sábado, 25 de junho de 2011

não desligue...

não desligo.
ah, sempre esta dúvida, afinal, sempre este medo de que o 'meu' técnico se volte a ir sem deixar rasto, mas ele ri-se e, ao rir-se assim, respira em mim, eu respiro nele, somos só um. 
quero fazer-te uma pergunta... - digo eu.
muito bem, assim há muito mais intimidade entre nós dois - responde-me ele, ao reparar que já o trato por tu.
como é que eu sei que não me estou a projectar em ti?
somos só um! - responde-me ele.
e rimos juntos da pergunta.
a seguir, ele fica sério, e outra vez cheio de doçura.
só projectas se me quiseres encontrar fora de ti.
fico calada, grata por haver alguém que me diz sempre a verdade e, mesmo assim, estou fartinha de saber que caio nisso muitas vezes.
não te culpes! - diz-me o técnico. 
que bom é ter uma voz iluminada a falar-me aqui de dentro! - digo-lhe eu.
muito bom, não tenhas dúvidas! mas de pouco ou nada serve a minha voz iluminada, a não ser que essa voz iluminada seja a tua.
que irritante, tu baralhas-me!
tu baralhas-te! - ri-se o técnico.
nós baralhamo-nos, então, é mais justo se a coisa for posta assim.
como queiras, és sempre tu que decides! uma coisa é certa, no entanto: ao mudares, os outros mudam.
e o que é que isso tem a ver com esta conversa?
tudo tem a ver com tudo, minha querida. só estou aqui para te lembrar.
que se eu mudar os outros mudam?
sim. ou então não aguentam ver em ti o que ainda não conseguem ou não querem ou não sabem mudar neles e, nesse caso, vão-se embora. 
andas a ler o Emídio?
ahahahaha! essa é boa! deixa lá o Emídio sossegado e não contornes a questão para a qual tanto queres uma resposta. sê honesta! mereces ser honesta, mereces ter a verdade de ti mesma. é de ti, e só de ti, que não queres e que não podes desistir, de certeza que te lembras de o ter escrito!
lá estás tu a irritar-me!
lá estás tu a irritar-te!
às vezes tenho a sensação de que ando em círculos. dou voltas e mais voltas e mais voltas apenas para chegar à conclusão que não saí do mesmo sítio.
agora estás a ser injusta! se olhares bem para os teus círculos, hás-de ver neles o movimento das espirais. é certo que sobem e descem e que nada te garante que só subas, sem que tenhas de descer, uma e outra e outra vez. mas já não estás onde estiveste. sobes cada vez mais alto, desces cada vez mais baixo. chama-se a isso consciência.
achas que sim?
não acho nada! só estou aqui para te mostrar o que tu tão bem já sentes.
e não desligas?
ah, agora és tu que me estás a irritar!...
mas somos um, ou não te lembras?
ok. então, dentro desse um, dividimos as tarefas: eu sopro e tu materializas. pode ser?


olá olá, minha querida!

olha, olha, quem é ele... 
o 'meu' técnico, a aparecer-me de voz viva, depois de tão longa ausência.
e a quem devo esta honra? - pergunto, surpreendida.
ora a quem? só pode ser a si mesma!
reparo que continua a respirar ao meu ouvido naquele seu tom que me arrepia e que o seu riso contagia a minha essência sem que tenha de esforçar-me.
pois então seja bem vindo! e o que me conta?
conto o que quiser ouvir, como é costume entre nós dois.
e de novo ri-se, rouco, e de novo eu me arrepio, mas ele prossegue.
ai tantas sombras, tantas sombras, minha querida!
e você conhece-as todas, imagino!
claro que sim! pois não sou eu o que sempre as ilumina quando a querem assustar?
e agora a sua voz cede à doçura a rouquidão, faz-se poema para poder rimar comigo, escuto atenta a luz que traz e que confia, com ternura, à minha alma.
sabe que mais? você é linda! linda, linda... e o Thomas tem razão quando lhe diz que negligencia a alegria.
sem pensar, ofereço-lhe o gargalhar das manhãs claras, sai-me límpido o olhar sobre a relva do jardim, relembro as fadas a contar do milagre da alegria que desejo e eu pequenina, num baloiço que há-de ser para sempre onde me rio da minha infância. tanto Verão à minha volta e eu sem notar que é daí que me ilumino, que também eu amadureço se não deixar que me apodreça a nostalgia, a indiferença, a raiva e o ressentimento.
do outro lado do fio, oiço o canto do 'meu' técnico a lembrar-me que a passagem das estações obedece à ordem intrínseca do cosmos. 
há que saber passar com elas, minha querida, colhendo aquilo que nos oferecem e plantando sempre a esperança em cada uma.
abraço o canto e dou graças por saber de novo ouvi-lo, por se ter reestabelecido a ligação entre nós dois, peço que nunca mais me deixe e ele então ri-se de novo, de novo rouco, um arrepio sobe ao meu peito, acendo o Verão nas minhas sombras para que se espraiem ao sol e se abram ao calor do céu azul.
conheço-as todas!
diz-me o técnico, e garante-me
não há nenhuma que precise de esconder, nem uma só que não mereça ser amada.
empurro agora a do baloiço e a seguir sento-me nele,  recortando a silhueta ao abrigo do poente, oscilo de um lado para o outro, subo e desço, faço desse movimento o meu caminho, a minha força.
boa, boa! - aplaude o técnico. e agora é ele quem me empurra essa fraqueza de não querer ser o que já sou. sinto a vertigem do céu todo, a liberdade de voar ao meu encontro, a tentação que há de cair quando se alcança uma altitude considerável que tememos ser mortal, o apelo de cada abismo que inventei para as minhas histórias.
boa, boa! - aplaude o técnico.
e então atiro-me para os seus braços.

'tu não me aceitas como eu sou'

se é, de facto, sempre de nós que falamos quando falamos de e para os outros, ao dizermos, seja a quem for,
'tu não me aceitas como eu sou'
não estaremos, no fundo, a dizer
eu não me aceito como EU sou?

mais um dia de sol. mais um dia mergulhando na sombra - e talvez mais logo no mar. e hoje acordei a pensar como posso eu não me aceitar como sou? não será antes 'eu não me aceito como eu NÃO sou'? e não me aceito como não sou, porque me falta aceitar que sou tudo - sobretudo aquilo que não gosto de ser. porque não quero descobrir - e muito menos quero que os outros descubram - o que nunca quis que se conhecesse de mim, o que aprendi a esconder, o que ainda me dói assumir que vive cá dentro, na sombra. 
e, no entanto, o que eu não quero ser também é o que eu sou. o que eu passo a vida a esconder é, afinal, o que eu projecto no outro, quando o acuso de não me aceitar como eu sou. 
e o falso alívio que me vem desta crença atenua-me a dor: não tenho de fazer nada, de mudar nada em mim, de revolver as entranhas em busca de feridas abertas, de descobrir o que nunca quis ser, porque quem fica com a 'batata quente' nas mãos é o outro, que não me aceita. 'azar o dele', penso eu, e chego a ficar satisfeita - aparentemente -, quando delego a incapacidade da aceitação fora de mim.

só mostrando a mim mesma onde é que me posso aceitar a ser tudo - sem vergonha e sem culpa e sem medo - deixará de ser importante se os outros me aceitam ou não. só assumindo que também sou o que tanto me esforço por não querer ser, serei capaz de resgatar a minha totalidade. e mesmo que tudo seja - só e ainda - um exercício mental, uma das muitas teorias tão sábias que, como diz a minha filha Francisca, não sei pôr em prática, também não vou mais culpar-me por isso. aceito que, por enquanto, é isso que eu também sou: uma 'teórica iluminada' com certas dificuldades de ordem prática.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

'és o exemplo que o mundo aguarda'



escreveu o Emídio, quando hoje partilhou o meu texto 'mais sombra' no seu mural do FB. sorri. lembrei-me de lhe ter dito, naquele workshop que fiz com ele, 'és uma pessoa que admiro imenso' e de ele me ter respondido 'estás a projectar, estou-me nas tintas para a tua admiração!'
quando, enfim, entendemos o mecanismo das projecções - e mesmo que o caminho da mente para o coração seja lento e, na maior parte das vezes, difícil - e ousamos começar a aplicá-lo na prática do dia-a-dia, espantamo-nos como foi possível resistir tanto tempo!...

depois da manhã no jardim, espiando as minhas sombras na sombra das árvores e fazendo por desmontá-las com a ajuda da escrita, fui para a praia. a areia escaldava-me os pés, o sol estava a pique, fui incapaz de me expor aos seus raios e abri o chapéu. delicioso!, lá estava eu na sombra outra vez :) aproveitei a presença do T., da M. e da F. e pedi-lhes que, por favor, pensassem em três defeitos e três qualidades que encontravam em mim. também lhes pedi que não os dissessem à frente uns dos outros e que levassem o tempo que fosse preciso.
pouco depois, o T. estendeu-me o telemóvel, onde tinha escrito o que eu lhe tinha pedido. o T. é austríaco e falamos em inglês um com o outro. achei querido, quando me explicou que não tinha querido pensar em 'defects' e 'qualities', mas sim em 'neglected qualities' e 'qualities'. na sua opinião, as minhas qualidades negligenciadas eram a empatia, a alegria e o gosto pela música. quanto às qualidades, o T. considera-me criativa, activa e aberta de espírito. agradeci e provoquei-o: 'agora, se quiseres, descobre onde negligencias a empatia, a alegria e o gosto pela música... e descobre onde és criativo, activo e aberto de espírito!'
a M. é a minha irmã mais nova e, por isso, conhece-me bem. mas reparei que não era assim tão fácil apontar-me três defeitos e três qualidades. por fim, lá me disse: 'és criativa, empreendedora e generosa. o problema é que, mesmo sendo generosa, és egoísta. és instável. e és alguém com quem não se pode contar... quer dizer, também és alguém com quem se pode contar, mas nunca se sabe...'
finalmente, a F. - que é a minha filha mais velha - descreveu os três defeitos e as três qualidades da seguinte maneira: 'a mãe tem ideias mesmo boas e teorias mesmo certas! nesse aspecto, é uma sábia. o problema, ou o reverso desta sua qualidade, é que não as põe em prática! depois, é muito paciente. sobretudo, com as suas mandalas e com os seus mapas. mas não tem paciência nenhuma para os filhos! finalmente, considero um defeito a mãe dizer aos outros o que devem fazer e depois a mãe, afinal, não fazer nada disso. diz-nos para não fumarmos... e fuma. diz-nos para não gritarmos... e grita!' faltava uma qualidade e a F. hesitou entre 'escrever muito bem' e ser 'aberta de espírito'.

se me perguntarem se descobri alguma Inês que não conhecia... tenho de dizer a verdade: conheço-as a todas. mas, continuando a dizer a verdade, há umas de que não gosto nada! da Inês que negligencia a alegria e a empatia; da Inês instável; da Inês que não pratica as teorias; da Inês que diz para os outros não fazerem... e faz. 
o passo seguinte, calculo, é descobrir de que forma a Inês que negligencia a alegria e a empatia me pode ser útil. como é que uma Inês instável me pode dar estabilidade? como é que das teorias posso passar à prática?...

o dia ainda não tinha acabado, mas eu tinha ainda na sombra as Ineses que o meu amigo me tinha sugerido que 'trabalhasse': a malcriada, a bruta, a ciumenta e possessiva, a injusta, a que acusa e fabrica bodes expiatórios, a mentirosa, a interesseira, a falsa... uau! tantas! mas... sabem que mais? descubro o quanto a escrita sempre foi preciosa para que nenhuma, de facto, me consiga apanhar desprevenida ou em profundo estado de negação quanto à sua existência-fantasma. a criação de personagens, nas minhas histórias, sempre deu aso a que as minhas Ineses da sombra pudessem ter voz e isso, reparo agora, foi uma ajuda fantástica para que este processo vá podendo avançar!
e, então, com a mesma frontalidade com que olho para as Ineses onde o meu amigo projecta as suas sombras, mesmo que ainda não saiba nem queira vê-las, olho para todas aquelas que, também eu, projectei nele. e somam-se à longa lista: a arrogante, a manipuladora, a controladora, a infiel, a insensível, a inconsistente, a inflexível, a coitadinha, a doente...

eu não sou o exemplo que o mundo aguarda! - mesmo aceitando, e sem corar de vergonha ou pudor - os elogios do Emídio. sou, isso sim, o exemplo que EU própria aguardo. se não o der a mim mesma, como posso esperar recriar-me, mudar-me, fluir, fluir, fluir com a vida? e se, ao fazê-lo, ponho o meu dom de saber escrever ao serviço dos outros... que bom para mim!

mais sombra

'o Caminho da Sombra não é para os fracos. é para os que têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as suas vergonhas. e perdoar-se por tudo o que são e tudo o que não são. é viver a partir do coração e não da mente. é ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer.'

está um dia de sol radioso e talvez seja mais fácil, por isso, voltar a optar hoje pela sombra. não a das árvores do meu jardim, que me refresca e protege do calor excessivo do Verão, mas a que ao longo de cada estação da minha vida se foi tornando tão densa que hoje me chega a parecer um emaranhado de trevas. há, então, que encontrar o fio dessa meada confusa e, a pouco e pouco, sem me dar tréguas, ir desfazendo o novelo.
hoje, no reverso da Inês independente e senhora do seu nariz, segura das suas opções e 'dura na queda', encontro-me com a Inês dependente, insegura, desejosa de cair no primeiro par de braços que se abram para ela. sim, teoricamente já sei que o primeiro par de braços é meu, que enquanto não me abraçar por inteiro todos os abraços alheios serão só projecções, mas aqui me confesso que isso não é - por enquanto - aquilo que verdadeiramente pratico. sem vergonha e sem medo, confesso que (também) sou dependente: das relações amorosas, de que aprovem os meus comportamentos, houve uma altura em que já fui dependente de drogas e em que fumava charros todos os dias, lembro-me de ser pequenina e de pedir colo ao meu pai, durante uns longos passeios pelos pinhais de Fiais, e de ele responder 'se tem perninhas, é para andar!'
e, no entanto, hoje percebo como essa Inês dependente me tem sido útil ao longo da vida, sempre que lhe dou espaço para pedir aquilo de que precisa - que seja somente aquilo que deseja na altura - sem sentir culpa ou qualquer espécie de inferioridade. é graças a ela que peço ajuda, quando me sinto incapaz de resolver qualquer coisa sozinha. é por ela existir que, tantas vezes, permito que os outros cuidem de mim. foi ela, aliás, e reconheço-o agora, que me impulsionou a empreender este caminho da Sombra, mostrando-me que, se tivesse mantido a bola da senhora-do-seu-nariz-independente-e-segura-de-si-que-não-precisa-de-nada debaixo de água... ainda lá estava: a afogar-se nas suas mágoas, em vez de a fazer por trazê-las à tona.
tenho perninhas e são para andar, é verdade. mas que bem que me sabe um pouco de colo quando me sinto cansada, que bem que me sabe poder contar com os outros, que bom ser os dois lados da mesma moeda e descobrir como a inter-dependência uns dos outros pode fazer do mundo um lugar onde a entre-ajuda se reflecte num ganho para o Todo. 

lá fora, o sol continua a brilhar. ilumina-me as sombras. pego agora na Inês corajosa, para poder descobrir e abraçar a medrosa. sim, também já sei - teoricamente e na prática - que o amor e o medo são forças opostas. é, aliás, o binómio mais proclamado na história dos homens, o que toda a gente quer reduzir a uma parcela para que se acabe de vez com esta tortura de não sermos capazes de nos amarmos, a nós e aos outros e a tudo o que existe, incondicionalmente. 
honestamente, olho para mim e pergunto: queres realmente acabar, assim de repente, com a Inês que tem medo? não será isso, mais uma vez, remetê-la para a sombra e permitires que fique sozinha, de cada vez que os monstros vierem espreitá-la? consegues, de facto, nesta altura da tua vida, assumir que já não precisas dela para nada? com calma, recordo todas as vezes em que me foi útil ter medo de alguma coisa ou de alguém. e reparo como tudo está interligado: foi o medo da Inês dependente que me fez, por exemplo, nunca ter experimentado heroína. foi o medo da Inês ruidosa na escrita que me fez procurar o silêncio. é o medo da Inês maldosa que me permite chamar pela bondosa - o que nem sempre evita as maldades, é certo, mas que às vezes permite que me perdoe e/ou que peça perdão por essas maldades.
opto, então, por pegar ao colo na Inês que tem medo e, com muito amor, prometer-lhe que, eventualmente, será capaz de o enfrentar e, até, de o vencer e que, se não for, a amo na mesma. ou seja, escolho mantê-la, sim, ao meu lado, e reparo como é tranquilo não ter mais de lutar para que me deixe ser o que não sou: a-Inês-que-não-tem-medo-de-nada.

com o sol a brilhar sobre a relva, que daqui me parece um manto verde de esperança oferecido por deus, visito o castelo de que fala o Emídio. dou-me conta de como existem ainda, no seu interior, aposentos fechados, bolor, humidade, prisões. de como existem ainda portas que não ouso abrir - para já. tantas Ineses que fui rejeitando, asfixiando, calando. umas porque me envergonham, outras porque me denunciam, outras ainda porque, talvez, nem sequer me dê conta do que irão provocar quando as trouxer para a luz do meu jardim.
e, agora sim, vou ali deitar-me à sombra das árvores de fruto e agradecer-lhe a frescura com que me brinda...

p.s. acabei de receber um email de um querido amigo que, prontamente, e calculo que depois de ter lido este meu texto, se disponibilizou para me ajudar, sugerindo o seguinte: 'para o caso de quereres trabalhar mais algumas Ineses: a malcriada, a bruta, a ciumenta e possessiva, a injusta, a que acusa e fabrica bodes expiatórios, a mentirosa, a interesseira, a falsa...'
fico-lhe grata: nenhuma delas me é desconhecida e, a seu tempo, lá irei. como tão bem escreve o Emídio, 'quando observar um comportamento humano, qualquer comportamento humano, e for capaz de afirmar 'eu sou assim', ao nível mais profundo do seu ser, então será capaz de se aproximar da verdadeira iluminação.'
retribuo, então, a ajuda ao meu querido amigo: malcriado, bruto, ciumento e possessivo, injusto, que acusa e fabrica bodes expiatórios, mentiroso, interesseiro, falso...
pode ser que um dia cada um de nós seja capaz de se aproximar da verdadeira iluminação :)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

sombra

'por cada ciclo de criação, há um ciclo de destruição'

quando, há umas semanas atrás, num rápido workshop sobre a Sombra, o Emídio me pediu que dissesse qual a melhor qualidade que reconhecia em mim, não hesitei um segundo: criatividade! disse-o segura do que estava a dizer, com um sorriso. várias outras pessoas foram chamadas a responder à mesma pergunta e cada uma deu a sua resposta. a seguir, foi-nos pedido que pensássemos, desta vez em silêncio, nos opostos das qualidades expressas. hesitei. 'improdutividade', 'preguiça', 'monotonia' e 'copiar' foram as palavras que me surgiram.
hoje à tarde, na praia, e depois de ter passado a manhã a ler uma parte do livro que o Emídio disponibilizou para download - a Sombra Humana -, voltei a sentir essa criatividade que sai quase sem esforço de mim em quase tudo o que faço, desta vez no simples juntar de um molho de conchas para fazer uma pequena mandala. 'sou tão criativa!' é um elogio que sempre fiz a mim própria, sim. 'és tão criativa!' é um elogio que sempre ouvi dos outros, é verdade. foi então que, sem mais nem menos, destruí a pequena mandala que tinha feito e que descobri o oposto da Inês criativa: a Inês destrutiva!
recuei à minha infância e revi uma cena que se repetia com imensa frequência. depois de convidar os meus irmãos para brincarem comigo às casinhas, e de as montar com paciência e perícia com almofadas, cadeiras, mantinhas, havia qualquer coisa dentro de mim que me impelia a destruí-las, tantas vezes antes ainda de ter dado início à brincadeira. a seguir, revi outras cenas idênticas. e, por trás, ouvi claramente a voz dos adultos que me diziam: 'que pena! fazes coisas tão lindas e depois estragas tudo!'
é óbvio que a Inês destrutiva não resistiu muito tempo a este 'que pena! fazes coisas tão lindas e depois estragas tudo!' ou antes: é claro que a Inês destrutiva resistiu, mas escondida, algures dentro de mim. não deixou de ser destrutiva, mas passou a 'destruir' pela calada. ou seja, começou a esconder - de si própria e dos outros - que fazia coisas tão lindas e que estragava tudo a seguir. 
agora mesmo, enquanto escrevo estas linhas, faço por aceitá-la, chamá-la e torná-la minha aliada. se por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição', eu preciso - muito! - da Inês destrutiva para me destruir, re-criar e viver mais um ciclo...

'és a pessoa mais bondosa que eu já conheci'

dizia-me ontem alguém muito próximo, acrescentando a seguir: 'fizeste de mim um homem melhor.' ontem ainda, depois de me ter dito isto, sorri e respondi-lhe: 'não estás a ver mais do que a bondade que existe em ti.' hoje, revi as maldades que fiz a este homem - e acreditem que foram algumas. a seguir, lembrei-me de ter ouvido dizerem-me, tantas vezes quando era pequena, 'és um diabo com um coração de ouro' ou 'a seres uma flor, eras o cacto: porque tens picos, mas dás uma linda flor.' e é-me difícil sentir onde se separam e onde se juntam a boa e a má. é-me ainda díficil sentir se a sombra da boa é a má ou se é a sombra da má que é a boa. porque, se quiser ser honesta, tem dias em que me dá imenso prazer ser a boa e outros em que me dá imenso prazer ser a má. e então talvez nenhuma das duas tenha ficado verdadeiramente na sombra, talvez nenhuma das duas esteja na luz, talvez esta seja uma dualidade que sempre aceitei, afinal, e que eu não seja nem boa nem má, mas alguém - como toda a gente que existe no mundo - que é capaz de fazer coisas boas e coisas más...

'a tua escrita faz muito ruído'

foi uma 'acusação' que ouvi inúmeras vezes ao longo dos últimos tempos. e foi tal o incómodo que, a certa altura, calei-a: à escrita. e, no entanto, durante que tempos também, centrei-me onde não era realmente importante centrar-me: na 'acusação'. desta perspectiva, é óbvio que não era possível ver mais do que uma grande injustiça. como é que alguém se atrevia a dizer que a minha escrita fazia muito ruído? e, se isso me incomodava assim tanto, onde é que estava o ruído? 
foi necessário muito silêncio para sentir que o 'ruído' - em mim, e já não na perspectiva de quem me acusava de o fazer - era uma des-sintonia entre o que eu escrevia e o que eu realmente fazia. o 'ego espiritualizado'  é um 'personagem' que tem vindo a ganhar muito relevo nesta era dita 'new age' e, como não sou excepção, encontrei-o em mim. está tão bem montado que há dias em que acredito ser realmente uma 'iluminada'! e em que vou buscar a 'espiritualidade lindinha' para servir de verniz à minha escrita... esse é, então, o ruído. e, no entanto - e aqui estou eu a escrever outra vez - se há um propósito naquilo que escrevo - para além do gozo imenso que me dá escrever só por escrever - é a 'terapia' que faço a mim mesma, quando me ponho à mostra e à vista de todos os que me queiram ler. e pôr à mostra, mais uma vez, não é escrever tudo 'lindinho': é cuspir também o que é sombra cá dentro. por alguma razão, durante anos a fio, escrevi num blog onde não dava a cara. chamava-se conta-me tudo, ao princípio, e mais tarde de vidro e de outras substâncias anónimas, e eu assinava Sophia. está cheio de sombras cuspidas, mas não havia ainda a coragem para assumir que quem as cuspia era eu e que a Sophia era só uma máscara...

e no resto - que ainda é quase tudo - já sei o que sinto. mas, para sentir de verdade o que sei, nada como continuar a 'cuspir-me', a despir-me, a destruir-me, a re-criar-me a cada dia que passa...

terça-feira, 21 de junho de 2011

o verão veio para ficar



e para que a vida amadureça 
o que as árvores nos oferecem. 
e então será só nossa a alegria das colheitas. 
a esperança 
de nos vermos transformados 
nessa seiva das sementes que plantámos junto ao peito, tornadas frutos da paciência dedicada 
a cuidar para que crescessem. 
humildemente, 
há que acolhê-lo, 
dando graças por ser manso, 
azul por dentro, 
luz acesa sobre o mar do nosso espanto.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Plutão

Plutão é seguramente o planeta que melhor traduz a energia da sombra e aquele que, implacavelmente, nos obriga a olhar de frente para a morte, sem qualquer espécie de filtro, sem nenhuma complacência ou pieguice. lembro-me de ouvir a minha amiga M., há uns tempos, a dizer-me: 'com Plutão, não tens hipótese. o abismo está ali, à tua frente. ou saltas, ou és empurrada.'
e assim tem sido, a M. tinha razão. ora saltando, ora empurrada, temos estado frente a frente, eu e a morte, a morte e eu. ela a querer que eu lhe dê luta, eu a querer que me dê paz, ela ao ataque, eu à defesa, ela activa, eu reactiva, caíremos muito em breve nos braços uma da outra, essa é a esperança, esse é o trânsito da sombra a fazer, em simultâneo, quadratura ao meu Sol e à minha Lua.
nenhuma morte quer levar-nos se não for para renascermos e o propósito é só esse: mergulhar de cabeça num abismo assustador, deixar que tudo me doa, que lentamente a morte seque o que ainda arde e ainda sangra, que dissolva o que resiste, que me esventre as ilusões, me congele a temperatura e me devolva enfim à vida, quando enterrar tudo aquilo que já não serve e não respira.
é dura a morte, mas mais duro é ir morrendo aos poucos viva, apegada à podridão das velhas crostas, à humidade e ao bolor de antigas feridas, muito mais duro do que o abismo é ir caindo em queda livre, sem ousar bater no fundo. de cada vez que não deixamos que nos mate, a morte vem e mortifica-nos e, isso sim, é o desperdício da vida.
não sei bem a quantos graus anda o Plutão, se ainda vai bater no Sol, se ainda irá mexer na Lua, mas sei cada vez melhor onde é que a sombra ainda se esconde, onde é que ainda tem vergonha, de onde é que tenta fugir, vejo cada vez mais clara a luz ampla que me guia, estou quase a deixar que a morte me devolva inteira à vida, co-criando-me quem sou - luz e sombra - dando graças pelo abismo onde lutei com os meus fantasmas, dando graças pelo dons e, humildemente, aceitando cada mão que me é estendida, cada festa que tem vindo ao meu encontro e me garante que os anjos velam por mim.
afinal, a morte é doce e Plutão é generoso, pois ao passar destruíu-me pela dor, mas deixou-me o seu imenso poder regenerador para que eu própria me acolhesse com amor e pudesse resgatar a força da minha luz.

domingo, 19 de junho de 2011

mudei de anel

mas a intenção persiste: casar comigo. e, no entanto, já não digo como disse algumas coisas... já não digo que é muito mais complicado deitar-me todas as noites e abraçar-me sem reservas. pelo contrário, é tão mais simples! e sempre com a garantia de os braços estarem abertos. já não digo que é mais duro exigir fidelidade àquilo que sou, pois passou a ser tranquilo ouvir-me bem e, ouvindo-me, sentir que só me engano se ficar com quem se engana. já não digo que é mais justo e verdadeiro dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro não dizer 'amo-te': é sempre justo e verdadeiro dizer 'amo-me', sempre justo e verdadeiro dizer 'amo-te', quase diria que é até a mesma coisa, um verbo só que se dá e se recebe ao mesmo tempo e se conjuga sem ter medo. 
já não digo que o meu primeiro casamento 'acabou' com um atropelamento ou que o segundo 'não deu certo'. de cada um guardo intacta a vivência do amor na expressão que me foi dado a conhecer e estou grata por ter tido essas experiências. mas, sobretudo, e apesar de não ter falado nisso nesse outro texto que escrevi, já não temo esse bicho a que chamei anos a fio de 'solidão' e que me comia as entranhas de cada vez que imaginava não ter mais com quem casar, porque isso está garantido! saiba eu seguir, sentindo, o milagre de me ter sempre comigo e está selado o compromisso de não mais me separar.

dá-me a mão

e levo-te aos lugares de ti que, com o tempo, foste deixando ao abandono. não tenhas medo, prometo que não te largo, não te deixo um só segundo e, à medida que fores ganhando a coragem de espreitar cada um dos teus abismos, aperto-a com mais força ainda. é pequenina, eu sei, mas cabe tão bem na minha... podes debruçar-te a ponto de sentires vertigens, estou aqui. podes até ousar cair. e, nesse caso, cairemos de mãos dadas. ou então, se estiveres com muito medo, pede-me colo. assim, vês, pões-me os braços à volta do pescoço e enlaço os meus à tua volta, temos as duas muita sorte: tu, por seres ainda pequenina e caberes inteira em mim, e eu por já ter crescido e ser capaz de te dar colo. anda. podemos começar devagarinho. eu dou o primeiro passo... tu dás o primeiro passo. por onde queres começar? talvez pelos lugares que estão fechados há mais tempo? consegues levar-me lá? se quiseres, podemos ir cantando à medida que avançamos... isso mesmo. as canções espantam os medos e somos bem capazes de fazer um belo dueto, tu e eu, mas não é obrigatório e, se preferires, podemos seguir antes em silêncio. ou então podes chorar. podes rir, podes gritar, espernear, o que quiseres, eu estou aqui. vamos ao lugar dos mortos, queres? vamos ao lugar da espera, ainda te lembras? durante quanto tempo alimentaste a chegada de quem afinal não chegou a vir com vida conhecer-te? e como podias tu saber, naquela altura, que não foi para te privar de companhia que aquilo tudo aconteceu? vamos entrar, queres? abro as janelas para que vejas que a escuridão só existe no teu peito e que não há, afinal, nenhum lugar onde te engula. abro o teu peito para que sintas como a luz jorra límpida e talvez compreendas o que na altura não sabias: que a espera foi criada para que um dia regressasses a ti mesma e, juntas, como agora, pudessemos celebrar esse regresso de mãos dadas... e então podemos ficar aqui o tempo que for necessário...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

zoom out

amplia.
e repara como se pode abarcar cada vez mais paisagem sempre que não nos detemos num só pormenor. a vida cheia de cores e, por alguma razão, só vemos o preto. só vemos o branco. que seja só o azul ou só o vermelho, mas nada é só neste mundo. não existe um único traço que não se prolongue, um rasto que não nos conduza ao rumo seguinte, até o silêncio é precedido de som para que sejamos capazes de ouvi-lo, e é do silêncio que surge uma nova batida para tudo.
observa.
não há uma única coisa que não se transforme na coisa seguinte, não há um só dia que permaneça intacto na luz, tem de haver noite e escuro para que se volte a acender o dia seguinte. não há primavera a não ser quando o inverno termina, a não ser quando insistimos no frio e nem sequer reparamos que os campos floriram e então ficamos ali, embaciando os olhos com chuva e recusando o renascimento constante da vida.
expande.
e onde só vês o esvoaço de um pássaro passas a ver altitude, onde apenas vislumbras o mastro de um barco começas a ser o próprio balanço do mar, onde antes havia um único e estreito caminho revelam-se passos, sentidos, e caminhar deixa de ser o cansaço do corpo para se transformar no movimento incessante do espírito.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

a m o r [ t e ]

assim estava eu, há vinte anos atrás: vestido branco comprido de noiva, véu nos cabelos que tinha deixado crescer, um bouquet - piroso! - de rosas nas mãos, a posar no jardim de Pedrouços para o álbum das nossas memórias, enquanto tu esperavas, nervoso, que à última hora eu não aparecesse e deixasse vazio o altar dos teus sonhos.
sonhaste-me,
e sabes,
muito mais do que eu.
por alguma razão, alguma emoção ou mesmo mistério, eu era a mulher dos teus sonhos e esperavas de mim que viesse cumpri-los:
amar-te e honrar-te e ser-te fiel todos os dias das nossas vidas.
palavras à parte, é assim que tem sido. um amor à prova de gritos, apelos, posses, apegos, expectativas, cobranças, criando os filhos no privilégio e na honra de ser a mãe terra e tu o pai céu, fiel à essência benigna e comum a todos os seres.
celebro, então, isso contigo. esta certeza de que o amor não é o que vulgarmente chamamos de amor, mas a mais pura energia da cura e da conexão com o espírito. celebro a tua presença na minha vida, que não carece de provas nem de demonstrações de espécie nenhuma, celebro a esperança de que a humana idade me traga mais consciência e mais maturidade para que, um dia, me volte a casar com a mesma verdade com que hoje me sinto casada contigo.
sim, na terra não somos - ainda - à prova de gritos, de apelos, de expectativas, de posses, de apegos... cobramos do outro o que, afinal, só a nós próprios podemos pedir, mas eu acredito
e tu sabes que eu acredito
que esse é o caminho, que é esse o milagre e que os encontros, os re-encontros e os desencontros revelam, a cada agora, de que forma podemos tirar ensinamentos dos passos que damos, uns à frente, outros atrás, e como cada experiência nos mostra onde é que ainda repetimos padrões e onde é que já somos capazes de os transcender.
na terra, a forma mascara o conteúdo e tantas vezes deixamos que o quadradinho seja a medida para aquilo que não tem, afinal, enquadramento possível. pode ser longo e penoso o caminho que nos leva da cabeça para o coração, mas há doze anos que o faço contigo e não desisto de o repetir com alguém cá em baixo...
porque, de facto, meu querido, hoje podia estar triste e não estou. podia estar para aqui a consumir-me no filme do que ficou por viver entre nós, vestida de escuro e de luto, muito mais do que de branco e de noiva, a atolar-me na pena que sinto por não te ter ao meu lado a dar colo aos filhos, na tortura que são as saudades das festas, na viola e na voz silenciadas em casa... e, no entanto, por tudo dou graças. pela luz que me envias, pelos sonhos de que me despertas, por velares pelos filhos, por ocupares a orla das portas e me mostrares que estão sempre abertas, até pela voz com que entoas os hinos do céu e cujo eco oiço na terra, no vento, no mar, no meu peito.
vinte anos depois, dou graças por me teres sonhado com tanta verdade e por me teres levado ao altar. por essa morte que não foi mais do que deixar de te ver com os meus olhos humanos e que me abriu a alma para paisagens mais vastas. é uma honra e um privilégio, uma sorte! estar, há vinte anos, casada contigo, uma aprendizagem que tenho vindo a fazer, uma esperança e uma certeza de que não abdico: de que o caminho a dois se faz em verdade e partilha e de que o amor assim é na terra como no céu a energia mais pura da conexão e da cura.
 


segunda-feira, 4 de abril de 2011

espelho meu, espelho teu


olho-te e vejo-me. olhas-me e vês-te. pode até ser que seja - só e ainda - um conceito mental que não consigo transpor para além das superfícies brilhantes do vidro, que me custe ainda a aceitar que a minha mãe a queixar-se sou eu a queixar-me, que a minha filha a ser malcriada me esteja a mostrar a minha má criação, que aquela senhora aos gritos na rua, que não conheço de parte nenhuma, mas que me chama a atenção, me esteja afinal a chamar a atenção para os meus próprios gritos. talvez me seja ainda difícil rever-me na zanga do outro quando se zanga comigo, pôr-me na pele de um mentiroso, de cada vez que não assumo as minhas mentiras, dar-me conta de que a sombra que o outro projecta, afinal, é a minha. 

e, no entanto, não tenho uma dúvida de que, quando olho para ti - sejas tu o que fores e quem fores -, não tenho uma dúvida de que estás a espelhar o que também trago em mim. não fosse assim e nada faria sentido. viveríamos todos de caras viradas para uma parede, não seria suposto sequer cruzarmo-nos uns com os outros, cada um ficaria na sua redoma, sem se rever em coisa nenhuma, sem nunca tomar consciência de que é exactamente o mesmo que todos os outros.

também não tenho nem uma dúvida de que, quanto mais tu 'mexes' comigo, seja na luz, seja na sombra, mais evidente se torna que há qualquer coisa a ser-me mostrada muito para além das superfícies brilhantes do vidro e que é urgente que me conecte com ela. e, sim, é sempre mais simples quando é a luz que há em ti que se espelha, e mais complicado quando é a sombra quem me devolve os fantasmas que também eu alimento. é  sempre mais doce e mais calmo quando te amo em mim e mais violento e mais duro quando me odeio em ti.

e, sim, tudo faz parte. tu seres o meu espelho, eu ser o teu espelho. até quando estamos virados de costas, evitando o que a superfície brilhante dos vidros insiste em mostrar-nos, espelhamos o que das tuas costas existe nas minhas, o que das minhas costas existe nas tuas. e podemos dar todas as voltas,  virar do avesso gestos e poses, podemos, até, partir todos os espelhos que nos obrigam a tomar consciência de que eu sou tu e tu és eu. nem que seja em fragmentos, nem que seja em estilhaços, haverá sempre uma imagem de mim que tu me devolves, haverá sempre uma imagem de ti que eu te devolvo. e essa é a magia dos espelhos: é tu tomares consciência de que te vês quando olhas para mim, é eu tomar consciência de que me vejo quando olho para ti.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

aqui, que ninguém nos ouve...



diz um amigo meu que, no Universo, não há privacidade. e, no entanto, todos nós acreditamos que fazemos certas coisas às escondidas, sobretudo aquelas coisas que nem sempre são as 'certas'. acreditamos que, em surdina e no recato das cortinas, nenhum dos nossos segredos será um dia descoberto e até nos gabamos disso, de ter segredos que ninguém vai descobrir se os mantivermos fechados a sete chaves. acreditamos que os nossos lugares secretos estão resguardados dos voyeurs e que a nossa vida íntima só a nós nos diz respeito. acreditamos que, se nunca ninguém souber que enganamos o vizinho, passaremos por honestos. se ninguém denunciar que batemos nas crianças, passaremos por bonzinhos. se ninguém desconfiar que traímos a mulher ou o marido, seremos parceiros fiéis. se ninguém nos apanhar em flagrante nalgum vício, tiraremos mais partido das virtudes. se ninguém vier espiar as nossas falhas, seremos bem sucedidos.

não creio que seja verdade e tendo cada vez mais a concordar que o meu amigo tem razão. aqui, há  sempre 'alguém', afinal, que está a ouvir, há sempre 'alguém' que está a ver, há sempre 'alguém' que presencia cada acto, cada gesto, sobretudo os que fazemos às escondidas, na presunção de que ninguém vai descobrir que os cometemos. há sempre 'alguém' que está presente,  até no mais simples pensamento ou omissão, que testemunha a energia que se gera à sua volta e... nunca é 'alguém' de fora. 

nós nunca estamos sozinhos, nem quando não existe mais ninguém ao nosso lado. fazer coisas às escondidas é, por isso, um logro imenso em que caímos, todos nós, do tanto que nos habituámos a acreditar que o julgamento vem de fora e que, se cuidarmos muito bem de uma mentira ou de uma máscara, a transformamos em verdade. e eu, mais uma vez, concordo com o meu amigo e acredito que é só mais uma ilusão da nossa querida humana idade e que não há, no Universo, nem um único momento dessa coisa a que chamamos 'a nossa privacidade'.

mesmo que ninguém nos veja a roubar, a bater ou a agredir quem quer que seja. mesmo que ninguém descubra que enganámos a mulher ou o marido e as amantes e os amantes sejam cúmplices perfeitos. mesmo que ninguém nos apanhe a fumar charros às escondidas ou a injectar nas veias. mesmo que ninguém nos espie e denuncie as nossas falhas. mesmo que ninguém possa provar que desejámos alguma espécie de vingança a alguém que odiamos, ou que dissemos mal da amiga ou da prima ou do cunhado... nós nunca estamos sozinhos!

há uma lei no Universo - em que acredito - que diz que tudo aquilo que damos nos será um destes dias devolvido. mas, para que a lei seja cumprida, tem de haver omnipresença. e quem, se não nós mesmos, pode estar omnipresente ao longo de toda uma vida e, até, para além dela? quem, se não cada um de nós, pode ser esse 'alguém' que presencia cada acto, cada gesto, omissão ou pensamento? ou vivemos iludidos e às escondidas de nós próprios, ou tomamos finalmente consciência de que não há, realmente, nenhuma privacidade que possamos defender, resguardar ou pôr a salvo.

aqui, há sempre 'alguém': que nos ouve e que nos vê. podem chamar-lhe o que quiserem - Deus, Eu Superior, Alma, Consciência... 'alguém' omnipresente, de sempre e para sempre e que nunca vem de fora, julgar, denunciar ou apontar coisa nenhuma, mas que é em nós a prova viva de que não podemos nunca, nem sequer por um minuto, fazer nada às escondidas de nós mesmos.

sábado, 26 de março de 2011

grande ilusão!...


disse-me ele, hoje de manhã, ao ver as asas 
que colei rente ao meu corpo, no retrato.
e o que sinto é que há um par para cada um
e que voar está ao alcance de nós todos.
a não ser quando, 
iludidos pela nossa humana idade,
resistimos ao milagre
de nos revelarmos anjos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

estou-te profundamente grata

daqui
disse eu nesse dia ao anjo, ao reparar que era agora eu quem tinha as asas e ele quem suportava a mancha humana do meu corpo e que se servia dele para me dar um grande abraço. 
e assim temos estado, até hoje, eu e o anjo. sentindo que somos só um e o mesmo e que nada nem ninguém nos separa a não ser quando fingimos: ele que é um anjo e eu que sou uma pessoa, em vez de uma unidade com deus. 

terça-feira, 22 de março de 2011

lindos, maravilhosos, poderosos... nós todos ♥

da Ica ♥
coitadinhos de quem? de nós? porquê? coitadinho de si porquê? ah... porque lhe tiraram 10% do ordenado! porque tem um emprego de merda? porque a vida não está fácil? porque o seu casamento vai mal? porque lhe apareceu um tumor? porque morreu a sua prima? porque o país está entregue a um bando de ladrões? porque não tem dinheiro para  mandar catar um cego? porque é tudo uma treta e ninguém é capaz de mudar nada!

ah! coitadinho de si, de facto. coitadinhos de nós todos, sim, que para aqui andamos a carpir as nossas mágoas e a mastigar tantos queixumes neste mundo tão injusto! é mesmo de ter pena, estou de acordo, muita pena de nós próprios e da vidinha que levamos, sempre aquém dos nossos sonhos. 
afinal, fosse o estado um patrão compreensivo e generoso e tinha-o antes aumentado. houvesse a sorte de lhe oferecerem outro emprego e a vida toda era mais fácil... ah, e se o marido não andasse aí com outras, ou se a mulher não se queixasse tantas vezes - e sempre das mesmas coisas - o amor seria lindo! se ao menos não lhe tivesse aparecido esse tumor que lhe põe a vida em perigo... e a prima? que tragédia, alguém morrer assim tão novo! não fosse este bando de ladrões e o dinheirinho ia chegando para comprar mais qualquer coisa, era ou não era? ah pois era, houvesse quem pegasse nisto e desse um rumo a esta merda e talvez fosse possível, começar a ver a luz lá no fundinho do túnel...

há muitos dias em que caio nesta armadilha e em que sou, também eu, a coitadinha do meu filme. nada me anima, nesses dias, em que me enredo em argumentos fatalistas e me presto a ter pena de mim própria. tudo me pesa, é tudo mau, atribuo culpas a quem quer que esteja à mão: aos filhos quando gritam e me esfrangalham os nervos; às editoras que não me pagam o que devem; à chuva do Inverno que me deu cabo do telhado; à fila vagarosa de carros à minha frente - e eu com pressa...
a lista seria interminável e caberia, toda ela, na designação comum das 'coisas que me fazem mal'.

felizmente há outros dias. dias em que nada pesa e tudo é leve e fico só maravilhosa e admirando o meu poder. deixo de ser personagem, saio do filme e realizo, a cada agora, o que só eu posso mudar. e, mudando, o mundo muda à minha volta. 
e assim somos nós todos, sem excepções: maravilhosos, poderosos e capazes de mudar, a cada instante, o nosso mundo. a cada dia mais um pouco, a cada pouco mais um tanto, sobretudo quando infringimos a regra de ter pena de nós próprios. 
ah pois é, experimentem lá e vão ver como é tão bom, nem que dure só um minuto... 

quinta-feira, 17 de março de 2011

please don't strongly interpret the dot!

este blog conta, a partir de hoje, com uma bola no canto superior esquerdo - tentei pô-la noutro sítio, mas a linguagem html ainda é para mim um enigma e, portanto, deixei-a ficar ali mesmo: no canto superior esquerdo. vão vê-la mudar de cor e, se clicarem em cima, depressa verão que é um link que vos leva ao  Global Consciousness Project , um site onde poderão encontrar todas as explicações técnicas sobre o modo como funciona e por que razão é que a bola muda de cor. 

so: please don't strongly interpret the dot, but be aware of how responsible you are about changing the world's level of consciousness :)

terça-feira, 15 de março de 2011

cada um é o milagre de si

há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e outro exigiria a uns sacrifício e ao outro misericórdia - para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser UM e o mesmo como durante esses tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a justiça divina para a resistência, ou mesmo a recusa, aos nossos pecados mortais.

se no princípio era o Verbo, o som puro, depressa nos apropriámos dos seus timbres ocultos para transformar em palavras o que ele apenas intuía, soprando. e foi assim, acredito, que fomos gerando tantos equívocos. o milagre deixou de respirar das nossas entranhas - como hoje ainda respira das entranhas dos bichos, das árvores, das pedras, dos rios - para se tornar num pedido a algo ou a alguém fora de nós. de co-criadores, passámos a seres criados à semelhança de Deus, sendo porém maiores as diferenças que nos separam do que as semelhanças que nos consubstanciam numa essência comum.

como se não nos bastasse esse logro, inventámos ainda que Deus não era um e o mesmo para todos e demos-lhe designações consoante a nossa cultura, a nossa história, os nossos mentores e, sobretudo, os nossos medos. e as re-ligações do que afinal sempre esteve ligado - ou as religiões que nos separaram do Todo - enraizaram em nós esta crença profunda de que temos de nos esforçar, de nos sacrificar, de carpir muito e de ser muito bondosos para podermos merecer a presença de Deus nas nossas vidas.

querer é um delito da mente, mas crer é um deleite do espírito. querer que o santo nos cure, que Nossa Senhora nos traga alívio para as dores, que o Buda nos ilumine, que Alá nos receba de braços abertos, que os anjos nos guardem de todos os perigos não é mais, afinal, do que recusar assumir e expressar esse milagre que cada um é para o transformar no pedido de que algo ou alguém realize o nosso desejo mais íntimo: sermos, à semelhança de Deus, co-criadores do Universo e da Vida.

assim como a culpa dos males que nos atingem não é de terceiros, também a graça dos bens que colhemos não se fica a dever a benesses alheias. não creio sequer que possamos falar de bens e de males como se fossem matérias distintas, mas antes frequências da mesma espiral de energia, todas elas presentes em nós - e em Deus. não posso sequer garantir que faça um milagre maior o que aspira às alturas e sobe ou se é, afinal, o que desce aos abismos e mergulha no escuro o que verdadeiramente transmuta as sombras em luz.

de uma coisa, porém, tenho a certeza: cada um é o milagre de si, sempre que crê ser parte do todo e se cura e se alivia das dores e se ilumina e se recebe de braços abertos e se resguarda dos perigos que o medo lhe impõe. o resto são histórias que nos contaram, mas nas quais é urgente repor a verdade: não, não há quem faça milagres por nós!

daqui

domingo, 13 de março de 2011

no branco, pode começar tudo de novo



éramos muitos, mas ainda não éramos todos, sobretudo não éramos UM. a convocatória era de protesto e, quando se convoca uma 'geração à rasca' para içar as bandeiras do protesto, a união é impossível - digo eu... ninguém se une  verdadeiramente quando a energia é a da zanga, a da carência, a da falência. ninguém pode encontrar soluções enquanto não se assumir como parte do problema, ninguém pode pedir que, de fora, venha quem resolva o mal-estar que grassa dentro de cada um de nós. criamos carrascos sempre que vestimos a máscara da vítima, 'desempoderamo-nos' de cada vez que delegamos nos outros o poder de mudarem as nossas vidas, há anos que pactuamos com este sistema, tomando a democracia por um direito e, tantas vezes, esquecendo os nossos deveres. votamos, ou não? e há anos que votamos nos mesmos, alienando a possibilidade de não eleger 'mais do mesmo', se votarmos em branco. ou ainda há quem não saiba que, num cenário em que um terço dos eleitores votem em branco, as eleições teriam de repetir-se com 'sangue fresco' nas listas, ou então passamos a vida a esquecer-nos.

ontem, na Av. da Liberdade, ninguém era livre, afinal e 'à rasca' significava que há gerações e gerações que temos medo. com 'medo de existir', como tão bem já explicou o José Gil, o povo português dorme à sombra da neblina e da saudade, sonhando com as caravelas quinhentistas da conquista, mas enjoando com a simples visão do balanço do mar alto. sim, somos de brandos costumes, fazemos revoluções com cravos, entoamos o esplendor de Portugal afinadinhos, levamos a vidinha a prestações, damos crédito às promessas do pai Estado Providência, acreditando que tem mais é de nos levar ao colo, de nos subsidiar a insatisfação, o desalento e a preguiça, validamos esta sensação de estar em dívida, de cada vez que contraímos um empréstimo para podermos possuir mais qualquer coisa e onde é que isto nos leva? a mais do mesmo, digo eu...

se a precariedade de que tantos, ontem, se queixavam for tomada por castigo, ficaremos ainda mais 'à rasca'. se a 'culpa' continuar a ser dos outros, não passaremos mais de vítimas. se insistirmos na eleição de predadores, seremos sempre a 'caça' fácil. soluções? acredito que cada um será capaz de encontrar a que lhe sirva, quando finalmente assumir que está em crise não por causa dos corruptos, não por culpa dos políticos, não devido à falência do sistema, ao colapso das instituições, à ganância dos lobbistas, à prepotência dos 'mandões'. velhos padrões não podem mais ditar o rumo, há que mudar o paradigma. dormir envolto em neblinas, com saudades do passado e descrença no futuro é criar um presente envenenado. desejar TER - abonos, condições, facilidades, empregos estáveis, carro novo, um grande plasma, regalias - em vez de SER - humilde, empreendedor, criativo, tolerante, solidário - é estar a cair num logro: que o mundo mude para merecermos o nosso lugar ao sol, sem que para isso tenhamos de mudar e de sair do comodismo da sombra.

fossemos nós um país de chão minado, como Angola, um país onde se cai morto na rua e ali se fica, como na Índia, um país de ditadores, como o Egipto ou como a Líbia ou tantos outros, um país estilhaçado a cada esquina, como o Iraque, um país morto de fome, com a Somália, um país sem liberdade, como a China, um país de fanatismos, como o Afganistão, um país murado de lamentações, como Israel, um país que ainda não saíu dos escombros, como o Haiti, um país amordaçado, como o Tibete... fossemos nós outro país, que não pacífico e à beira-mar plantado e com Lys a abrir-nos um portal e o coração para o mundo novo, e eu percebia que nos manifestássemos em protesto.

assim, sugiro que nos juntemos antes em celebração. um milhão, dois milhões, três milhões... a descer pelas avenidas, todos de branco como um dia já fizémos por Timor, hasteando panos de todas as cores, em vez de slogans ridículos de auto-comiseração, entoando um hino novo em que o esplendor de Portugal já não seja esse queixume de uma geração à rasca, mas um coro em que cada um assuma finalmente o compromisso de dar voz ao coração e de fazer a sua parte.

ontem, cá em baixo, na avenida, estava o povo. mas, um pouco mais acima, a Liberdade abria as asas... quase diria que a pedir que elevássemos o tom e as intenções, que assumissemos de vez que somos a favor do voo, que somos UM, e não mais uns contra os outros, desejando, com verdade, ir ao encontro de nós mesmos.