domingo, 6 de fevereiro de 2011

batik

nascia de todas as cores e podia vê-lo do sonho, 
o sol
aclarando a mancha da noite, elevando o timbre da luz à melodia dos pássaros, rodopiando sobre ela para que entrasse na dança. para já, não quer acordar, mas apenas sonhá-lo. a esse sol do desejo que tantas vezes pediu, mas que depois não sabia cumprir. não se cumpria e não era por falta de fé, nem sabia por que razão é que sofria daquela maneira.
só se fores masoquista
dissera-lhe alguém.
tinham-lhe posto à disposição aguarelas, pincéis, tubos inteiros cheios de tinta e, mesmo assim, insistia em escolher o x-acto. 
ainda dentro do sonho, lembrou-se de novo da frase  'por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição'. lembrou-se da folha de linhas, onde anotara os trabalhos de casa, e de ter uma lista que era mais contra do que a favor, lembrou-se de como era urgente fazer a tal escolha, iluminar a mancha da noite e acordar, finalmente, para todas as cores que o sol lhe propõe. há anos que sabe que é co-criadora da sua vida, não precisa sequer de recorrer à física quântica para perceber que aquilo que projecta acontece, não percebe onde é que ainda resiste, como pode o medo espreitá-la e perturbá-la desta maneira,
só se fores masoquista.
continua a sonhar. quer descobrir onde é que lhe dói, onde é que o sol queima, em que lugar é que se co-destrói, 
'por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição'
há anos que sabe que é co-destruidora da sua vida, que sonha a dormir, em vez de acordar para o sonho, que tudo o que pede acontece, de facto, não percebe onde é que ainda resiste. 
de novo, revê a folha onde escreveu todos os contras e onde há muito pouco a favor de si própria.
escolhas.
mastiga a palavra debaixo da língua, reformula a frase que leu já não sabe bem onde:
'por cada ciclo de destruição há um novo ciclo de criação'
se são ciclos, também este há-de acabar e não, não é masoquista.
o sol nasce de todas as cores, a vida é uma tela em batik e é co-criada por ela, basta que troque o x-acto pelas aguarelas e pelos pincéis. e mesmo que o ego estrebuche, quando se vir privado dos cortes que inflige a si mesmo e a manipule de lugares de carência com aquele ar de coitado que tão bem sabe fazer, a verdade é que tudo não passa de um gigantesco teatro de sombras e que não pode continuar a pactuar com mentiras.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

é tudo uma questão de escolhas

disse ele.
'escolhas', repetiu ela, e mastigou a palavra debaixo da língua.
ora aí está uma coisa que nunca gostei de fazer
observou, desta vez em voz alta, mas só para si mesma.
o anfiteatro dava para um amplo pátio cheio de árvores e ela estava sentada ao pé da janela. fazia calor. ele falava, falava, falava, a aula era aberta e havia mais gente a assistir e até quem, afincadamente, tomasse nota do que ele ia dizendo.
no fundo
dizia ele
é tudo uma questão de saber como se quer atravessar o inferno: sozinhos ou acompanhados?
agarrou na pergunta, moeu-a, mordeu-a, depois fê-la a si própria
acompanhada ou sozinha?
escreveu
'prós e contras'
na folha de linhas.
sozinha não tinha a quem se agarrar. acompanhada, o inferno seria a dobrar.
ele repetiu
há que escolher.
mas não escolheu e escreveu
'foda-se'
não sabia sequer se era um pró ou se um contra, isso agora não lhe interessava, ele continuava a falar sobre a necessidade das escolhas, como se balançar entre dois lados não fosse exequível nem desejável
às tantas, enjoa
disse ele
e ela escreveu
'vomitar'
quando a aula acabou, ele ditou os trabalhos de casa: fazer escolhas
fosse lá isso o que fosse
era a tarefa pedida. 
agarrou na folha e saiu: felizmente, escrevera tudo a x-acto.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

os dias da raiva


primeiro a Tunísia, depois o Egipto, agora o Iémen, a Síria... nada de novo. desde que o mundo é mundo que existe o conflito, o ódio, a guerra, o podre poder instituído, a manipulação, a ganância. não são mais sangrentos os dias de agora do que eram há séculos, o que se passa é que, agora, o sangue escorre à velocidade da técnica e todos o vemos, servido ao vivo nos telejornais, em directo na net, jorrando de feridas que, afinal, nos pertencem a todos, são nossas e doem. não são mais violentos os cocktails molotof que explodem hoje nas ruas do Cairo, do que as bombas que nos anos quarenta destruíam Londres, Berlim ou Paris, ou do que as espadas templárias que trespassavam os índios, ou do que as fogueiras onde ardiam judeus...
a esperança de que a humanidade evolua a caminho da paz é, provavelmente, tão vã como acreditar que, um dia, o bem predominará e que tudo se irá, enfim, acalmar e compor  num cenário de luz. já não sei onde li que, 'por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição'. recentemente, li o mesmo por outras palavras, num livro chamado 'a Luz e a Sombra'. não há como apenas expandir e criar. destruir e extinguir fazem parte da mesma espiral a que chamamos de cosmos, o movimento é contínuo. planetas, estrelas, galáxias inteiras rebentam, renascem, explodem, retomam a dança, desfazem-se em pó, recriam do nada. assim somos nós, seres humanos, à imagem e semelhança de tudo o que existe. 

dizia alguém noutro dia que não acredita que exista maldade no ser humano. foram já muitos os que defenderam a mesmíssima tese: que nascemos benignos e puros, mas nos tornamos maus com a experiência do mundo e à custa de feridas de infância que, eventualmente, nunca sabemos sarar. não sei se é assim. não faço ideia se esta é a era em que transmutaremos a humanidade para, enfim, co-criar apenas amor, à imagem do deus que nos dizem que somos. mas o que me espanta, o que de facto me deixa perplexa, é o confronto com a minha indiferença a estes dias de raiva. ou, talvez, a consciência de que a revolta perante guerras alheias, na maior parte das vezes em territórios distantes, ou vem bater em algo que todos nós transportamos, ou se resigna a ser puro fingimento.

recordo a invasão de Bagdad, há uns anos atrás, e de como avidamente seguia as notícias e acompanhava cada ofensiva e me insurgia contra a maldade e a injustiça de existirem homens assim, tão levianamente capazes de se matarem por simples ganância. como era fácil pôr-me de fora e acreditar que tudo aquilo não estava, também, dentro de mim. dividir os bons e os maus e pôr-me do lado que me convinha e que, claramente, era o dos bons. acusar este e aquele de não serem suficientemente evoluídos para perceber que a violência não é um caminho. criticar Mubaraks, Sadams, Bin Ladens, al-Assads ou seja quem for é facílimo. difícil, difícil, quase penoso, é mergulhar nesta vidinha que todos levamos e, à nossa pequeníssima escala, descobrir o traidor, o violador, o ditador e o assassino que também nos habita.

sim, imagino-vos a torcer o nariz, a fugir dessa ameaça que a sombra projecta, eventualmente a pensar 'esta gaja passou-se', pacificamente instalados nos vossos lugares de bondade e acreditando que, felizmente, estão longe e a salvo dos dias da raiva. longe e a salvo do sangue que varre as ruas do Cairo e que chega 'embalado' e seco aos ecrãs, longe e a salvo da revolução síria que sobe de tom a cada minuto que passa, longe e a salvo desta loucura que, ciclicamente, toma conta do mundo. desde que não nos diga  directamente respeito, a culpa é sempre dos maus.

e, no entanto, nós - todos nós - somos os maus. e todos nós somos os bons. à pequeníssima escala de cada um, todos temos em nós a luz e a sombra. 'por cada ciclo de criação há um ciclo de destruição' e não irá nunca ser de outra maneira. é assim que o universo pula e avança, é assim que morre e renasce, a espiral é só uma e a mesma: densa e destruidora nas profundezas, leve e criadora no cume. e não há como um dia quebrar este movimento contínuo e ficar parado, a boiar, num paraíso sonhado de amor. esta não é uma era diferente das outras, mas só mais uma etapa num ciclo infinito de manifestações.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

azulzinho?

não temos, disse a senhora da loja, apontando para uma série de prateleiras onde apenas se viam tons de cinzento.
ah, que pena, o cinzento é tão triste, respondeu-lhe a menina que mal chegava ao balcão, porque era alto e ela ainda pequena. 
a senhora da loja tentou consolá-la
quando cresceres mais um bocadinho, talvez chegues ao céu.

voltou três dias depois

e tocou-lhe à campaínha com o indicador da mão esquerda, enquanto com a mão direita segurava nos três cadernos. 
a sua consulta é só para a semana
disse ele, quando lhe abriu a porta.
reparou que a bata já não era branca, mas verde, fininha, e que não tinha nódoas de sopa na gola. estava sem óculos, o que lhe tornava os olhos ainda mais negros, as mãos enfiadas num par de luvas assépticas e tinha tapado a careca com um barrete.
peço imensa desculpa
disse ela, que estava de calças de ganga, t-shirt, as mãos com os dedos à vista, o cabelo pelos ombros.
a seguir, e pedindo também
com licença
entrou e esperou que ele fechasse a porta.
pois muito bem!
exclamou ele
já que veio sem consulta marcada, tenho pouco mais de quarenta minutos para a atender.
ela pousou os cadernos em cima da secretária e pareceu estar de acordo que quarenta minutos eram mais do que suficientes para o que lhe queria mostrar. sentou-se, cruzou a perna esquerda sobre a direita, pegou num dos cadernos, abriu-o ao calhas e leu:

'11 de março de 1993
Lucibel pisou o último degrau da escadaria que a conduzia ao átrio do SPLEUG (Sanatório Para Loucos Em Último Grau) com o mesmo ar tranquilo que toda a vida a caracterizara. assim que entrou, levaram-na ao gabinete do director. era muito magrinho e estava sentado numa poltrona eléctrica e com eléctrodos colados às têmporas esquerdas.
- olá Lucibel - gritou-lhe o director, na sua voz alucinada.
- como está? - perguntou Lucibel, e fez-lhe uma vénia.
- não me agrada nada o seu estilo nos diálogos - observou o director. - não podia antes pô-los todos seguidos, sem tracinhos nem linhas?
Lucibel tomou nota 'diálogos sem tracinhos nem linhas' e continuou, parece-me que o senhor director é completamente chanfrado! claro que sou, concordou o director, feliz por reparar que já não havia tracinhos nem linhas. aqui somos todos malucos, comentou o secretário-adjunto, que entrou nessa altura com a bandeja do chá. é servida? obrigado, Alfredo, enterneceu-se o director. para mim é sem açúcar, pediu Lucibel.'

sem que nada o fizesse prever, e sem que ele estranhasse - não se faziam ali previsões de espécie nenhuma e estranheza era assunto para outras conversas - ela fechou o caderno. 
a seguir, pegou noutro, abriu-o ao calhas e leu:

'7 de agosto de 1992
Adriana abriu o caderno que a mãe lhe tinha comprado na papelaria Fernandes com o entusiasmo próprio das meninas da sua idade e a ingenuidade de quem acreditava que, um dia, seria uma grande escritora. tantas folhas!, exclamou satisfeita. ao contrário de Adriana, Lucibel não se impressionava, e muito menos se emocionava ou satisfazia, com o facto de existirem cadernos cheios de folhas em branco por preencher. para ela, eram um desperdício de tempo, tinta e palavras. sabia, além disso, que por mais que Adriana escrevesse, as histórias permaneceriam sempre no mesmo lugar onde ela as tinha inventado, apensas às folhas que se encheriam de gatafunhos a esferográfica, e que nunca poderiam cumprir os seus sonhos. és má, disse Adriana, que tinha este dom de a ouvir a pensar. Lucibel não fez caso. mais cedo ou mais tarde, a escrita esgotar-se-ia numas quantas frases sem nexo, empilhadas umas em cima das outras, mas acabou por dar o braço a torcer. ok, Adriana, até tens uma letra redonda e certinha, os gatafunhos foram só uma metáfora para a inutilidade da tinta e do tempo que gastas a consumir-te.'

o terceiro caderno em que pegou estava forrado com papel autocolante às pintinhas e tinha uma barra de frutos colados em baixo. desta vez, folheou-o, sem ser ao calhas, pareceu-lhe, e depois leu:

'23 de maio de 1993
o fim de semana foi sonolento e Adriana dedicou-o à família. a chuva não incentivava passeios ao ar livre e o tédio instalou-se. no sofá ou isso! nem sempre se pode ter graça, lembrou Lucibel, que escolhera a cadeira em frente ao sofá e ao tédio para se sentar. pois não, concordou Adriana, mas hoje falta-me, sobretudo, a paciência. que pena, lamentou Lucibel, detesto ficar parada na mesma linha. também eu, respondi-lhes. e olharam para mim a pensar quantos mais fins de semana iria pará-las ali, naquele tédio de morte, enquanto lá fora a chuva caía.'

tinham-se passado exactamente trinta minutos, faltavam dez para as cinco, era segunda-feira, lá fora estava um dia radioso de sol, ali dentro tinha caído um silêncio soturno. foi ela a primeira a quebrá-lo.
não estou bem a ver de que forma é que isto possa causar-nos problemas
e olhou-o nos olhos.
o facto de você ser completamente tarada deixa-me desconfortável
confessou ele.
ela riu-se, pegou nos cadernos, depois levantou-se e despediu-se com um aperto de mão. quando estava quase na porta, ainda lhe disse
com que então completamente tarada?!... essa é boa, ó doutor!

tenho andado a ler o que escreve

e talvez vá ter de interná-la. 
a sua voz era grave e não ria. vestia a bata branca dos médicos, que tinha uma nódoa  de sopa na gola, as lentes dos óculos pareciam mais grossas do que era costume, notou que há pelo menos três dias que não fazia a barba e desejou que houvesse um buraco no chão por onde pudesse escapar-lhe. mas não havia.
pensou no A. e no Júlio de Matos, para onde parece que foi transferido antes de ontem ou ontem, ninguém tem a certeza, sabe-se apenas que não recebe visitas.  depois pensou na dose de comprimidos que lhe dariam se por acaso cedesse ao que tem andado a pensar nos últimos tempos e que, felizmente, não escreve. 
não percebe, por isso, como foi que ele teve acesso às palavras e perguntou-lhe o que fora, ao certo, que lera.
a sua cabeça
respondeu ele, talvez ainda mais sério, a voz já não era só grave, mas dura, o tom arranhava-lhe a espinha, achou-o muito antipático. 
acho isso um abuso, quem foi que lhe deu licença?
através das lentes grossas dos óculos e fixando nela os seus olhos pretos, explicou-lhe que não precisava de licença nenhuma, que tinha acesso à sua cabeça sempre que queria e que quem abusava era ela, a meter coisas lá dentro que nem ao diabo lembravam e a atá-las umas às outras com tantos nós cegos que, mais cedo ou mais tarde, estaria presa numa teia complexa
e daí a possibilidade de vir a ter de interná-la. 
ignorou-o e voltou a pensar no buraco que se abriria no chão. bastava escrever 'abriu-se um buraco no chão', como fazia quando estava dentro das vozes na ilha, e desaparecer, mas ele tirou-lhe a caneta da mão
não escreva, não ia servir-lhe de nada. 
confirmou que tinha razão, já que há anos que não escrevia a caneta. ultimamente, gastava a polpa dos dedos nas teclas e disparava ao acaso frases sem nexo, esforçando-se para que tudo parecesse normal, e parecia, organizando as rotinas para que nada sobressaísse, vestindo as mesmas máscaras de sempre, quem a visse diria que não tinha nada fora do sítio, e provavelmente não tinha. 
a grande diferença
disse ele
é que antigamente, quando ainda escrevia a caneta, as coisas ficavam fechadas nos seus cadernos e ninguém as lia. mas agora deu-lhe para as pôr a boiar no néon e, eventualmente, isso pode causar-nos problemas.
pois não, não era de agora, isso também ela sabia. costumava chamar-lhe 'escrita desopilante' e era capaz de encher mais de cem folhas numa semana, com as mesmas teias e os mesmos nós cegos com que agora enchia o ecrã do computador. 
mas não creio que isso seja um motivo para me internar
justificou-se.
há anos que a minha cabeça é um labirinto complexo e não estou lá muito interessada em encontrar a saída.
pois já eu acredito que seja precisamente o contrário
disse ele, e a voz amolecera entretanto
e que não está lá muito interessada em encontrar a entrada, já que no dia em que encontrar a entrada o seu labirinto desfaz-se e deixa de haver um motivo para dar tantas voltas sobre si própria. 
mais uma vez, ela pensou no buraco. teria de ser muito grande para poder escapar-se por ele e não, não bastava escrevê-lo, mas escavá-lo até lhe doerem os ossos, até gastar não apenas a polpa dos dedos mas todos os músculos das mãos e teria de ser fundo a ponto de lhe rasgar as entranhas. 
mas a consulta estava a acabar e não teve tempo de lhe dizer o mais importante: que, a ser internada, gostaria que fosse num quarto com vista e que os comprimidos não fossem amargos, mas doces, e que ao engoli-los a sua voz não a arranhasse.
ao vê-la sair, provavelmente para ir buscar as crianças à escola na sua imaculada máscara de mãe, apontou na agenda a data da consulta seguinte e, com um suspiro, murmurou
há gente tarada de todo!

levou-a

claro. leva-a sempre com ela, a sombra, e é sempre nos dias de sol que a vê mais nitidamente, avançando antes dela, quando o sol lhe bate nas costas, atrás dela, quando a luz a atinge de frente, não tem como fugir-lhe e já nem sequer quer. convencera-se a dar-lhe o protagonismo merecido. há alturas em que chega a deixá-la ocupar todo o seu ser e a autonomia é tão grande que é a sombra que age, não ela, é a sombra que se movimenta, tomando-lhe conta dos gestos, dando rumo aos seus passos, vagueando em torno de um círculo que, a cada dia, fica mais estreito e mais apertado. 
só mesmo uma sombra seria capaz de rodar em tão pouco espaço e é por isso
talvez
que se entrega, sem sequer resistir, à sua dança mortal. dentro do círculo, acabará por conter-se e, em vez de expandir-se, acabará
talvez?
por extinguir-se. 
confirmou as suas suspeitas quando leu a mensagem sobre os últimos tempos que alguém lhe enviara: 'um manto negro abateu-se sobre tudo'. não era só ela, afinal, e em todos os círculos do mundo, as sombras tomavam conta da dança e assumiam-se as protagonistas da humanidade. mais uma vez, foi a sombra, e não ela, quem respondeu à mensagem: 'negro, negro, para mim também'. lá fora, a neve cobria toda a paisagem de branco, mas nem sequer isso chegou para afastar a premonição dos ciclos mortais a que todos estavam sujeitos, mais cedo ou mais tarde. 
 
regressou extenuada. já era noite e reparou na sombra gelada, igual à superfície do lago, e não se extinguia, ao contrário do que no fundo de si desejava, mas expandia-lhe o frio e tremia, estendia-lhe os braços para que entrasse na dança e morresse com ela e foi então que recebeu a segunda mensagem: 'espiraliza-a. como quem não quer a coisa, vais desviando, abrindo, mílimetro a milímetro' e lá estava ela, a mandala feita no dia dos mortos, quando novembro tinha chovido também dos seus olhos e decidira sair desse círculo apertado onde só a sombra rodava, estreitando-lhe os gestos, resumindo-lhe os passos a circuitos fechados, intacta e espiralizada,  a mandala, como se nenhum ciclo mortal pudesse, afinal, atingi-la. 

a seguir, lembrou-se do verão e da casa da aldeia onde há muitos anos atrás o tinha levado, lembrou-se do quarto e da cama anos mais tarde, de estar nos seus braços e de o pedido lhe ter soado à promessa da felicidade que só a luz realiza e de nem sequer ter pensado que, já nessa altura, era apenas a sombra que, disfarçada de sonho, a conduzia para dentro de um círculo finito. lembrou-se da primavera no campo, do milagre da páscoa que ressuscitara a figueira no seu jardim caiado de verde, das metáforas todas a que recorre quando lhe faltam palavras para explicar o que sente, lembrou-se do fogo aceso nas lages e de como  as chamas se extinguem quando deixa de haver quem alimente a fogueira, das brasas na madrugada da praia deserta e de os seus pés as pisarem, da queimadura que arde no peito da sombra, sempre que a deixa assumir o protagonismo e então pegou nela e pô-la a rodar na mandala.
quando a terceira mensagem chegou, não precisou sequer de a abrir para saber o que dizia: mentalizar os mecanismos de tudo o que lhe acontece na vida é algo de que, para já, não prescinde e hoje sente-se imune à possibilidade de nada fazer sentido nenhum.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SEXionário



daqui
prazer. tesão. condão. tabu. feliz. fugaz. pecado. acaso. intruso. fundo. fácil. forte. sorte. mundo. meditação. orgasmo. cama. caso. abraço. veia. beijo. sangue. som. batota. casa. goza. entrega. cega. mata. dói. amassa. coça. troça. trio. tira. encosta. grita. adoça. amargo. trago. seiva. molha. evita. mente. sente. suga. junta. embrulha. enlaça. passa. volta. cresce. morde. afunda. solto. solta. salta. agora. agita. acalma. jura. enjoa. jorra. gente. quente. sempre. sobe. envolve. voa. aterra. enterra. geme. falta. sobra. mede. ajusta. atrasa. cobra. cumpre. amor. pudor. pavor. promessa. inspira. sua. nua. mói. muda. troca. cansa. dança. arrasta. ampara. cospe. atira. amansa. fere. compõe. constrói. calcula. tua. lua. sol. viola. expira. queria. cria. inspira. vida.

a seco


é isso: cansaço, paz, matéria, som, nudez, crueza, azul, bondade. 
em março
disse-me ela, naquele dia
em março, vais sentir-te mais tranquila e, quando espreito a primavera a anunciar-se na figueira, sei que não estava a mentir e que abril é o mês da liberdade. que as revoluções são a escolha da verdade. que prender-me a um passado é negar ao presente a simples graça de expressar-se e de exprimir-me. 
mas, sim, é verdade
respondi-lhe
cheguei a achar que os corações se estilhaçam como os cravos, que rebentam das espingardas com a pólvora da revolta e que secam quando a sede não se acalma a saciar-se.
hoje já sei que as mudanças são de paz. o mundo nunca irá mudar se não soubermos co-criar dentro de nós a sua imagem e, aí sim, seremos livres. 
em março
confirmou - e reparei que sorria quando o disse
não serão cravos, mas rosas
as rosas bravas?
mas calei-me.
as que vejo por florir e por engano e que são meros botões de inverno.
não são essas,
respondeu, mesmo sem eu ter recitado o poema de Camilo.
e se acaso perguntares o que é que isso quer dizer, sem ser a seco, eu digo: paz, matéria, som, nudez, azul, bondade e talvez ainda acrescente:
quer dizer que há liberdade, sim senhor.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

dos quatro

escolho a quinta, e reparo que faltam dois. porque são sete os desenhos, sete os dias da semana, sete as notas musicais, sete as cores do arco-íris, sete os pecados mortais,
sete homens da minha vida,
e um só único amor, quando não me escolho a ser em função de nenhum outro
isso é verdade.
mesmo assim, sei que a soma de dois círculos que se juntam e se enrolam para dançar na espiral do infinito não dá sete, mas sim oito e, nesse caso, faltam três, falta um,
não falta nada!
é só um ciclo que se fecha para que logo outro comece e cada fim é o princípio de outra roda, de outro dia, de outra vida
sempre a mesma
e não há morte nenhuma e é só disso que falamos quando falamos de amor: de não ser nunca um princípio nem um fim entre as pessoas, mas uma energia eterna que nos une e nos circunda e nos expande e nos condensa e nos acolhe e nos anima e nos mostra aquilo que somos. 
não sei então por que razão é que, do todo, tomo as partes que me cabem. e pondo de parte o todo nunca sou nem serei toda, não farei parte de nada,
é extraordinário!
quando me sinto a fazer parte do todo, quando sou só tudo e nada, quando o espaço se abre em leque e realizo as dimensões em que me cruzo, reparo também que a humanidade não é mais do que um simples patamar para que o meu corpo ensaie esvoaços, que é apenas uma escolha temporária onde aprendo a ganhar asas, um laboratório de experiências, de emoções, de circunstâncias, uma estação de mil estações onde morro e onde renasço eternamente,
é extraordinário!
voltar ao primeiro desenho e ver tudo aquilo que ainda não mostro, ao segundo e assumir que sou várias, que sou muitas e que são tantas as máscaras, ao terceiro para constatar que, de facto, não há morte, ao meu quarto
ao teu quarto
ao quarto dele
para dançar toda nua em cada abraço, ao quinto para distinguir e depurar o azul-céu do azulindinho, ao sexto para provar a liberdade e, enfim, um lugar para descansar: sete dias rumo ao campo, sete cores sobre os pinhais, sete notas para as canções e a espiral do infinito a somar oito a cada ciclo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

não somos livres

e gemeu. gemia sempre, quando evocava a liberdade, agrilhoado pelas memórias do passado e reparei que, em vez dos olhos,  tinham-lhe arrancado um grito, um grito que não era dele,
era de quem?
de novo nua, uma mulher fechava os olhos e era magra e mexia nos cabelos, que eram compridos, ondulados, e ele gritava que ela o tinha abandonado, mas não tinha, e de novo a nudez era uma máscara para não ter de se despir à sua frente
à frente dela?
à frente dele
e repetiu
não estamos nus nem vamos estar.
palpo às cegas o seu grito e é tão fundo que parece vir de um fundo ainda mais fundo do que as sombras que conheço e se conheço!, tantas sombras, tantos gritos, tantos olhos arrancados
somos livres sim senhor
repeti eu.
passo a escrita a repetir que o amor é redentor, que a liberdade é ser agora aquilo que somos e mais nada, tantos dias a escrever e a despir-me, tantos outros a vestir-me e a pôr máscaras, tantas noites em que, nua, me arranquei tantos gemidos, tanta humanidade à solta quando tocamos no fundo, tantas vidas repetindo este equívoco mortal
tantos nós por desatar
repetiu ele
e é muito injusto...  que justamente este desenho seja o que me leva embora para que, agora, e só agora, eu seja livre.


pedi-lhe o fundo em sépia cru

e acrescentei
se faz favor
que me cansei de azul lindinho e de o céu ser lá em cima.
é mesmo aqui,
confirmou ela.
olhei e vi-a, esvaziando-se como se fosse um balão e pendendo dos meus dedos.
há sempre dedos nos desenhos?
isso e olhos que me arrancam!
já lhe disse que os cortei com o x-acto
e eu que peguei nos teus desenhos para com eles traçar palavras e só à laia de exercício, que me cansei de azul lindinho e dos likes nos meus textos e voltei, enfim, à escrita. 
a sério que os desenhos a inspiram?
mesmo a sério e tu já sabes, o tanto que me custa tantas vezes respirar e outras nada e há que dar conta de ambas, da que inspira falta de ar, da que transpira, da que expira, da que aspira a ser só aquilo que é e nada mais.
ahahaha, parece o blog da Sophia
pois parece, quem diria?
sem humanidade alguma a querer ver-se resolvida ou respondida ou azulinda e apenas inspirando e transpirando sem ter de fazer sentido, isso é que era.
não fingiu que não me ouvia e deu-me o fundo em sépia cru.
também prefiro.
hoje prefiro todas as cores, menos o azul lindinho que me desmaia nas mãos, quando não sei onde é que as ponho e só me ponho a olhar para elas a ver que rumo lhes vou dar.
e o céu? que fica mesmo aqui ao lado e toda a gente a dizer que é lá em cima?
isso é que era, mas só quando era azul lindinho.

queres dançar

e afinal cais. abres os braços, mas não chega. é a mulher a quem colaram a cabeça que vai nua, mas a ti espartilharam-te a cintura, pentearam-te o cabelo a parecer loiro, aos caracóis, é sempre um risco querermos ver o que não há, como poderei saber se és loira, se não há cor na tua dança?
e não te iludas: ele não chora. é só mais um boneco a quem arrancaram os olhos e não é tristeza a tinta negra que lhe escorre pela cara, mas apenas a caneta transmutando um dom dos dedos. além disso, ele usa brincos, o que talvez te leve a crer que ele não é ele, ele é ela e  ela és tu, não a que dança e também não a que está nua, e a quem colaram a cabeça, mas tu própria, essa de quem andas à procura há tanto tempo e que se encontra no teu centro desde sempre, como é que tu não a vês?
vês? 
como nos iludimos tanto, a procurar onde não estamos, mas afinal danças porquê? danças para quê? cais do desenho e denuncias que a leveza tem um peso, há sempre um preço a pagar por uma dança, há sempre aquela mulher nua que não se mostra como a vês e que precisa que lhe arranquem a cabeça, e que não lhe colem outra, há sempre um homem a chorar nos pesadelos da tua sombra, há tantas coisas que gostavas de fazer acontecer e onde me espanto é onde não vês: todas as coisas que te vão acontecendo enquanto danças. 
queres dançar? pois então dança! tu és ela e ela é ele e ele sou eu e as sombras que nós vemos projectadas na parede não são traços a caneta transmutados pelos dedos, por maior que seja o dom, dos dedos dela, dos teus dedos, mas a vida em movimento e, para dançar, basta-te ouvi-lo, para dançar basta-me ouvir-te, 
ouviste bem?

above us only sky

diria que parece o John Lennon, aquele dos óculos, à direita.
o John Lennon?
o que dizia que a vida é o que acontece enquanto nós fazemos outros planos, também achas?
talvez seja.
o John Lennon? pois, não sei...
puseste-lhe óculos de propósito? e verá menos ou mais do que os outros, a quem arrancaste os olhos?
não arranquei! só os cortei com o x-acto...
eu sei, era a véspera de natal e fechaste-te no quarto e, quando enfim ficaram prontos, achaste que não  condiziam com o milagre  e que tudo era uma farsa: as luzinhas, os presentes, as palhinhas, o jesus, toda a gente a correr sem ter para onde, eu a cortar os sabonetes e os dedos e depois pus-me a chorar e a embrulhá-los e abracei-te e reparei: cresceste tanto!

estávamos nisto e, vendo bem, o dos óculos também pode ser o pai,
imaginei,
tu e ele a cantar em dueto a canção do John Lennon
no hell below us
above us only sky
já te disse como são esguios e iguais, os teus dedos e os do pai, já morreu há tanto tempo e está tão vivo, 
também achas?
também sinto, que de nós todos talvez seja o que vê mais, ninguém lhe arrancou os olhos, é uma sorte quando se vai de olhar intacto a caminho das visões,
above us only sky
tenho a certeza que é o mais feliz de todos e que os três, os três a quem cortaste os olhos com o x-acto, no desenho, somos nós, numa véspera de natal que se transformou em farsa e, mesmo assim, é aquele milagre intacto que faz da morte a verdadeira eternidade
também achas?
you may say that i'm a dreamer
but i'm not the only one
e é tão bom sonhá-lo vivo e saber que não é sonho, ouvi-lo a cantar contigo
i hope someday you will join us
ver-te a crescer e a abraçar-me, quando choro, quando me corto, quando regressas da escola, quando acordas, quando estás para aí virada, bom pegar nos teus desenhos e com eles tecer palavras
nothing to kill or die for
só a vida a acontecer, a acontecer-nos, e que seja enquanto nós vamos tecendo outros planos e com eles outras palavras, mais desenhos, não tarda e serão repostas as visões que cortaste com o x-acto, ainda bem em resguardaste os olhos verdes do teu pai atrás dos óculos e que o desenhaste assim, a parecer o John Lennon e
above us only sky.


domingo, 23 de janeiro de 2011

está-se a rir de quê, desculpe?

de nada. de tudo. de mim. de si. de nós. do mundo. de nos levarmos todos sempre tão a sério. da graça que é estar vivo. de afinal não haver morte. da estupidez. do próprio riso. das eleições para presidente da república. do facebook e dos 'amigos'. do frio que faz lá fora. do facto de hoje ser domingo. das certezas e das dúvidas. do amor, que é tão bom e tão bonito. do desamor, que não existe. de afinal ainda esperar pelo meu princípe. da minha cara quando fico mesmo triste. das ilusões. das fantasias. das histórias e dos fins felizes. de vocês a lerem isto. da maldade e da loucura. da arrogância e da bondade. da agonia e da esperteza. da felicidade. desta crise. da lembrança do mar calmo. da tua cara e do teu riso. da minha estrada. dos caminhos que vão dar a qualquer sítio e dos pinhais e das espirais e das magias. das pretensões e das manias. dos meus truques. dos teus truques. de nós os dois, de nós os três, de nós os cinco. das decisões, das meias tintas. de já ser tarde para o almoço. de agora ter de me ir embora. mas sobretudo desta vontade para rir que me deu hoje.

ahahahahahaha!

será a mesma?

sempre a mesma
garanti-lhe.
mas não quis acreditar e onde eu dizia que era a mesma ele via várias. eu própria já vi várias, já vi muitas, já vi tantas que cheguei, também eu, a desdobrá-las para caberem em gavetas e a arrumá-las em função do papel que atribuía a cada uma, mais ou menos como quem arruma a roupa e não mistura as meias com as camisolas ou os pijamas com as cuecas ou as saias com as calças. nessa altura percebi que, para me vestir, abria-as todas: às gavetas. impensável ir por aí só de cuecas, só de meias, só de saia e que só nua sou a mesma e não as várias, não as tantas, não as muitas a quem estou sempre a vestir máscaras.
a nudez é outra máscara
disse-me ele, e confirmei que não deixo que me dispa.
nem tenho nada que deixar
acrescentei, e fi-lo à laia de desculpa, sempre à laia do pretexto de que a sombra ou se despe por si mesma ou continua a ser a sombra, projectada em corpo alheio, e reforcei
só mesmo eu posso despi-la.
e senti que me quer ver como nem eu ainda me vejo, toda nua, realmente, e talvez seja por isso que me tapo e que me visto e me disfarço a ponto de o fazer pensar, à custa de me convencer, que essas muitas, essas tantas, essas várias são a mesma e talvez não sejam nada, talvez nunca possam ser a alma às claras, mas o corpo albergando os medos da humanidade e a pele como camada para que a luz não me trespasse, a não ser quando, enfim, voltar para casa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

arranca-me os olhos

pediu-lhe ela
e vê com eles o que eu não mostro.
não era nem sequer manhã, embora houvesse já laivos de aurora a entrar pela janela. mas lá dentro, lá no fundo dos seus olhos, só havia a noite inteira. ele aproximou os dedos e palpou-a, densa e funda, essa  noite mais antiga do que o tempo e mais escura do que as trevas, quase tão áspera como a fome, quase tão seca como a casca do inverno, aproximou-se dos fantasmas desenhados sobre as pálpebras, da órbita dos pesadelos e do sal condensado da tristeza mareando-lhe as visões e, em vez de os arrancar, cravou-se neles. fez pressão e enterrou-os a caminho do seu peito e ela gemeu. a escuridão mostrou-lhe os escombros. por toda a parte havia sangue, havia pó, cheirava a mofo.
agora vês?
perguntou-lhe ela. 
enterrou-se até ao fundo no seu corpo e mostrou-lhe onde é que, às cegas, ela edificava as sombras. construções que se ampliavam a si mesmas e que o medo alimentava e que eram altas, de tanto terem crescido sem ninguém que as embalasse e que afinal, quando choravam, eram sombras de criança, mas mentiu-lhe e respondeu
não vejo nada.
a manhã já clareava o quarto inteiro e ela já não tinha olhos e o desenho a preto e branco que servira de pretexto aos dedos dele era apenas um presente de natal feito na véspera do milagre e transformado em amor sépia.
a mãe quer este?
e quis sem crer, que a cegueira a consumisse de uma vez, que dos escombros dos seus dedos renascesse um fundo novo, que o natal fosse para sempre não a véspera do milagre que é suposto esperar dele, mas do amor sem cheiro a mofo, e que ele se enterrasse nela e que lhe arrancasse a alma até fazer gemer as sombras.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

a deus



e separou-as de propósito, não fosse soar-lhe a despedida o que era apenas uma entrega e nem sequer usou maiúsculas. a própria mão, que estendeu nesse momento, foi muito menos que um aceno, ou nem sequer aceno foi, mas a palma toda aberta encaminhando para o céu a sua prece. 
a deus. 
só a deus pode entregar aquilo que sente e pedir-lhe que ilumine o que a sombra ainda não lhe revelou sobre si mesma.

sábado, 15 de janeiro de 2011

o baile dos pares ímpares


a Teresa é casada com o Francisco que se separou da Marta que namora com o Gonçalo que a engana com a Rita que está noiva do Duarte que viveu com a Madalena que gostava do Manel que casou com a Carolina que é amante do João que é casado com a Ana que se anda a fazer ao Vasco que se enrolou com a Mafalda que é casada com o Tiago que se separou da Vera que gostava do Tomás que é marido da Francisca que se quer separar dele porque gosta do António que viveu com a Margarida que se separou do Jorge que casou com a Matilde que se apaixonou pelo Ricardo que é casado com a Sara que é amante do Afonso que viveu com a Mariana que agora vive com o Rui que vai para a cama com a Zé que vai para a cama com o Xico que vai para a cama com quem calha... e todos amam e desamam, todos dançam e desdançam e assim prossegue o baile dos pares ímpares...

sábado, 8 de janeiro de 2011

é meu!


posse, é :) possuir algo ou alguém, pois... reivindicar que coisas e/ou pessoas nos pertencem,  ah!... digo eu, a forçar uma pose desprendida, mas presa ainda - e como ainda tanta gente - a esta ilusão da posse. e  a primeira imagem que me ocorre é a da minha filha Luisinha, já não me lembro com que idade, a insurgir-se quando via um dos irmãos sentado no meu colo e a perguntar-lhe, com um ar entre o mimado e o zangado, 'o que é que tu estás a fazer ao colo da MINHA mãe?'  e eu a rir-me dela, não de troça, mas para ver se desmontava a ciumeira, a explicar-lhe que a mãe dela era a mesma mãe para os quatro, não era um quarto de mãe, e que o colo que eu oferecia a cada um, vendo bem, nem sequer pertencia a nenhum deles, mas a mim própria. e que, por isso, e sendo intacto, ele nunca se dividia, nunca seria só um quarto para cada um dos quatro, mas o mesmo colo inteiro onde todos eles cabiam.
recuo e ocorrem-me mais coisas, mais imagens, como a de eu própria pequenina e o colo da minha mãe sempre ocupado por sucessivas gravidezes, duas das quais mal sucedidas, e outras duas que acabaram com a minha primazia e com a exclusividade de ser a única filha e passar a fazer parte de um trio. ocorrem-me várias cenas de ciúmes - e algumas lamentáveis! - que fazia aos namorados e, às vezes, às amigas, de cada vez que sentia ameaçado o tal lugar de primazia, como se a exclusividade tivesse de me ser conferida por alguém fora de mim, como se tal fosse possível.
o que tem graça é que, quando a cena era ao contrário, quando eram os namorados cheios de crises de ciúmes, ou as amigas enxofradas com a falta de exclusividade, ou a minha filha Luisinha a reivindicar o colo para ela, eu me ria - como ainda hoje me rio - com a perspectiva de que alguém possa pensar que, de alguma forma, eu posso ser pertença sua.
cada vez mais, vou tomando consciência de que esta nossa humanidade é, de facto, um campo fértil para equívocos. e que a linguagem, com os seus pronomes possessivos e outros modos de pertença, nos faz crer na ilusão de sermos donos das coisas. 'meus' e 'minhas' são designações que usamos, todos nós, a toda a hora. e que a todos nós conferem o prazer e o poder de possuir, seja coisas ou pessoas. mas as coisas, e disso sabemos todos, são perenes e efémeras. o que hoje é a minha casa pode amanhã ser um mero monte de escombros - basta haver um terramoto! -, o que hoje é o meu carro pode amanhã ter outro dono, o que hoje é o meu-seja-o-que-for pode amanhã ter-se perdido, desfazido, ou até não ter sentido ser mais meu, porque tudo é passageiro e da matéria pode um dia não sobrar mais nenhum rasto para lhe contar a história ou dar-lhe um título de propriedade.
já as pessoas - a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos e os meus filhos, os meus amigos e amigas - são meus como? em que ilusão caímos todos, quando dizemos ao marido ou à mulher, à namorada ou ao namorado, 'sou só tua', 'és sempre meu'? ah, ao mesmo tempo é tudo tão engraçado, tudo tão sem importância quando, enfim, nos damos conta de que só nós nos pertencemos a um nível que está para além da linguagem. e que é precisamente quando não nos pertencemos, quando deixamos de exercer o nosso poder legítimo, quando damos aso ao medo e asas a esta fantasia de que estamos separados que vem à tona a ilusão de ter e querer possuir algo ou alguém que preencha e que complete o que, por si só, já é completo e preenchido. 
tudo muito divertido, realmente, quando olhamos de frente esta nossa humanidade e reparamos que nem a ela pertencemos, nem quando ela nos agarra e nos comprime e nos limita e nos faz acreditar, em frente ao espelho, em frente aos outros, que este é o 'nosso' corpo. tudo um pouco baralhado, sim, dentro da minha cabeça que talvez nem seja minha, tudo tão claro e transparente, quando transpondo a matéria eu me transcendo e me sinto pertencer e possuir tudo e nada ao mesmo tempo. tudo parecendo o que não é e sendo aquilo que não parece, quando escrevo aquilo que sinto e me dou conta que o que sinto estará sempre para além daquilo que escrevo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

amor, amor, amor ♥



não houvesse esta mania de querer dar nomes a tudo e o amor, seguramente, não gerava mais equívocos. não houvesse tanta gente a defini-lo e a querer rimá-lo, a querer contê-lo e assegurá-lo, a precisar de o ter para si, a medi-lo e a pesá-lo, a oferecê-lo à boca cheia e a cobrá-lo de mãos vazias, a manipular-lhe o cheiro e o toque e o paladar, a compor-lhe melodias e a descompô-lo em várias partes, a procurar-lhe uma batida e a perdê-lo em pulsações, a confundi-lo com uma série de emoções que vão do ciúme à raiva, a manipular-lhe o gosto e a gastá-lo em ninharias, não fosse esta linguagem que quer dar significante ao que não tem nem pode ter significado, esta fragilidade humana de sentir que o amor pode não fazer sentido, a gramática a tornar a substância em substantivo, não fosse isto e o amor não era isto nem aquilo nem aqueloutro, apenas era aquilo que é: inominável.
não fossem os romances, as novelas, os Romeus e as Julietas, os mitos que se criam em torno do grande amor da nossa vida - sempre na pessoa de outro - as ilusões do felizes para sempre e da morte a separar-nos do que é uno e indivisível, se não houvesse a biologia dos afectos nem a química dos corpos nem os traumas da genética nem as doenças dos homens, o amor tanto podia ter o nome de uma flor como a textura de uma pedra como a cor de uma floresta como o som da via láctea e seria, simplesmente, aquilo que é: inominável.
se não houvesse nenhum nome para o amor, o amor não era nada e era tudo aquilo que houvesse. se, enfim, nos libertássemos de todas as definições e de todos os poemas e de tudo aquilo que dizem que o amor foi ou vai ser, todas as crenças e todas as frustrações, todas as sombras, se em vez de o nomear o respirássemos, se em vez de o envolver nas nossas histórias nos envolvéssemos com ele sem lhe chamar coisa nenhuma, se fosse fácil mais ninguém falava nele porque não era preciso.
mas todos falam, todos falam no amor, todos falam do amor, todos chamam ao amor o nome amor, todos nomeiam tantas coisas quando dão nome ao amor, todos crêem no amor, todos o querem, há tantas definições afinal para a mesma coisa e não há nenhuma coisa, em bom rigor, para se dizer que o amor é. porque não é coisa nenhuma, apenas é: inominável.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

eu estou bem, obrigada, e vocês?



foi assim de repente, entre o arrumar da muita tralha que se acumula numa das salas aqui de casa e o vir num instantinho ao computador, mais pelo vício do que propriamente pela necessidade - o que, obviamente, vai dar no mesmo, vício ou necessidade é tudo a mesma ilusão - e depois foi abrir o  e-mail e espreitar se havia notícias, e depois foi dar a voltinha da praxe pelo livro das caras, as minhas filhas mais novas foram para casa do pai e os dois mais velhos estão num sossego, ainda não sei o que vai ser o jantar, mas qualquer coisa há-de ser, e de repente senti-me tão bem, obrigada obrigada obrigada! e com tanta vontade de vos dizer que abri o blogue e pensei que, ultimamente, a escrita tem tido um tom sério e que hoje estou mais numa de só estar bem, obrigada, e de escrever assim mais levezinho e de bem me querer.
é. pensar dá trabalho, na maior parte das vezes também dá asneira, sobretudo quando se pensa e repensa e se volta a pensar e às tantas o novelo na cabeça é tão grande que parece que já nem somos nós que pensamos, mas alguém que nos pensa, e que em vez de pensarmos somos pensados, prensados pela mente, entalados por tanta coisa que nos sufoca e, de repente, damo-nos conta que não é nada, pensar para quê?, estar bem, obrigada, é tão raro, se forem a ver é tão português perguntar, então, como estás? e nunca é estou bem obrigada, é sempre um esgar, um mais ou menos, um vai-se andando, um menos mal e hoje não é nada disso, pelo menos comigo, estou mesmo bem, obrigada, sem me obrigar a coisa nenhuma que não seja fluir e boiar e escrever de rajada o que me sai  directamente dos dedos e nem sequer me passa pela cabeça pensar se o que estou a escrever faz sentido ou não faz.
é. estou bem, obrigada, e vocês? vocês que tantas vezes não faço ideia quem são, que aqui vêm dar nem sequer sei vindos de onde, por vezes espreito as 'estatísticas' e vejo que vêm de lugares tão distantes como da Coreia do Sul, do Nepal, do Japão, das Maldivas... mas quem é que, nas Maldivas, se dá ao trabalho de vir espreitar um blog de humanidades e de porquês, quem é que no Japão pode estar interessado naquilo que eu aqui vou escrevendo, um dia gostava de ir ao Nepal e, já agora, ao Tibete.
a sala, entretanto, a que está há meses cheia de tralha e que me pus a arrumar antes mesmo de as minhas filhas mais novas terem saído, está com tudo espalhado no chão e, se hoje fosse outro dia,  um dia de esgar, um dia de mais ou menos, um dia de vai-se andando, um dia de mal me querer, talvez eu estivesse preocupada, stressada, a pensar qualquer coisa do género, ai tanta coisa para arrumar e eu aqui a escrever parvoíces, mas eu hoje estou bem, obrigada, e isso faz com que tudo, obrigada obrigada obrigada!, também esteja bem. o que me leva, mais uma vez, a constatar que não dependo de nada nem de ninguém para estar bem - obrigada! - e que, ultimamente, este bem estar tem sido tranquilo e bom de sentir.
é. hoje é só isto, nada assim muito importante ou, pelo contrário, mais importante do que tudo o resto que até hoje já aqui escrevi, mais espontâneo, mais verdadeiro, sem que nada sufoque o meu peito, sem que nada me prense a cabeça, obrigada, estou bem, e então vou andando. ainda não sei o que vai ser o jantar, mas qualquer coisa se há-de arranjar, a tralha já já irei pô-la no lixo, a sala vai ficar arrumada e depois, amanhã, outro dia, quero pintar-lhe as paredes de branco. estar bem, afinal, é tão fácil, é só bem me quero bem me quero bem me quero e não dou sequer a hipótese de, em algum momento, não me querer mais ou me querer mal. 
e vocês?...

domingo, 2 de janeiro de 2011

acabaram-se as 'desculpas'


eu sei que posso e também sei que ainda cedo. às desculpas e aos pretextos, ao nevoeiro e às circunstâncias, ao que é alheio e levo a peito, aos subterfúgios do meu ego, à voz da mente que transforma as emoções em armadilhas. 
mas também sei, e também posso, diluir essa ilusão de pensar que estou num 'filme' onde o guião até parece que não é escrito por mim e por toda e cada vez que me demito de assumir o papel principal na minha vida. 
passei anos e anos a dar protagonismo aos outros e a inventar para mim mesma que as suas imperfeições eram a causa de toda a minha infelicidade. ou que os momentos tão perfeitos que às vezes me proporcionavam eram motivo de alegrias. deixei-me formatar por mil padrões e resignei-me, tantas vezes, pelo facto de 'ser assim', como se 'ser assim' ficasse sempre aquém disso tudo que sei ser, exigindo a mudança a toda a gente à minha volta e negando o meu maior poder de todos, que é o de mudar-me a mim, mudar-me em mim e transcender-me ou, simplesmente, juntar numa só todas as que sinto ser e, em vez de 'ser assim' - a balançar entre elas todas - tornar-me finalmente inteira.
e leva tempo, eu sei que leva, como as marés e como a lua e como tudo, avança-se e recua-se, recua-se e avança-se, enche-se a mingua-se, esvazia-se e volta a encher-se, mas nunca, como agora, tive tanto a consciência de que a tristeza e a alegria não dependem de ninguém, porque ambas estão em mim e só eu posso 'accioná-las'. nunca, como agora, fui tão sábia em teorias e cada vez me culpo menos por nem sempre as pôr em prática - nem a maré está sempre cheia, nem a lua sempre intacta. nunca, como agora, me senti, ao mesmo tempo, tão assustada e tão tranquila...
sim, é muito assustador quando enfim realizamos que se acabaram as desculpas. que não há nada nem ninguém que tenha a culpa, que desejar que à nossa volta o mundo mude é só mais um pretexto para não mudarmos nada em nós, que esperar que os outros mudem é tão inútil como esperar que a chuva aqueça ou que o sol molhe.
e, por isso, e ao mesmo tempo, é tão tranquilo ter a certeza de que nada nem ninguém tem um poder maior que o meu. e que esta imensa solidão que vem à tona, quando nada nem ninguém pode fazer nada por mim, é só a mente a colocá-la no ângulo do ego carente. porque ninguém fica só quando se tem por companhia, ninguém é só quando se oferece, por inteiro, a si próprio e aos outros, ninguém pode mais dar como desculpa o facto de não 'ter' amor, porque amor é só para SER. 
e eu sei que posso e sei que cedo. ainda cedo e ainda posso, sob o pretexto do medo,  queixar-me que não 'tenho' amor. tudo muito assustador e tão tranquilo, ao mesmo tempo: ter a noção que, simplesmente, são desculpas e que só eu tenho o poder para as dissolver, sempre que vêm à tona.