alívio que é, neste momento, saber que já não estou a pagar, mensalmente, 160€ à Segurança Social. o alívio que é a Madalena já não ter um buraco no dente...
'acordar' não é esse feito espiritual de nos tornarmos 'iluminados' à custa de mantras, meditações e velinhas acesas e um dia sermos capazes de realizar grandes proezas. acordar é AGORA. e AGORA escolho não deixar para DEPOIS, tudo o que AGORA quero e posso fazer.
e estou muit'a contente e não me dói nada, afinal.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Lucibel, vai tu!

talvez nenhuma sombra me tenha nunca verdadeiramente engolido graças à Lucibel. a Lucibel era a minha 'irmã má'. a que batia nos meus irmãos, a que deixava o quarto desarrumado, a que desafiava a minha mãe a dar-me palmadas, a que incomodava o meu pai com as suas má criações, a que fazia todo o tipo de asneiras quando havia visitas em casa, a que roubava anéis nas ourivesarias onde a minha avó me levava, a que fechava a minha prima na cave, no fundo, a que expurgava os meus pequeninos pecados. sempre que me sentia à beira de cometer uma maldade, ou que me apetecia fazer qualquer coisa que já sabia que não era bem feita, dizia-lhe
Lucibel, vai tu!
e ela ia.
e a seguir eu ralhava-lhe, atirava-lhe com as culpas para cima, encostava-a à parede e dizia-lhe
não tens mesmo vergonha nenhuma na cara!
a minha mãe ficava 'passada' de cada vez que, apontando o vazio, eu lhe jurava
foi a Lucibel, mãe, não fui eu.
o quarto todo ao contrário e eu jurava
foi ela, juro que foi ela.
os meus irmãos a chorar e eu garantindo
foi a Lucibel que lhes bateu, mãe, não fui eu.
a minha avó a morrer de vergonha quando me apanhava os anéis no bolso das calças e eu
foi de certeza a Lucibel que os escondeu aí dentro.
as visitas pasmadas e eu feita sonsa
não tens mesmo vergonha nenhuma na cara, pois não, Lucibel?
a certa altura, porém, a Lucibel desapareceu. a adolescência desassossegava-me, as hormonas aos saltos incomodavam-me, cresciam-me coisas para as quais não tinha lugar - no corpo e na alma - e comecei a querer ser eu a má. fugia de casa, mentia, roubava, falsificava assinaturas para poder sair do liceu, baldava-me às aulas, tirava negativas nos testes, sentia-me insuportável e dificilmente era capaz de expurgar aquele mal que sentia a comer-me por dentro.
muitos anos mais tarde, na ilha do Sal, em Cabo Verde, eis que abro um caderno e começo a escrever e a Lucibel reaparece! diáfana, leve, soprando-me coisas que decifrei como sendo na língua dos anjos, mostrando-me como a ilha do Sal era doce, mergulhando-me em sonhos de amor e de esperança e com um sentido de humor invejável. ao princípio, irritei-me com ela. insurgi-me
quem pensas que és para te pores a soprar dessa maneira aqui dentro?
mas não conseguia apanhá-la, muito menos calá-la, escrevia e a voz dela aparecia nas páginas. foi de tal forma intensa a sua presença que precisei de escrever um romance - o primeiro e único até agora. 'há vozes na ilha' é, visto à distância de mais de vinte anos, um diálogo interior a três vozes, já que à da Lucibel e à minha se veio juntar a da Adriana. 
esquizofrénica!
sim, é possível. é bem possível que sim, mas reparo como esta desconstrução de mim mesma foi crucial para que nunca me desmanchasse de facto. o que teria sido das vozes dentro da minha cabeça se, simplesmente, as tivesse mandado calar? como teria sido possível gerir a minha loucura se não tivesse ninguém com quem dividi-la?
tão grata lhes estou que, há pouco mais de três anos, peguei na Adriana e na Lucibel e transformei-as nas fadas do Pede um desejo. a esquizofrenia pode ser uma benção - e tão divertida! - quando surgem Lucibeis, Adrianas, Sophias e técnicos para me ajudarem a desmontá-la.

posso entrar?...

tu nem sequer és uma sombra! - e riu-me, ao ver o técnico, iluminando-me toda, à soleira da porta. e ele ri-se de volta, mais rouco que eu, e pergunta
e pegas-me ao colo?
é fácil pegar nele ao colo porque não pesa, tão fácil caber no abraço de que sempre fiz parte com ele, enlaçá-lo não é mais do que abrir-me e ele sabe, enlaçar-me não é mais do que abri-lo e eu deixo, permito que acenda a parte divina que o corpo disfarça, que amoleça a matéria terrena que me condensa e me dá esta forma: 
mulher
magra
morena
pequena.
palavras...
és linda - diz ele, porque não é do outro lado do espelho que vê, não é um reflexo que apanha, não projecta nada que não seja dele, não se ilude com a passagem do tempo, é apenas presente em tudo o que faço, até quando me esqueço, tudo o que sei que sou e não morre, tudo o que não me deixa matar-me quando me canso da forma:
mulher
magra
morena
pequena
envelheço e ele ri-se de novo. 
reparo que não tem uma única ruga no brilho dos olhos e que apenas as minhas pálpebras se enrugam com a passagem dos anos, do tanto que o mundo visível se vai infiltrando nos poros, do tempo em que faço da pele um lugar de fronteira.
e pegas-me ao colo? - ele repete.
prego-me tantas partidas, reparo, ponho-o a pedir colo, invento que falo com ele ao telefone, atribuo-lhe uma voz de poeta que me roça o pescoço, estampo-lhe a felicidade no rosto, ponho palavras na sua boca apenas porque preciso de ouvi-las ao mesmo tempo que as digo a mim mesma - talvez para não se perderem, talvez para não me perder.
és linda! - murmura-me o técnico. e tenho sempre tendência para acreditar que ele me diz a verdade e que é graças a esta mentira em que nos separo um do outro que me re-encontro a ser uma inteira.
sou feia! - murmuro-lhe.
e ouvi-lo a rir da verdade não é mentira nenhuma.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

deixas-me entrar?


não sei bem em que altura fechamos as portas. mas que as fechamos, não tenho uma dúvida. uma por uma, escondemos as feridas e trancamos as sombras, achando que assim não corremos mais riscos, que ficamos a salvo do perigo de virem comer-nos a alma ou pedir-nos satisfações por não lhes termos dado colo, importância, atenção. nem nos apercebemos como vão exalando bolor, humidade, como vão conseguindo escapar-se através das pequenas frinchas das portas, como poluem o ar à nossa volta e nos sufocam, tornando opaca a visão, enchendo de névoa as memórias, para que, quando voltamos a elas, ou quando alguém nos faz o favor de as trazer de volta ao presente, não sejamos capazes de identificar de onde vêm.

cremos que assim é mais fácil. aparentemente, é mais fácil. o que seria de nós se, de cada vez que nos cortamos, que nos arranhamos ou que ficamos com uma nódoa negra num braço, fosse preciso muito mais do que um penso, muito mais do que estancar o golpe com água oxigenada? o que seria se uma pomada fosse insuficiente e se cada nódoa negra no corpo nos obrigasse a sentir como a sombra lateja cá dentro?

hoje sei que será um alívio! quando de facto formos capazes. quando tivermos coragem de esventrar cada golpe até ao seu âmago, quando nos arranharmos a ponto de descobrir onde foi que roçámos a pele pela primeira vez e que ardeu, onde foi que se deu esse primeiro embate que nos moeu a carne por dentro... iniciamos o processo da cura. 

dizem-nos que é precisa muita coragem para o fazermos e eu compreendo. quem é que perante uma crosta, aparentemente sarada, se atreve a pegar numa faca para descobrir que a ferida, afinal, purga no osso? quem não prefere o conforto de uma porta fechada à náusea da humidade e do bolor que vai sentir quando a vir escancarada? quem é que não acha que é preferível esquecer a querer descobrir a verdade?

e a verdade é que a dor que sentimos agora já foi há que tempos. e há que tempos que queremos esquecê-la, em vez de curá-la. há anos e anos e anos que passamos pomadas, fazendo desaparecer da superfície as manchas que alastram por dentro. há anos e anos e anos que pômos pensos nas feridas, para não as vermos sangrar, achando assim que estancamos as hemorragias da alma. 
e eu, que sempre me achei corajosa, vejo-me agora a querer recusar a entrada à Inês pequenina que, ferida de morte, me pede
deixas-me entrar?

e, se eu não deixar, ela não força. é pequenina e já sabe que, se medir forças comigo, vai-se magoar. acredito até que não passe da soleira da porta, mas já sei que vai ficar lá. vou ouvi-la a chorar e posso afastar-me e talvez ela chore um pouco mais alto e talvez eu me afaste ainda mais. e não sei qual é a dor que dói mais: se a da que chora, se a da que não quer ouvi-la a chorar. e da utilidade que tem ou não tem ficarmos em pranto nos braços uma da outra ainda não sei... mas quero descobrir e, para isso, tenho de a deixar entrar. e de lhe dizer que é muito bem vinda.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

♥! VIVE !♥

há uma hipótese de a história, afinal, não ser a que sempre contei. de haver um equívoco quando acredito que tu morreste e que eu fiquei viva. ou seja, há uma estranha premonição de poder ser precisamente o inverso :: e que eu tenha morrido no exacto momento em que tu, finalmente, vivias. ou então não são mais do que as suposições do costume, neste dia 29 de Junho, doze anos depois de um camião destravado te ter conduzido a um plano distinto do que acreditávamos ter traçado para nós,
as coisas em que acreditamos, já viste?
as suposições que fazemos, os equívocos em que todos caímos quando insistimos em pôr a vida e a morte em planos diferentes. mas é assim que nós somos, humanos e contraditórios, embora seguros - lá no fundo - de que a nossa essência emerge da luz e se funde com as origens do cosmos, de sempre e para sempre, mas aparentemente incapazes de moldar a matéria perene ao brilho eterno das estrelas
e então tu chegas e dizes
o que é que para ti distingue a vida de um morto da vida de um vivo?
e eu fico em silêncio, fico em silêncio porque só em silêncio é possível ouvir-te, sentir-te, intuir o que sopras e que não é mais traduzível na língua dos homens.
e então tu chegas e sopras
é o amor que distingue a vida de um morto da vida de um vivo.
mas sou sempre eu que traduzo, porque preciso da língua dos homens para alimentar mais equívocos, preciso da língua dos homens para tecer as minhas próprias suposições, para equacionar todas as estranhas hipóteses com que me confronto, preciso que continues soprar para aceder ao plano amoroso e divino que,
e concordo contigo,
é o que distingue a vida de um vivo da vida de um morto.
e então há doze anos que conto esta história na língua dos homens, há doze anos que escrevo que um camião destravado te atropelou brutalmente num dia de verão em que o sol estava a pique, há doze anos que digo, para falar deste dia, e vá lá que nunca mais com ar de 'coitada' ou a voz arrastada da vitimizada, 'o dia em que o Pippo morreu', há doze anos que ocupas a orla das portas e que te insinuas entre as buganvílias e que me sopras
VIVE!
e eu querendo apenas que morra tudo o que não for amor




terça-feira, 28 de junho de 2011

difícil, eu sei

ali está a sombra, enorme, voraz, de frente para nós, sabemos que é nossa, mas é tão mais fácil continuar a 'atirá-la' para cima do outro! muito mais simples fazermos de conta que não saiu das nossas entranhas, que não é a nós que se quer revelar, que não é para nós que se exibe, que não é em nós que sangra e que apodrece e nos contamina, nem sabemos dizer há já quanto tempo. 

tão difícil, eu sei, o ruído cá dentro a ser ensurdecedor e, de imediato, o projectamos para fora. a sombra a gritar-nos cá dentro e nós exigindo que os outros se calem. a sombra a tirar-nos a nossa energia, e nós apontando o dedo a quem a dispersa. a sombra, intimidando-nos com o seu imenso poder, e nós tentando justificar as razões por que se intimidam os outros. a sombra a dizer-nos
'sou o teu ego ferido' 
e nós a escarafunchar nas feridas dos outros, para ver se dói menos. a sombra a pedir-nos carinho, atenção, e nós a morrer de pavor de que nos roube o coração. a sombra a querer fazer as pazes connosco e nós sem ceder, alimentando esta guerra vezes sem conta.

difícil, eu sei. olhar para ti e descobrir que sou eu que ali estou. muito mais fácil olhar para mim e negar que sou como tu. muito mais fácil olhar sempre para aquilo que nos separa uns dos outros e tão poucas vezes para tudo aquilo que nos une, sobretudo quando é a sombra aquilo que nos torna iguais uns aos outros.

difícil, estar realmente disposto a ser implacável, estar realmente seguro de que vale a pena ficar frente a frente com as nossas sombras, ter a coragem de reformular todas as acusações, agora na primeira pessoa, de re-conjugar todas as dores no presente, de acreditar que há uma paz imensa na sombra, de cada vez que irrompe das trevas e que ilumina mais um aposento do nosso castelo. 


gostamos de sofrer?

gostamos! mas gostaríamos tanto mais de gostar de não gostar! e isto não é nem sequer contraditório, mas um paradoxo humano, declarado como aparentemente verdadeiro, mas que nos leva a uma situação que contradiz a nossa intuição comum. e a nossa intuição comum diz-nos o quê? diz-nos que o sofrimento é inerente à condição humana: ninguém lhe escapa, é impossível não sofrer!

aliás, não será o sofrimento inerente a qualquer espécie? será que os animais não sofrem? um cão que já mal anda, por causa das artroses, um pato atropelado que ficou a respirar no meio da estrada, um leão sangrando com o tiro de uma caçada? será que as árvores, quando as cortam, ou que as flores, quando as esmigalham, ou que o mar, quando o atulham de venenos, ou que a Terra, esventrada com alicerces de aço e coberta de cimento e de alcatrão, não sofrem nada?... ou será que somos nós, humanos tontos e apegados à ideia e à emoção do sofrimento, que o fazemos alastrar às outras espécies?

não sei dizer. e hoje, como quase sempre, são muito mais as perguntas que as respostas. intuo, porém, que o sofrimento, por si só, não causaria o mal que causa, nem alastraria tanto, se não protagonizasse quase sempre as nossas histórias, mas fosse um simples figurante. mas, ah!, gostamos tanto dele e estamos tão acostumados à sua presença em nós, há milhares e milhares de anos que corre no nosso sangue, há tanto tempo que nos dizem que não há como escapar-lhe, há dois mil anos que andamos com a cruz às costas, exaltando o sofrimento quase como condição sine qua non para sermos merecedores do paraíso que somos incapazes de o ver apenas como um simples figurante no grande filme do cosmos. sofrer, de certa forma, faz de nós mártires. quase nos sentimos santos, quando aguentamos sofrer tanto, quase chega a parecer mal, alguém dizer que já não sofre. e assim o alimentamos, para que ele nunca mais nos largue e confirme a intuição de que sofrer é inerente à nossa condição humana. 

ok. sofrer é inerente à nossa condição humana. se aceitarmos, simplesmente, que assim é, sem emoções, considerações ou juízos de maior, hão-de convir que isso não nos causa stress.  a tendência, no entanto, não é essa, mas possuí-lo, experimentá-lo até à náusea, alimentá-lo uma e outra e outra vez, conservá-lo, provar da sua existência, mais não seja para podermos dar razão à nossa mente. que estranha dependência é esta? que desgosto pode ser este gosto por sofrer? e aonde é que isto nos leva, se não a mais sofrimento? de que vazio temos nós medo que se abra aqui no peito quando, enfim, descobrirmos que aquilo de que gostamos - mesmo, mesmooo! - é de gostar de não sofrer?


falo e falo e falo e falo e sou suspeita :)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

desistir?... de-sis-tir?!!

ah, bom dia! hoje ligas cedo! - digo eu, assim que oiço a voz do técnico tocando a polpa dos meus dedos. sempre aquela voz tão rouca, sempre a mesma voz tão mansa, sempre soando-me ao poeta que afinal existe em todos, porque todos rimam sempre com aquilo que são os outros.
que bom, que bom! - responde-me ele - vejo que hoje há sombra branca nos teus lindos olhos doces. e também é importante dares por ela. precisa tanto como a negra do teu colo, do teu apreço, de que a acolhas no teu peito e a manifestes.
não sei porquê, escureço a zona entre as pestanas e respondo:
acordei de madrugada cheiiinha de dores no peito!
isso sei eu, que também sinto. e muito mais do que tu pensas!
essa é a sorte, penso eu, mas não lhe digo, haver alguém que sinta em mim aquilo que eu penso.
sinto-me bem a ser quem sou - sopra-me o técnico ao ouvido, e de novo a deslizar pelos meus dedos para chegar intacto às teclas e materializar-se aqui.
muito bem, esse é o pacto - continua, sem me dar tempo para pensar naquilo que sinto, dando-me espaço para sentir aquilo que penso - eu sopro e tu materializas.
e sempre que não for capaz, fazes o quê?
sopro de novo...
e sinto a aragem, sinto que não me é alheia, sinto que não vem de fora, mas de dentro do meu peito, o mesmo peito que ainda há pouco me doía, a mesma dor que ainda há pouco me acordava, era ainda madrugada.
tudo só um, tudo só um - ri-se o técnico, em mim, e continua, continua a rir comigo.
a sombra branca, minha querida, enche-te os olhos de alegria, quando a vês brilhar nos outros! nos generosos, nos leais, nos destemidos. nos optimistas e nos crentes, nos corajosos, nos humildes, nos criativos e nos altruístas, nos persistentes, nos amorosos, nos sensíveis... assim como cada um carrega o negro que há em ti, também reflecte a luz que és. 
tão bonito isso que dizes!
tão bonito, isto que escreves...
e como havemos nós de ser para ser só um? - e ponho-me a pensar de novo e não lhe digo que não sinto, não o sinto rente a mim, a respirar no meu pescoço, a abraçar-me pela cintura, a mover-se ao mesmo tempo que eu me movo, a ser comigo.
porque resistes - e não sei se é uma pergunta ou se eu a querer que enfim me afirme, que me renda enfim a tudo, que se pacifique a luta entre o medo e o amor, que se cale aquilo que penso e se revele aquilo que sinto. 
eu sopro e tu materializas... será assim tão difícil? a cada dia mais um pouco, a cada pouco mais um passo, a cada passo mais do tudo de que todos somos feitos. mais um pouco de caminho que hoje vamos fazer a cores...



domingo, 26 de junho de 2011

às vezes, apetece desistir e... ponto.

mandar as sombras passear, fazer de conta que, afinal, nunca estivemos face a face, que aquilo que eu vejo em ti, ou em ti, ou em ti só pode ser problema teu. que é de certeza um trauma teu não me tratares com gentileza, é de certeza uma mania embirrares tanto comigo, é de certeza falha tua andares para aí sempre a mentir. e essa coisa de seres bruto vem-te de onde? essa arrogância, essa pose convencida, que vergonha!, não te ensinaram a ter mais educação? então porque é que és malcriado?...
sim, apetece desistir e permitir que a vida siga na mentira de eu não ser igual a ti, nem a ti, nem a ti e sem sair da minha zona de conforto. porque é difícil assumir que não sou gentil comigo. é tramado embirrar com a minha mãe, com a minha prima, com o meu tio, apenas porque me devolvem onde é que eu sou a queixinhas e onde é que eu sou a vaidosa e onde é que eu sou mesmo estúpida! 
é complicado descobrir-me a ser tão bruta, apanhar-me a ter inveja, confrontar-me com os ciúmes, não ter mais como fugir de ser uma convencida, não ter mais como não ver onde é que sou desonesta, não haver nenhuma hipótese de negar que também sou vingativa... é um choque perceber que a culpa não é tua, não é minha, não há culpa, há apenas consciência.
há apenas uma escolha:  a de amordaçar as sombras - correndo o risco de que saltem cá para fora, sempre sem aviso prévio e desatando a causar danos e doenças e desgostos, ou permitir-lhes que se mostrem, que se exprimam e que, enfim, sejam aceites, abraçadas, integradas, mesmo quando parece que não são nossas.
e, então, e por mais difícil que seja, uma vez dado o primeiro passo, o caminho não tem volta. tem buracos e tem esquinas e tem curvas apertadas, tem subidas muito íngremes e descidas muito a pique, tem todas as armadilhas que se possa imaginar, mas... é de sentido único!
é um caminho que se faz a caminhar: a cada dia mais um pouco, a cada pouco mais um passo, a cada passo mais do tudo de que todos somos feitos.

quanto vale uma sombra?

em outubro do ano passado, escrevi os dias da sombra. depois de anos e anos a rabiscar dias de luz, histórias de fadas e frases lindinhas, talvez tenha enfim sentido merecer resgatar à penumbra a minha parte de ser que resistia, com todas as forças, esforços inúteis e muitas dores, a mostrar-se como também é: sombria, tantas vezes montada numa vassoura de bruxa a criar poções venenosas - para si e para os outros -, praguejando contra as injustiças do mundo que denunciam a máscara 'lindinha' com que se enfeita e se defende dos outros.

garanto-vos que tem sido duro. duríssimo, mesmo! mas se é verdade, como mais uma vez diz o Emídio, que 'regra geral, a nossa sombra ganha poder até por volta dos quarenta anos', altura em que 'tem poder suficiente para começar a manifestar-se', tudo chegou para mim na altura em que era certo chegar. e então estou muito grata por ter dado por isso, por mais duro que esteja a ser o processo.

já aqui disse que sou dependente de uma série de coisas e a relação amorosa é só uma delas. desde sempre me lembro de ter namorados e, mais do que isso, nunca acabava com um sem ter já o próximo em vista. nalguns aspectos, serve-me que nem uma luva, a máscara da sedutora. mas é duro admitir, sem paliativos, que sou 'perigosa, venenosa, perversa', porque o meu 'ataque está mascarado de amor'. é reconfortante estar a descobrir que a cura é estar disposta a sentir o vazio e a compreender que aquilo que procuro está aqui, dentro de mim.

outro mito que alimentei - ainda nas relações amorosas - foi o da fidelidade. mentia com todos os dentes que tinha na boca, de cada vez que jurava que era fiel. não só não era fiel aos 'meus' namorados - porque estava com um, mas sempre na mira do próximo - como, acima de tudo, não era fiel a mim mesma. estranhamente, atraí dois homens fiéis e casei-me com eles. e, no entanto, passei grande parte do tempo a traí-los e, mais uma vez, a trair-me a mim mesma. e 'trair' podem ser muitas coisas! não, não fui para a cama com mais ninguém enquanto estive casada com nenhum deles. mas vivi muito tempo obcecada por outra pessoa, durante o primeiro casamento, e aceitei entrar no segundo, ao mesmo tempo que garantia a mim mesma que 'não era ele'.

se alguma coisa abona a meu favor - e se é que é realmente preciso que abone - tanto a um como a outro contei a verdade. isso alivia? não sei. sei que, quando o pai dos meus filhos mais velhos morreu, senti que nada tinha ficado por conversar ou por dizer entre nós. e que talvez seja por isso que hoje, entre os dois, existe este amor que sinto tão vivo, apesar de, humanamente, ele já ter morrido. sei que, ao pai das minhas filhas mais novas, sempre lhe disse: 'podes ficar, mas não és tu.' hoje entendo que o que eu lhe dizia era 'vou ficando, mas não sou eu.' hoje somos grandes amigos, e isso é tão bom! porque me permite dizer-lhe, como lhe disse há dois ou três dias, 'desculpa por te ter traído sempre.'

foi então necessário, quarenta e tal anos vividos, olhar para a infidelidade de frente, sem filtros. e assim surgiu a traição que mais cruamente doeu, a que nem nunca me passou pela cabeça que fosse possível, a que na minha mente ainda rotulo de 'feia', 'injusta', 'nojenta', 'prepetrada às escondidas', 'mantida em segredo' e... 'dupla'!
e porque a verdade tinha de vir ao de cima, caso contrário não poderia vivê-la, saltou da sombra outra Inês que sempre abafei com todas as forças, e que sempre fiz por calar com muita vergonha: a controladora, a que espia a vida dos outros para os apanhar em falta, a 'cusca'. aliada à Inês que é atenta e que apanha aqui e ali as peças de um puzzle, foi fácil montá-lo. difícil, agora, é conseguir desmontá-lo. e a primeira permissa a ter em conta - e lá volto eu ao Emídio e à sua forma gentil de nos apontar caminhos para podermos sair das nossas esquizofrenias -  é que os meus padrões de moralidade e de rectidão não são sempre os mesmos padrões de moralidade e de rectidão por que os outros se regem. nem têm de ser. nem posso fazer nada para que sejam. provo isso a mim mesma sempre que o tento, porque entro em guerra.
se aqui o 'porquê?' é inútil, o 'para quê?' é transformador: para eu ser fiel a mim mesma! o que significa que o próximo por quem sempre esperei sou eu mesma: numa versão que, a cada instante, pode ser corrigida e melhorada. e me permite ser 'obreira' e criativa a tempo inteiro, porque nunca há-de estar pronta: haverá sempre uma próxima Inês a ser conquistada!

sim, querido Emídio, 'este crescimento da nossa humanidade irá pedir de nós muito mais do que aquilo que se encontra dentro dos limites da nossa zona de conforto. mas irá garantir a nossa realização plena como seres humanos, seres espirituais e seres completos.'

e por isso à pergunta 'quanto vale uma sombra?' eu respondo: vale ouro! cada sombra que olhamos de frente vale ouro! vale bem a dor e o esforço de o escavarmos do fundo das nossas entranhas. de o resgatarmos, já não mais embaciado pela penumbra, mas brilhando em tudo o que somos.


sábado, 25 de junho de 2011

não desligue...

não desligo.
ah, sempre esta dúvida, afinal, sempre este medo de que o 'meu' técnico se volte a ir sem deixar rasto, mas ele ri-se e, ao rir-se assim, respira em mim, eu respiro nele, somos só um. 
quero fazer-te uma pergunta... - digo eu.
muito bem, assim há muito mais intimidade entre nós dois - responde-me ele, ao reparar que já o trato por tu.
como é que eu sei que não me estou a projectar em ti?
somos só um! - responde-me ele.
e rimos juntos da pergunta.
a seguir, ele fica sério, e outra vez cheio de doçura.
só projectas se me quiseres encontrar fora de ti.
fico calada, grata por haver alguém que me diz sempre a verdade e, mesmo assim, estou fartinha de saber que caio nisso muitas vezes.
não te culpes! - diz-me o técnico. 
que bom é ter uma voz iluminada a falar-me aqui de dentro! - digo-lhe eu.
muito bom, não tenhas dúvidas! mas de pouco ou nada serve a minha voz iluminada, a não ser que essa voz iluminada seja a tua.
que irritante, tu baralhas-me!
tu baralhas-te! - ri-se o técnico.
nós baralhamo-nos, então, é mais justo se a coisa for posta assim.
como queiras, és sempre tu que decides! uma coisa é certa, no entanto: ao mudares, os outros mudam.
e o que é que isso tem a ver com esta conversa?
tudo tem a ver com tudo, minha querida. só estou aqui para te lembrar.
que se eu mudar os outros mudam?
sim. ou então não aguentam ver em ti o que ainda não conseguem ou não querem ou não sabem mudar neles e, nesse caso, vão-se embora. 
andas a ler o Emídio?
ahahahaha! essa é boa! deixa lá o Emídio sossegado e não contornes a questão para a qual tanto queres uma resposta. sê honesta! mereces ser honesta, mereces ter a verdade de ti mesma. é de ti, e só de ti, que não queres e que não podes desistir, de certeza que te lembras de o ter escrito!
lá estás tu a irritar-me!
lá estás tu a irritar-te!
às vezes tenho a sensação de que ando em círculos. dou voltas e mais voltas e mais voltas apenas para chegar à conclusão que não saí do mesmo sítio.
agora estás a ser injusta! se olhares bem para os teus círculos, hás-de ver neles o movimento das espirais. é certo que sobem e descem e que nada te garante que só subas, sem que tenhas de descer, uma e outra e outra vez. mas já não estás onde estiveste. sobes cada vez mais alto, desces cada vez mais baixo. chama-se a isso consciência.
achas que sim?
não acho nada! só estou aqui para te mostrar o que tu tão bem já sentes.
e não desligas?
ah, agora és tu que me estás a irritar!...
mas somos um, ou não te lembras?
ok. então, dentro desse um, dividimos as tarefas: eu sopro e tu materializas. pode ser?


olá olá, minha querida!

olha, olha, quem é ele... 
o 'meu' técnico, a aparecer-me de voz viva, depois de tão longa ausência.
e a quem devo esta honra? - pergunto, surpreendida.
ora a quem? só pode ser a si mesma!
reparo que continua a respirar ao meu ouvido naquele seu tom que me arrepia e que o seu riso contagia a minha essência sem que tenha de esforçar-me.
pois então seja bem vindo! e o que me conta?
conto o que quiser ouvir, como é costume entre nós dois.
e de novo ri-se, rouco, e de novo eu me arrepio, mas ele prossegue.
ai tantas sombras, tantas sombras, minha querida!
e você conhece-as todas, imagino!
claro que sim! pois não sou eu o que sempre as ilumina quando a querem assustar?
e agora a sua voz cede à doçura a rouquidão, faz-se poema para poder rimar comigo, escuto atenta a luz que traz e que confia, com ternura, à minha alma.
sabe que mais? você é linda! linda, linda... e o Thomas tem razão quando lhe diz que negligencia a alegria.
sem pensar, ofereço-lhe o gargalhar das manhãs claras, sai-me límpido o olhar sobre a relva do jardim, relembro as fadas a contar do milagre da alegria que desejo e eu pequenina, num baloiço que há-de ser para sempre onde me rio da minha infância. tanto Verão à minha volta e eu sem notar que é daí que me ilumino, que também eu amadureço se não deixar que me apodreça a nostalgia, a indiferença, a raiva e o ressentimento.
do outro lado do fio, oiço o canto do 'meu' técnico a lembrar-me que a passagem das estações obedece à ordem intrínseca do cosmos. 
há que saber passar com elas, minha querida, colhendo aquilo que nos oferecem e plantando sempre a esperança em cada uma.
abraço o canto e dou graças por saber de novo ouvi-lo, por se ter reestabelecido a ligação entre nós dois, peço que nunca mais me deixe e ele então ri-se de novo, de novo rouco, um arrepio sobe ao meu peito, acendo o Verão nas minhas sombras para que se espraiem ao sol e se abram ao calor do céu azul.
conheço-as todas!
diz-me o técnico, e garante-me
não há nenhuma que precise de esconder, nem uma só que não mereça ser amada.
empurro agora a do baloiço e a seguir sento-me nele,  recortando a silhueta ao abrigo do poente, oscilo de um lado para o outro, subo e desço, faço desse movimento o meu caminho, a minha força.
boa, boa! - aplaude o técnico. e agora é ele quem me empurra essa fraqueza de não querer ser o que já sou. sinto a vertigem do céu todo, a liberdade de voar ao meu encontro, a tentação que há de cair quando se alcança uma altitude considerável que tememos ser mortal, o apelo de cada abismo que inventei para as minhas histórias.
boa, boa! - aplaude o técnico.
e então atiro-me para os seus braços.

'tu não me aceitas como eu sou'

se é, de facto, sempre de nós que falamos quando falamos de e para os outros, ao dizermos, seja a quem for,
'tu não me aceitas como eu sou'
não estaremos, no fundo, a dizer
eu não me aceito como EU sou?

mais um dia de sol. mais um dia mergulhando na sombra - e talvez mais logo no mar. e hoje acordei a pensar como posso eu não me aceitar como sou? não será antes 'eu não me aceito como eu NÃO sou'? e não me aceito como não sou, porque me falta aceitar que sou tudo - sobretudo aquilo que não gosto de ser. porque não quero descobrir - e muito menos quero que os outros descubram - o que nunca quis que se conhecesse de mim, o que aprendi a esconder, o que ainda me dói assumir que vive cá dentro, na sombra. 
e, no entanto, o que eu não quero ser também é o que eu sou. o que eu passo a vida a esconder é, afinal, o que eu projecto no outro, quando o acuso de não me aceitar como eu sou. 
e o falso alívio que me vem desta crença atenua-me a dor: não tenho de fazer nada, de mudar nada em mim, de revolver as entranhas em busca de feridas abertas, de descobrir o que nunca quis ser, porque quem fica com a 'batata quente' nas mãos é o outro, que não me aceita. 'azar o dele', penso eu, e chego a ficar satisfeita - aparentemente -, quando delego a incapacidade da aceitação fora de mim.

só mostrando a mim mesma onde é que me posso aceitar a ser tudo - sem vergonha e sem culpa e sem medo - deixará de ser importante se os outros me aceitam ou não. só assumindo que também sou o que tanto me esforço por não querer ser, serei capaz de resgatar a minha totalidade. e mesmo que tudo seja - só e ainda - um exercício mental, uma das muitas teorias tão sábias que, como diz a minha filha Francisca, não sei pôr em prática, também não vou mais culpar-me por isso. aceito que, por enquanto, é isso que eu também sou: uma 'teórica iluminada' com certas dificuldades de ordem prática.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

'és o exemplo que o mundo aguarda'



escreveu o Emídio, quando hoje partilhou o meu texto 'mais sombra' no seu mural do FB. sorri. lembrei-me de lhe ter dito, naquele workshop que fiz com ele, 'és uma pessoa que admiro imenso' e de ele me ter respondido 'estás a projectar, estou-me nas tintas para a tua admiração!'
quando, enfim, entendemos o mecanismo das projecções - e mesmo que o caminho da mente para o coração seja lento e, na maior parte das vezes, difícil - e ousamos começar a aplicá-lo na prática do dia-a-dia, espantamo-nos como foi possível resistir tanto tempo!...

depois da manhã no jardim, espiando as minhas sombras na sombra das árvores e fazendo por desmontá-las com a ajuda da escrita, fui para a praia. a areia escaldava-me os pés, o sol estava a pique, fui incapaz de me expor aos seus raios e abri o chapéu. delicioso!, lá estava eu na sombra outra vez :) aproveitei a presença do T., da M. e da F. e pedi-lhes que, por favor, pensassem em três defeitos e três qualidades que encontravam em mim. também lhes pedi que não os dissessem à frente uns dos outros e que levassem o tempo que fosse preciso.
pouco depois, o T. estendeu-me o telemóvel, onde tinha escrito o que eu lhe tinha pedido. o T. é austríaco e falamos em inglês um com o outro. achei querido, quando me explicou que não tinha querido pensar em 'defects' e 'qualities', mas sim em 'neglected qualities' e 'qualities'. na sua opinião, as minhas qualidades negligenciadas eram a empatia, a alegria e o gosto pela música. quanto às qualidades, o T. considera-me criativa, activa e aberta de espírito. agradeci e provoquei-o: 'agora, se quiseres, descobre onde negligencias a empatia, a alegria e o gosto pela música... e descobre onde és criativo, activo e aberto de espírito!'
a M. é a minha irmã mais nova e, por isso, conhece-me bem. mas reparei que não era assim tão fácil apontar-me três defeitos e três qualidades. por fim, lá me disse: 'és criativa, empreendedora e generosa. o problema é que, mesmo sendo generosa, és egoísta. és instável. e és alguém com quem não se pode contar... quer dizer, também és alguém com quem se pode contar, mas nunca se sabe...'
finalmente, a F. - que é a minha filha mais velha - descreveu os três defeitos e as três qualidades da seguinte maneira: 'a mãe tem ideias mesmo boas e teorias mesmo certas! nesse aspecto, é uma sábia. o problema, ou o reverso desta sua qualidade, é que não as põe em prática! depois, é muito paciente. sobretudo, com as suas mandalas e com os seus mapas. mas não tem paciência nenhuma para os filhos! finalmente, considero um defeito a mãe dizer aos outros o que devem fazer e depois a mãe, afinal, não fazer nada disso. diz-nos para não fumarmos... e fuma. diz-nos para não gritarmos... e grita!' faltava uma qualidade e a F. hesitou entre 'escrever muito bem' e ser 'aberta de espírito'.

se me perguntarem se descobri alguma Inês que não conhecia... tenho de dizer a verdade: conheço-as a todas. mas, continuando a dizer a verdade, há umas de que não gosto nada! da Inês que negligencia a alegria e a empatia; da Inês instável; da Inês que não pratica as teorias; da Inês que diz para os outros não fazerem... e faz. 
o passo seguinte, calculo, é descobrir de que forma a Inês que negligencia a alegria e a empatia me pode ser útil. como é que uma Inês instável me pode dar estabilidade? como é que das teorias posso passar à prática?...

o dia ainda não tinha acabado, mas eu tinha ainda na sombra as Ineses que o meu amigo me tinha sugerido que 'trabalhasse': a malcriada, a bruta, a ciumenta e possessiva, a injusta, a que acusa e fabrica bodes expiatórios, a mentirosa, a interesseira, a falsa... uau! tantas! mas... sabem que mais? descubro o quanto a escrita sempre foi preciosa para que nenhuma, de facto, me consiga apanhar desprevenida ou em profundo estado de negação quanto à sua existência-fantasma. a criação de personagens, nas minhas histórias, sempre deu aso a que as minhas Ineses da sombra pudessem ter voz e isso, reparo agora, foi uma ajuda fantástica para que este processo vá podendo avançar!
e, então, com a mesma frontalidade com que olho para as Ineses onde o meu amigo projecta as suas sombras, mesmo que ainda não saiba nem queira vê-las, olho para todas aquelas que, também eu, projectei nele. e somam-se à longa lista: a arrogante, a manipuladora, a controladora, a infiel, a insensível, a inconsistente, a inflexível, a coitadinha, a doente...

eu não sou o exemplo que o mundo aguarda! - mesmo aceitando, e sem corar de vergonha ou pudor - os elogios do Emídio. sou, isso sim, o exemplo que EU própria aguardo. se não o der a mim mesma, como posso esperar recriar-me, mudar-me, fluir, fluir, fluir com a vida? e se, ao fazê-lo, ponho o meu dom de saber escrever ao serviço dos outros... que bom para mim!

mais sombra

'o Caminho da Sombra não é para os fracos. é para os que têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as suas vergonhas. e perdoar-se por tudo o que são e tudo o que não são. é viver a partir do coração e não da mente. é ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer.'

está um dia de sol radioso e talvez seja mais fácil, por isso, voltar a optar hoje pela sombra. não a das árvores do meu jardim, que me refresca e protege do calor excessivo do Verão, mas a que ao longo de cada estação da minha vida se foi tornando tão densa que hoje me chega a parecer um emaranhado de trevas. há, então, que encontrar o fio dessa meada confusa e, a pouco e pouco, sem me dar tréguas, ir desfazendo o novelo.
hoje, no reverso da Inês independente e senhora do seu nariz, segura das suas opções e 'dura na queda', encontro-me com a Inês dependente, insegura, desejosa de cair no primeiro par de braços que se abram para ela. sim, teoricamente já sei que o primeiro par de braços é meu, que enquanto não me abraçar por inteiro todos os abraços alheios serão só projecções, mas aqui me confesso que isso não é - por enquanto - aquilo que verdadeiramente pratico. sem vergonha e sem medo, confesso que (também) sou dependente: das relações amorosas, de que aprovem os meus comportamentos, houve uma altura em que já fui dependente de drogas e em que fumava charros todos os dias, lembro-me de ser pequenina e de pedir colo ao meu pai, durante uns longos passeios pelos pinhais de Fiais, e de ele responder 'se tem perninhas, é para andar!'
e, no entanto, hoje percebo como essa Inês dependente me tem sido útil ao longo da vida, sempre que lhe dou espaço para pedir aquilo de que precisa - que seja somente aquilo que deseja na altura - sem sentir culpa ou qualquer espécie de inferioridade. é graças a ela que peço ajuda, quando me sinto incapaz de resolver qualquer coisa sozinha. é por ela existir que, tantas vezes, permito que os outros cuidem de mim. foi ela, aliás, e reconheço-o agora, que me impulsionou a empreender este caminho da Sombra, mostrando-me que, se tivesse mantido a bola da senhora-do-seu-nariz-independente-e-segura-de-si-que-não-precisa-de-nada debaixo de água... ainda lá estava: a afogar-se nas suas mágoas, em vez de a fazer por trazê-las à tona.
tenho perninhas e são para andar, é verdade. mas que bem que me sabe um pouco de colo quando me sinto cansada, que bem que me sabe poder contar com os outros, que bom ser os dois lados da mesma moeda e descobrir como a inter-dependência uns dos outros pode fazer do mundo um lugar onde a entre-ajuda se reflecte num ganho para o Todo. 

lá fora, o sol continua a brilhar. ilumina-me as sombras. pego agora na Inês corajosa, para poder descobrir e abraçar a medrosa. sim, também já sei - teoricamente e na prática - que o amor e o medo são forças opostas. é, aliás, o binómio mais proclamado na história dos homens, o que toda a gente quer reduzir a uma parcela para que se acabe de vez com esta tortura de não sermos capazes de nos amarmos, a nós e aos outros e a tudo o que existe, incondicionalmente. 
honestamente, olho para mim e pergunto: queres realmente acabar, assim de repente, com a Inês que tem medo? não será isso, mais uma vez, remetê-la para a sombra e permitires que fique sozinha, de cada vez que os monstros vierem espreitá-la? consegues, de facto, nesta altura da tua vida, assumir que já não precisas dela para nada? com calma, recordo todas as vezes em que me foi útil ter medo de alguma coisa ou de alguém. e reparo como tudo está interligado: foi o medo da Inês dependente que me fez, por exemplo, nunca ter experimentado heroína. foi o medo da Inês ruidosa na escrita que me fez procurar o silêncio. é o medo da Inês maldosa que me permite chamar pela bondosa - o que nem sempre evita as maldades, é certo, mas que às vezes permite que me perdoe e/ou que peça perdão por essas maldades.
opto, então, por pegar ao colo na Inês que tem medo e, com muito amor, prometer-lhe que, eventualmente, será capaz de o enfrentar e, até, de o vencer e que, se não for, a amo na mesma. ou seja, escolho mantê-la, sim, ao meu lado, e reparo como é tranquilo não ter mais de lutar para que me deixe ser o que não sou: a-Inês-que-não-tem-medo-de-nada.

com o sol a brilhar sobre a relva, que daqui me parece um manto verde de esperança oferecido por deus, visito o castelo de que fala o Emídio. dou-me conta de como existem ainda, no seu interior, aposentos fechados, bolor, humidade, prisões. de como existem ainda portas que não ouso abrir - para já. tantas Ineses que fui rejeitando, asfixiando, calando. umas porque me envergonham, outras porque me denunciam, outras ainda porque, talvez, nem sequer me dê conta do que irão provocar quando as trouxer para a luz do meu jardim.
e, agora sim, vou ali deitar-me à sombra das árvores de fruto e agradecer-lhe a frescura com que me brinda...

p.s. acabei de receber um email de um querido amigo que, prontamente, e calculo que depois de ter lido este meu texto, se disponibilizou para me ajudar, sugerindo o seguinte: 'para o caso de quereres trabalhar mais algumas Ineses: a malcriada, a bruta, a ciumenta e possessiva, a injusta, a que acusa e fabrica bodes expiatórios, a mentirosa, a interesseira, a falsa...'
fico-lhe grata: nenhuma delas me é desconhecida e, a seu tempo, lá irei. como tão bem escreve o Emídio, 'quando observar um comportamento humano, qualquer comportamento humano, e for capaz de afirmar 'eu sou assim', ao nível mais profundo do seu ser, então será capaz de se aproximar da verdadeira iluminação.'
retribuo, então, a ajuda ao meu querido amigo: malcriado, bruto, ciumento e possessivo, injusto, que acusa e fabrica bodes expiatórios, mentiroso, interesseiro, falso...
pode ser que um dia cada um de nós seja capaz de se aproximar da verdadeira iluminação :)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

sombra

'por cada ciclo de criação, há um ciclo de destruição'

quando, há umas semanas atrás, num rápido workshop sobre a Sombra, o Emídio me pediu que dissesse qual a melhor qualidade que reconhecia em mim, não hesitei um segundo: criatividade! disse-o segura do que estava a dizer, com um sorriso. várias outras pessoas foram chamadas a responder à mesma pergunta e cada uma deu a sua resposta. a seguir, foi-nos pedido que pensássemos, desta vez em silêncio, nos opostos das qualidades expressas. hesitei. 'improdutividade', 'preguiça', 'monotonia' e 'copiar' foram as palavras que me surgiram.
hoje à tarde, na praia, e depois de ter passado a manhã a ler uma parte do livro que o Emídio disponibilizou para download - a Sombra Humana -, voltei a sentir essa criatividade que sai quase sem esforço de mim em quase tudo o que faço, desta vez no simples juntar de um molho de conchas para fazer uma pequena mandala. 'sou tão criativa!' é um elogio que sempre fiz a mim própria, sim. 'és tão criativa!' é um elogio que sempre ouvi dos outros, é verdade. foi então que, sem mais nem menos, destruí a pequena mandala que tinha feito e que descobri o oposto da Inês criativa: a Inês destrutiva!
recuei à minha infância e revi uma cena que se repetia com imensa frequência. depois de convidar os meus irmãos para brincarem comigo às casinhas, e de as montar com paciência e perícia com almofadas, cadeiras, mantinhas, havia qualquer coisa dentro de mim que me impelia a destruí-las, tantas vezes antes ainda de ter dado início à brincadeira. a seguir, revi outras cenas idênticas. e, por trás, ouvi claramente a voz dos adultos que me diziam: 'que pena! fazes coisas tão lindas e depois estragas tudo!'
é óbvio que a Inês destrutiva não resistiu muito tempo a este 'que pena! fazes coisas tão lindas e depois estragas tudo!' ou antes: é claro que a Inês destrutiva resistiu, mas escondida, algures dentro de mim. não deixou de ser destrutiva, mas passou a 'destruir' pela calada. ou seja, começou a esconder - de si própria e dos outros - que fazia coisas tão lindas e que estragava tudo a seguir. 
agora mesmo, enquanto escrevo estas linhas, faço por aceitá-la, chamá-la e torná-la minha aliada. se por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição', eu preciso - muito! - da Inês destrutiva para me destruir, re-criar e viver mais um ciclo...

'és a pessoa mais bondosa que eu já conheci'

dizia-me ontem alguém muito próximo, acrescentando a seguir: 'fizeste de mim um homem melhor.' ontem ainda, depois de me ter dito isto, sorri e respondi-lhe: 'não estás a ver mais do que a bondade que existe em ti.' hoje, revi as maldades que fiz a este homem - e acreditem que foram algumas. a seguir, lembrei-me de ter ouvido dizerem-me, tantas vezes quando era pequena, 'és um diabo com um coração de ouro' ou 'a seres uma flor, eras o cacto: porque tens picos, mas dás uma linda flor.' e é-me difícil sentir onde se separam e onde se juntam a boa e a má. é-me ainda díficil sentir se a sombra da boa é a má ou se é a sombra da má que é a boa. porque, se quiser ser honesta, tem dias em que me dá imenso prazer ser a boa e outros em que me dá imenso prazer ser a má. e então talvez nenhuma das duas tenha ficado verdadeiramente na sombra, talvez nenhuma das duas esteja na luz, talvez esta seja uma dualidade que sempre aceitei, afinal, e que eu não seja nem boa nem má, mas alguém - como toda a gente que existe no mundo - que é capaz de fazer coisas boas e coisas más...

'a tua escrita faz muito ruído'

foi uma 'acusação' que ouvi inúmeras vezes ao longo dos últimos tempos. e foi tal o incómodo que, a certa altura, calei-a: à escrita. e, no entanto, durante que tempos também, centrei-me onde não era realmente importante centrar-me: na 'acusação'. desta perspectiva, é óbvio que não era possível ver mais do que uma grande injustiça. como é que alguém se atrevia a dizer que a minha escrita fazia muito ruído? e, se isso me incomodava assim tanto, onde é que estava o ruído? 
foi necessário muito silêncio para sentir que o 'ruído' - em mim, e já não na perspectiva de quem me acusava de o fazer - era uma des-sintonia entre o que eu escrevia e o que eu realmente fazia. o 'ego espiritualizado'  é um 'personagem' que tem vindo a ganhar muito relevo nesta era dita 'new age' e, como não sou excepção, encontrei-o em mim. está tão bem montado que há dias em que acredito ser realmente uma 'iluminada'! e em que vou buscar a 'espiritualidade lindinha' para servir de verniz à minha escrita... esse é, então, o ruído. e, no entanto - e aqui estou eu a escrever outra vez - se há um propósito naquilo que escrevo - para além do gozo imenso que me dá escrever só por escrever - é a 'terapia' que faço a mim mesma, quando me ponho à mostra e à vista de todos os que me queiram ler. e pôr à mostra, mais uma vez, não é escrever tudo 'lindinho': é cuspir também o que é sombra cá dentro. por alguma razão, durante anos a fio, escrevi num blog onde não dava a cara. chamava-se conta-me tudo, ao princípio, e mais tarde de vidro e de outras substâncias anónimas, e eu assinava Sophia. está cheio de sombras cuspidas, mas não havia ainda a coragem para assumir que quem as cuspia era eu e que a Sophia era só uma máscara...

e no resto - que ainda é quase tudo - já sei o que sinto. mas, para sentir de verdade o que sei, nada como continuar a 'cuspir-me', a despir-me, a destruir-me, a re-criar-me a cada dia que passa...

terça-feira, 21 de junho de 2011

o verão veio para ficar



e para que a vida amadureça 
o que as árvores nos oferecem. 
e então será só nossa a alegria das colheitas. 
a esperança 
de nos vermos transformados 
nessa seiva das sementes que plantámos junto ao peito, tornadas frutos da paciência dedicada 
a cuidar para que crescessem. 
humildemente, 
há que acolhê-lo, 
dando graças por ser manso, 
azul por dentro, 
luz acesa sobre o mar do nosso espanto.