sexta-feira, 1 de abril de 2011

aqui, que ninguém nos ouve...



diz um amigo meu que, no Universo, não há privacidade. e, no entanto, todos nós acreditamos que fazemos certas coisas às escondidas, sobretudo aquelas coisas que nem sempre são as 'certas'. acreditamos que, em surdina e no recato das cortinas, nenhum dos nossos segredos será um dia descoberto e até nos gabamos disso, de ter segredos que ninguém vai descobrir se os mantivermos fechados a sete chaves. acreditamos que os nossos lugares secretos estão resguardados dos voyeurs e que a nossa vida íntima só a nós nos diz respeito. acreditamos que, se nunca ninguém souber que enganamos o vizinho, passaremos por honestos. se ninguém denunciar que batemos nas crianças, passaremos por bonzinhos. se ninguém desconfiar que traímos a mulher ou o marido, seremos parceiros fiéis. se ninguém nos apanhar em flagrante nalgum vício, tiraremos mais partido das virtudes. se ninguém vier espiar as nossas falhas, seremos bem sucedidos.

não creio que seja verdade e tendo cada vez mais a concordar que o meu amigo tem razão. aqui, há  sempre 'alguém', afinal, que está a ouvir, há sempre 'alguém' que está a ver, há sempre 'alguém' que presencia cada acto, cada gesto, sobretudo os que fazemos às escondidas, na presunção de que ninguém vai descobrir que os cometemos. há sempre 'alguém' que está presente,  até no mais simples pensamento ou omissão, que testemunha a energia que se gera à sua volta e... nunca é 'alguém' de fora. 

nós nunca estamos sozinhos, nem quando não existe mais ninguém ao nosso lado. fazer coisas às escondidas é, por isso, um logro imenso em que caímos, todos nós, do tanto que nos habituámos a acreditar que o julgamento vem de fora e que, se cuidarmos muito bem de uma mentira ou de uma máscara, a transformamos em verdade. e eu, mais uma vez, concordo com o meu amigo e acredito que é só mais uma ilusão da nossa querida humana idade e que não há, no Universo, nem um único momento dessa coisa a que chamamos 'a nossa privacidade'.

mesmo que ninguém nos veja a roubar, a bater ou a agredir quem quer que seja. mesmo que ninguém descubra que enganámos a mulher ou o marido e as amantes e os amantes sejam cúmplices perfeitos. mesmo que ninguém nos apanhe a fumar charros às escondidas ou a injectar nas veias. mesmo que ninguém nos espie e denuncie as nossas falhas. mesmo que ninguém possa provar que desejámos alguma espécie de vingança a alguém que odiamos, ou que dissemos mal da amiga ou da prima ou do cunhado... nós nunca estamos sozinhos!

há uma lei no Universo - em que acredito - que diz que tudo aquilo que damos nos será um destes dias devolvido. mas, para que a lei seja cumprida, tem de haver omnipresença. e quem, se não nós mesmos, pode estar omnipresente ao longo de toda uma vida e, até, para além dela? quem, se não cada um de nós, pode ser esse 'alguém' que presencia cada acto, cada gesto, omissão ou pensamento? ou vivemos iludidos e às escondidas de nós próprios, ou tomamos finalmente consciência de que não há, realmente, nenhuma privacidade que possamos defender, resguardar ou pôr a salvo.

aqui, há sempre 'alguém': que nos ouve e que nos vê. podem chamar-lhe o que quiserem - Deus, Eu Superior, Alma, Consciência... 'alguém' omnipresente, de sempre e para sempre e que nunca vem de fora, julgar, denunciar ou apontar coisa nenhuma, mas que é em nós a prova viva de que não podemos nunca, nem sequer por um minuto, fazer nada às escondidas de nós mesmos.

sábado, 26 de março de 2011

grande ilusão!...


disse-me ele, hoje de manhã, ao ver as asas 
que colei rente ao meu corpo, no retrato.
e o que sinto é que há um par para cada um
e que voar está ao alcance de nós todos.
a não ser quando, 
iludidos pela nossa humana idade,
resistimos ao milagre
de nos revelarmos anjos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

estou-te profundamente grata

daqui
disse eu nesse dia ao anjo, ao reparar que era agora eu quem tinha as asas e ele quem suportava a mancha humana do meu corpo e que se servia dele para me dar um grande abraço. 
e assim temos estado, até hoje, eu e o anjo. sentindo que somos só um e o mesmo e que nada nem ninguém nos separa a não ser quando fingimos: ele que é um anjo e eu que sou uma pessoa, em vez de uma unidade com deus. 

terça-feira, 22 de março de 2011

lindos, maravilhosos, poderosos... nós todos ♥

da Ica ♥
coitadinhos de quem? de nós? porquê? coitadinho de si porquê? ah... porque lhe tiraram 10% do ordenado! porque tem um emprego de merda? porque a vida não está fácil? porque o seu casamento vai mal? porque lhe apareceu um tumor? porque morreu a sua prima? porque o país está entregue a um bando de ladrões? porque não tem dinheiro para  mandar catar um cego? porque é tudo uma treta e ninguém é capaz de mudar nada!

ah! coitadinho de si, de facto. coitadinhos de nós todos, sim, que para aqui andamos a carpir as nossas mágoas e a mastigar tantos queixumes neste mundo tão injusto! é mesmo de ter pena, estou de acordo, muita pena de nós próprios e da vidinha que levamos, sempre aquém dos nossos sonhos. 
afinal, fosse o estado um patrão compreensivo e generoso e tinha-o antes aumentado. houvesse a sorte de lhe oferecerem outro emprego e a vida toda era mais fácil... ah, e se o marido não andasse aí com outras, ou se a mulher não se queixasse tantas vezes - e sempre das mesmas coisas - o amor seria lindo! se ao menos não lhe tivesse aparecido esse tumor que lhe põe a vida em perigo... e a prima? que tragédia, alguém morrer assim tão novo! não fosse este bando de ladrões e o dinheirinho ia chegando para comprar mais qualquer coisa, era ou não era? ah pois era, houvesse quem pegasse nisto e desse um rumo a esta merda e talvez fosse possível, começar a ver a luz lá no fundinho do túnel...

há muitos dias em que caio nesta armadilha e em que sou, também eu, a coitadinha do meu filme. nada me anima, nesses dias, em que me enredo em argumentos fatalistas e me presto a ter pena de mim própria. tudo me pesa, é tudo mau, atribuo culpas a quem quer que esteja à mão: aos filhos quando gritam e me esfrangalham os nervos; às editoras que não me pagam o que devem; à chuva do Inverno que me deu cabo do telhado; à fila vagarosa de carros à minha frente - e eu com pressa...
a lista seria interminável e caberia, toda ela, na designação comum das 'coisas que me fazem mal'.

felizmente há outros dias. dias em que nada pesa e tudo é leve e fico só maravilhosa e admirando o meu poder. deixo de ser personagem, saio do filme e realizo, a cada agora, o que só eu posso mudar. e, mudando, o mundo muda à minha volta. 
e assim somos nós todos, sem excepções: maravilhosos, poderosos e capazes de mudar, a cada instante, o nosso mundo. a cada dia mais um pouco, a cada pouco mais um tanto, sobretudo quando infringimos a regra de ter pena de nós próprios. 
ah pois é, experimentem lá e vão ver como é tão bom, nem que dure só um minuto... 

quinta-feira, 17 de março de 2011

please don't strongly interpret the dot!

este blog conta, a partir de hoje, com uma bola no canto superior esquerdo - tentei pô-la noutro sítio, mas a linguagem html ainda é para mim um enigma e, portanto, deixei-a ficar ali mesmo: no canto superior esquerdo. vão vê-la mudar de cor e, se clicarem em cima, depressa verão que é um link que vos leva ao  Global Consciousness Project , um site onde poderão encontrar todas as explicações técnicas sobre o modo como funciona e por que razão é que a bola muda de cor. 

so: please don't strongly interpret the dot, but be aware of how responsible you are about changing the world's level of consciousness :)

terça-feira, 15 de março de 2011

cada um é o milagre de si

há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e outro exigiria a uns sacrifício e ao outro misericórdia - para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser UM e o mesmo como durante esses tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a justiça divina para a resistência, ou mesmo a recusa, aos nossos pecados mortais.

se no princípio era o Verbo, o som puro, depressa nos apropriámos dos seus timbres ocultos para transformar em palavras o que ele apenas intuía, soprando. e foi assim, acredito, que fomos gerando tantos equívocos. o milagre deixou de respirar das nossas entranhas - como hoje ainda respira das entranhas dos bichos, das árvores, das pedras, dos rios - para se tornar num pedido a algo ou a alguém fora de nós. de co-criadores, passámos a seres criados à semelhança de Deus, sendo porém maiores as diferenças que nos separam do que as semelhanças que nos consubstanciam numa essência comum.

como se não nos bastasse esse logro, inventámos ainda que Deus não era um e o mesmo para todos e demos-lhe designações consoante a nossa cultura, a nossa história, os nossos mentores e, sobretudo, os nossos medos. e as re-ligações do que afinal sempre esteve ligado - ou as religiões que nos separaram do Todo - enraizaram em nós esta crença profunda de que temos de nos esforçar, de nos sacrificar, de carpir muito e de ser muito bondosos para podermos merecer a presença de Deus nas nossas vidas.

querer é um delito da mente, mas crer é um deleite do espírito. querer que o santo nos cure, que Nossa Senhora nos traga alívio para as dores, que o Buda nos ilumine, que Alá nos receba de braços abertos, que os anjos nos guardem de todos os perigos não é mais, afinal, do que recusar assumir e expressar esse milagre que cada um é para o transformar no pedido de que algo ou alguém realize o nosso desejo mais íntimo: sermos, à semelhança de Deus, co-criadores do Universo e da Vida.

assim como a culpa dos males que nos atingem não é de terceiros, também a graça dos bens que colhemos não se fica a dever a benesses alheias. não creio sequer que possamos falar de bens e de males como se fossem matérias distintas, mas antes frequências da mesma espiral de energia, todas elas presentes em nós - e em Deus. não posso sequer garantir que faça um milagre maior o que aspira às alturas e sobe ou se é, afinal, o que desce aos abismos e mergulha no escuro o que verdadeiramente transmuta as sombras em luz.

de uma coisa, porém, tenho a certeza: cada um é o milagre de si, sempre que crê ser parte do todo e se cura e se alivia das dores e se ilumina e se recebe de braços abertos e se resguarda dos perigos que o medo lhe impõe. o resto são histórias que nos contaram, mas nas quais é urgente repor a verdade: não, não há quem faça milagres por nós!

daqui

domingo, 13 de março de 2011

no branco, pode começar tudo de novo



éramos muitos, mas ainda não éramos todos, sobretudo não éramos UM. a convocatória era de protesto e, quando se convoca uma 'geração à rasca' para içar as bandeiras do protesto, a união é impossível - digo eu... ninguém se une  verdadeiramente quando a energia é a da zanga, a da carência, a da falência. ninguém pode encontrar soluções enquanto não se assumir como parte do problema, ninguém pode pedir que, de fora, venha quem resolva o mal-estar que grassa dentro de cada um de nós. criamos carrascos sempre que vestimos a máscara da vítima, 'desempoderamo-nos' de cada vez que delegamos nos outros o poder de mudarem as nossas vidas, há anos que pactuamos com este sistema, tomando a democracia por um direito e, tantas vezes, esquecendo os nossos deveres. votamos, ou não? e há anos que votamos nos mesmos, alienando a possibilidade de não eleger 'mais do mesmo', se votarmos em branco. ou ainda há quem não saiba que, num cenário em que um terço dos eleitores votem em branco, as eleições teriam de repetir-se com 'sangue fresco' nas listas, ou então passamos a vida a esquecer-nos.

ontem, na Av. da Liberdade, ninguém era livre, afinal e 'à rasca' significava que há gerações e gerações que temos medo. com 'medo de existir', como tão bem já explicou o José Gil, o povo português dorme à sombra da neblina e da saudade, sonhando com as caravelas quinhentistas da conquista, mas enjoando com a simples visão do balanço do mar alto. sim, somos de brandos costumes, fazemos revoluções com cravos, entoamos o esplendor de Portugal afinadinhos, levamos a vidinha a prestações, damos crédito às promessas do pai Estado Providência, acreditando que tem mais é de nos levar ao colo, de nos subsidiar a insatisfação, o desalento e a preguiça, validamos esta sensação de estar em dívida, de cada vez que contraímos um empréstimo para podermos possuir mais qualquer coisa e onde é que isto nos leva? a mais do mesmo, digo eu...

se a precariedade de que tantos, ontem, se queixavam for tomada por castigo, ficaremos ainda mais 'à rasca'. se a 'culpa' continuar a ser dos outros, não passaremos mais de vítimas. se insistirmos na eleição de predadores, seremos sempre a 'caça' fácil. soluções? acredito que cada um será capaz de encontrar a que lhe sirva, quando finalmente assumir que está em crise não por causa dos corruptos, não por culpa dos políticos, não devido à falência do sistema, ao colapso das instituições, à ganância dos lobbistas, à prepotência dos 'mandões'. velhos padrões não podem mais ditar o rumo, há que mudar o paradigma. dormir envolto em neblinas, com saudades do passado e descrença no futuro é criar um presente envenenado. desejar TER - abonos, condições, facilidades, empregos estáveis, carro novo, um grande plasma, regalias - em vez de SER - humilde, empreendedor, criativo, tolerante, solidário - é estar a cair num logro: que o mundo mude para merecermos o nosso lugar ao sol, sem que para isso tenhamos de mudar e de sair do comodismo da sombra.

fossemos nós um país de chão minado, como Angola, um país onde se cai morto na rua e ali se fica, como na Índia, um país de ditadores, como o Egipto ou como a Líbia ou tantos outros, um país estilhaçado a cada esquina, como o Iraque, um país morto de fome, com a Somália, um país sem liberdade, como a China, um país de fanatismos, como o Afganistão, um país murado de lamentações, como Israel, um país que ainda não saíu dos escombros, como o Haiti, um país amordaçado, como o Tibete... fossemos nós outro país, que não pacífico e à beira-mar plantado e com Lys a abrir-nos um portal e o coração para o mundo novo, e eu percebia que nos manifestássemos em protesto.

assim, sugiro que nos juntemos antes em celebração. um milhão, dois milhões, três milhões... a descer pelas avenidas, todos de branco como um dia já fizémos por Timor, hasteando panos de todas as cores, em vez de slogans ridículos de auto-comiseração, entoando um hino novo em que o esplendor de Portugal já não seja esse queixume de uma geração à rasca, mas um coro em que cada um assuma finalmente o compromisso de dar voz ao coração e de fazer a sua parte.

ontem, cá em baixo, na avenida, estava o povo. mas, um pouco mais acima, a Liberdade abria as asas... quase diria que a pedir que elevássemos o tom e as intenções, que assumissemos de vez que somos a favor do voo, que somos UM, e não mais uns contra os outros, desejando, com verdade, ir ao encontro de nós mesmos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

mandala do Despertar


deitei-me na relva enquanto as minhas filhas andavam de bicicleta. ao meu lado, a Luísinha tinha estendido um pareo colorido, a Madalena um outro aos quadrados pretos e brancos, o meu era azul. já lá tínhamos estado na véspera e, enquanto as duas andavam de bicicleta, eu tinha ficado estendida no mesmo pedaço de relva - nenhuma das três tinha levado pareos - a apanhar sol e a encher a cabeça de nuvens. ontem, estendi-me ao sol apenas por breves minutos e, assim que senti que as nuvens chegavam de novo, apeteceu-me 'girar'. havia flores de todas as cores a jorrar dos canteiros, mas optei pelas que cresciam, selvagens, na margem de um pequeno ribeiro. 
escolhi o pareo da Luísa, por ser o mais colorido, como pano de fundo e comecei a dispor folhas e pétalas em círculo. estava vento, o que em muito dificultava a tarefa de permanecerem na roda, e então reparei nuns pequenos espigões que brotavam, avulso, da relva e usei-os como alfinetes. perfeito! o vento soprava na mesma, mas não desfazia a mandala.

quando a acabei, chamei-lhe 'mandala do Despertar'. estava a sacudir o pareo e a preparar-me para me ir embora, quando o telefone tocou. era uma amiga a perguntar se eu não queria ir com ela ouvir o João Motta falar do movimento 'Despertar Portugal', às oito da noite, no Instituto Macrobiótico.
já tinha tido um convite para o ir conhecer, há dois meses, talvez, mas na altura não tinha sido possível. já tinha, ontem mesmo, antes ainda das bicicletas e da mandala, pensado que gostaria de ir às oito da noite ao Chiado, mas a intenção tinha ficado suspensa e sujeita ao 'andamento' da agenda. 

às dez para as oito, estava na Rua Anchieta à espera da minha amiga, quando se aproximou de mim um rapaz, que depois soube chamar-se Tiago. trazia uma revista Ginko na mão e um sorriso estampado na cara. disse-me olá e exclamou
 há sincronicidades incríveis, não há?
ri-me e disse que sim, achando que a sincronicidade era ele ter encontrado na rua alguém que  vira numa revista, mas era mais do que isso, como me explicou logo a seguir.
 o João Motta esteve a ler esta sua entrevista hoje à tarde e manifestou o desejo de a conhecer... por acaso, também estava lá o seu cunhado Miguel, a quem pediu o contacto... e agora,  e sem saber nada disto, você está aqui! é incrível, não é?
tão incrível como os espigões que encontrei há pouco na relva e que permitiram que o vento não desfizesse a mandala, pensei, mas não disse, e ri-me de novo.

quando entrei no Instituto Macrobiótico, o João estava à porta e fez um ar estarrecido assim que me viu. não sabia que o Tiago me tinha encontrado na rua, mas confirmou o que me tinha dito, quando exclamou
 você veio mesmo, é incrível!
e abraçou-me como se fossemos já velhos amigos.

de tudo o que ouvi e senti a seguir, sobre o movimento Despertar Portugal, retive as sincronicidades para as quais nem sempre estamos despertos, sobretudo quando adormecemos na relva e deixamos que as nuvens nos tapem o céu na cabeça.

é 'crível', não é? e é precisamente por crermos que estamos despertos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

quando acordei, o anjo dormia



levantei-me para ser como ele e só então reparei numa enorme asa negra que parecia colar-se ao meu peito, embora irrompesse das costas e me pesasse na omoplata direita. projectava uma sombra gigante no chão, já não parecia feita de espuma, mas de alcatrão, era áspera e era só uma. uma só asa, que estranho, e não o par necessário para o voo imortal dos humanos. 
ensaiei um esvoaço e caí no negrume e o meu anjo pareceu acordar nessa altura para me chamar a atenção de que podemos sempre escolher se voamos para baixo ou para cima e eu então perguntei
  também há anjos maus?
mas ele dormia de novo e não respondeu à pergunta. mergulhei mais a fundo no escuro, reparei que uma asa chegava para tanto, chegava para tudo, em vez do voo imortal dos humanos era a mortalidade dos anjos o que eu experimentava nessa manhã e repeti a questão
  também há anjos maus?
no fundo calaram-se os cânticos e tudo o que ouvia era o medo descendo às entranhas do corpo e um coro que entoava a escuridão em uníssono 
  apaga-te, porque morreste para seres como nós
e brindavam com sangue à minha descida aos infernos e já não se avistavam laivos de espuma em parte nenhuma e o ruído que cada asa negra exalava era o eco aflitivo do som do abismo, repetindo o convite à vertigem, à queda, ao mergulho no esquecimento da luz
  apaga-te, porque morreste para seres com nós.
sem oferecer resistência, deixei-me cair e, caindo, deixei que morressem em mim a bondade, a ternura, a amizade, o amor, a harmonia e a paz. caindo, deixei que me contagiasse o negrume e entreguei-me ao abismo. mas nunca mais batia no fundo do fundo, parecia que o fundo do fundo não tinha fundo, afinal, e que quanto mais fundo caía, mais fundo queria cair e maior era a vertigem. se aquilo era a morte, era diferente de tudo o que tinha previsto, se apagar-me era assim, era porque afinal havia anjos maus e eu era um deles, um desses anjos caídos de que rezam as histórias dos homens, quando não sabem o que hão-de fazer ao desamor que vêem no mundo e tentam explicá-lo de acordo com o desamor que sentem neles próprios. e foi nesse momento, nesse exacto momento em que quis, também eu, explicar o desamor que vejo no mundo com o desamor que sinto em mim própria que cheguei ao fundo do fundo e que parei de cair.
acordado, o meu anjo esperava por mim e trazia com ele o par branco para a minha asa negra. juntos empreendemos então, e de novo, o voo de regresso lá acima, ao mesmo tempo que ele respondia à minha pergunta
  não há bons nem maus, tudo faz parte da mesma espiral.

quarta-feira, 9 de março de 2011

só tu e eu



e agora viro-me de frente para que me vejas. pareço-te um anjo? é evidente que não! ninguém parece aquilo que não é e não há nenhuma excepção. não é sequer de estranhar que a grande diferença entre um anjo e uma pessoa seja o facto de a maior parte de uma pessoa estar do lado de fora e a de um anjo do lado de dentro. e sim, vistas do lado de fora, talvez sejam de espuma, as asas que invento e que trago coladas às costas, talvez seja apenas ruído o que faço de cada vez que me ensaio em esvoaços, talvez me mascare de todas as vezes que escrevo, talvez nem sequer sirvam para nada as palavras que ponho a boiar no néon, crendo que caem no branco para preencher algumas lacunas da vida, ou dar eco aos anseios de tantas outras pessoas.

e, no entanto, se me visses apenas do lado de dentro, se te esquecesses da espuma e fizesses silêncio, percebias que aquilo que ponho a boiar flutua muito para além dos contornos das letras e que há palavras que me atravessam sem eu sequer me dar conta de que as estou a escrever.
que tenho esse dom, visto do lado de fora, pode até soar a vaidade. a pessoa que sou até tem a mania que escreve tão bem e acalenta no ego o desejo de ser: publicada, lida, aplaudida... e se com isso até for capaz de ganhar a vida e alimentar a família, tanto melhor! mas é por dentro, é de dentro que a tinta escorre e não mancha, é da voz que me habita que trago as visões, é a alma quem, metaforicamente, me recria todas as possibilidades de SER nesta existência que escolhi, desta vez, ter forma humana.

e então lá voltamos a este mal entendido de sempre... quem é esta que escreve e que depois, tantas vezes, nem sequer age em conformidade? quem é esta que diz tantas coisas e que, afinal, não faz nem metade? esta, virada de frente, à vista de todos, com asas de espuma coladas às costas e ruidosa nos seus muitos esvoaços, é a pessoa. esta, virada de frente, à vista de alguns, arrancando a carne das asas e desejando voar em liberdade, é o anjo.

inconsciência, para mim, é ter um dom e não o pôr ao serviço dos outros. inconsciência é negar a parte de nós que é pertença do todo. inconsciência é não partilhar o que sinto, temendo que alguém denuncie que, afinal, eu não sou o que escrevo. inconsciência é nascermos para sermos anjos e contentarmo-nos em sermos apenas pessoas. o meu lado de fora é, sem dúvida, humano. mas o meu lado de dentro é, seguramente, divino. e se nem sempre consigo cruzá-los para que sejam um só é porque, à semelhança de tantos, vim experienciar a dualidade em mais uma viagem terrena.

só tu e eu

disse-me o anjo.
há muito tempo que não o sentia tão perto, não porque não esteja sempre por perto, mas porque tantas vezes me esqueço da sua presença, atarefada que estou a dar conta da vida e dos mil afazeres que sempre me esperam. desta vez, no entanto, não lhe abri a espreguiçadeira, não lhe trouxe uma manta, não lhe enchi o copo de vinho e brindámos antes com a água da fonte.
tchim tchim
disse o anjo.
encostei-me ao seu corpo e bebi-o de um trago, na esperança de que me nascessem asas nos braços e pudesse abraçá-lo, já não como humana, mas com a leveza própria dos anjos. o anjo sentiu os meus braços de carne e dotou-os de penas e de novo me deu a beber a água da fonte, desta vez directamente na alma, ao mesmo tempo que me embalava e que me dizia, baixinho
ilumina-te, porque nasceste para ser como eu.
mostrei-lhe os meus braços de carne, que só ao de leve as suas penas cobriam, o meu corpo pesando de encontro à sua leveza divina, as mãos de onde pendiam tantos gestos humanos, o coração a bater-me no peito sem rumo e sem ritmo e ele, sempre benigno, aspergiu-me de novo com a água da fonte e de novo entoou, muito baixinho, a mesma canção de embalar com que me recebeu, quando eu estava a chegar
ilumina-te, porque nasceste para ser como eu.
e eu, que de milagres só pareço saber aquilo que me contam os homens, mostrei-lhe os vincos das rugas, as dobras da pele onde se acumulam poeiras, o esgotamento dos músculos, todas as células que em mim já morreram, o cansaço entranhado nas veias e ele rindo me mim, rindo para mim como quem sabe que apenas lhe mostro o lado mortal de tudo o que sou porque não tenho coragem de me exceder, transmutar, transcender e renascer para, enfim, ser como ele.
ele, que de milagres sabe tudo o que há para saber, mostra-me então o que em mim nunca morreu e é um tamanho tão grande de amor que jorra da fonte que, desta vez, me sinto incapaz de brindar seja ao que for. mesmo assim, ele enche-me a alma e é um sopro que sinto a razar-me quando ele me sussurra,
bebe, bebe porque nasceste para ser como eu.
e eu, que ultimamente tenho evitado tantos milagres, bebo-o de um trago e abraço-me às minhas asas, que ainda sinto de carne, é verdade, mas que sei que hão-de saber renascer para serem um dia iguaizinhas às dele.


terça-feira, 8 de março de 2011

às mulheres da minha vida ♥


obrigada  
obrigada obrigada obrigada  
obrigada obrigada  

e a tantas outras que HOJE estão na minha vida ou que por ela passaram um dia...


e ainda a mais umas quantas: que mesmo sem links virtuais, estão ligadas ao meu


liberdade, liberdade ♫

abre as asas sobre nós

há quanto tempo ali estava, nem ela sabia dizer. apenas que suspirava, de cada vez que, voando, embatia nas grades,
  ah, se ao menos eu fosse livre!
voava em círculos pequenos, a maior parte não dando sequer para abrir a totalidade das asas, o voo sempre aquém das alturas, os movimentos razando somente a redoma de arame, e todos os dias o mesmo suspiro
  ah, se ao menos eu fosse livre!
a liberdade que intuía, e pela qual suspirava, estava sempre do lado de fora e, lá fora, nunca havia ninguém que parecesse disposto a abrir-lhe a gaiola para que pudesse voar mais além. confinava-se, então, ao espaço apertado do seu cativeiro e as voltas que dava sobre si própria conduziam-na sempre ao mesmo desejo
  ah, se ao menos eu fosse livre...
em dias de menos alento, quando nem forças tinha para esvoaçar, suspirar, desejar, deitava-se, quieta, na sua prisão e ruminava impropérios. estranhamente, o exercício parecia trazer-lhe o conforto de que não era, afinal, culpada de nada, mas uma vítima das circunstâncias, fossem elas quais fossem. silenciosamente, vingava-se. não sabia ao certo de quem nem do quê, mas a ilusão de que os responsáveis pelo seu cativeiro seriam, um dia, punidos, acalmava-lhe as ânsias. caía então num estado dormente de auto-comiseração e quase sentia prazer em lamber cada uma das feridas que,  sangrando, recusavam a cura.
havia também outros dias em que, mergulhada numa euforia que fabricava a partir da matéria dos sonhos, se via a voar, finalmente, liberta de tudo e de todos. a gaiola era o mesmo espaço apertado de sempre, os círculos nunca maiores nem mais amplos e, mesmo assim, conseguia fazer com que parecessem espirais, quando, de olhos fechados, se imaginava do lado de fora das grades, rumo ao cume dos céus.
depressa, porém, regressava desses esvoaços dementes, dando-se conta de que não fora, afinal, a lado nenhum e então o desalento voltava, desfazia-se em melancolia e tristeza, suspirava de novo
 ah, se ao menos eu fosse livre...
 
 
 
olhando de fora, não só para ela, mas sobretudo para mim, diria que ambas são livres. é livre a que escolhe embater nas grades de arame e livre a que descobre que a porta se abre por dentro. é livre a que se entrega aos suspiros, aos esvoaços em círculos, à dormência e às feridas e livre a que cumpre os desejos, a que ousa atingir as alturas, a que, acordada, se cura. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

estão ambos à mão


de um lado o x-acto, do outro o píncel. é só minha a escolha se corto ou se pinto, se rasgo ou se tinjo, se esventro ou se animo. é no que dá ter duas mãos. fosse só uma, ou mesmo nenhuma,  não se punha sequer a hipótese de ter de ser isto ou aquilo. só um caminho e nunca esta dúvida: vou pela direita ou vou pela esquerda? fossemos nós todos inteiros e nunca nada seria partido, pedaço, fragmento, estilhaço. e podem dizer à vontade
ah e então aqueles textinhos todos muito bonitos que escreves aqui sobre esse exercício de SER, ser simplesmente, é tudo uma farsa ou o que é isso?
e eu digo: é tudo verdade e é tudo mentira. e o que me confunde, o que vos confunde, talvez, é que hoje seja uma coisa que ontem não era e que amanhã possa vir a ser outra e até pode parecer que é tudo colado com cuspo e eu digo
sim, é mesmo isso!
colagens de mim, não sei se com cuspo, sangue, suor ou com quê. sei que há dias em que é de x-acto e a eito, arranco-me os olhos e esventro as entranhas, rasgo-me toda e outros em que, coberta de cores, me animo a ser céu e me tinjo de azul e então?
está tudo à mostra, o branco e o preto, o sim e o não, a certeza e a dúvida, e é nesse exercício que me vou descobrindo. bom dia alegria, bom dia tristeza, balança para a esquerda, depois para a direita, e de novo para a esquerda, e outra vez para a direita e às vezes enjoo, é verdade, e então?
ah!, então é porque não sou o que escrevo, não sou o que digo, não sou os textinhos bonitos que ponho a boiar no néon, e eu digo: sou e não sou.
e admiro-me que não sejam todos assim, sendo e não sendo, esquerda e direita em toda a gente, estilhaços em tudo, fragmentos no peito de todos, mesmo todos sabendo que a nossa essência comum é só uma e a mesma. e então?
então nada! ou tudo ou às vezes ou sempre. tudo verdade, tudo mentira, todos neste momento do mundo em que o x-acto e o píncel estão ambos à mão, todos em busca do mesmo, já nem lhe quero chamar 'amor' outra vez, mas paz de espírito. e só há paz no balanço, para mim, só haverá paz no balanço, quando ao sentir-me a ir para a esquerda não desejar ir para a direita, quando ao ver-me a ir para a direita não me forçar a ir para a esquerda. quando, enfim, deixar de enjoar com as minhas próprias incoerências e me entregar às contradições sem mais resistência. é possível? não sei. é impossível? não sei. e, no não saber, vou sabendo que sei e não sei muitas coisas. e pronto, hoje é isto.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SER

eu sei que tu gostavas que fosse outra a minha escolha. como bom ego que és, sei até que gostarias de ser tu a escolher o que eu não sou. afinal, não é isso que tens feito desde sempre? ainda eu mal tinha chegado e já te tinha à minha espera, desejoso de cumprires o teu papel e que eu me moldasse a ele, sem questionar se era esse o meu caminho e apenas aceitando as tuas ordens. e porque sabes, talvez melhor do que ninguém, que quando um ego cumpre bem a sua parte um Ser se esquece ser do Todo, aproveitaste toda e cada situação da minha vida para me levares a acreditar que eu era essa pessoa: uma pessoa sustentada pelas tuas directivas e refém dos teus caprichos. 

acontece-nos a todos, comigo não foi excepção. e então, a pouco e pouco, fui delegando os meus poderes nas tuas mãos, entregando a minha arte aos teus disfarces, pondo os meus dons ao serviço desse teu querer dar nas vistas, pactuando com as mentiras que inventavas e que logo transformavas em verdades, respirando as tuas mágoas, fazendo minhas essas dores que tu carregas e para as quais pedes alívio, experienciando as tuas falhas, dando corpo aos teus fantasmas e reconheço que, na maior parte das vezes, tens sido bem sucedido. fazes tão bem a tua parte que é frequente dar por mim a esquecer-me do meu todo. mas ele é anterior a ti e esse Ser continuará a existir quando morreres, é de sempre e para sempre, é o que eu sou e que nada nem ninguém pode moldar. nem um ego poderoso como tu - como todos, afinal - pode agarrar naquilo que eu sou e dar-lhe a forma que deseja.

não vim aqui para te agradar, para te cumprir, para te dar voz. não vim dar uma volta até à Terra para que possas passear-te às minhas custas, divertir-te à minha conta, para que fales a meu respeito, para que sofras em meu nome. não vim bater à tua porta nem viver à tua sombra, alimentar-me dos teus medos,  sucumbir às tuas ordens, quando cheguei já era a Luz que me trazia e por mais que te esforces a apagá-la, a batalha está perdida.

sabes porquê? porque o que em mim é imortal é aquilo de que tens medo. porque, tu sim, estás condenado a ter princípio e a ter fim. não és mais do que o minúsculo intervalo que a minha humanidade ocupa aqui, não és senão aquilo com que eu pactuo quando tomo a tua parte pelo meu todo, nada mais para além da mente a querer disfarçar-se de alma.

e, no entanto, quando a escolha vem da alma não há ego que a derrube. podes até continuar a atrapalhar-me, podes vir com as ladainhas do costume, podes baixar a frequência do amor e fazê-lo parecer medo, podes chorar, podes ser dono e senhor de uma pessoa, mas não tens qualquer poder sobre o meu SER. se a tua parte é fazeres-me esquecer que sou o todo, há um todo que me lembra, a cada dia, que tu não fazes parte dele. isso!, estrebucha e nega, mas tu és simplesmente aquilo que és: um ego que se quer fazer passar por mim, mas que não é quem eu sei SER.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

não, o amor não deixa vincos


quanto muito, deixa vínculos, e só alguém que não sabe que uma alma não se dobra, não se enruga, pode aspirar a querer deixar-lhe um vinco seu. sim, eu sei, que há em todos os escritores esse desejo, essa ilusão de que as palavras amenizem as carências, essa vontade de virem a concretizar cada uma das metáforas que sugerem, essa arte de transformar a vida em histórias para depois viver as histórias e pretender que são a vida.
sei que existe em toda a gente a aspiração de deixar a memória dos seus passos nos caminhos que trilharam lado a lado com alguém, que perdure o rumor das conversas que tiveram e que o eco as mantenha verdadeiras e audíveis, que não se apaguem os vestígios de cada gesto que trocaram, cada beijo, cada festa, cada riso, que os sinais sejam sempre de presença, mesmo se ambos se ausentarem, todos queremos essa prova visceral de que um dia existimos uns nos outros e não mais nos separámos.
e, então, digo eu que não são vincos, não são marcas nem vestígios, o amor não deixa nada a não ser a sua essência. e quando o rasto é de uma dobra, de uma ruga, de uma ferida é por ser de uma outra coisa... de um apego, uma saudade, uma simples teimosia. esses sim, podem levar à ilusão de que o nosso coração mudou de forma, de que alguém pegou nele e o condenou a bater de outra maneira e, a isso sim, chamo de vincos. e então pergunto: por que razão havemos de querer deixá-los? o amor é liso, tão liso e tão macio que, ao passar-lhe a mão por cima, não posso nunca aspirar a querer vincá-lo. isso seria como querer conter-lhe o fluxo, impor-lhe dobras que não tem, pedir-lhe que me deixasse com a marca dos seus passos, em vez de, simplesmente, o tomar como caminho.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

um olho azul e dois castanhos


o par é humano e cor de terra, 
singular é sondar o infinito sem ter de abrir nenhum dos dois.

re-inventar


quem é que vai saber, diz lá? que os nós que fazias no arame e ao mesmo tempo desfazias com palavras são os nossos? que nós é este senão esse nós universal de toda a gente, que nós são esses senão aqueles que damos em nós próprios, todos nós, tantos nós e sempre todos à procura de dar laços? quem é que só por aqui pode intuir seja o que for? saber de nós, saber dos nós, saber dos laços que nos ligam? eu e tu, tu e eu, quem somos nós senão todos aqueles que saem dos seus nomes pessoais e se revêem nos pronomes? quem somos nós senão os que se reinventam a partir dos nós que dão e se entrelaçam um no outro?...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

I star upon a wish -----☆ 〪〭〫〬

só a mim posso pedir que me dê tudo

é de mim e só de mim que não posso e que não quero: 
desistir.



tudo o resto é perene e passageiro. só eu perduro, numa essência que me é própria e sobrevive a qualquer estrago da matéria. é de mim, e só de mim, que não posso prescindir. só a mim, e a mais ninguém, que concedo o privilégio de ocupar todo o meu centro e daí, benignamente, irradiar para o mundo inteiro. ou então sombriamente, porque em mim também há sombra, a escurecer rente ao luar, mas sem me tornar minguante.

em mim estão a que chega e a que parte, a que agarra e a que liberta, a que expande e a que retrai, a que cria e a que destrói, a que acorda e a que adormece, e sou sempre eu que me convoco a cada instante, na frequência que escolher: mais para baixo ou mais para cima na espiral do infinito, onde o fundo é lá no fundo e o céu muito acima deste seu cume visível.

só eu escolho a quem me entrego, onde me enrolo, com quem me dou, quando é que rio, como é que choro, porque me engano, que trilho sigo. e nem sempre isso quis dizer que me entrego a quem me acolhe, que me enrolo onde é macio, que me dou com quem devolve, que me rio quando há motivo... às vezes choro e esqueço tudo, até que os olhos são os meus e que só molham o que eu escolho que  me magoe. quando me engano, só me engano se insistir que o erro é mau e que não tenho esse direito e surgir culpa. e quando o trilho desemboca num abismo, fui sempre eu que escolhi a visão sobre as vertigens, em vez da orla no meu corpo de
mulher

é de mim que me demito, quando cedo ao que é alheio, a mim que traio quando pactuo com uma mentira, só de mim pode vir esse consolo de sentir que sou inteira, só em mim posso encontrar o que procuro e que, afinal, não é nada que não seja desde sempre a minha essência. sou eu que vibro, é em mim que pulsa a vida, foi minha a escolha de me ter dado este nome e a forma humana do amor: carne e sangue que só doem quando há medo. 

é a mim, e só a mim, que devo tanto,  
só a mim posso pedir que me dê tudo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

cada um vê o que quer num molho de couves

isso não é o título de um livro?
é. foi a minha amiga I que escreveu, mas ainda não li...
não é num molho de bróculos? 'cada um vê o que quer num molho de bróculos'?
pois já não sei, se é molho de couves ou molho de bróculos, mas vai dar no mesmo.
andamos todos doentes, é o que é.
sim, uns mais, outros menos.
há quem diga que é uma fase...
pois, toda a gente diz muita coisa.
e é sobre o quê, esse livro?
não sei, ainda não li... mas, sendo da I, só pode ser divertido...
e tu, o que é que queres ver no molho de bróculos?
não tenho a certeza se é molho de bróculos ou molho de couves...
até pode haver quem jure que é um molho de alfaces.
ou de grelos...
agriões?
seja o que for, vai dar no mesmo, não é? cada um vê o que quer, nunca o que é.
tudo tão subjectivo, pois é. mas, afinal, o que é que é o que é?
há quem diga que é o amor.
outra vez o amor?
outra vez o amor. porque, repara: se vires sempre e só o amor, tudo é o que é. o molho de couves é sempre e só um molho de couves.
ou um molho de bróculos...
a grande ilusão é quando às visões colamos as crenças. está tudo estragado!
por isso te digo que só há uma história. e que é sempre uma história de amor.
ah, mas nós temos medo das histórias de amor...
isso é porque fazemos histórias de medo das histórias de amor e lá voltamos ao mesmo: cada um vê o que quer num molho de couves.
ou num molho de bróculos...
se vires sempre e só o que é, tudo é amor.
até um molho de couves?
até um molho de bróculos!
e quando é que sai esse livro?
não sei, mas deve estar quase...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

S. Valentim



reza a história que, durante o reinado do imperador Claudio II, este proibiu a realização de casamentos, com o intuito de conseguir criar um exército. achava ele que, ficando solteiros, os jovens guerreiros se alistariam mais facilmente do que se tivessem à sua espera um lar doce lar e uma família. mesmo assim, o bom Valentim, que na altura era bispo do Império Romano, continuou a abençoar, às escondidas, o enlace dos noivos. descoberto o seu 'crime', o bispo foi preso e condenado à morte. durante esses dias de calabouço, eram muitos os jovens que lhe enviavam flores e bilhetes, onde diziam ainda acreditar no amor. entre as pessoas que mandavam missivas a Valentim, estava uma jovem e cega donzela. Asterias era filha de um dos carcereiros e conseguiu, por isso, permissão para visitar Valentim. foi tão grande o amor que, reza a história, Asterias recuperou a visão.  Valentim, esse, acabou decapitado, não sem antes ter escrito à sua amada uma última carta de amor, despedindo-se como 'seu Valentim'.

não sei o que diria o bom do S. Valentim ao ver o seu nome tornado pretexto para todos os tipos de marketing, mas não duvido de que não se importasse de se saber padroeiro do dia dos namorados. 'fetiches' à parte, sempre me irritaram um pouco os dias disto e daquilo e o dos namorados não é nenhuma excepção. que me lembre, recebi um dia um ramo de rosas vermelhas, no tal dia de S. Valentim - e, sim, soube-me bem e gostei - mas há mais trezentos e sessenta e quatro dias no ano que são tão bons ou melhores para nos namorarmos.

o que me deixa - de novo - perante a eterna questão do amor  no quotidiano e desta busca em que todos andamos, mais iludidos ou menos... é que chamamos 'amor' a uma série de coisas diferentes e, perdidos na ânsia de o ter, esquecemo-nos de que já o somos. ah, teorias tão boas, tão certas, todas tão justas e lúcidas! eu própria já aqui escrevi sobre o amor tantas vezes. não foi? posso até parecer muito sábia, na maior parte das vezes, mas esquivo-me e fujo, como o diabo da cruz, à minha essência de amor, sempre que vibro na frequência do medo. medo do quê? de confiar, de entregar, de render-me. 

o blá blá blá da lei da atracção, sem cair em excessos nem fatalismos, diz-nos que só atraímos aquilo que emanamos. mas não dá jeito nenhum acreditar que isso é mesmo verdade quando nos sai um marido ou um namorado que, por exemplo, nos bate. cada um saberá dos seus mecanismos, das suas sombras, medos, carências, mas só podemos atrair violência quando ela, de alguma forma, também existe dentro de nós. fodido, fodido, é que, na maior parte das vezes, agimos em automático e seguimos padrões que não conseguimos tornar conscientes. as desculpas são boas e apaziguam vazios, mas - e também já aqui o escrevi uma vez - não há pretextos que valham para continuarmos a pôr as 'culpas' nos outros. 

com Saturno em Balança, não há dúvida de que as relações - sejam elas quais forem - têm sido postas à prova. mas, atenção, não é o amor que está sujeito às pressões de Saturno. como todos tão bem sabemos, e todos tão confortavelmente esquecemos, o amor não carece de regras, estruturas, concessões ou cartilhas. é só quando o embrulhamos em sonhos de S. Valentim que acabamos por nos trair a nós próprios. e é fodido, mais uma vez, é fodido! ter consciência de que o que vai mal nas relações que mantemos está apenas espelhando o que vai mal em nós. 
a boa notícia é que somos, constantemente, seres em mudança e temos este enorme poder de, se realmente quisermos, perceber de onde é que emanamos o que atraímos. e mudar de frequência - o que pode não ser sinónimo de mudar de marido, de namorada, de companheiro. ou sim e, nesse caso, romper sem medo e sem dramas. e tornar consciente que, se o padrão lá ficar, faremos exactamente a mesma viagem da próxima vez.

amor, sim. palavra tão gasta que às vezes chega a parecer-me despropositado usar-se assim, por tudo e por nada. mas lá que é um grande milagre, disso tenho a certeza! pena que nem todos sejamos - para já - santos o suficiente para o sabermos fazer, descobrindo, sem nenhuma margem para dúvidas, que  essa é a nossa essência.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

senhora de mim

regresso
tu sabes
e eu sei
que não é ainda o regresso.  que não basta desempoeirar os pincéis, passar um pano nos tubos das tintas, espremê-los para que cubram as telas de cor e disfarcem as manchas de sombra que ao longo dos anos fomos alimentando e mantendo - e para onde fugimos sempre que o medo nos  tolhe - não é possível sermos senhoras de nós em poemas alheios, rimar com quem não rima connosco, pegar em retalhos para com eles compor o vestido do quadro - por mais maravilhoso que o ache e, até, que nos assentaria tão bem, a qualquer uma das duas...
mas só existe uma história e é sempre uma história de amor. o que me leva a sentir, cada vez com mais lucidez, que sofremos à toa. sofremos porque vivemos histórias de apego, mais nada. porque o medo murmura-nos coisas às quais, estupidamente, damos ouvidos. porque, afinal, regressamos a esses lugares onde não queremos voltar, mas de onde não queremos sair. não é estúpido isto?
eu sei
e tu sabes
as voltas que damos sobre nós mesmas e como se tornam perigosas quando são círculos, em vez de espirais, quando o cansaço é tão grande que não ousamos sequer dançar mais acima, elevar uma oitava o tom das canções, quando ficamos reféns das memórias, em vez de as ajustarmos a essa dádiva que é o presente e que está cheio de novos momentos, não é estúpido isto? acreditar que um dia fomos felizes, que um dia seremos felizes, sem perceber que hoje é o dia. é hoje o dia de sermos felizes, não há regresso aos lugares que ontem foram os 'nossos' lugares, por mais que os sintamos ainda habitados, por mais que ainda lá vivam coisas, pessoas, promessas e cheiros, é tudo mentira, a cada regresso vês que é mentira, não está lá ninguém, é hoje e aqui que és senhora de ti, é hoje e aqui que sou senhora de mim, num regresso que é sempre, e também, um cais de partida.
tu sabes
e eu sei
que criar é muito mais do que desempoeirar os pincéis, muito mais do que gastar a polpa dos dedos na escrita, muito mais do que compensar manchas de sombra com jactos de tinta, muito mais do que forçar rimas impróprias. só há uma história e é sempre uma história de amor. e é só essa que há para contar, cantar, esculpir, compor, pintar, co-criar e, sim, viver por inteiro a cada momento, sem apego e sem pena e sem mais ilusões de espécie nenhuma.