'para mim, Natal é sinónimo de mãe transtornada', disse-me a minha filha Francisca um destes dias. tentei argumentar que era mentira, mas ela não cedeu um mílimetro. 'ó mãe, pense lá bem nos últimos anos e diga lá se não ficou transtornada só de pensar que ia ser Natal?' estávamos dentro do carro, a voltar para casa, e do banco de trás os meus outros três filhos juntaram-se à primogénita e clamaram em coro: 'é, é, mãe, a mãe quando começa a ver que vai ser Natal fica muit'a stressada!'
não sei quando foi que o Natal me começou a transtornar e a stressar desta maneira, mas acabei por concordar que, pelo menos nos últimos cinco ou seis anos, foi em estado alterado de transtorno e de stress que o senti a aproximar-se, que o passei e que a seguir vivi a ressaca.
depois recuei e fui mais atrás, à minha infância, onde o Natal era a maior magia do ano, quando ia com os meus pais comprar um pinheiro e depois para casa enfeitá-lo e depois havia o presépio montado na estante da sala e depois a missa do galo na Capela do Rato, onde o Menino Jesus recuperava o pulsar e a forma do sangue e do corpo e deslizava por nós e, logo a seguir, a comunhão do encontro estendia-se à ceia em família onde, em vez do pão e do vinho, havia bolinhos e um chocolante espesso a ferver caindo nas chávenas. recuei à excitação e ao espanto de adivinhar o que se escondia por debaixo da árvore, disfarçado de embrulho com laços - uma boneca? um jogo? uns patins? - ao brilho nos olhos quando o presente, enfim, se revelava, ao almoço em casa dos meus avós e à algazarra dos primos, aos sonhos da Joaquina cobertos de açúcar numa grande taça de vidro, à minha tia Mimi aproveitando meticulosamente cada pedacinho do papel dos embrulhos e enrolando as fitas dos laços em novelinhos às cores.
saltei uns anos para a frente e vi-me com a Francisca, minúscula e única ainda, a ajudar-me a pendurar bolas vermelhas, maçãs e cerejas e a rir com as luzinhas que ora se acendiam ora se apagavam, uns anos depois também com o Lucas e os quatro, quando éramos quatro, a ouvir canções de Natal que o pai entoava à guitarra, mais uns anos e com as mais pequeninas, quando éramos seis, a aparecer de pijama e com os olhos a saltar-lhes das órbitas, à porta da sala, quando viam a quantidade de embrulhos que se amontoavam debaixo da árvore, mais uns anos e lá me descobri, enfim, transtornada, stressada, a amaldiçoar a globalização das luzes nas ruas quando ainda só era Outubro - antigamente, eram quase um exclusivo da Baixa, onde a minha mãe me levava de eléctrico, a meio de Dezembro - a maldizer a comercialização de presépios chineses em plástico, a desdenhar da voracidade com que se esventram embrulhos e nenhuma tia para fazer novelinhos dos laços, a enjoar com os anúncios com musiquinhas de sinos que a toda a hora passam na rádio, a angustiar-me, no fundo, com o Natal transformado em pretexto, o Natal convertido em pano de fundo, o Natal reduzido à frase feita e feliz dos postais, o Natal usurpado pelo consumo...
pois foi, de repente - não sei dizer quando - o Natal passou mesmo a ser sinónimo de um grande transtorno, a ponto de nos últimos anos me ter dado vontade de fugir para longe e de só regressar quando já tivesse passado, a ponto de ameaçar toda a gente, com um ar maldisposto, 'este ano não há Natal para ninguém, nem presentes, nem nada!'
felizmente, este ano, hoje, agora - mesmo com as luzes a pender pelas ruas e os sininhos que tocam a toda a hora na rádio e os pinheiros do chinês a piscar, a piscar, a piscar, não estou transtornada. nem sequer estou stressada. não ando feita maluca de um lado para o outro a calcorrear lojas e shoppings à procura de prendas, não antecipo a correria que será ir do jantar em casa da mãe para a ceia em casa da sogra, se há ou não há toilletes de jeito para as crianças estrearem, não quero nada que já não tenha nem vou dar nada que já não seja. a grande magia, não só do Natal mas de todos os dias do ano, afinal, é dar e receber de presente o Presente. sem laços nem fitas, desembrulhado para que todos o vejam tal como é a cada momento, esse grande e enorme e maravilhoso Presente que, a cada momento, vivemos. nesse Presente, não há transtorno possível: recebe-se no exacto momento em que é oferecido e nunca se esgota, nunca se esventra, nunca passa de moda e não custa dinheiro.



























