a acreditar no diccionário, 'desapego' é indiferença, é desinteresse, é desamor, é abandono. mas então porque será que tanta gente apregoa e enaltece o desapego, como condição sine qua non para acabarmos com os dilemas, com as angústias, com as sensações de posse e de controlo, com o sofrimento? como é que se pratica o desapego sem cair na indiferença? sem cultivar o desinteresse? sem regredir ao desamor? sem votar nenhum ser ao abandono? ou a definição no diccionário não está certa e 'desapego' é outra coisa, ou andamos, simplesmente, a negar a nossa essência. qualquer árvore, para crescer, tem de se apegar à terra, pois é lá que se enraíza. o que seria se uma árvore, possuída pela nossa humanidade, decidisse que o seu apego à terra, afinal, era perverso?... como seria se, possuídos pelo espírito das árvores, nos permitíssemos apenas crescer como elas crescem? enraízarmo-nos na terra, sem indiferença pelo sol, sem desinteresse pela chuva, sem desamor por quem se abraça ao nosso tronco ou vem colher dos nossos frutos, sem abandonar a esperança de um dia tocar no céu e co-criando a existência juntamente com o todo? como será se o 'desapego', num diccionário equivocado de emoções, nos criar essa ilusão de 'independência' e nos 'desconectar' do todo?...
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
encontros imediatos
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foi na sexta-feira passada, na Fnac Chiado, depois da tal apresentação da sétima edição do meu livro. 'esgotados' os discursos na mesa, a palavra passou para a assistência. a M., que 'conheci' através do FB, e que 'perdeu' uma filha, partilhou o seu testemunho. a sala não estava cheia, mas estava composta, e logo a seguir ao testemunho da M., um senhor que estava de pé, encostado à parede, com uma das lentes dos óculos partida, pediu o microfone e disse qualquer coisa parecida com isto, em sotaque brasileiro: 'é uma pena que aqui na Terra ainda existam tantos sonâmbulos. se as pessoas estivessem mais acordadas, há muito que já teriam percebido que não há morte coisa nenhuma! mas não, anda tudo a dormir, tudo a sofrer, todo o mundo a chorar pelos cantos porque perderam este e aquele... talvez o que eu esteja a dizer ainda soe estranho a alguns, afinal não sei quantos sonâmbulos estarão aqui hoje, mas podem ter a certeza que anda todo o mundo enganado... o que é precisamente o que 'eles' querem... porque é através do medo e do sofrimento que 'eles' nos manipulam... se quiserem saber mais coisas, posso contar-vos, para já vou calar-me, para não ferir susceptibilidades... mas está na hora de acordar, minha gente, e de entender que sempre fomos e sempre seremos e que não existe morte nenhuma...'
quando acabou de falar, perguntei-lhe como se chamava e agradeci-lhe estar 'acordado', no meio de tantos sonâmbulos, e que o título do livro de que ali se falava era isso mesmo: morrer é só não ser visto e a vida é só uma, ainda que em diferentes 'estádios'. a sessão acabou, fiquei ainda na mesa a assinar alguns livros, mas vi que à volta do senhor que tinha falado se juntavam pessoas. um 'acordado' desperta sempre o interesse!... juntei-me, então, à conversa e ali ficámos, não sei dizer quanto tempo, a ouvi-lo. tinha graça, ainda por cima, explicando que a lente quebrada dos óculos era precisamente um 'castigo' por andar por aí a contar o que 'eles' não querem que venha a público. 'mas afinal quem são 'eles'?', perguntei. olhou-me, sorrindo, e respondeu-me: 'isso era papo que não acabava...'
estava com uma amiga minha e segredei-lhe 'e que tal se convidássemos este ET para jantar?', ao que ela me respondeu 'estava a pensar exactamente no mesmo!' e então formulei o convite em voz alta: 'não quer vir jantar connosco?', a acrescentei 'se tiver tempo, é claro...' 'tempo?' perguntou ele, 'menina, eu tenho a eternidade!'
e lá fomos os três, 'aterrar' numa esplanada ao ar livre, numa noite que não parecia ser de Novembro, e com um apetitoso menu tailandês. é claro que o ET tinha nome, mas não vou revelá-lo, pois não sei até que ponto gostaria que eu o fizesse. mas a conversa foi séria e não me pareceu que estivesse a 'gozar' ou que fosse apenas um doido, a dissertar sobre seres intergalácticos, sobre a ascensão do planeta, sobre vidas passadas, sobre a maravilha que é estarmos, de facto, todos ligados, sobre o que está a acontecer por aí neste preciso momento e... sobre 'eles'.
'mas quem são 'eles'?' foi a pergunta que lhe fiz muitas vezes e à qual ele respondeu outras tantas. 'eles' são todos os que não vibram na frequência do amor, são os que se aproveitam dos nossos medos e das nossas sombras para atrasar a ascensão do planeta, são os que se infiltram em nós de cada vez que temos 'maus' pensamentos. 'você acha que tem privacidade?' perguntou o ET a certa altura. 'mas é que não tem mesmo... nem quando está sozinha a pensar você tem privacidade... o universo escuta tudo o que você pensa e te devolve isso mesmo... parece injusto dizer para alguém que caiu num buraco que só caiu porque pediu... mas é assim mesmo que isso funciona!'
a conversa continuou por ali fora, até altas horas da noite. percebemos que o ET está ligado à astronomia e a muitos outros assuntos sobre os quais não pode falar, e que, além disso, é um melómano que também faz crítica de música para um jornal de grande tiragem. antes de nos despedirmos, convidou-nos para o acompanhar, no dia seguinte, a um concerto. mas nem eu nem a minha amiga podíamos. ficou, então, combinado, para um dia ainda sem data, um encontro com extra-terrestres. 'as pessoas acham que isso de OVNI é coisa inventada... mas eles andam aí e cada vez se mostram mais... um dia eu levo vocês, combinado? até lá, fiquem tranquilas, fiquem em paz... estar tranquilo é a única forma de 'eles' não nos conseguirem pegar...'
para quem quiser saber mais, o ET deixou um link. quem estiver interessado, pode espreitar. eu cá gostei do que ouvi, gostei do ET e da perspectiva de em breve poder vir a ter outro 'encontro imediato'.
sábado, 13 de novembro de 2010
o pior piora, o melhor melhora
e a espiral é só uma
por ela abaixo tocamos na sombra
por ela acima tocamos na Luz
e a cada minuto podemos escolher a direcção que tomamos.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
saber dizer: sim ♥
sim, é verdade, eu não sei nada, nem quando digo que sei muitas coisas. erro e aprendo, sofro e tropeço, armo-me em forte, descubro-me frágil, desfaço-me em lágrimas, escangalho-me a rir, hesito, repito, conquisto, insisto e existo e todos os dias estou viva para recomeçar tudo de novo. sim, 'precisar' é um verbo que a mente conjuga, mas que a alma não usa quando aprende a aceitar que vive dentro de um corpo magoado, mas que também isso há-de passar à medida que for aprendendo a curar-se. sim, a humanidade atrapalha-nos muito quando a usamos como uma barreira e fechamos os braços com medo de que venham roubar-nos, trair-nos, mentir-nos ou pedir-nos coisas que achamos ter o direito de recusar - ou, simplesmente, que não queremos nem temos para dar. sim, ando a aprender a casar-me comigo e a jurar-me fidelidade e só é justo o que for o melhor para mim. sim, ter expectativas faz parte, ter sonhos faz parte, faz parte ter ilusões e desilusões, só tomando o todo pelas partes seremos capazes de ir pondo de parte tudo aquilo que não nos faz falta, para esse todo que somos. sim, o amor é semente, planta-se e cresce, monda-se e vinga, rega-se e faz-se maior a ponto de nos transformar no seu próprio fruto. sim, temos padrões, temos traumas, vícios, heranças, temos debaixo da cama muitos fantasmas que nos assustam, temos feridas abertas, temos capacidade de cura. sim, somos aquilo que escolhemos a cada minuto, ontem já era, amanhã não sabemos. sim, é tudo tão duro e tão dócil, tudo tão simples e tão complicado, tudo tão bom e tão mau, tudo tão rápido e tão demorado, tudo tão luminoso e tão denso e tudo É: direito e avesso. sim, somos elos de uma mesma cadeia, não viemos sozinhos trilhar os caminhos da Terra, somos um e o mesmo, cada um seguindo o seu trilho a caminho de casa. sim, queremos todos a mesma verdade e todos contamos as mesmas mentiras. sim, estou aqui para dizer sim à vida e a tudo o que sou e, sim, dizer sim é, muitas vezes, saber dizer não.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
da sabedoria do Tao, numa tirada aleatória *
'como regente da sua própria vida, o sábio declara: pratico o não-agir e o povo cuida de si próprio; não canso o povo nem esgoto os tesouros e o povo enriquece por si mesmo; opto pela tranquilidade e o povo corrige-se a si mesmo; liberto-me de todo o desejo e o povo retorna à simplicidade; liberto-me das emoções e o povo torna-se puro por si mesmo.'
* obrigada.
domingo, 7 de novembro de 2010
fnac chiado, 12 de novembro, 18h30
com a 7ª edição nas bancas e mais de 25 mil exemplares vendidos, os que vêem e são vistos juntam-se para falar do que não são vistos, mas continuam a ver-nos.
na mesa vão estar, além de mim, dois psicólogos para abordar o tema do luto. na assistência, fica feito o convite a todos e todas que, tendo ou não lido o livro, queiram vir partilhar experiências e testemunhos ou, simplesmente, prefiram ficar a ouvir, em silêncio.
até lá, deixo-vos, sobretudo aos que ainda não leram o livro, com algumas palavras de quem lhe deu voz e com a fé de que morrer é não ser visto...
'Quase doze anos depois daquele acidente terrível, o que posso dizer é que valeu a pena ter escolhido viver. Valeu completamente a pena! Nunca poderei saber como teria sido a minha vida se a minha família não tivesse morrido. Mas, se eu tivesse morrido também, era uma pena não ter continuado a ter estas experiências, sobretudo a dar e a receber dos outros tudo o que tenho dado e recebido ao longo dos anos. É claro que ainda me lembro, ainda hoje me comovo e tenho muitas saudades. Mas também há muitas coisas que já arrumei. O que não significa que não me lembre da dor, do sofrimento, do desespero... Mas já não é disso que me alimento (...) Quando estive no hospital de Santana, houve uma irmã que me disse uma coisa que jamais esquecerei e que foi o seguinte: “Maria, tu és católica e acreditas em Deus. Então, lembra-te disto. As pessoas que são íntimas são aquelas a quem nós pedimos favores. Foi por seres íntima de Deus que Ele te pediu para que ficasses e servisses de testemunha. Tu foste, de facto, uma vítima de circunstâncias terrenas muito difíceis, mas és também uma pessoa especial para Deus. Permitiste que Deus se servisse de ti para ajudares os outros, para que os outros olhem para ti e vejam como é possível andar com a vida para a frente depois de uma tragédia tão grande.'
Maria Monteiro, 48 anos
'A morte, para mim, sempre foi uma coisa muito natural. A ponto de acreditar que a vida era quase um interregno. Vínhamos cá passar uns tempos, vivíamos o melhor que podíamos e sabíamos, e íamo-nos embora outra vez... E eu achava que, quando nos íamos embora, podíamos continuar a tomar conta dos que cá ficavam. Podíamos interceder por eles, ajudá-los... Mas agora o silêncio é tão grande que eu já não tenho a certeza de nada. Já não sei se isso é verdade.Às vezes, oiço barulhos de noite e... queria tanto que fosse ele! Mas não é! Ou é o gato, ou é uma porta que bate, ou o vento... Nunca é ele. Nós tínhamos combinado que o primeiro a morrer voltaria para contar ao outro como era... E, afinal, ele não veio. Talvez seja muito cedo, talvez seja ainda muito cedo... Ainda só se passaram sete meses. E também não sei que tipo de sinais é que eu quero. Talvez esteja à espera de coisas físicas e os sinais não passem por aí, por coisas físicas. Talvez tenha de procurar outro tipo de sinais, não é?'
Rosa Lobato de Faria, 76 anos
'Para mim, a morte é apenas uma coisa física, porque as pessoas não se vão embora. Ou seja, o corpo delas desaparece, mas aquilo que elas são permanece, há uma energia que fica. Mas acreditar nisso não impede que não sintamos a ausência física de uma pessoa e, em casa, foi muito complicado. Éramos cinco e ficámos quatro. Dei por mim muitas vezes a pôr cinco lugares da mesa, inconscientemente... Sempre falámos dele. Continuámos a falar sempre dele, das parvoíces que ele fazia... Era um miúdo muito engraçado, cheio de vida! Há pessoas que mergulham de tal forma no luto que não querem sequer falar de quem morreu. Ou que não tocam nas coisas, como se assim pudessem preservar a presença de quem já cá não está. Nós não. Continuámos sempre a falar dele, mudámos o quarto, guardámos apenas alguns desenhos e demos as suas roupas. (...)
Se não tivesse passado pela morte do meu irmão, não sei de que forma teria sido capaz de passar pela morte de uma das minhas maiores amigas. Não teria seguramente reagido como reagi. Éramos muito, muito amigas! E conforta-me sentir que não deixei nada por dizer, nunca deixei de fazer nada por ela. Falámos muitas vezes da morte, até por causa da história do meu irmão. E ela dizia-me sempre: “Eu sou imortal! Eu tenho oitocentos e quarenta anos, já ando aqui há muito, muito tempo!” Dizia: “Quando eu morrer, quero que façam uma festa enorme, não quero que ninguém chore por mim. Não faz sentido nenhum as pessoas chorarem por alguém que morreu. Por isso, se eu morrer, celebrem a minha vida, em vez de chorarem a minha morte.”(...)
Seja como for, não tenho uma dúvida de que tudo isto fazia parte do meu caminho. Não perdi o Pedro por acaso, não perdi a Samanta por acaso. Pelo contrário, as suas mortes foram completamente planeadas pelos deuses. E ambas fazem sentido, ou não teriam nunca acontecido...'
Joana Cruz, 26 anos
'Tenho a certeza que, do espaço onde está, a Ana pode ver – e vê – a Catarina. Tenho a certeza disso... O horror é não poder interferir. Ela não pode interferir. Mesmo assim, tenho momentos em que estou quase a ceder em vestir à Camila aquilo que sei que a Ana gostaria que ela vestisse... E tenho reacções do género: “Não me chateeis muito, senão ponho-lhe o fato de treino jamaicano...” Ainda há pouco tempo estive em Porto Santo com a Catarina. E houve um dia em que estive na praia com ela do meio dia às seis e meia da tarde. Dentro de uma tenda que comprei, anti raios UV, com um guarda-sol e por cima e, ainda, um daqueles chapéus de palhinha... E senti o insulto da Ana, o seu olhar crítico. Mas não cedi um milímetro. Por isso, imagino o horror com que ela vê, sem poder interferir... Ou melhor, não consigo imaginar... Sempre fomos os dois muito senhores dos seus narizes. Normalmente, quando eu cedia, era porque não tinha mais paciência para aturá-la. Íamos, seguramente, chegar a momentos da nossa vida que seriam muito complicados. A Catarina ia ser uma gestão complicadíssima... E é tão assumido que não tenho a quem pedir opinião que sinto estas coisas todas, como se a Ana estivesse a ver-nos. Mas, aqui em baixo, na Terra, a vida continua... Por isso, se me apetece pôr meias de cores diferentes à Catarina, nem penso duas vezes... Mesmo sabendo que a Ana não só nunca o faria, como nunca me deixaria fazê-lo.'
Rodrigo Cunha, 47 anos
'É importante que as pessoas percebam que o tempo, por si só, não faz maravilhas! É necessário admitir que, de um momento para o outro, ficámos sem chão e que precisamos de ajuda. E aceitar toda e qualquer ajuda que nos ofereçam. Houve uma altura em que as pessoas me mandavam roupa. Eu, felizmente, não tenho dificuldades financeiras... Mas adorava! Achava o máximo! Um dia, uma amiga minha disse-me: “As pessoas mandam-te roupa?! São malucas! Tu não precisas de roupa!” (Por acaso, até precisava. Porque tinha emagrecido muito, estava a usar dois números abaixo e nada me servia...) Mas a minha amiga achava aquilo ofensivo. Eu, pelo contrário, achava o máximo! Como é que eu me podia ofender com o facto de as pessoas me quererem ajudar? Quando via o saco chegar e pensava na maluquice das vidas que toda a gente tem hoje em dia e que, mesmo assim, alguém se tinha lembrado de pôr umas coisas de lado... achava o máximo! Penso que é esta abertura que deixa que as coisas venham ter connosco. Nós é que, às vezes, nos achamos muito auto-suficientes. Ou já nascemos ligados e conectados com qualquer coisa maior, e talvez haja pessoas assim, como Jesus Cristo, ou então há sempre uma grande solidão, uma perplexidade perante a vida, uma busca sem fim. Há uma solidão chata no ser humano. É preciso ultrapassar muitas cascas para realizar que nunca estamos sozinhos, mas o processo não é nada fácil. A morte do Pedro, de alguma forma, abanou as minhas estruturas, fez com que eu começasse a descascar-me. Não sei se teria sido capaz de o fazer sem esta perda, sem esta tristeza profunda, sem esta dor gigantesca.'
Matilde Morais, 42 anos
avesso
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sábado, 6 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
'il faut cultiver notre jardin'
foi no tal dia da conólostopia. estava de rastos e não era só do jejum, mas de outros vazios a roer-me as entranhas. estava em casa da minha mãe quando a minha irmã, cansada de tanto ranho e de tantas lágrimas, me deu um forte abanão e me chamou a atenção para a Maggie Doyne. 'olha mas é para isto', disse ela, abrindo-me a sua página do FB. 'uma miúda de 23 anos, americana, com uma obra espectacular no Nepal! é a minha heroína!'confesso: no estado em que estava, eu quis lá saber quem era ou quem deixava de ser a boa da Maggie Doyne! por mais grandiosa que seja a obra dos outros, quando o vaziozinho nos rói as entranhas e nos enche daquela auto-comiseração indegesta, parece que somos como naquela frase do Herman Hess: 'em dias de nevoeiro, as árvores não se reconhecem'.
assim fiquei eu, irreconhecendo que só podia ser nevoeiro aquilo que inchava os meus olhos e me fazia sentir a mais infeliz das criaturas à face da Terra, indiferente aos meus semelhantes, achando talvez que pertenciam à espécie das 'aves raras'. pelo sim pelo não, carreguei no 'like' da página da Maggie Doyne, que assim entrou no meu universo do FB.
hoje voltei lá. à Maggie Doyne... e por lá fiquei durante toda esta tarde de sol. passei pelo seu blogue, li uma entrevista que deu, vi um filme em que se apresenta, a si e à sua obra. vale mesmo a pena seguirem os links. no entanto, e para os mais preguiçosos, aqui fica um pequeno resumo da história: depois de acabar o liceu, e antes de ingressar na faculdade, Maggie resolveu tirar um ano para viajar. partiu para o Nepal de mochila às costas e nunca mais voltou aos Estados Unidos. de lá, escreveu aos pais a pedir que lhe mandassem as suas poupanças e construíu a 'Kopila Valley Children's Home', onde hoje acolhe, alimenta, ama e educa trinta crianças órfãs.
em dias de sol, ao contrário do que acontece nos dias de nevoeiro, reconhecemos que todos fazemos parte da grande família humana. e comovemo-nos perante exemplos tão generosos da nossa raça, perante pessoas que nos garantem que, em termos de afectos, não estamos falidos e que a disponibilidade, a entrega e o amor fazem, de facto, milagres. por outro lado, corremos o risco de subestimarmos as nossas capacidades - e os nossos dons - e de nos amarfanharmos perante as Maggies Doyne do mundo - é o tal vaziozinho a roer as entranhas, a tal auto-comiseração, essa fatalidade do nosso egozinho carente, mas poderosíssimo, que, perante os apelos da nossa alma, se finge de surdo e se serve de toda e qualquer desculpa para não fazer sempre mais e melhor por si próprio, pelos seus semelhantes e pela grande família - humana e não só.
não, isto não significa que desatemos todos a pegar nas mochilas e a rumar ao Nepal para construir orfanatos! mas significa, como dizia Voltaire, que cada um tem de cultivar o seu jardim. ou, como diz um amigo meu, 'se cada um for responsável pelo seu quintal, já não é nada mau.'
o grande drama desta nossa família é o tal nevoeiro. o grande obstáculo é que muitos não querem tratar do quintal, mas deixar que o minem as ervas daninhas. o grande senão é quando se opta por cobiçar o quintal da vizinha, porque dá figos, nêsperas, ameixas, enquanto o nosso só dá laranjas. o grande equívoco é não percebermos que todos somos sementes de algum canteiro nesse mundo, de uma pequena erva que seja que, posta a crescer, pode um dia virar um quintal e na estação seguinte um jardim e por aí fora, até o mundo estar semeado de amor e todos gostando de partilhar as colheitas.
utopias? talvez. mas antes 'sofrer' de uma utopia do que de miopia. miopia é, precisamente, o tal nevoeiro que impede as árvores de se reconhecerem. é recusar o dom que todos temos - eu acredito que sim - e fingir que em nós não existe semente de nada. seja qual for o fruto que dá - orfanatos, laranjas, sorrisos, poemas, disponibilidade para os outros, alegria, coragem, famílias felizes, abrigos para os animais, escolhas saudáveis e sustentáveis, soluções criativas - há que plantá-la. e é urgente que todos o façam. cada um à sua maneira, cada um à sua medida, com os recursos que forem possíveis. chega de nevoeiro, de não nos reconhecermos como todos fazendo parte do mesmo e dessa conversa de que estamos 'falidos'!
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
coisas simples
Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas
lo mismo que un árbol que en tiempo de otoño muere por sus hojas
al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas
y esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón
Un vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
entonces parece como estan de ausentes las cosas queridas
por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
que el amor es simple y a las simples cosas las devora el tiempo
Demorate aquí en la luz mayor de este mediodía
donde encontrarás con el pan al Sol la mesa tendida
por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
que el amor es simple y a las simples cosas las devora el tiempo
mãe...
... quando tu eras pequenina,
o mundo era a preto e branco?
refaço o caminho e vejo-o, de facto, retratado apenas e só em tons de cinzento. quero convencer-me que era da máquina que não chegava para mais, que essa era a tecnologia da época em que as fotografias a cores ainda não eram assim tão comuns e que o meu pai fazia o melhor que podia e sabia quando captava, a preto e branco, os pinhais e as casinhas em pedra das Lages. quero crer as cores já existiam, mesmo que ainda não fosse possível fixá-las. que quando eu era pequena o mundo era a cores, sim, Luisinha, e que já continha todas as cores que existem em nós. do verde ora manso ora bravo do vento ao azul abaulado e turquesa do céu, do recorte acastanhado das serras ao rubor dos poentes, do ouro das searas de trigo magenta aos pomares em laranja e vermelho-maçã, da brisa lilás do crepúsculo ao brilho de prata das estrelas, o mundo já era a cores quando eu era pequena, sim, Luisinha e as fotografias de mim pequenina, que vês espalhadas em casa da avó e que me mostram apenas a preto e branco não dizem nada da minha infância nem a repetem como dela me lembro, com as casinhas de pedra das Lages assim, iluminadas por Deus, mesmo quando eu fugia, já nessa altura, para debaixo das sombras...
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
hoje, quando as deitei,
estavam as duas preocupadas comigo. mais mansas do que é costume, sem exigências quase nenhumas, solícitas e oferecendo-me doses extra de mimos e beijinhos melosos.
coitadinha de ti, mãe
dizia a Luísa, ao mesmo tempo que me enchia de festas
essa conólostopia que vais fazer amanhã deve ser mesmo horrível!
em jejum desde a uma da tarde, quase não tive forças para rir. muito menos para a corrigir e aí talvez já não por falta de forças, mas porque adoro quando a Luísa inventa palavras. sosseguei-a.
não, Luisinha, não é horrível. a mãe vai estar a dormir e não vai sentir nada.
e foi assim que a conversa passou da conólostopia para o não sentir nada.
vão dar-te uma anestesia, não é, mãe?perguntou a Madalena.
sim, vão pôr a mãe a dormir e a mãe não vai sentir nada.
e como é que é? vai doer? já te deram alguma?
quis saber a Luísa.
já, Luisinha, já levei várias anestesias e não dói mesmo nadinha.
pois, para tirar os bebés da barriga é preciso estar muito anestesiada
opinou a Madalena.
pela enésima vez, expliquei-lhes que, em casos normais, as mães não levam anestesia nenhuma e os bebés saem pelo pipi, e não pela barriga.
mas, no caso da mãe,continuei, com paciência,
tiveram os quatro de sair da barriga por cesariana e por isso a mãe precisou de levar anestesia.
então estavas a dormir quando nascemos?
perguntou a Luísa.
também já lhes contei isto não sei quantas vezes, mas parecem esquecer-se.
quando foi da Francisca e do Lucas, sim, a mãe estava a dormir. mas com vocês as duas a mãe teve a sorte de poder estar acordada, porque a anestesia era só da barriga para baixo.
e tu viste tudo?
não, Luisinha, não vi quando cortaram, se é isso que queres saber... mas vi-vos assim que nasceram. eram tão queridas! mesmo pequenininhas... e pus-vos logo aqui, em cima do peito, para vos dar um beijinho.
riram-se as duas e foi então que veio à baila a história da sementinha.mãe, pode acontecer a minha sementinha já estar na tua barriga antes de o pai Pippo morrer?
não, filha, não pode.
porquê?
porque a tua sementinha é de outro pai, Madalena.
mas já podia lá estar e tu e o pai não saberem...
não, não podia...
ficámos as três em silêncio uns instantes e foi então que ela disse
mas no teu coração está desde sempre, não é, mãe?
e estão mesmo! no meu coração, desde sempre, está não só a sementinha da Madalena, mas a da Francisca, a do Lucas e a da Luísa. pressinto até que tenham chegado antes de os pais as terem vindo plantar no meu ventre e que nos tenhamos escolhido, para ser mãe e filhos, quando ainda só éramos estrelas.
com uma longa noite de jejum pela frente, mais frágil do que é costume e com a tal da conólostopia a querer visionar-me as entranhas, é deste amor visceral pelos quatro que também me alimento... hoje e sempre.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
pedi um desejo
que não conto a ninguém.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
falar com os mortos
só pode ser coisa de quem não está bom da cabeça!, diz quem ainda não descobriu que, do outro lado do véu, os 'mortos' estão vivos e que por isso é normal que vivos e vivos conversem, nem sequer em tom mórbido e sobre assuntos funestos, mas ligeiramente e tantas vezes sobre coisas prosaicas, banais. se assim não fosse, como seria possível estarmos aqui os dois à conversa? e reparo que é a primeira vez que te trago aqui dentro,
e então, gostas do blogue?logo vi que gostavas, ainda que, e ao contrário de mim, já não estejas nessa humana idade das dúvidas, mas na posse de toda a verdade e não, não levo a mal que não contes,
que graça teria saber toda a verdade neste momento?
a verdade, aqui onde estou, é que há já algum tempo que não conversava contigo, admito até que às vezes te evito, com medo de que precises de desviar-te dos teus afazeres luminosos para me ouvires, mas hoje foste tu quem veio procurar-me e se instalou e estive quase para te perguntar
não queres sentar-te?e a puxar do banquinho que costumo oferecer às visitas, como se tu fosses visita
claro que és da casa
e tu prontamente ocupando o lugar que sempre ocupaste, velando por mim para que nenhum mal maior me possa atingir, tu ao meu lado, dentro de mim, em toda a parte, afinal, que essa é a grande vantagem dos vivos do lado de lá, estarem em todo o lado e só virem cá quando sentem vontade de conversar e assim e reparo que te ris
estás a achar graça, já percebinão é novidade nenhuma, rirmos os dois durante as nossas conversas, tu mais sarcástico, eu mais mordaz, que bom estares aqui
é giro o meu blogue não é?também achei que ias gostar, caso contrário não tinhas chegado precisamente na altura em que me preparava para escrever uma 'nova mensagem' e reparo que já percebeste por que razão pus como título 'falar com os mortos' - e que não tem nada a ver com o facto de estarmos aqui, os dois vivos, nesta conversa que é tudo menos de quem não está bom da cabeça - e porque foi que escolhi a fotografia do anjo de cemitério para a 'ilustrar'
não, não digas porquê, deixa que fique só entre nóse daqui a uns dias veremos se foi ou não boa ideia, tendo em conta que o objectivo era um só, mas que nem sequer é importante para esta nossa conversa
pois é, que bom estares aqui, chega a parecer quase um sonho!
e lembro-me, não sei porquê, dos nossos sonhos aos vinte, vinte a tal anos, casar e ter filhos, uma varanda com vista para o Tejo, comprar um pequeno terreno na ilha do Sal, em Cabo Verde, e passarmos lá férias, lembro-me dos pesadelos aos trinta e dois, depois de nos terem atropelado esses sonhos, lembro-me de me dizeres
eu aposto em ti mas é aos quarenta!
assim, tal e qual como disseste agora mesmo,
eu aposto em ti mas é aos quarenta!
e aqui estou eu, quarentona,
já viste?
meia vida cumprida, se acreditar que a média humana ronda os oitenta, dois filhos quase criados e outras duas que para lá caminham, ainda e sempre cheia de dúvidas, mas isso faz parte da vida, tranquilamente à conversa contigo numa noite de outono, e ainda há quem diga que falar com os mortos é coisa de quem não está bom da cabeça, imagina,! como se realmente tu tivesses morrido naquele dia de verão e não me restasse outra opção senão a de ir ao cemitério pedir aos anjos de pedra para te mandarem saudades, sempre que as saudades de falar contigo viessem à tona...
que disparate, não achas?
patchamama
suar dentro das entranhas da terra é um ritual ancestral e xâmanico que purifica o corpo e o espírito.
a primeira vez que entrei numa 'cabana do suor' - uma espécie de iglo feita com paus e forrada com panos - foi em fevereiro de 2006.
lá fora, em plena serra algarvia, fazia um frio de rachar e o inverno parecia ter vindo, também, instalar-se dentro de mim. nessa altura, passava por uma crise profunda, a todos os níveis - creio que já era Urano, que iria opôr-se a si mesmo dali a uns tempos no meu mapa natal, a fazer-me um convite e a dizer-me
deita fora isso tudo que já não te serve!
como em todas as primeiras vezes, sentia algum medo. não temia o calor, nem o escuro da cabana, mas a fragilidade que me consumia baixava as minhas defesas. não fazia a mínima ideia do que iria passar-se lá dentro e o facto de estar numa roda entre estranhos, à frente dos quais iria ter que despir-me, e ao mesmo tempo a sentir que nada em mim circulava, só aumentava a sensação do desconforto.
como em todos os 'temazcallis', a cerimónia teve início ao redor da fogueira. dispostos em círculo, começámos por dar graças ao fogo, que nos aquecia naquela gelada noite de inverno, ao mesmo tempo que, em silêncio, pensávamos nas intenções que levaríamos para dentro do ventre da mãe. como se, dali a pouco, a oportunidade que nos ia ser dada de renascermos de novo pudesse alterar muitas coisas nas nossas vidas - sobretudo, nos nossos comportamentos e atitudes.
não me lembro ao certo o que foi que disse em voz alta, já que é sempre em voz alta que expressamos as intenções, para que todos os que fazem parte do círculo possam ouvi-las, mas sei que pedi. pedi tanto... tanto, tanto e tantas coisas! pedir é, afinal, tão humano, não é? pedir paz, pedir amor, pedir luz para o caminho é a prece diária de qualquer ser mortal, que assim tenta livrar-se - ou simplesmente integrar - a dualidade que encarna. pedir que o FOGO derreta os padrões, que a TERRA acolha as sementes e nos dê a colher os seus frutos, que a ÁGUA dissolva os bloqueios e as emoções negativas, que o AR seja um alento para o espírito... assim pedi eu e pedi isso tudo! na companhia dos quatros elementos, nua e sozinha, despida de máscaras e recolhendo às minhas próprias entranhas, pedi paz e amor e muita luz para o caminho e, sobretudo, coragem para ultrapassar aquela crise profunda em que estava na altura.
a intensidade de tudo o que se passou a seguir ficou marcada para sempre - no meu corpo e na minha alma. foram horas em que, esquecida do tempo, numa luta contra o calor que me comia por fora e o escuro que me aflorava por dentro, me desprendi de tudo o que era e me entreguei à mãe terra, como um recém-nascido que não sabe nada das coisas do mundo, mas que se lembra ainda de tudo o que trouxe do céu. lembro-me de estar enroscada, tal como um feto no útero materno, e de ter chamado baixinho, a chorar, a terra de mãe. e de ela me ter acolhido e me ter abraçado e de só assim ter sido possível suportar tanto suor e tantas lágrimas.
durante estes últimos anos, repeti o ritual outras vezes e, ontem, pela oitava - número que sempre associo à espiral infinita do movimento do cosmos - voltei a suar e a chorar nas entranhas da terra.
estava uma noite morna de outono, a lua já não estava tão cheia, mas ainda branca e redonda num céu polvilhado de nuvens e estrelas e, se estou numa 'crise' - e creio que estamos sempre a passar por alguma - a minha é agora de crescimento e de (auto)cura, e já não de impotência e desespero. não sei se por isso, a minha intenção foi tão clara que não tive uma dúvida quando, em voz alta, a expressei dentro do círculo, de olhos postos no céu e dirigindo-me a Deus
já pedi tanto, e tantas coisas, e já tanto e tantas coisas me foram dadas ao longo da vida, que hoje venho oferecer-me. a Ti e ao Fogo e à Terra e à Água e ao Ar, para que a cura aconteça, de facto, e curada eu possa Servir na cura dos outros.
posso dizer-vos que foi o temazcalli mais duro, mais difícil e o mais intenso dos oito. e é por isso que me sinto tão grata.
a primeira vez que entrei numa 'cabana do suor' - uma espécie de iglo feita com paus e forrada com panos - foi em fevereiro de 2006.
lá fora, em plena serra algarvia, fazia um frio de rachar e o inverno parecia ter vindo, também, instalar-se dentro de mim. nessa altura, passava por uma crise profunda, a todos os níveis - creio que já era Urano, que iria opôr-se a si mesmo dali a uns tempos no meu mapa natal, a fazer-me um convite e a dizer-me
deita fora isso tudo que já não te serve!
como em todas as primeiras vezes, sentia algum medo. não temia o calor, nem o escuro da cabana, mas a fragilidade que me consumia baixava as minhas defesas. não fazia a mínima ideia do que iria passar-se lá dentro e o facto de estar numa roda entre estranhos, à frente dos quais iria ter que despir-me, e ao mesmo tempo a sentir que nada em mim circulava, só aumentava a sensação do desconforto.
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como em todos os 'temazcallis', a cerimónia teve início ao redor da fogueira. dispostos em círculo, começámos por dar graças ao fogo, que nos aquecia naquela gelada noite de inverno, ao mesmo tempo que, em silêncio, pensávamos nas intenções que levaríamos para dentro do ventre da mãe. como se, dali a pouco, a oportunidade que nos ia ser dada de renascermos de novo pudesse alterar muitas coisas nas nossas vidas - sobretudo, nos nossos comportamentos e atitudes.
não me lembro ao certo o que foi que disse em voz alta, já que é sempre em voz alta que expressamos as intenções, para que todos os que fazem parte do círculo possam ouvi-las, mas sei que pedi. pedi tanto... tanto, tanto e tantas coisas! pedir é, afinal, tão humano, não é? pedir paz, pedir amor, pedir luz para o caminho é a prece diária de qualquer ser mortal, que assim tenta livrar-se - ou simplesmente integrar - a dualidade que encarna. pedir que o FOGO derreta os padrões, que a TERRA acolha as sementes e nos dê a colher os seus frutos, que a ÁGUA dissolva os bloqueios e as emoções negativas, que o AR seja um alento para o espírito... assim pedi eu e pedi isso tudo! na companhia dos quatros elementos, nua e sozinha, despida de máscaras e recolhendo às minhas próprias entranhas, pedi paz e amor e muita luz para o caminho e, sobretudo, coragem para ultrapassar aquela crise profunda em que estava na altura.
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estava uma noite morna de outono, a lua já não estava tão cheia, mas ainda branca e redonda num céu polvilhado de nuvens e estrelas e, se estou numa 'crise' - e creio que estamos sempre a passar por alguma - a minha é agora de crescimento e de (auto)cura, e já não de impotência e desespero. não sei se por isso, a minha intenção foi tão clara que não tive uma dúvida quando, em voz alta, a expressei dentro do círculo, de olhos postos no céu e dirigindo-me a Deus
já pedi tanto, e tantas coisas, e já tanto e tantas coisas me foram dadas ao longo da vida, que hoje venho oferecer-me. a Ti e ao Fogo e à Terra e à Água e ao Ar, para que a cura aconteça, de facto, e curada eu possa Servir na cura dos outros.
posso dizer-vos que foi o temazcalli mais duro, mais difícil e o mais intenso dos oito. e é por isso que me sinto tão grata.
sábado, 23 de outubro de 2010
ando a casar-me
estranha, a expressão? admito que sim. é mais comum ouvir-se dizer 'vou casar-me', 'casei-me', 'sou casada'... mas 'ando a casar-me'? a verdade é que ando. a tentar, pelo menos, que isto de um casamento tem tanto que se lhe diga, tantas voltas e reviravoltas, tantas esquinas e contratempos e, ao mesmo tempo, tantas potencialidades!... a minha sorte é que, desta vez, nenhum noivo espera por mim no altar e o anel que trago no dedo, apesar de ter sido oferecido, foi na condição de ser capaz de assumir um compromisso comigo. é de prata, mas podia ser de latão, de cobre, de arame ou de outra substância qualquer, já que o mais importante é conseguir 'consubstanciar' corpo e espírito, no sentido mais íntimo, e quase biblíco, do termo: como a presença de Cristo, na Santíssima Trindade, sendo ela mesma.
pois é, ando a casar-me comigo e a fazer por prometer-me fidelidade, nem sequer até ao fim dos meus dias, mas por toda a eternidade. a jurar amar-me e honrar-me, nas condições favoráveis, mas também nas adversas e a retirar, um a um, todos os véus com que as noivas tapam a cara e enfeitam cabelos e que, na maior parte dos casos, as deixam às cegas, ou então apenas permitem que vejam o mundo através dos buraquinhos do tule...
não é fácil, creio que é até mais difícil casarmos connosco do que com outro. é muito mais complicado deitarmo-nos todas as noites e sermos capazes de nos abraçarmos sem nenhuma distância ou reserva, mesmo que pareça mais simples ter os braços do outro à nossa espera na cama. é muito mais verdadeiro, embora mais duro, exigirmos de nós fidelidade ao que somos, em vez de andar a morrer de ciúmes com as mentiras e as infidelidades do outro. é muito mais justo dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro nunca dizer 'amo-te'. é fundamental, é visceral, eu diria, casar-me comigo, para que um dia, então, me case com outro - se for essa a escolha, se for esse o caminho... (e não tenho uma dúvida de que as Balanças é sempre isso que escolhem e sempre esse o caminho que tomam...)
já me casei duas vezes e sei do que falo. a primeira com tudo a que tinha direito - dia marcado, vestido de noiva, alianças, uma capela com vista para o rio, um coro afinadérrimo e uma homilia lindíssima, um copo de água abundante, uma lua de mel numa ilha, dois filhos maravilhosos e oito anos de um dia a dia de enorme partilha e cumplicidade. um casamento que, desconfio, se não tivesse acabado num atropelamento brutal, acabaria de outra maneira (ou talvez não e tudo o que forem especulações não passam de mera retórica e não cabem aqui...)
o segundo não teve dia marcado, nem alianças, nem padre, nem coro, nem capela, mesmo que tenha tido vista para o rio muitas vezes, sobretudo da cama de onde chegaram mais duas filhas maravilhosas, e que me deu, senão um marido, um amigo fiel. foram mais oito anos da minha vida e o facto de ter partido para eles já não vestida de noiva e de branco, mas de viúva e de luto, talvez tenha feito toda a diferença - mas, mais uma vez, entro no campo das especulações e não quero. separámo-nos há já algum tempo, mas fico contente por termos sabido continuar juntos, partilhando em paz o que nos é comum e assim evitando cair em guerras antigas.
se o provérbio está certo e 'não há duas sem três', hei-de voltar a casar-me de novo. não faço ideia com quem, nem onde, nem como, nem quando, se vestida de noiva ou de cigana, se numa capela ou no campo ou na praia, se haverá coro ou apenas um mantra dito em silêncio por ambos, se a lua será de mel ou de uma luz ainda mais doce. por mais que neste momento até possa ter sonhos e desatar a fazer mil projecções sobre o futuro, o presente que tenho para me oferecer é só um: casar-me comigo e prometer ser minha para sempre.
amén.
não é fácil, creio que é até mais difícil casarmos connosco do que com outro. é muito mais complicado deitarmo-nos todas as noites e sermos capazes de nos abraçarmos sem nenhuma distância ou reserva, mesmo que pareça mais simples ter os braços do outro à nossa espera na cama. é muito mais verdadeiro, embora mais duro, exigirmos de nós fidelidade ao que somos, em vez de andar a morrer de ciúmes com as mentiras e as infidelidades do outro. é muito mais justo dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro nunca dizer 'amo-te'. é fundamental, é visceral, eu diria, casar-me comigo, para que um dia, então, me case com outro - se for essa a escolha, se for esse o caminho... (e não tenho uma dúvida de que as Balanças é sempre isso que escolhem e sempre esse o caminho que tomam...)
já me casei duas vezes e sei do que falo. a primeira com tudo a que tinha direito - dia marcado, vestido de noiva, alianças, uma capela com vista para o rio, um coro afinadérrimo e uma homilia lindíssima, um copo de água abundante, uma lua de mel numa ilha, dois filhos maravilhosos e oito anos de um dia a dia de enorme partilha e cumplicidade. um casamento que, desconfio, se não tivesse acabado num atropelamento brutal, acabaria de outra maneira (ou talvez não e tudo o que forem especulações não passam de mera retórica e não cabem aqui...)
o segundo não teve dia marcado, nem alianças, nem padre, nem coro, nem capela, mesmo que tenha tido vista para o rio muitas vezes, sobretudo da cama de onde chegaram mais duas filhas maravilhosas, e que me deu, senão um marido, um amigo fiel. foram mais oito anos da minha vida e o facto de ter partido para eles já não vestida de noiva e de branco, mas de viúva e de luto, talvez tenha feito toda a diferença - mas, mais uma vez, entro no campo das especulações e não quero. separámo-nos há já algum tempo, mas fico contente por termos sabido continuar juntos, partilhando em paz o que nos é comum e assim evitando cair em guerras antigas.
se o provérbio está certo e 'não há duas sem três', hei-de voltar a casar-me de novo. não faço ideia com quem, nem onde, nem como, nem quando, se vestida de noiva ou de cigana, se numa capela ou no campo ou na praia, se haverá coro ou apenas um mantra dito em silêncio por ambos, se a lua será de mel ou de uma luz ainda mais doce. por mais que neste momento até possa ter sonhos e desatar a fazer mil projecções sobre o futuro, o presente que tenho para me oferecer é só um: casar-me comigo e prometer ser minha para sempre.
amén.
Lua cheia em ♈
em assuntos de astrologia, não sou leiga nem sábia e o pouco que sei é mais intuído do que fruto de estudos profundos. aqui e ali vou lendo umas coisas e aprendendo outras tantas, já fui vezes sem conta ouvir quem realmente percebe a linguagem dos astros falar do meu mapa, eu própria pinto mapas da alma, mas sempre guiada por intuições e por cores, mais do que por definições ou conceitos mentais. afinal, a astrologia é uma linguagem simbólica, onde podemos ver tudo e todos. onde, mesmo sem sermos peritos ou sábios nas coisas dos astros, intuímos do seu movimento as energias que nos dizem respeito e que de nós fazem parte.
uma Lua cheia em Carneiro diz-me respeito, não só porque é nesse signo que a tenho e que, por estar oposta ao meu Sol, em Balança, significa que, quando nasci, às dez e um quarto da noite, estava uma noite de Lua cheia, mas também porque neste momento da minha vida o meu oposto e complementar é Carneiro. sim, Carneiro é sempre o signo oposto e complementar de Balança, mas nem sempre foi o signo do 'meu' companheiro.
hoje, ao ler este texto e a reflexão que propõe, se a isso estivermos dispostos, mergulhei no tal eixo Carneiro-Balança que é, afinal, a relação do eu com o outro. há muitas formas de relacionarmos o eu com o outro. a mais fácil, mais comum e mais tentadora é projectar sobre o outro os desejos e as expectativas que o eu que é nosso transporta e esperar que ele as cumpra. mais cedo ou mais tarde, a frustração de o outro, afinal, ter desejos e expectativas diferentes e não poder, por isso, ajudar a que se cumpram as nossas virá ao de cima. com Saturno neste momento em Balança, as relações que funcionam no pressuposto de que virá um outro fazer-nos felizes para sempre têm os dias contados. a ilusão de que o alívio para as nossas feridas chega em regime de ambulatório pelas mãos de um 'enfermeiro' disponível, gentil, amoroso, impede que se manifeste o dom de curadores que todos nós temos. e o eu tem sempre feridas algures a precisarem de cura, buracos que ao longo dos anos não soube tapar, frinchas por onde a luz escapa, arestas que urge limar. pôr no outro essa responsabilidade é um equívoco a que já cedi muitas vezes. 'anda cá e dá-me colinho e diz que vais amar-me para sempre' é ladainha de belas adormecidas - patetas e alimentadas por anos e anos de contos de fadas - que decidiram que só acordavam quando o princípe viesse beijá-las.
eu dormi muito tempo esse sono encantado e até tive alguns princípes que me beijaram e que prometeram amar-me para sempre, é verdade. e, afinal, tudo em mim continuava dormente. as feridas, ainda, todas latentes, os buracos à vista e eu a escapar-me por eles, a afundar-me e sem querer sair lá de dentro para não ter de enfrentar o mundo da Alice, de pernas para o ar, sem as maravilhas - e sobretudo os maravilhosos - que julgava merecer.
mas a vida não é um conto de fadas e ainda bem que não é. o que não quer dizer que a magia não esteja presente em cada dia das nossas vidas... o perigo é confundirmos magia com ilusionismo e deslumbramo-nos com os seus truques banais. quantas vezes não me deslumbrei eu com coelhos que foram saíndo de tantas cartolas e não achei que o milagre da multiplicação de lenços de seda a sairem dos bolsos eram a prova provada de que, finalmente, um mágico tinha chegado aos meus braços? quantas vezes não quis entrar no baú forrado de estrelas para que as espadas me trespassassem e eu, afinal, saísse inteira e incólume do seu interior de fundos falsos e outras quimeras? quantas vezes não me entreguei a valetes de copas achando que, com esse trunfo nas mãos, o jogo só podia estar ganho?
ilusão e magia são mesmo coisas diferentes! e não há nenhum jogo, a não ser o dos espelhos - e mesmo esse está cheio de armadilhas e permite um sem fim de batotas, de cada vez que não temos coragem para mudar no eu o que o outro nos mostra, e preferimos esperar que seja o outro a mudar o que nele, afinal, não gostamos de ver. a própria Lua, que esta noite será Lua cheia, em Carneiro, não ilumina o meu Sol em Balança, porque o Sol, ao contrário da Lua, tem sempre luz própria.
hoje, o desenho que ilustra este texto e que fiz numa altura em que ainda me deixava iludir pelo brilho ofuscante da Lua - quiça pela personalidade esquizóide que alguém com o Sol e a Lua opostos no mapa sempre revela - vem mostrar-me que o eixo que liga o eu e o outro, apesar de contínuo, é feito de etapas, estações e apeadeiros e que talvez nem agora, depois de tanto caminho já feito, as duas espirais possam unir-se para dar origem ao movimento do oito infinito...
primeiro, é preciso que cada uma seja infinita em si mesma, e inteira, acima de tudo, já que o mito da 'cara metade' é só e apenas outra versão dos contos de fadas. relações assentes na divisão de um ser em metades - tu completas a minha e eu eu troca completo-te a tua - são coisas de telenovela e das tais Belas que adormeceram a vê-las.
talvez eu própria ainda tenha algum sono e outros tantos resquícios de anos e anos de encantamentos, diria que quase genéticos, mas a verdade é que me sinto cada vez mais desperta. bela, mas acordando do sonho infantil das princesas patetas que se enfiam em redomas de vidro e ficam à mercê da chegada dos príncipes. Balança capaz de equilibrar tudo o que em mim não é complementar, mas oposto, tapando os buracos com terra e com ar e com fogo e com água. sarando o que tanto, e ainda, me dói, limando as arestas e ouvindo o meu coração que bate
e que bate
e que bate
e que bate
e desta vez entrando na dança que me propõe, muito mais do que caindo na ilusão de me agarrar a esse pulsar e lhe contar as batidas, para que encaixe numa qualquer pauta pré-concebida que só serve de banda sonora aos romances dos filmes.
a Lua não se agarra, preenche-se
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| daqui |
quantos quartos de Lua ainda terei de contar para perceber que é só uma? uma só lua que se enche e esvazia como as marés de sal nos meus olhos, até atingir a novidade do escuro e recolher-se ao silêncio?
uma só lua renascendo num traço crescente, crescendo ao relento e curvando no colo o embalo da infância, sentindo que a cada noite que passa preenche mais uma frincha de corpo e dá mais um passo no céu.
aos poucos, a luz torna-se cheia, redonda,
lua de shakti,
lua de fecundidade e prazer, de magias, de branco, de âmbar, das ilhas que aos poucos se encontram para formar arquipélagos ou, simplesmente, baloiçar no mar alto ao sabor das correntes.
não dura mais do que uma noite e logo a seguir emagrece.
aos poucos, também,
- que tudo leva o seu tempo-
e recolhe-se em busca do acto minguante, voltando a atingir a novidade do escuro e a ser lua de shiva.
a lua da transformação.
da solidão.
da cegueira.
do silêncio dos deuses.
o ciclo repete-se noite após noite,
mês após mês,
ano após ano,
toda uma vida.
assim como nos enche, a lua esvazia-nos.
querer agarrá-la é loucura.
mas preencher o vazio em que nos deixa enquanto mingua é ir ao encontro do Sol que escolhemos vir ser nesta vida.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
quando eu era pequena
era quando? e quanto é o tempo que me separa desse tamanho de mim e por que razão me lembrei dele agora? agora e aqui e eu já muito crescida,
- ou nem tanto!
aqui e agora e eu ainda menina
- menina?!
'a nossa menina', como diziam as tias, 'ai a menina!', ralhava o meu pai, 'sempre a fazer disparates'
- ai, ai!
calculo que para chamar a atenção, mais do que por ser realmente uma menina disparatada,
- mimada!
a menina inesinha, como dizia a Joaquina e ainda diz, vejam lá que ainda me chama,
- inesinha!
e eu, aqui e agora, já deste tamanho, quarenta anos mais quatro, quando é que algum dia, quando eu era pequena, imaginei poder vir a ser tão crescida?
'quando eu era pequena', na escrita, é sempre a frase que me leva de volta aos lugares mais seguros e às memórias mais doces. a não ser que o tempo nos amoleça as recordações, como a calda faz com a fruta quando a transforma em compota, e a minha infância não tenha sido, afinal, nem tão feliz nem tão boa. além disso, quando eu era pequena era quando? quando tinha dois anos, três anos, cinco, sete, dez a caminho dos onze? e há quanto tempo foi isso? matematicamente, foi há mais do que trinta, mas a contagem dos anos não é apenas a soma dos dias ou das estações, há que subtrair-lhes as dores e as feridas, multiplicar as assombrações que nunca expulsámos de debaixo da cama, dividir o que um dia quisémos que fosse só nosso pelos irmãos que vieram mais tarde.
quando eu era pequena, aos dois ou três anos, era esta em Fiais. vestido aos quadrados vermelhos e pretos, ainda que o meu pai os fotografasse de acordo com a tecnologia da época, a preto e branco, portanto, sandálias, cabelo cortado à rapaz e os pinhais todos por conta. e era feliz, tenho a certeza que era, tenho a certeza que as tias estavam sentadas ali muito perto, sou bem capaz de lhes estar a mostrar o que seja que tenho nas mãos, que tenho ou que tinha, já não sei em que tempo estou afinal, se quando eu era pequena continua a ser hoje ou se foi há mais tempo, em que é que ficamos?
ficamos aqui, nesse caso. aqui e agora, no tempo sem horas e na estação que é sempre a que mais docemente perdura nas minhas memórias. e que apesar de estar retratada em tons de cinzento era cheia do verde do verão e do rumor desbravado e azul dos pinheiros, rendendo-se ao céu. por isso, quando eu era pequena é agora. neste exacto momento em que escrevo, esta sou eu. aqui e agora, eu sou quem eu era quando era pequena. a 'nossa menina', como diziam as tias ou, simplesmente,
- a menina
tão querida!, provavelmente mimada, é possível, e disparatada
- ai, ai!
a caber no tamanho que tinha e em todos os sonhos que ainda mantenho.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
das fadas e das magias que fazem
sempre que vou a uma escola falar do Pede um Desejo, há três ou quatro, ou mesmo cinco crianças que logo me avisam, com caras de caso
olha que eu cá não acredito em fada nenhuma!
há outras que me pedem provas da sua existência, algumas querem saber coisas prosaicas, como o que é que elas comem ao pequeno-almoço ou se também lavam os dentes antes de irem para a cama, há muitas que partilham da minha crença e que dizem, com um brilhozinho nos olhos,
eu cá acredito e até já vi uma!
no imaginário infantil, as fadas são sempre as fadas dos contos de fadas. as fadas madrinhas da Bela Adormecida, a da Cinderela, a Sininho da Terra do Nunca, as Winx - numa versão mais moderna - e milhares de outras parecidas.
são sempre brilhantes, com asas, varinhas, pozinhos de perlimpimpim, capazes de transformar desejos em realidades, borralheiras em princesas magníficas, com poderes, dons e bondades que em muito transcendem a humanidade comum.
quando, então, essas três ou quatro ou mesmo cinco crianças me dizem que não acreditam em fadas - e que felizmente são sempre a minoria -, em vez de tentar provar-lhes que as fadas do Pede um Desejo são verdadeiras, eu falo-lhes das 'tias mágicas'.
as tias mágicas eram minhas tias-avós. nunca casaram e viviam as três, com os meus avós, num casarão em Pedrouços. eram bondosas e mansas, magrinhas, mas com uma largura de colo onde cabíamos todos (e, ao todo, somos dez primos), disponíveis para qualquer emergência ou urgência que pudesse surgir - ficarmos doentes em casa, esfolarmos um cotovelo, precisarmos de quem nos levasse ao ballet, de enxovais para as bonecas, de aprender a coser, de companhia para ir ao jardim - e lembro-me delas sempre a sorrir.
não tinham asas, não tinham varinhas e, em vez de pozinhos de perlimpimpim, costumavam brindar-nos com a sua paciência, infinita, com leite creme queimado por cima, com histórias de quando eram pequenas, com beijos e mimo e tudo o mais que vissem que nos faria crescer e, mesmo assim, continuar a acreditar em magias.
os seus nomes verdadeiros eram Maria Emília, Maria Helena e Maria Eugénia, mas os seus nomes de fadas eram Mimi, Melé e Mejé, e a presença benigna das três, ao longo das nossas infâncias, trouxe alívios e curas que talvez só muito mais tarde tenhamos, realmente, entendido.
quando a primeira partiu - e que foi uma das gémeas - e pela primeira vez me confrontei com a morte, tinha dezasseis anos. já era um bocadinho crescida, portanto, mas custou-me imenso aceitar que as fadas fossem mortais. a segunda, a Mimi e a mais velha das três, partiu três anos depois e já não me custou assim tanto, pois começava a ser capaz de ver o fio contínuo que liga a Terra e o Céu e, até, de falar com elas quando olhava para as estrelas.
a Mejé viveu muitos anos e só morreu muito velhinha e ainda a vi com os meus dois filhos mais velhos ao colo e apresentei-lhe a Madalena, quando ainda só estava na minha barriga. tinha uma fé que movia montanhas, uma capacidade de aceitar dias de chuva e de sol, sempre com a mesma alegria e nem as extra-sístoles que lhe agoniavam o coração o faziam pulsar longe de nós.
nos últimos tempos, vivia sozinha no casarão de Pedrouços, mas todos os dias um de nós ia vê-la, retribuíndo assim as magias que tinha feito connosco durante anos a fio e que eram coisas tão simples como as que tinha feito por nós. companhia, um chazinho de tília para o lanche, acompanhá-la à missa ao domingo, dar-lhe o braço para subir as escadas, levá-la a uma praia, a um jardim ou ao teatro, convidá-la para almoçar num restaurante com vista, dar-lhe muitos abraços e muitos beijinhos e fazer com que nunca sentisse que tinha ficado sozinha.
perante as minhas fadas humanas, mesmo as crianças mais cépticas sentem que a magia, afinal, não é exclusiva dos personagens dos livros e, menos ainda, uma mentira que lhes contamos para as fazermos felizes, mas que pode ser qualquer pessoa que até existe nas suas vidas. seja uma tia, uma prima, a professora da escola, a senhora que se sentou ao lado delas no autocarro e que tinha um sorriso maravilhoso, a mãe quando dá beijinhos nas feridas, o pai quando canta, a amiga que empresta os lápis de cor e por aí fora...
sim, é muito importante contar às crianças as histórias das fadas dos contos de fadas, mas mais importante é dizer-lhes que, também elas, são poderosas e muito capazes de fazer grandes magias no mundo. sem asas e sem varinhas e sem pozinhos de perlimpimpim que, isso sim, só existe nos filmes...
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
a 'espiritualidade lindinha'
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| daqui |
a expressão foi 'roubada' ao António e espero que ele não se importe que a use. e a sensação que me dá ao ouvi-la é que temos andado a tratar do nosso espírito - ou alma, ou o que preferirem chamar-lhe - um pouco como quem trata das unhas dos pés, do cabelo, da gordura a mais na barriga, das rugas, dos pêlos e por aí fora.
a par dos inúmeros institutos de estética que proliferaram um pouco por toda a parte nos últimos anos, onde vamos cuidar da nossa imagem exterior para ficarmos 'lindinhos' por fora, houve também a proliferação dos 'centros anímicos' - onde vamos tratar da beleza interior, para ficarmos 'lindinhos' por dentro. a oferta é para todos os gostos, todos os géneros e todas as bolsas e contempla um sem fim de técnicas, experiências, vivências e posições. do yoga às massagens, dos tratamentos de reiki às regressões a vidas passadas, dos retiros de silêncio às curas xamânicas, das leituras da aura ao alinhamento dos chakras, das meditações aos círculos de cura, das consultas e cursos de astrologia às palestras sobre os mais variados assuntos, das canalizações ao transe assistido, dos livros de auto-ajuda aos 'manuais de instruções' dos gurus, nunca, como nesta dita 'nova era' nos esforçámos tanto por ser (parecer?) 'lindinhos' por dentro.
mas, afinal, lindos por dentro nós sempre fomos... ou não? lindos e... feios! e é aí que reside o engodo da 'espiritualidade lindinha'. ao prometer-nos mundos e fundos para a alma, exactamente da mesma forma e na mesma medida que a indústria estética promete fundos e mundos para o corpo, o resultado, na maior parte das vezes, é a vivência de uma espiritualidade plástica, asséptica e aquém dos resultados que, neste momento, o universo nos pede para, realmente, ascendermos e elevarmos a humanidade à raça dos anjos.
e isso, pese embora a importância e a influência que cursos, palestras, retiros, livros, encontros, massagens, cristais e etc. e etc. e etc. poderão ter... isso não chega! e não há ninguém neste mundo, a não ser cada um, em silêncio e consigo, quem poderá encontrar a 'receita' para que o seu espírito se manifeste neste tumulto em que transformámos a Terra.
ainda no outro dia, pasmei perante uma 'lista de regras para a nova era' que vi por aí. fiquei que tempos a tentar perceber o que era que me incomodava naquilo. pode ser uma mera questão de conceitos, mas 'lista' e 'regras' não condizem de todo com o que entendo por 'nova era'. a Era de Aquário, acredito, será uma manifestação de excepções - e as velhas 'listas de regras' um vício caduco da Era de Peixes, em que tentámos impor uns aos outros as nossas meias verdades. acredito, então, que manifestar a excepção - e o ser excepcional - que cada um de nós É, deixando os 'supostos', as 'regras' e o 'by the book' de lado é a única forma de fazer emergir a espiritualidade de que todos somos dotados.
diz o António que a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados e eu estou de acordo. chega de andar a brincar aos iluminados, exibindo 'egos' que estão tão bem trabalhados que já quase nem damos por eles, curriculos que não têm fim de tanto que já andámos de um lado para o outro a acumular conhecimentos e cursos, asas que - para já - ainda não estão tão abertas como as dos anjos e que apenas nos deixam voar baixinho e em círculos.
a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados porque, primeiro, é necessário sentir, assumir, aceitar, que somos lindos e... feios! e que a luz que emanamos não brilharia se não fossem as sombras, que todos somos também.
ainda no outro dia, pasmei perante uma 'lista de regras para a nova era' que vi por aí. fiquei que tempos a tentar perceber o que era que me incomodava naquilo. pode ser uma mera questão de conceitos, mas 'lista' e 'regras' não condizem de todo com o que entendo por 'nova era'. a Era de Aquário, acredito, será uma manifestação de excepções - e as velhas 'listas de regras' um vício caduco da Era de Peixes, em que tentámos impor uns aos outros as nossas meias verdades. acredito, então, que manifestar a excepção - e o ser excepcional - que cada um de nós É, deixando os 'supostos', as 'regras' e o 'by the book' de lado é a única forma de fazer emergir a espiritualidade de que todos somos dotados.
diz o António que a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados e eu estou de acordo. chega de andar a brincar aos iluminados, exibindo 'egos' que estão tão bem trabalhados que já quase nem damos por eles, curriculos que não têm fim de tanto que já andámos de um lado para o outro a acumular conhecimentos e cursos, asas que - para já - ainda não estão tão abertas como as dos anjos e que apenas nos deixam voar baixinho e em círculos.
a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados porque, primeiro, é necessário sentir, assumir, aceitar, que somos lindos e... feios! e que a luz que emanamos não brilharia se não fossem as sombras, que todos somos também.
domingo, 17 de outubro de 2010
espantar os espíritos
conta-se que ao sétimo dia, criadas que estavam todas as coisas do Céu e da Terra, Deus foi descansar e maravilhar-se com a obra criada.
porque hoje é domingo, sétimo dia, e eu ando cansada das coisas da Terra, pus-me a pensar como seria possível criar algo que tivesse a ver com o Céu.
desde o verão que tinha um saco de conchas, apanhadas na praia pela minha filha mais nova, quase todas partidas, porque a Luísa prefere as conchas partidas às outras perfeitas, inteiras
coitadas, mãe, estas também têm direito e quase ninguém gosta delas e eu tenho pena, sabias?
e outro saco com paus de pinheiro, também apanhados no verão, mas por mim e no campo. hoje, domingo, dia do descanso de Deus e dia de os homens espantarem cansaços acumulados durante a semana, peguei nos paus e nas conchas e convidei as minhas filhas mais novas para espantarmos os espíritos que sentia rondarem-me. a Madalena estava amuada e não quis, mas a Luísa concordou de imediato e então fomos lá abaixo, ao chinês que nunca descansa e que não sei se partilha da história do sétimo dia e das coisas criadas por Deus no Céu e na Terra, mas que tem sempre um sorriso nos lábios e que nos vendeu prontamente um rolo de corda por noventa cêntimos. depois foi só montar a bancada, pegar no black&decker para furar o pau e as conchas e deitar mãos à obra.
à medida que as ia furando, os maus espíritos iam partindo e sentia que os bons iam chegando. lembrei-me então de umas contas de vidro que tinha guardadas - e essas não sei de onde vieram - e fui buscá-las e a Luísinha ajudava-me a ajustar a bancada à medida das conchas e proibi-a de mexer no berbequim e a Madalena continuava amuada, deitada na rede, e de vez em quando espreitava-nos para dizer
isso está a ficar mesmo mal.
a seguir, foi enfiar a corda nos buraquinhos do pau, depois as conchas, as contas e os espíritos - maus - espantando-se com a criação de tanta simplicidade, no dia que Deus reservou ao descanso. quando a obra ficou acabada, a Luísa quis ir mostrá-la à Francisca - a mana mais velha - que disse
boa, ficou mesmo querido.
e então pendurámos o espanta-espíritos ao alcance do sol e tirámos uma fotografia e depois fomos pô-lo onde, a partir de hoje, vai ficar, numa parede do hall da entrada. pode ser que, assim, os espíritos maus não se atrevam mais a entrar cá em casa... ou, pelo menos, que não o façam com tanto à vontade...
sábado, 16 de outubro de 2010
e das preces que fazemos
nos altares dentro de nós
onde nada nos é estranho nem alheio.
onde não pedimos nada
mas apenas oferecemos.
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