domingo, 23 de janeiro de 2011

está-se a rir de quê, desculpe?

de nada. de tudo. de mim. de si. de nós. do mundo. de nos levarmos todos sempre tão a sério. da graça que é estar vivo. de afinal não haver morte. da estupidez. do próprio riso. das eleições para presidente da república. do facebook e dos 'amigos'. do frio que faz lá fora. do facto de hoje ser domingo. das certezas e das dúvidas. do amor, que é tão bom e tão bonito. do desamor, que não existe. de afinal ainda esperar pelo meu princípe. da minha cara quando fico mesmo triste. das ilusões. das fantasias. das histórias e dos fins felizes. de vocês a lerem isto. da maldade e da loucura. da arrogância e da bondade. da agonia e da esperteza. da felicidade. desta crise. da lembrança do mar calmo. da tua cara e do teu riso. da minha estrada. dos caminhos que vão dar a qualquer sítio e dos pinhais e das espirais e das magias. das pretensões e das manias. dos meus truques. dos teus truques. de nós os dois, de nós os três, de nós os cinco. das decisões, das meias tintas. de já ser tarde para o almoço. de agora ter de me ir embora. mas sobretudo desta vontade para rir que me deu hoje.

ahahahahahaha!

será a mesma?

sempre a mesma
garanti-lhe.
mas não quis acreditar e onde eu dizia que era a mesma ele via várias. eu própria já vi várias, já vi muitas, já vi tantas que cheguei, também eu, a desdobrá-las para caberem em gavetas e a arrumá-las em função do papel que atribuía a cada uma, mais ou menos como quem arruma a roupa e não mistura as meias com as camisolas ou os pijamas com as cuecas ou as saias com as calças. nessa altura percebi que, para me vestir, abria-as todas: às gavetas. impensável ir por aí só de cuecas, só de meias, só de saia e que só nua sou a mesma e não as várias, não as tantas, não as muitas a quem estou sempre a vestir máscaras.
a nudez é outra máscara
disse-me ele, e confirmei que não deixo que me dispa.
nem tenho nada que deixar
acrescentei, e fi-lo à laia de desculpa, sempre à laia do pretexto de que a sombra ou se despe por si mesma ou continua a ser a sombra, projectada em corpo alheio, e reforcei
só mesmo eu posso despi-la.
e senti que me quer ver como nem eu ainda me vejo, toda nua, realmente, e talvez seja por isso que me tapo e que me visto e me disfarço a ponto de o fazer pensar, à custa de me convencer, que essas muitas, essas tantas, essas várias são a mesma e talvez não sejam nada, talvez nunca possam ser a alma às claras, mas o corpo albergando os medos da humanidade e a pele como camada para que a luz não me trespasse, a não ser quando, enfim, voltar para casa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

arranca-me os olhos

pediu-lhe ela
e vê com eles o que eu não mostro.
não era nem sequer manhã, embora houvesse já laivos de aurora a entrar pela janela. mas lá dentro, lá no fundo dos seus olhos, só havia a noite inteira. ele aproximou os dedos e palpou-a, densa e funda, essa  noite mais antiga do que o tempo e mais escura do que as trevas, quase tão áspera como a fome, quase tão seca como a casca do inverno, aproximou-se dos fantasmas desenhados sobre as pálpebras, da órbita dos pesadelos e do sal condensado da tristeza mareando-lhe as visões e, em vez de os arrancar, cravou-se neles. fez pressão e enterrou-os a caminho do seu peito e ela gemeu. a escuridão mostrou-lhe os escombros. por toda a parte havia sangue, havia pó, cheirava a mofo.
agora vês?
perguntou-lhe ela. 
enterrou-se até ao fundo no seu corpo e mostrou-lhe onde é que, às cegas, ela edificava as sombras. construções que se ampliavam a si mesmas e que o medo alimentava e que eram altas, de tanto terem crescido sem ninguém que as embalasse e que afinal, quando choravam, eram sombras de criança, mas mentiu-lhe e respondeu
não vejo nada.
a manhã já clareava o quarto inteiro e ela já não tinha olhos e o desenho a preto e branco que servira de pretexto aos dedos dele era apenas um presente de natal feito na véspera do milagre e transformado em amor sépia.
a mãe quer este?
e quis sem crer, que a cegueira a consumisse de uma vez, que dos escombros dos seus dedos renascesse um fundo novo, que o natal fosse para sempre não a véspera do milagre que é suposto esperar dele, mas do amor sem cheiro a mofo, e que ele se enterrasse nela e que lhe arrancasse a alma até fazer gemer as sombras.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

a deus



e separou-as de propósito, não fosse soar-lhe a despedida o que era apenas uma entrega e nem sequer usou maiúsculas. a própria mão, que estendeu nesse momento, foi muito menos que um aceno, ou nem sequer aceno foi, mas a palma toda aberta encaminhando para o céu a sua prece. 
a deus. 
só a deus pode entregar aquilo que sente e pedir-lhe que ilumine o que a sombra ainda não lhe revelou sobre si mesma.

sábado, 15 de janeiro de 2011

o baile dos pares ímpares


a Teresa é casada com o Francisco que se separou da Marta que namora com o Gonçalo que a engana com a Rita que está noiva do Duarte que viveu com a Madalena que gostava do Manel que casou com a Carolina que é amante do João que é casado com a Ana que se anda a fazer ao Vasco que se enrolou com a Mafalda que é casada com o Tiago que se separou da Vera que gostava do Tomás que é marido da Francisca que se quer separar dele porque gosta do António que viveu com a Margarida que se separou do Jorge que casou com a Matilde que se apaixonou pelo Ricardo que é casado com a Sara que é amante do Afonso que viveu com a Mariana que agora vive com o Rui que vai para a cama com a Zé que vai para a cama com o Xico que vai para a cama com quem calha... e todos amam e desamam, todos dançam e desdançam e assim prossegue o baile dos pares ímpares...

sábado, 8 de janeiro de 2011

é meu!


posse, é :) possuir algo ou alguém, pois... reivindicar que coisas e/ou pessoas nos pertencem,  ah!... digo eu, a forçar uma pose desprendida, mas presa ainda - e como ainda tanta gente - a esta ilusão da posse. e  a primeira imagem que me ocorre é a da minha filha Luisinha, já não me lembro com que idade, a insurgir-se quando via um dos irmãos sentado no meu colo e a perguntar-lhe, com um ar entre o mimado e o zangado, 'o que é que tu estás a fazer ao colo da MINHA mãe?'  e eu a rir-me dela, não de troça, mas para ver se desmontava a ciumeira, a explicar-lhe que a mãe dela era a mesma mãe para os quatro, não era um quarto de mãe, e que o colo que eu oferecia a cada um, vendo bem, nem sequer pertencia a nenhum deles, mas a mim própria. e que, por isso, e sendo intacto, ele nunca se dividia, nunca seria só um quarto para cada um dos quatro, mas o mesmo colo inteiro onde todos eles cabiam.
recuo e ocorrem-me mais coisas, mais imagens, como a de eu própria pequenina e o colo da minha mãe sempre ocupado por sucessivas gravidezes, duas das quais mal sucedidas, e outras duas que acabaram com a minha primazia e com a exclusividade de ser a única filha e passar a fazer parte de um trio. ocorrem-me várias cenas de ciúmes - e algumas lamentáveis! - que fazia aos namorados e, às vezes, às amigas, de cada vez que sentia ameaçado o tal lugar de primazia, como se a exclusividade tivesse de me ser conferida por alguém fora de mim, como se tal fosse possível.
o que tem graça é que, quando a cena era ao contrário, quando eram os namorados cheios de crises de ciúmes, ou as amigas enxofradas com a falta de exclusividade, ou a minha filha Luisinha a reivindicar o colo para ela, eu me ria - como ainda hoje me rio - com a perspectiva de que alguém possa pensar que, de alguma forma, eu posso ser pertença sua.
cada vez mais, vou tomando consciência de que esta nossa humanidade é, de facto, um campo fértil para equívocos. e que a linguagem, com os seus pronomes possessivos e outros modos de pertença, nos faz crer na ilusão de sermos donos das coisas. 'meus' e 'minhas' são designações que usamos, todos nós, a toda a hora. e que a todos nós conferem o prazer e o poder de possuir, seja coisas ou pessoas. mas as coisas, e disso sabemos todos, são perenes e efémeras. o que hoje é a minha casa pode amanhã ser um mero monte de escombros - basta haver um terramoto! -, o que hoje é o meu carro pode amanhã ter outro dono, o que hoje é o meu-seja-o-que-for pode amanhã ter-se perdido, desfazido, ou até não ter sentido ser mais meu, porque tudo é passageiro e da matéria pode um dia não sobrar mais nenhum rasto para lhe contar a história ou dar-lhe um título de propriedade.
já as pessoas - a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos e os meus filhos, os meus amigos e amigas - são meus como? em que ilusão caímos todos, quando dizemos ao marido ou à mulher, à namorada ou ao namorado, 'sou só tua', 'és sempre meu'? ah, ao mesmo tempo é tudo tão engraçado, tudo tão sem importância quando, enfim, nos damos conta de que só nós nos pertencemos a um nível que está para além da linguagem. e que é precisamente quando não nos pertencemos, quando deixamos de exercer o nosso poder legítimo, quando damos aso ao medo e asas a esta fantasia de que estamos separados que vem à tona a ilusão de ter e querer possuir algo ou alguém que preencha e que complete o que, por si só, já é completo e preenchido. 
tudo muito divertido, realmente, quando olhamos de frente esta nossa humanidade e reparamos que nem a ela pertencemos, nem quando ela nos agarra e nos comprime e nos limita e nos faz acreditar, em frente ao espelho, em frente aos outros, que este é o 'nosso' corpo. tudo um pouco baralhado, sim, dentro da minha cabeça que talvez nem seja minha, tudo tão claro e transparente, quando transpondo a matéria eu me transcendo e me sinto pertencer e possuir tudo e nada ao mesmo tempo. tudo parecendo o que não é e sendo aquilo que não parece, quando escrevo aquilo que sinto e me dou conta que o que sinto estará sempre para além daquilo que escrevo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

amor, amor, amor ♥



não houvesse esta mania de querer dar nomes a tudo e o amor, seguramente, não gerava mais equívocos. não houvesse tanta gente a defini-lo e a querer rimá-lo, a querer contê-lo e assegurá-lo, a precisar de o ter para si, a medi-lo e a pesá-lo, a oferecê-lo à boca cheia e a cobrá-lo de mãos vazias, a manipular-lhe o cheiro e o toque e o paladar, a compor-lhe melodias e a descompô-lo em várias partes, a procurar-lhe uma batida e a perdê-lo em pulsações, a confundi-lo com uma série de emoções que vão do ciúme à raiva, a manipular-lhe o gosto e a gastá-lo em ninharias, não fosse esta linguagem que quer dar significante ao que não tem nem pode ter significado, esta fragilidade humana de sentir que o amor pode não fazer sentido, a gramática a tornar a substância em substantivo, não fosse isto e o amor não era isto nem aquilo nem aqueloutro, apenas era aquilo que é: inominável.
não fossem os romances, as novelas, os Romeus e as Julietas, os mitos que se criam em torno do grande amor da nossa vida - sempre na pessoa de outro - as ilusões do felizes para sempre e da morte a separar-nos do que é uno e indivisível, se não houvesse a biologia dos afectos nem a química dos corpos nem os traumas da genética nem as doenças dos homens, o amor tanto podia ter o nome de uma flor como a textura de uma pedra como a cor de uma floresta como o som da via láctea e seria, simplesmente, aquilo que é: inominável.
se não houvesse nenhum nome para o amor, o amor não era nada e era tudo aquilo que houvesse. se, enfim, nos libertássemos de todas as definições e de todos os poemas e de tudo aquilo que dizem que o amor foi ou vai ser, todas as crenças e todas as frustrações, todas as sombras, se em vez de o nomear o respirássemos, se em vez de o envolver nas nossas histórias nos envolvéssemos com ele sem lhe chamar coisa nenhuma, se fosse fácil mais ninguém falava nele porque não era preciso.
mas todos falam, todos falam no amor, todos falam do amor, todos chamam ao amor o nome amor, todos nomeiam tantas coisas quando dão nome ao amor, todos crêem no amor, todos o querem, há tantas definições afinal para a mesma coisa e não há nenhuma coisa, em bom rigor, para se dizer que o amor é. porque não é coisa nenhuma, apenas é: inominável.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

eu estou bem, obrigada, e vocês?



foi assim de repente, entre o arrumar da muita tralha que se acumula numa das salas aqui de casa e o vir num instantinho ao computador, mais pelo vício do que propriamente pela necessidade - o que, obviamente, vai dar no mesmo, vício ou necessidade é tudo a mesma ilusão - e depois foi abrir o  e-mail e espreitar se havia notícias, e depois foi dar a voltinha da praxe pelo livro das caras, as minhas filhas mais novas foram para casa do pai e os dois mais velhos estão num sossego, ainda não sei o que vai ser o jantar, mas qualquer coisa há-de ser, e de repente senti-me tão bem, obrigada obrigada obrigada! e com tanta vontade de vos dizer que abri o blogue e pensei que, ultimamente, a escrita tem tido um tom sério e que hoje estou mais numa de só estar bem, obrigada, e de escrever assim mais levezinho e de bem me querer.
é. pensar dá trabalho, na maior parte das vezes também dá asneira, sobretudo quando se pensa e repensa e se volta a pensar e às tantas o novelo na cabeça é tão grande que parece que já nem somos nós que pensamos, mas alguém que nos pensa, e que em vez de pensarmos somos pensados, prensados pela mente, entalados por tanta coisa que nos sufoca e, de repente, damo-nos conta que não é nada, pensar para quê?, estar bem, obrigada, é tão raro, se forem a ver é tão português perguntar, então, como estás? e nunca é estou bem obrigada, é sempre um esgar, um mais ou menos, um vai-se andando, um menos mal e hoje não é nada disso, pelo menos comigo, estou mesmo bem, obrigada, sem me obrigar a coisa nenhuma que não seja fluir e boiar e escrever de rajada o que me sai  directamente dos dedos e nem sequer me passa pela cabeça pensar se o que estou a escrever faz sentido ou não faz.
é. estou bem, obrigada, e vocês? vocês que tantas vezes não faço ideia quem são, que aqui vêm dar nem sequer sei vindos de onde, por vezes espreito as 'estatísticas' e vejo que vêm de lugares tão distantes como da Coreia do Sul, do Nepal, do Japão, das Maldivas... mas quem é que, nas Maldivas, se dá ao trabalho de vir espreitar um blog de humanidades e de porquês, quem é que no Japão pode estar interessado naquilo que eu aqui vou escrevendo, um dia gostava de ir ao Nepal e, já agora, ao Tibete.
a sala, entretanto, a que está há meses cheia de tralha e que me pus a arrumar antes mesmo de as minhas filhas mais novas terem saído, está com tudo espalhado no chão e, se hoje fosse outro dia,  um dia de esgar, um dia de mais ou menos, um dia de vai-se andando, um dia de mal me querer, talvez eu estivesse preocupada, stressada, a pensar qualquer coisa do género, ai tanta coisa para arrumar e eu aqui a escrever parvoíces, mas eu hoje estou bem, obrigada, e isso faz com que tudo, obrigada obrigada obrigada!, também esteja bem. o que me leva, mais uma vez, a constatar que não dependo de nada nem de ninguém para estar bem - obrigada! - e que, ultimamente, este bem estar tem sido tranquilo e bom de sentir.
é. hoje é só isto, nada assim muito importante ou, pelo contrário, mais importante do que tudo o resto que até hoje já aqui escrevi, mais espontâneo, mais verdadeiro, sem que nada sufoque o meu peito, sem que nada me prense a cabeça, obrigada, estou bem, e então vou andando. ainda não sei o que vai ser o jantar, mas qualquer coisa se há-de arranjar, a tralha já já irei pô-la no lixo, a sala vai ficar arrumada e depois, amanhã, outro dia, quero pintar-lhe as paredes de branco. estar bem, afinal, é tão fácil, é só bem me quero bem me quero bem me quero e não dou sequer a hipótese de, em algum momento, não me querer mais ou me querer mal. 
e vocês?...

domingo, 2 de janeiro de 2011

acabaram-se as 'desculpas'


eu sei que posso e também sei que ainda cedo. às desculpas e aos pretextos, ao nevoeiro e às circunstâncias, ao que é alheio e levo a peito, aos subterfúgios do meu ego, à voz da mente que transforma as emoções em armadilhas. 
mas também sei, e também posso, diluir essa ilusão de pensar que estou num 'filme' onde o guião até parece que não é escrito por mim e por toda e cada vez que me demito de assumir o papel principal na minha vida. 
passei anos e anos a dar protagonismo aos outros e a inventar para mim mesma que as suas imperfeições eram a causa de toda a minha infelicidade. ou que os momentos tão perfeitos que às vezes me proporcionavam eram motivo de alegrias. deixei-me formatar por mil padrões e resignei-me, tantas vezes, pelo facto de 'ser assim', como se 'ser assim' ficasse sempre aquém disso tudo que sei ser, exigindo a mudança a toda a gente à minha volta e negando o meu maior poder de todos, que é o de mudar-me a mim, mudar-me em mim e transcender-me ou, simplesmente, juntar numa só todas as que sinto ser e, em vez de 'ser assim' - a balançar entre elas todas - tornar-me finalmente inteira.
e leva tempo, eu sei que leva, como as marés e como a lua e como tudo, avança-se e recua-se, recua-se e avança-se, enche-se a mingua-se, esvazia-se e volta a encher-se, mas nunca, como agora, tive tanto a consciência de que a tristeza e a alegria não dependem de ninguém, porque ambas estão em mim e só eu posso 'accioná-las'. nunca, como agora, fui tão sábia em teorias e cada vez me culpo menos por nem sempre as pôr em prática - nem a maré está sempre cheia, nem a lua sempre intacta. nunca, como agora, me senti, ao mesmo tempo, tão assustada e tão tranquila...
sim, é muito assustador quando enfim realizamos que se acabaram as desculpas. que não há nada nem ninguém que tenha a culpa, que desejar que à nossa volta o mundo mude é só mais um pretexto para não mudarmos nada em nós, que esperar que os outros mudem é tão inútil como esperar que a chuva aqueça ou que o sol molhe.
e, por isso, e ao mesmo tempo, é tão tranquilo ter a certeza de que nada nem ninguém tem um poder maior que o meu. e que esta imensa solidão que vem à tona, quando nada nem ninguém pode fazer nada por mim, é só a mente a colocá-la no ângulo do ego carente. porque ninguém fica só quando se tem por companhia, ninguém é só quando se oferece, por inteiro, a si próprio e aos outros, ninguém pode mais dar como desculpa o facto de não 'ter' amor, porque amor é só para SER. 
e eu sei que posso e sei que cedo. ainda cedo e ainda posso, sob o pretexto do medo,  queixar-me que não 'tenho' amor. tudo muito assustador e tão tranquilo, ao mesmo tempo: ter a noção que, simplesmente, são desculpas e que só eu tenho o poder para as dissolver, sempre que vêm à tona.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

é sempre novo


tudo aquilo que se liberta do passado e dos padrões. tudo o que ainda não deixou marcas de tempo em nenhum lado ou, simplesmente, as dissolveu. todas as primeiras vezes, cada assombro e cada espanto. 
é sempre novo o que se inventa a partir do que não há nem vai mais voltar a haver, o que se esboça sem referências, o sol em cada manhã, anunciando a luz intacta, a evidência de que o vento é só um sopro de passagem. é sempre novo o que não queremos  nem conter nem restringir, é de novo que expandimos o amor, de cada vez que respiramos, é tudo novo quando só dura um momento, é sempre novo cada instante, a cada dia que vivemos. é novo o que não tem tamanho e não tem peso, é de novo que estreamos cada coisa, quando as coisas não se medem em função de nenhum tempo. é novo o espaço, é nova a estrela, é sempre a novidade inteira que nos espreita e surpreende quando não nos embrenhamos na armadilha das memórias, é sempre claro o que é sem névoa. 
é novo o beijo, é nova a festa, é novo o gesto, é tudo novo porque nada se repete, nada foi como é agora, nada vai ser da maneira que já é, é sempre nova a madrugada no meu peito, quando me acordo e largo a noite. 
é novo o canto, é nova a voz, é novo o ano, sempre que não projectamos: nenhuma nota, nenhum timbre, nenhum plano. é de novo que me encontro, de cada vez que me olho ao espelho, e coincido na essência e no reflexo. e o que sou hoje só não é novo se o que fui ontem e o que vou ser amanhã me deixar crer que tenho idade e que envelheço. 
para além do tempo, todos nós somos sem tempo, todos sempre a novidade de nós mesmos, estreando tudo e cada coisa no instante em que as vivemos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

tão balalão, tão balalança

fora do eixo, fico à mercê de pesos e contrapesos humanos. e perco a capacidade de não medir nada, deixando apenas que pelos dois pratos o movimento de cada coisa circule, sem que coisa nenhuma crie o resíduo do fundo e se acumule no meu peito.

fora do eixo, tudo me pesa, ora para um lado, ora para o outro, o equílibrio é instável, se não mesmo impossível, oscilo entre miragens, enjoo com as vertigens que a sensação de estar a pender para o abismo me traz, perco as referências da alma e do céu, de cada vez que as procuro  nas coordenadas da terra e da pele.  parece-me sempre que caio, quando não é o centro que ocupo, parece-me sempre que não pode nascer nenhuma unidade da dicotomia de ser tão balança e estar sempre tão dividida. 

fora do eixo, desdobro-me em esforços para colmatar o que sinto que falta e nem me dou conta de que não falta nada que já cá não esteja. boicoto a leveza, anulo a simplicidade de nada, afinal, ter peso ou medida ou referência, recorro a todos os truques que sei para interditar a mim mesma a simples magia de ser. 

fora do eixo, os altos e baixos sucedem-se e quando subo é a pique e quando desço é a medo e deixo-me contagiar pela crença de que a vida é uma enorme e gigante montanha russa de feira e que não tenho como parar a viagem que aqui vim fazer. fora do eixo, tudo é oposto. o branco e o preto, o bem e o mal, a luz e a sombra.

e então há os dias em que me deixo estar fora do eixo e em que não tenho senão os estilhaços de um espelho onde me vejo aos bocados e em que balanço e balanço e balanço, e os dias em que consigo centrar-me. e aí não há mais esforço nenhum, medida nenhuma, peso nenhum e só as referências da alma me dão as coordenadas para ser, a cada momento, o meu próprio centro. nesses dias, o movimento é como o do vento que passa e que não deixa resíduos no fundo de nada, pois nada tem fundo, e eu estou só de braços abertos a deixá-lo passar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

hoje voltei a vê-la tão de perto

a morte.
nem sequer de uma pessoa que era próxima, mas ainda assim de perto porque próxima de quem me é próximo e tão querido. voltei a sentir aquilo que sempre sinto quando a tenho à minha frente, a paz imensa que transmite quando nenhum desgosto a tolda, a mansidão com que a pele esfria, a leveza que aparenta um corpo inerte quando a alma o desabita e se devolve à sua essência. 
confesso, 
tenho sempre alguma inveja de quem morre, não por não gostar da vida, 
gosto imenso!
mas por lembrar-me como era quando eu própria estava viva nesse espaço que se diz ser o da morte. quando sentia o céu inteiro por minha conta e tudo pulsava em mim sem eu sequer ter coração. quando era livre por não ter de fazer escolhas, por não ter peso nenhum, por não ter medo, não ter nada a não ser aquilo que sou, mas sem carregar um corpo e sem me disfarçar de gente. 
tenho sempre a sensação, quando vejo um corpo morto, de que a aparente imobilidade da matéria não é mais do que aquilo que sempre foi: energia condensada que por fim se dissipou e seguiu rumo ao seu centro, à sua fonte. que esta casca que sustenta e que alimenta cada órgão, cada músculo, cada célula, cada osso, que amadurece, que envelhece e por fim esfria é só uma forma que nos damos para exercitarmos a paciência, para experimentarmos o prazer, para ensaiarmos criações, para podermos dar-nos conta da tanta dor que nos causamos de cada vez que acreditamos que a forma também é conteúdo. e então tenho sempre este desejo, 
esta ilusão?
de que antes mesmo de voltar para casa um dia, eu consiga dar-me conta, e sem mais nenhum equívoco, de que esta forma que me dei não me contém, apenas me torna contida, de cada vez que me permito duvidar que sou amor e me detenho no pulsar (i)rregular do coração.
voltei a vê-lo tão de perto, 
o meu amor, 
não contido, mas conteúdo, nem sequer desenhado ou projectado na pessoa que me é próxima e tão querida, mas aqui dentro, a tomar conta de mim, de cada órgão, cada músculo, cada célula, cada osso do meu corpo como se também eu estivesse imóvel e sem pulso, tão viva e tão serena nesse espaço que se diz ser o da morte e sem apego por mais nada e nenhum medo. 
depois mexi-me e vim-me embora e o movimento devolveu-me outra vez a esta forma que é de gente. e senti esfriar os dedos, não por estar morta e imóvel, mas por estar viva e afinal ainda ter medo e tanto apego a tantas coisas...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

- olá, minha querida!

- que surpresa!... o 'meu' técnico ao telefone! olá, olá!... há quanto tempo...
- é verdade, há quanto tempo!!!
- é mentira!
- claro que é mentira... e então? está boazinha?
- mas, mesmo sendo mentira, é sempre bom falar consigo.
- muito bom... e temos falado tanto!
- é verdade, mas assim, em voz alta, não falávamos há muito...
- não, assim, em voz alta, e com toda a gente a ouvir, há muito tempo que não era. e então? está boazinha?
- outra vez?
- ainda não me respondeu...
- estou boa, sim. 
- com visões e previsões e tanta coisa...
- às vezes acho que você gosta de fingir ser quem não é... de se fazer passar por outro.
- acha que sim? mas olhe que não sou eu que finjo... 
- tem razão. sou eu que invento... acha mal?
- não acho nada. você faz o que entender.
- e quanto àquilo que não entendo, faço o quê?
- ah... isso pode ser mais complicado. se escolher ser complicado, é evidente... afinal, cada um escolhe aquilo que quer, não é verdade?
- sim, foi isso que eu escrevi agora mesmo.
- tal e qual. 
- e então ligou porquê? foi para dar as boas festas?
- dou-lhe sempre boas festas, a não ser quando se esquiva às minhas mãos...
- às suas asas, quer dizer...
- chame-lhes lá o que quiser... mas não, não foi por isso nem para isso que liguei.
- e foi porquê?
- estou à espera de saber. afinal, foi você que me pôs em alta voz.
- pois foi, ando a precisar de ouvir-me...
- isso sei eu.
- as coisas que você sabe!
- não sou só eu. ambos sabemos.
- o quê? que é tudo uma grande farsa?
- não é farsa nenhuma! é simplesmente aquilo que é.
- uma conversa a duas vozes de um só ser, acha que é isso?
- ora nem mais.
- e que se inventa a ser mais do que um só ser para ver se dá resposta àquilo que não sabe ser?
- que confusão que para aí vai!
- e então por isso é que ligou?
- para dar as boas festas?
- não! por causa das confusões...
- eu não liguei! eu estou ligado.
- até aí já percebi.
- mas é a partir daí que vai ter de perceber...
- explique lá de outra maneira...
- há um que humaniza a alma e outro que anima a humanidade... mas não são dois, ao contrário do que pensa, eu e você não somos dois.  somos só um e sempre o mesmo.
- e então como é possível falarmos tanto um com o outro?
- tudo é possível. até a ilusão de que podemos dividir o que é indivisível.
- e então depois dá nisto...
- é, e então depois dá nisto...
- nestas conversas que mais parecem ser conversas de malucos...
- são tão giras! gosto tanto...
- eu também! mas agora vou ali fazer pipocas. não se importa que desligue?
- desliga nada! até porque vou consigo. não se esqueça: é uma ilusão achar que se pode dividir o que é indivisível. de um lado isto, do outro aquilo... ahahahaha!
- 1:1= 0?
- não. 1+1+1+1+1+1+1+1+1+1=1.
- é o que eu digo: parece uma conversa de malucos... mais valia ter ligado a desejar as boas festas e assim enquadrava-se na época e no espírito e assim...
- e você lá gosta de enquadrar-se nessas coisas...
- tem razão. eu gosto mais quando é redondo.
- mas é tudo redondo, minha querida. 
- acredito... tipo assim?
- tipo isso! tudo redondo e colorido!
- boa! vamos lá fazer pipocas?
- vamos lá...
- e deixamos isto aqui?
- isto o quê?
- esta conversa, em voz alta e para toda a gente ouvir?
- claro que sim! ficou tão gira...
- mesmo gira, mesmo gira...

2011, visões e previsões



sobre as previsões para 2011, já muito foi dito e escrito. andam aí, mesmo à mão de semear, basta 'googlar' para encontrar centenas delas, algumas mais generalistas, outras feitas à medida, cada uma obedecendo à sua técnica e aos seus próprios simbolismos, recorrendo cada uma a diferentes perspectivas consoante os instrumentos que utiliza, decorrendo ora da análise dos astros e da posição que ocupam, ora das cartas ou das runas ou dos búzios ou dos números. 

de um ponto de vista exterior, todas são válidas. e, no entanto, quanto vale uma coisa que nos chega lá de fora se nos desresponsabilizamos de a validar dentro de nós? quanto vale a previsão desta ou daquela circunstância se não houver a visão clara de quem somos quando não estamos à mercê de nenhuma circunstância? se os astros dizem que uma quadratura assim ou uma oposição assado significam, por exemplo, que vamos ter um conflito no trabalho ou sofrer de um desgosto no amor, até que ponto será válido aceitá-las como um 'facto consumado', sem sequer equacionar que essas forças só nos arrastam para o conflito e para o desgosto se nos deixarmos ir na onda? pode até a quadratura ter o foco no trabalho e a oposição ser na área do amor, mas se será em conflito ou com desgosto cabe a cada um escolher...

sei do que falo. e mentiria se dissesse que não espreito previsões, que não analiso trânsitos, que não leio cartas, que não somo nem subtraio às equações da minha vida a arte da numerologia, que não vou atrás do que me diz este ou aquela em dada altura, que sou muito iluminada quando escrevo que 'tudo vai ser como e quando e onde tiver de ser e, a cada momento, o que for, como for, quando for e onde for vai estar certo.' seria muito mentirosa mesmo, se dissesse que sou, genuinamente e sempre, alguém que só acredita no agora e que aceita aquilo que é, como é, a cada instante. não sou, ainda não sou, não sei se um dia virei a ser, mas quando sou fico contente, porque isso me faz sentir bem.

por outro lado, é bem verdade que, ao longo dos últimos tempos, o agora tem sido o meu presente. um presente que me ofereço a cada instante, cada vez mais consciente, sempre que escolho ser agora em vez de antes ou depois ou qualquer outro dia destes. e, aí, as previsões ficam de fora. guio-me apenas pela visão daquele momento e só eu escolho aquilo que vejo. posso ver sol mesmo se chove e ver chover quando faz sol, eu é que escolho. o importante é ser fiel àquilo que sou, muito mais do que ir atrás de circunstâncias, expectativas, ilusões, oposições e quadraturas, dizeres dos outros, e aceitar aquilo que sou sem querer ser outra pessoa ou outra coisa, com as minhas limitações e os meus dons, a minha personalidade, as minhas crenças, os meus sonhos, as minhas escolhas e os meus medos, todas as partes do meu todo.

não sei se foi do solstício e/ou do eclipse - mais uma vez, coisas que vêm de fora e que têm o seu próprio simbolismo - mas acordei da noite mais longa do ano com uma visão que só valida as previsões se eu as olhar do interior, e à luz vertical do sol, que faz com que nada tenha sombra. 
e isso quer dizer o quê? que seja o que for que os astros digam, seja o que for que as cartas mostrem, seja qual for o resultado numerológico do ano, a visão de quem eu sou, AGORA, não está a projectar nenhuma sombra. se estou com uma quadratura do Plutão ao Sol, se nas cartas me saiu a Torre ou outra derrocada ainda pior, se a soma afinal é subtracção, nada muda aquilo que eu sou. nada do que vem de fora me vai dizer para onde vou, o que me espera se dobrar aquela esquina, o que ganho se fizer aquela escolha, o que perco se inverter a direcção.  sou eu que escolho, em cada agora, ser fiel àquilo que sou - sem apelos e sem agravos do exterior.

e, assim, e por mais que continue a consultar e a espreitar as previsões - e não interessa se é por vício, por mania, por fraqueza, insegurança, desespero ou outra coisa - apenas a visão clara de que o sol vai nascer a cada dia e de que eu vou estar acordada é a previsão segura do que poderá ser 2011.  e vai ser um ano INTEIRO, nem bom nem mau nem mais ou menos, com as trezentas e sessenta e cinco noites e os trezentos e sessenta e cinco dias que fazem parte da nossa contagem humana, mas com mais luz e menos sombras. porque é assim que, AGORA, eu escolho que seja. porque essa é a visão da minha realidade, e não a previsão do que eu espero realizar.  porque, quando prevemos, reagimos. mas, quando vemos, limitamo-nos a agir.

e que assim seja, mesmo se às vezes não for e o sol nascer oblíquo e projectar milhares de sombras :)


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

de 2010

e disso tudo o que já foi e já não é, ou que ainda é só porque foi. sem nostalgia e sem saudades, em profunda gratidão por cada dia que passou, pelos dias bons e os menos bons, por cada gesto, cada passo, cada abraço, cada festa, cada encontro... sabendo que nunca mais se volta atrás, mas que se pode olhar para trás e sentir que cada instante que vivemos nos conduz àquilo que somos. juntar os pedaços todos e saber que são um todo e fazem parte das memórias e das histórias que teremos para contar. paisagens que mudaram com as estações, mas que cá dentro ficaram como as vi e  que passaram a ser minhas. do branco em gelo da serra ao sol a arder sobre as águas da barragem, dos pinhais da primavera ao mar batido no outono, da figueira que ressuscitou quando o que queria era morrer afogada no inverno, do fogo que no coração nunca se apaga, porque é de todas as estações. profundamente grata, então, não só ao que foi 2010, mas ao que é e ao que sou e à vida que flui continuamente e se expressa a cada instante em cada gesto, em cada passo, em cada abraço, em cada festa e em cada encontro.


sábado, 11 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

retrógrados andamos todos


não é só o Mercúrio a fazer meia volta volver e a assombrar os mais temerosos com irregularidades nas comunicações, estragos nos electrodomésticos, excessos nos gastos e nos consumos, esqueci- mentos, atrasos, confusões e balbúrdias a cada virar de esquina, pinheiro ou presépio. basta olharmos para o mundo, nem sequer com muita atenção, para perceber que este movimento retrógrado não é exclusivo dos astros, mas que, aqui e ali, nos toca a todos. 

onde foi que fizémos meia volta volver e arrepiámos caminho não sei bem dizer. se foi quando a crise nos bateu à porta - embora há anos estivesse do lado de dentro de cada um a espreitar tudo aquilo que teimámos esconder, disfarçar, iludir, corromper - ou apenas quando, sem cerimónia, nos entrou pela casa adentro e se instalou na miséria que a lamúria alimenta e o queixume mantém. mas lá que andamos todos retrógrados, disso não tenho uma dúvida! e não é fatalmente mau, sobretudo se estivermos a tomar balanço para, quando voltarmos, como Mercúrio, a estar directos, atinarmos com a rota que nos espera e que não é a direito, que o direito dá sempre para o torto e todos sabemos. quando entrarmos directos no dia novo - que pode ser um dia qualquer, sendo sempre o mais indicado e o mais propício o dia de hoje, pois só hoje e agora se pode realmente fazer o que há para fazer - descobriremos que o movimento é ascendente e circular ao mesmo tempo e que nos cura de dentro para fora, em vez de nos fazer continuar a sonhar que de fora virá o que há-de curar-nos por dentro.
pois é, quando entrarmos directos no dia novo e, bem acordados, esfregarmos os olhos e percebermos que sonhar só é útil se for com os olhos abertos, vamo-nos rir do tanto tempo que andámos retrógrados, quiça à espera que o mundo virasse, melhorasse, mudasse para nos dar outro alento, outro rumo, e sem perceber que rumo e alento é cada um que  os dá ao mundo, quando se propõe ser a mudança que quer ver nele.

o Presente



'para mim, Natal é sinónimo de mãe transtornada', disse-me a minha filha Francisca um destes dias. tentei argumentar que era mentira, mas ela não cedeu um mílimetro. 'ó mãe, pense lá bem nos últimos anos e diga lá se não ficou transtornada só de pensar que ia ser Natal?' estávamos dentro do carro, a voltar para casa, e do banco de trás os meus outros três filhos juntaram-se à primogénita e clamaram em coro: 'é, é, mãe, a mãe quando começa a ver que vai ser Natal fica muit'a stressada!'
não sei quando foi que o Natal me começou a transtornar e a stressar desta maneira, mas acabei por concordar que, pelo menos nos últimos cinco ou seis anos, foi em estado alterado de transtorno e de stress que o senti  a aproximar-se, que o passei e que a seguir vivi a ressaca. 
depois recuei e fui mais atrás, à minha infância, onde o Natal era a maior magia do ano, quando ia com os meus pais comprar um pinheiro e depois para casa enfeitá-lo e depois havia o presépio montado na estante da sala e depois a missa do galo na Capela do Rato, onde o Menino Jesus recuperava o pulsar e a forma do sangue e do corpo e deslizava por nós e, logo a seguir, a comunhão do encontro estendia-se à ceia em família onde, em vez do pão e do vinho, havia bolinhos e um chocolante espesso a ferver caindo nas chávenas. recuei à excitação e ao espanto de adivinhar o que se escondia por debaixo da árvore, disfarçado de embrulho com laços - uma boneca? um jogo? uns patins? - ao brilho nos olhos quando o presente, enfim, se revelava, ao almoço em casa dos meus avós e à algazarra dos primos, aos sonhos da Joaquina cobertos de açúcar numa grande taça de vidro, à minha tia Mimi aproveitando meticulosamente cada pedacinho do papel dos embrulhos e enrolando as fitas dos laços em novelinhos às cores.
saltei uns anos para a frente e vi-me com a Francisca, minúscula e única ainda, a ajudar-me a pendurar bolas vermelhas, maçãs e cerejas e a rir com as luzinhas que ora se acendiam ora  se apagavam, uns anos depois também com o Lucas e os quatro, quando éramos quatro, a ouvir canções de Natal que o pai entoava à guitarra, mais uns anos e com as mais pequeninas, quando éramos seis, a aparecer de pijama e com os olhos a saltar-lhes das órbitas, à porta da sala, quando viam a quantidade de embrulhos que se amontoavam debaixo da árvore, mais uns anos e lá me descobri, enfim, transtornada, stressada, a amaldiçoar a globalização das luzes nas ruas quando ainda só era Outubro - antigamente, eram quase um exclusivo da Baixa, onde a minha mãe me levava de eléctrico, a meio de Dezembro - a maldizer a comercialização de presépios chineses em plástico, a desdenhar da voracidade com que se esventram embrulhos e nenhuma tia para fazer novelinhos dos laços, a enjoar com os anúncios com musiquinhas de sinos que a toda a hora passam na rádio, a angustiar-me, no fundo, com o Natal transformado em pretexto, o Natal convertido em pano de fundo, o Natal reduzido à frase feita e feliz dos postais, o Natal usurpado pelo consumo...
pois foi, de repente - não sei dizer quando - o Natal passou mesmo a ser sinónimo de um grande transtorno, a ponto de nos últimos anos me ter dado vontade de fugir para longe e  de só regressar quando já tivesse passado, a ponto de ameaçar toda a gente, com um ar maldisposto, 'este ano não há Natal para ninguém, nem presentes, nem nada!'
felizmente, este ano, hoje, agora - mesmo com as luzes a pender pelas ruas e os sininhos  que tocam  a toda a hora na rádio e os pinheiros do chinês a piscar, a piscar, a piscar, não estou transtornada. nem sequer estou stressada. não ando feita maluca de um lado para o outro a calcorrear lojas e shoppings à procura de prendas, não antecipo a correria que será ir do jantar em casa da mãe para a ceia em casa da sogra, se há ou não há toilletes de jeito para as crianças estrearem, não quero nada que já não tenha nem vou dar nada que já não seja. a grande magia, não só do Natal mas de todos os dias do ano, afinal, é dar e receber de presente o Presente. sem laços nem fitas, desembrulhado para que todos o vejam tal como é a cada momento, esse grande e enorme e maravilhoso Presente que, a cada momento, vivemos. nesse Presente, não há transtorno possível: recebe-se no exacto momento em que é oferecido e nunca se esgota, nunca se esventra, nunca passa de moda e não custa dinheiro.

very very very slow - inventos de um evento



assim como quem não quer impingir nada, deixo aqui a sugestão. nos dias 18 e 19 de dezembro, no restaurante Arriba, no Guincho, um amplo espaço envidraçado com o mar a entrar por ele adentro, vai haver aquilo as que as organizadoras do evento chamaram de Arriba Moments.


estando o Natal quase a chegar, é de prever que haja presentes para comprar. mas como o melhor presente é sempre aquele em que vivemos, estes Moments vão servir, seguramente, para muitas coisas mais... mais não seja olhar o mar a entrar pelos vidros dentro, beber um chá, um café ou uma imperial, dar dois dedos de conversa, circular, rever alguém que não se vê há muito tempo, partilhar, cuscar, lanchar e, até, dar um mergulho na piscina, porque não?

eu vou lá estar. com uma 'banquinha' de mandalmas, numa roda que promete. nesses dias, os mapas têm um desconto para quem quiser encomendar as cores da alma. não há nunca dois iguais e nenhum espaço onde os possa ver de perto.
sei que também vai haver quem venda roupas e malas e cintos e colares e outras coisas. umas novas e outras em segunda mão, que passar de mão em mão, sejam as coisas, as palavras, os afectos, os momentos... é sempre bom, por tudo o que faz circular e é bom quando a vida anda redonda...
o convite fica feito e não se paga para entrar nem para espreitar nem para girar ali por dentro.





quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

fifty fifty


andamos todos empatados numa 'luta' de metades, provavelmente a ver quem ganha, como  se a vida fosse um jogo ao qual assistimos da 'bancada', ou simplesmente a rasgar mais fundo ainda a visão de um Ser único e inteiro, todo ele feito de amor. 
não sei desde quando é que nos mentem, mas desconfio que é desde sempre e que esta ideia de que somos divididos à nascença se infiltrou com tanta força em todos nós que nos custa a admitir que não há um lado bom e um lado mau, um lado certo e um lado errado, um lado luz e um lado sombra. é TUDO o mesmo lado, TUDO um só lado, TUDO a mesma coisa.
reza a nossa humanidade que o espírito, ao descer sobre a matéria, não só a anima, como cede e se ajusta à densidade e que desse cruzamento vêm todos os dilemas. e então tudo o que é de carne e osso vai servindo de desculpa e de pretexto, quando se trata de elevar a frequência, a consciência, a vibração do puro amor que TUDO é, que somos TODOS. 
a mentira da dualidade - que nos contam desde sempre - virou verdade e álibi para os nossos actos. mesmo sabendo que é mentira, facilita-nos a vida transformá-la na verdade. facilita-nos a vida alegar 'não chego lá', argumentar 'não sou capaz', dizer 'não estou disposto', inventar 'hoje não consigo'. facilita-nos a vida o fifty fifty, esta divisão em dois, permitindo que as metades sejam cúmplices e que uma desculpe a outra.
e assim andamos todos, empatados e empatando a vida toda, à proporção de um fifty fifty que perpetua a ilusão desta existência de metades e que até faz com que nos pareça justa, de tão bem equilibrada, e à qual ninguém pode escapar, enquanto por aqui andar, com o corpo às costas... de um lado o lado 'bom', do outro o lado 'mau', e nós próprios dividindo a nossa essência, como se fosse divisível, entre o que é luz e o que é de sombra, entre o que é 'certo' e o que é 'errado', entre o peso e a leveza, entre o espírito e a matéria, entre o desejo de acordar  para um dia único e a vontade de ir dormir, todas as noites, a ouvir mitos e lendas...  nós - todos! - pactuando na mentira, talvez na maior de todas, de que há  uma escolha para fazer entre um e outro. mas entre um e outro quê se é tudo o mesmo? se é tudo cem por cento e não há nada dividido? é tudo INTEIRO e ÚNICO, tudo AMOR e tudo AGORA.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

relationships status

é assim um bocadinho à laia de restaurante. pede-se a lista e tem lá uma série de hipóteses e consoante o apetite, a carteira ou outra coisa qualquer escolhe-se o 'prato'. mesmo tendo em consideração que podem sempre existir imprevistos, é pouco provável escolher um bife e aparecer um peixe grelhado, ou pedir uma lasanha e ser-se presenteado com um bacalhau à moda da casa. e por isso é tão útil, às vezes, chamarmos nomes às coisas e saber que os nomes das coisas se referem às próprias coisas e não a outras coisas, às quais chamamos nomes diferentes. mesmo assim, pode sempre acontecer pedirmos um bife e vir um bife - porque bife é sempre o nome que chamamos à coisa bife - e ele não ser, afinal, o 'nosso' bife, ou seja, o nome bife não corresponder à 'coisa' que imaginámos como sendo um bife. fácil de perceber que, se imaginamos um bife do lombo tenro e suculento e nos aparece um bitoque mais tipo sola de sapato nervoso, ficamos perante o dilema de, afinal, o mesmo nome servir para duas coisas completamente diferentes, mesmo que as duas se chamem 'bife'.

ontem, ali às voltas no FakeBook, diverti-me a mudar o relationship status uma data de vezes, nem sequer para constatar que, seja nas relações, seja nos restaurantes, seja noutro contexto qualquer, o facto de existirem 'listas' não nos garante que os nomes que chamamos às coisas correspondam, de facto, às coisas a que chamamos os nomes. ou, então, os nomes trazem atrás tantas crenças - e muitas tão infundadas - que, quando os aplicamos às coisas, todas elas ficam aquém  ou para além do que julgamos estar a chamar-lhes.
a verdade é que, ao darmos nomes às coisas, 'colamos-lhes' uma série de outras palavras, de outras permissas, de outros conceitos e preconceitos - e de sei lá mais o quê! - que, achamos, fazem parte da mesma 'família'. 'casamento', por exemplo,  pode ser da mesma família de 'fidelidade'. ou de 'felicidade'. ou de 'família'. ou de milhares de outras coisas. e, tal como na história dos bifes, se 'pedimos'  ou imaginamos um casamento porque é da família da felicidade e nos calha, afinal, uma desgraçeira de uma infelicidade... sentimo-nos atraiçoados por tudo o que esse nome não trouxe para dentro da nossa 'coisa' - neste caso, do nosso casamento.
 
isto tudo, então, para concluir que é um despropósito esta coisa dos status, das listas, das crenças, dos conceitos e preconceitos, das definições de que nos vamos munindo, como se clarificassem as coisas. de certa forma, descubro que, quanto mais palavras usamos, mais dificilmente conseguimos ser livres - o que não abona nada em favor de uma escritora, pois é...  mas se 'no princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e no princípio ele estava com Deus', agora ele anda na boca dos homens e traz tanta coisa atrelada que depurar o sentido original desse verbo que estava com Deus se tornou praticamente impossível. e então chamamos às coisas nomes que elas são mas não são e os mesmos nomes servem para milhares de coisas diferentes e assim há-de continuar a ser, até ao dia em que o Verbo volte a ser Deus - e que se calhar não é mais do que todos falarmos, de novo, a língua comum do Amor.
 
(e se calhar ficou um bocado confuso, mas hoje apetece-me assim...)

o meu avô Henrique

que se apagou como, um dia, eu gostaria de apagar-me, aos noventa e quase sete anos de vida, durante a sesta a meio do Verão, protegido pelo crepúsculo das cortinas, na sua casa de Pedrouços, era Balança como eu e um homem muito bom e muito sério. lembrei-me hoje dele nem sei porquê, ou talvez saiba e seja por várias razões: porque era bom, porque era sério, porque chamava Luisinha à minha avó, porque deu um contributo inestimável à nação ao presidir à Assembleia Constituinte, em 1976, porque entalava o guardanapo no colarinho da camisa, à moda antiga, porque era anti-fascista, porque me punha na ordem sem me levantar a voz, porque era justo e generoso e corajoso e porque se apagou assim, sem alarido ou espalhafato e como um dia também eu gostaria de apagar-me, durante a sesta a meio do Verão, protegida pelo crepúsculo das cortinas, na minha infância de Pedrouços. 

não fui ao funeral, mas despedi-me dele a rir, imaginando a surpresa que não foi quando viu a Luisinha, minha avó, à sua espera e descobriu que afinal havia céu, ou outra coisa que lhe chamem, e que a vida era infinita. para o meu avô Henrique, a vida era pragmática e acabava-se no dia em que o coração paráva e foi por isso que me ri, porque ouvi, nitidamente, o seu coração aos pulos quando viu a Luisinha, minha avó, a abrir-lhe os braços e a chamá-lo, também ela, pelo seu diminutivo e a dizer-lhe
 ó Henriquinho, ainda bem que já cá está
e a irem de mãos dadas pelo céu fora, ou outra coisa que lhe chamem, descobrindo as maravilhas que a eternidade nos reserva.  

muito antes disso, no entanto, o meu avô percorreu muita terra e muito campo, ou não tivesse ele sido Engenheiro Agrónomo, professor de Economia Rural no Instituto Superior de Agronomia e autor de inúmeros estudos sobre Economia Agrária. é verdade que eram coisas que, na altura, sendo eu uma miúda, me diziam quase nada. para mim, o seu profundo amor à terra manifestava-se na forma como podava os xuxus, empoleirado num escadote, como colhia as tangerinas, as ameixas, as pêras ou os limões do jardim lá de Pedrouços e a ele devo as incursões pelas matas do Buçaco, onde sabia e me ensinava o nome de cada árvore, assim como o 'meu' quinhão de campo e a casa de Fiais. 

também a sua faceta de político, naquela altura, me escapava. quando Abril saiu à rua de cravos enfiados nas espingardas, eu estava em casa dele, mas não soube alcançar aquele brilho de alegria nos seus olhos e só muito mais tarde comprovei que era o brilho do sabor da liberdade. assim como só muito mais tarde dei valor ao seu papel de Presidente da Assembleia Constituinte, embora tenha estado presente no dia em que tomou posse e me lembre de ver as minhas tias muito aflitas porque alguém me tinha dado uns rebuçados que eu engolia de enfiada e que - achavam elas - me iam fazer mal à barriga.
hoje, perante a corja que tomou conta da política, dou ainda mais valor à sua enorme integridade e à vida simples que levava, mesmo enquanto foi ministro. as mordomias desse tempo resumiam-se a ter um polícia à porta - a quem as minhas tias levavam pratinhos de sopa e de arroz doce - e um camarote no S. Carlos - onde eu e a minha prima E., cansadas dos gritos estrídulos das óperas a que nos levavam, dormíamos no chão, enroladas nos visons da tia Maria Antónia. 
também me lembro de ter ido com ele e com a Luisinha, minha avó, votar nas primeiras eleições e de o Henriquinho, meu avô diminutivo sempre que o seu nome saía amorosamente da boca da minha avó, ficar muito aflito porque eu e a minha prima E. tínhamos levado umas bandeirinhas com as siglas I.E.V., que abanávamos furiosamente mesmo à boca das urnas. I.E.V queria dizer 'Inteiro Esculeguinhas Valentinhas'. 'Inteiro' porque ambas tínhamos jurado não pertencer nunca a um partido, 'Esculeguinhas' porque é assim que nos tratamos, desde que somos pequenas, e 'Valentinhas' porque sim. mas o meu avô Henrique, mesmo sendo o I.E.V brincadeira de crianças, estava aflito com a ideia de eu e a minha prima E. estarmos a fazer propaganda ilegalmente... e confiscou as bandeirinhas e pediu à Luisinha, nossa avó, que nos levasse dali.

pois foi, lembrei-me deste avô que acompanhei até ser muito velhinho e que hoje me apeteceu trazer aqui para dentro... por nada de especial ou, simplesmente, por tudo isto que escrevi acerca dele e que afinal foi tão pouco para tudo aquilo que foi e fez, mas sobretudo pela surpresa, quando morreu sem espalhafato ou alarido, protegido pela sesta e pelo crepúsculo das cortinas e vislumbrou a Luisinha, minha avó, à sua espera e a dizer-lhe
  ó Henriquinho, ainda bem que já cá está
e acho então que foi por isso e porque era, realmente, um homem bom.

sábado, 4 de dezembro de 2010

orgasmos

nada de sexo, apenas puro prazer. seja ele qual for, porque for, como for, onde for. dizem-nos muitas coisas e nós acreditamos. há anos e anos e anos que nos vão contando as mentiras mais extraordinárias, e nós acreditamos. acreditamos, por exemplo, que se o título de um texto é 'orgasmos' é porque o texto versa sobre sexo. acreditamos que as coisas são o que parecem. acreditamos que chamamos nomes às coisas para as coisas serem aquilo que lhes chamamos... blá blá blá, pois é :)
eu chamo 'orgasmos' a um texto e imagino a quantidade de gente que não virá abri-lo à espera de encontrar gemidos ou suspiros ou posições do kama sutra ou, até, confissões sobre o que faço ou deixo de fazer. na cama? pois, eu 'imagino' e, também aqui, pactuo nessa mentira de achar que o que imagino de alguma forma corresponde ao que é real. não sei se é. ou se não é. orgasmos, neste momento, neste texto, neste agora, são as bisnagas dos meus óleos saindo em jacto sobre as telas. suspiros, sim, de encarnados e laranjas e verdes e azuis e amarelos, cores espessas derramando em fundo negro esse dom de iluminar a escuridão e depois pegar em pedras e em missangas e em conchas e em paus e em arame e polvilhar a mandala a bel prazer. por puro prazer... a 'coisa' a acontecer vinda de dentro, sem planos para além daquilo que está a ser. criar sem querer. crer por crer. sentir prazer. sentir-me bem, esse tem sido o milagre a cada dia mais presente e mais constante. ser, a cada instante, aquilo que sou e nada mais. e ter prazer, quando as coisas são redondas e a espiral vai ascendendo e eu subo no balanço. quando as coisas são redondas, não há o risco de empancarmos numa esquina. de nos dobrarmos, comprimidos, de nos partirmos, de nos perdermos no que já foi ou no que poderá um dia vir a ser...
orgasmos, sim. de cada vez que sou inteira a fazer seja o que for. nem sequer só por prazer, mas puro amor, num agora cada vez mais recorrente, cada vez mais consciente de que só existo agora e de que só agora posso ser aquilo que sou. e blá blá blá e então chega de conversa e vou ali espremer mais umas cores porque é tão bom :)

blá blá blah


bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blah... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blah bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blá! bláblá blá. blá blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. blah! bláblá blah. blah blá blá babablá babalá. blá! blá bláblá. babablá báblá? blá blá blá, báblá bablá. blá, blá, blá, blá... bablá bablá blá blá. blá bablá blá blá blá báblá báblá blá blá blá, báblá báblá. bláhhhhhh!