domingo, 7 de novembro de 2010

avesso

daqui
olá sombra :) sim, o sorriso é forçado, talvez devesse virá-lo ao contrário, ser 'brutalmente honesta' assim o exige, o avesso, para já, não é nem generoso nem complacente e dói que se farta.. olá sombra :( ontem, sem ser por acaso, dei de caras com a 'sombra humana' e só não foi um choque brutal porque tu e eu, ultimamente, até temos 'privado' bastante, nem sempre nas condições mais honestas, admito, já que não te dou o espaço de que precisas para, literalmente, tomares conta de mim, mas vai sendo à medida do que vou sendo capaz... gostei particularmente de 'os monstros dentro de mim', ou melhor, se quiser ser de novo brutalmente honesta comigo e contigo, uma unidade que teimo em ver separada, não gostei assim tanto e comecei por negar que, também dentro de mim, existissem monstros tão feios. mas a verdade é o que é e, um por um, lá os fui encarando.  alguns  provocam-me ainda um medo de morte, com outros estou já mais familiarizada, descobri um ao outro que  continuo a negar, mesmo que olhem de frente para mim e me digam 'nós somos teus, vê lá se nos amas'. e é por isso que hoje vim aqui encarar-te mais uma vez, e sim, à vista de todos, porque nisso já me conheces e sabes  como me tenho obrigado a ser transparente, mesmo quando é das sombras que falo.  a razão pela qual gostei tanto do  Emídio  foi por ele nos mostrar, com uma honestidade brutal e uma transparência que faz por livrar-se das máscaras, como é que, a pouco e pouco, vamos podendo gerir esta nossa dualidade. estou cansada daqueles 'gurus' muito iluminados que só falam da luz e da luz e da luz e que nos fazem crer que debelaram as sombras e agora vivem num permanente 'nirvana' dourado. mas também já consigo entender que eles me cansam apenas porque, também eu, me faço passar por iluminada, 'vendendo' nirvanas aos meus semelhantes e provavelmente fazendo com que fiquem cansados. ah, sombra, isto de sermos duais e nos amarmos a sê-lo tem mesmo tanto que se lhe diga! e eu cá não sei se um dia há um clic! e os dois lados se integram em nós como se tivesse havido magia, ou se é dia a dia e passo a passo que vamos andando, um dia para a frente, um passo para trás, outro dia e mais um bocado, outro passo e retrocedemos... o que sei, o que sinto, é que este passo a caminho de ti me traz, afinal, muita paz interior. quando mergulho nos teus braços, quando me sento no escuro do teu peito, quando me entrego à voracidade com que, também tu, queres ser amada... tudo se aquieta, tudo se acalma, tudo se expande. nem sequer dou mais a desculpa de que esta é a humanidade que tenho, como quem se desculpa por ser tantas vezes tão imperfeita, mas dou por mim a agradecer não brincar mais aos deuses, a não ser quando me vejo capaz de voltar a brincar como as crianças, e então tanto faz se sou o monstro, o humano ou o deus porque a brincadeira é sempre e só uma brincadeira e mais nada. o avesso, afinal, não é o mundo virado de pernas para o ar e o esforço que tantas vezes fazemos para o endireitar é precisamente o que faz com que não se endireite. ontem, foi tão grande o impacto que a sombra humana do Emídio teve na minha sombra, - isto de sermos todos o mesmo tem destas coisas - que lhe escrevi um e-mail. e agora mesmo, enquanto escrevia este texto, ele respondeu-me. e julgo que não se importa que eu transcreva uma parte do que me disse. e disse ele: 'a vida é uma aventura deliciosa. quando abraço a minha sombra e o meu ego, quando deixa de haver luta dentro de mim, quando deixo de precisar da aprovação dos outros. quando te amo sem esperar amor de volta. sabe bem amar. estou viciado. descubro que sou totalmente egoísta: amo tudo porque me faz sentir tão bem comigo mesmo. delicioso.' e então é assim, sombra, nós só temos de facto o que é aqui e agora e, aqui e agora, prometo que será um domingo delicioso para ambas. abraço-te e hoje comprometo-me a amar-te como mereces. a ti e aos monstros que somos, a mim e à luz da luz que me faz ser transparente. obrigada por fazeres parte de mim :) e, agora sim, o sorriso saiu verdadeiro...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

'il faut cultiver notre jardin'

foi no tal dia da conólostopia. estava de rastos e não era só do jejum, mas de outros vazios a roer-me as entranhas. estava em casa da minha mãe quando a minha irmã, cansada de tanto ranho e de tantas lágrimas, me deu um forte abanão e me chamou a atenção para a Maggie Doyne. 'olha mas é para isto', disse ela, abrindo-me a sua página do FB. 'uma miúda de 23 anos, americana, com uma obra espectacular no Nepal! é a minha heroína!'
confesso: no estado em que estava, eu quis lá saber quem era ou quem deixava de ser a boa da Maggie Doyne! por mais grandiosa que seja a obra dos outros, quando o vaziozinho nos rói as entranhas e nos enche daquela auto-comiseração indegesta, parece que somos como naquela frase do Herman Hess: 'em dias de nevoeiro, as árvores não se reconhecem'.
assim fiquei eu, irreconhecendo que só podia ser nevoeiro aquilo que inchava os meus olhos e me fazia sentir a mais infeliz das criaturas à face da Terra, indiferente aos meus semelhantes, achando talvez que pertenciam à espécie das 'aves raras'. pelo sim pelo não, carreguei no 'like' da  página da Maggie Doyne, que assim entrou no meu universo do FB. 

hoje voltei lá. à Maggie Doyne... e por lá fiquei durante toda esta tarde de sol. passei pelo seu blogue, li uma entrevista que deu, vi um filme em que se apresenta, a si e à sua obra. vale  mesmo a pena seguirem os links. no entanto, e para os mais preguiçosos, aqui fica um pequeno resumo da história: depois de acabar o liceu, e antes de ingressar na faculdade, Maggie resolveu tirar um ano para viajar. partiu para o Nepal de mochila às costas e nunca mais voltou aos Estados Unidos. de lá, escreveu aos pais a pedir que lhe mandassem as suas poupanças e construíu a 'Kopila Valley Children's Home', onde hoje acolhe, alimenta, ama e educa trinta crianças órfãs.

em dias de sol, ao contrário do que acontece nos dias de nevoeiro, reconhecemos que todos fazemos parte da grande família humana. e comovemo-nos perante exemplos tão generosos da nossa raça, perante pessoas que nos garantem que, em termos de afectos, não estamos falidos e que a disponibilidade, a entrega e o amor fazem, de facto, milagres. por outro lado, corremos o risco de subestimarmos as nossas capacidades - e os nossos dons - e de nos amarfanharmos perante as Maggies Doyne do mundo - é o tal vaziozinho a roer as entranhas, a tal auto-comiseração, essa fatalidade do nosso egozinho carente, mas poderosíssimo, que, perante os apelos da nossa alma, se finge de surdo e se serve de toda e qualquer desculpa para não fazer sempre mais e melhor por si próprio, pelos seus semelhantes e pela grande família - humana e não só. 

não, isto não significa que desatemos todos a pegar nas mochilas e a rumar ao Nepal para construir orfanatos! mas significa, como dizia Voltaire, que cada um tem de cultivar o seu jardim. ou, como diz um amigo meu, 'se cada um for responsável pelo seu quintal, já não é nada mau.' 
o grande drama desta nossa família é o tal nevoeiro. o grande obstáculo é que muitos não querem tratar do quintal, mas deixar que o minem as ervas daninhas. o grande senão é quando se opta por cobiçar o quintal da vizinha, porque dá figos, nêsperas, ameixas, enquanto o nosso só dá laranjas. o grande equívoco é não percebermos que todos somos sementes de algum canteiro nesse mundo, de uma pequena erva que seja que, posta a crescer, pode um dia virar um quintal e na estação seguinte um jardim e por aí fora, até o mundo estar semeado de amor e todos gostando de partilhar as colheitas.

utopias? talvez. mas antes 'sofrer' de uma utopia do que de miopia. miopia é, precisamente, o tal nevoeiro que impede as árvores de se reconhecerem. é recusar o dom que todos temos - eu acredito que sim - e fingir que em nós não existe semente de nada. seja qual for o fruto que dá - orfanatos, laranjas, sorrisos, poemas, disponibilidade para os outros, alegria, coragem, famílias felizes, abrigos para os animais, escolhas saudáveis e sustentáveis, soluções criativas - há que plantá-la. e é urgente que todos o façam.  cada um à sua maneira, cada um à sua medida, com os recursos que forem possíveis. chega de nevoeiro, de não nos reconhecermos como todos fazendo parte do mesmo e dessa conversa de que estamos 'falidos'!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

coisas simples


Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas
lo mismo que un árbol que en tiempo de otoño muere por sus hojas
al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas
y esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón
Un vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
entonces parece como estan de ausentes las cosas queridas
por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
que el amor es simple y a las simples cosas las devora el tiempo
Demorate aquí en la luz mayor de este mediodía
donde encontrarás con el pan al Sol la mesa tendida
por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
que el amor es simple y a las simples cosas las devora el tiempo


mãe...






... quando tu eras pequenina, 
o mundo era  a preto e branco?






refaço o caminho e vejo-o, de facto, retratado apenas e só em tons de cinzento. quero convencer-me que era da máquina que não chegava para mais, que essa era a tecnologia da época em que as fotografias a cores ainda não eram assim tão comuns e que o meu pai fazia o melhor que podia e sabia quando captava, a preto e branco, os pinhais e as casinhas em pedra das Lages. quero crer as cores já existiam, mesmo que ainda não fosse possível fixá-las. que quando eu era pequena o mundo era a cores, sim, Luisinha, e que já continha todas as cores que existem em nós. do verde ora manso ora bravo do vento ao azul abaulado e turquesa do céu, do recorte acastanhado das serras ao rubor dos poentes, do ouro das searas de trigo magenta aos pomares em laranja e vermelho-maçã, da brisa lilás do crepúsculo ao brilho de  prata das estrelas, o mundo já era a cores quando eu era pequena, sim, Luisinha e as fotografias de mim pequenina, que vês espalhadas em casa da avó e que me mostram apenas a preto e branco não dizem nada da minha infância nem a repetem como dela me lembro, com as casinhas de pedra das Lages assim, iluminadas por Deus, mesmo quando eu fugia, já nessa altura, para debaixo das sombras...


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

hoje, quando as deitei,

estavam as duas preocupadas comigo. mais mansas do que é costume, sem exigências quase nenhumas, solícitas e oferecendo-me doses extra de mimos e beijinhos melosos.
   coitadinha de ti, mãe
dizia a Luísa, ao mesmo tempo que me enchia de festas
   essa conólostopia que vais fazer amanhã deve ser mesmo horrível! 
em jejum desde a uma da tarde, quase não tive forças para rir. muito menos para a corrigir e aí talvez já não por falta de forças, mas porque adoro quando a Luísa inventa palavras. sosseguei-a.
  não, Luisinha, não é horrível. a mãe vai estar a dormir e não vai sentir nada.
e foi assim que a conversa passou da conólostopia para o não sentir nada.
  vão dar-te uma anestesia, não é, mãe?
perguntou a Madalena.
  sim, vão pôr a mãe a dormir e a mãe não vai sentir nada.
  e como é que é? vai doer? já te deram alguma?
quis saber a Luísa.
  já, Luisinha, já levei várias anestesias e não dói mesmo nadinha.
  pois, para tirar os bebés da barriga é preciso estar muito anestesiada
opinou a Madalena.
pela enésima vez, expliquei-lhes que, em casos normais, as mães não levam anestesia nenhuma e os bebés saem pelo pipi, e não pela barriga.
   mas, no caso da mãe,
continuei, com paciência,
   tiveram os quatro de sair da barriga por cesariana e por isso a mãe precisou de levar anestesia.
   então estavas a dormir quando nascemos?
perguntou a Luísa.
também já lhes contei isto não sei quantas vezes, mas parecem esquecer-se.
  quando foi da Francisca e do Lucas, sim, a mãe estava a dormir. mas com vocês as duas a mãe teve a sorte de poder estar acordada, porque a anestesia era só da barriga para baixo.
  e tu viste tudo?
  não, Luisinha, não vi quando cortaram, se é isso que queres saber... mas vi-vos assim que nasceram. eram tão queridas! mesmo pequenininhas... e pus-vos logo aqui, em cima do peito, para vos dar um beijinho.
riram-se as duas e foi então que veio à baila a história da sementinha.
  mãe, pode acontecer a minha sementinha já estar na tua barriga antes de o pai Pippo morrer?
  não, filha, não pode.
  porquê?
  porque a tua sementinha é de outro pai, Madalena.
  mas já podia lá estar e tu e o pai não saberem...
  não, não podia...
ficámos as três em silêncio uns instantes e foi então que ela disse
  mas no teu coração está desde sempre, não é, mãe?

e estão mesmo! no meu coração, desde sempre, está não só a sementinha da Madalena, mas a da Francisca, a do Lucas e a da Luísa. pressinto até que tenham chegado antes de os pais as terem vindo plantar no meu ventre e que nos tenhamos escolhido, para ser mãe e filhos, quando ainda só éramos estrelas.
com uma longa noite de jejum pela frente,  mais frágil do que é costume e com a tal da conólostopia a querer visionar-me as entranhas, é deste amor visceral pelos quatro que também me alimento... hoje e sempre.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

falar com os mortos

só pode ser coisa de quem não está bom da cabeça!, diz quem ainda não descobriu que, do outro lado do véu, os 'mortos' estão vivos e que por isso é normal que vivos e vivos conversem, nem sequer em tom mórbido e sobre assuntos funestos, mas ligeiramente e tantas vezes sobre coisas prosaicas, banais.  se assim não fosse, como seria possível estarmos aqui os dois à conversa? e reparo que é a primeira vez que te trago aqui dentro,
  e então, gostas do blogue?
logo vi que gostavas, ainda que, e ao contrário de mim, já não estejas nessa humana idade das dúvidas, mas na posse de toda a verdade e não, não levo a mal que não contes, 
  que graça teria saber toda a verdade neste momento? 
a verdade, aqui onde estou, é que há já algum tempo que não conversava contigo, admito até que às vezes te evito, com medo de que precises de desviar-te dos teus afazeres luminosos para me ouvires, mas hoje foste tu quem veio procurar-me e se instalou e estive quase para te perguntar
  não queres sentar-te?
e a puxar do banquinho que costumo oferecer às visitas, como se tu fosses visita
  claro que és da casa
e tu prontamente ocupando o lugar que sempre ocupaste, velando por mim para que nenhum mal maior me possa atingir, tu ao meu lado, dentro de mim, em toda a parte, afinal, que essa é a grande vantagem dos vivos do lado de lá, estarem em todo o lado e só virem cá quando sentem vontade de conversar e assim e reparo que te ris
  estás a achar graça, já percebi
não é novidade nenhuma, rirmos os dois durante as nossas conversas, tu mais sarcástico, eu mais mordaz, que bom estares aqui
  é giro o meu blogue não é?
também achei que ias gostar, caso contrário não tinhas chegado precisamente na altura em que me preparava para escrever uma 'nova mensagem' e reparo que já percebeste por que razão pus como título 'falar com os mortos' - e que não tem nada a ver com o facto de estarmos aqui, os dois vivos, nesta conversa que é tudo menos de quem não está bom da cabeça - e porque foi que escolhi a fotografia do anjo de cemitério para a 'ilustrar'
  não, não digas porquê, deixa que fique só entre nós
e daqui a uns dias veremos se foi ou não boa ideia, tendo em conta que o objectivo era um só, mas que nem sequer é importante para esta nossa conversa
  pois é, que bom estares aqui, chega a parecer quase um sonho!
e lembro-me, não sei porquê, dos nossos sonhos aos vinte, vinte a tal anos, casar e ter  filhos, uma varanda com vista para o Tejo, comprar um pequeno terreno na ilha do Sal, em Cabo Verde, e passarmos lá férias, lembro-me dos pesadelos aos trinta e dois, depois de nos terem atropelado esses sonhos, lembro-me de me dizeres 
  eu aposto em ti mas é aos quarenta!
assim, tal e qual como disseste agora mesmo,
  eu aposto em ti mas é aos quarenta!
e aqui estou eu, quarentona, 
  já viste?
meia vida cumprida, se acreditar que a média humana ronda os oitenta, dois filhos quase criados e outras duas que para lá caminham, ainda e sempre cheia de dúvidas, mas isso faz parte da vida, tranquilamente à conversa contigo numa noite de outono, e ainda há quem diga que falar com os mortos é coisa de quem não está bom da cabeça, imagina,! como se realmente tu tivesses morrido naquele dia de verão e não me restasse outra opção senão a de ir ao cemitério pedir aos anjos de pedra para te mandarem saudades, sempre que as saudades de falar contigo viessem à tona...
  que disparate, não achas?

patchamama

suar dentro das entranhas da terra é um ritual ancestral e xâmanico que purifica o corpo e o espírito.
a primeira vez que entrei numa 'cabana do suor' - uma espécie de iglo feita com paus e forrada com panos - foi em fevereiro de 2006.
lá fora, em plena serra algarvia, fazia um frio de rachar e o inverno parecia ter vindo, também, instalar-se dentro de mim. nessa altura, passava por uma crise profunda, a todos os níveis - creio que já era Urano, que iria opôr-se a si mesmo dali a uns tempos no meu mapa natal, a fazer-me um convite e a dizer-me
 deita fora isso tudo que já não te serve!
como em todas as primeiras vezes, sentia algum medo. não temia o calor, nem o escuro da cabana, mas a fragilidade que me consumia baixava as minhas defesas. não fazia a mínima ideia do que iria passar-se lá dentro e o facto de estar numa roda entre estranhos, à frente dos quais iria ter que despir-me, e ao mesmo tempo a sentir que nada em mim circulava, só aumentava a sensação do desconforto.

✻ ✻ ✻

como em todos os 'temazcallis', a cerimónia teve início ao redor da fogueira. dispostos em círculo, começámos por dar graças ao fogo, que nos aquecia naquela gelada noite de inverno, ao mesmo tempo que, em silêncio, pensávamos nas intenções que levaríamos para dentro do ventre da mãe. como se, dali a pouco, a oportunidade que nos ia ser dada de renascermos de novo pudesse alterar muitas coisas nas nossas vidas - sobretudo, nos nossos comportamentos e atitudes.
não me lembro ao certo o que foi que disse em voz alta, já que é sempre em voz alta que expressamos as intenções, para que todos os que fazem parte do círculo possam ouvi-las, mas sei que pedi. pedi tanto... tanto, tanto e tantas coisas! pedir é, afinal, tão humano, não é? pedir paz, pedir amor, pedir luz para o caminho é a prece diária de qualquer ser mortal, que assim tenta livrar-se - ou simplesmente integrar - a dualidade que encarna. pedir que o FOGO derreta os padrões, que a TERRA acolha as sementes e nos dê a colher os seus frutos, que a  ÁGUA dissolva os bloqueios e as emoções negativas, que o AR seja um alento para o espírito... assim pedi eu e pedi isso tudo! na companhia dos quatros elementos, nua e sozinha, despida de máscaras e recolhendo às minhas próprias entranhas, pedi paz e amor e muita luz para o caminho e, sobretudo, coragem para ultrapassar aquela crise profunda em que estava na altura.

✻ ✻ ✻

a intensidade de tudo o que se passou a seguir ficou marcada para sempre - no meu corpo e na minha alma. foram horas em que, esquecida do tempo, numa luta contra o calor que me comia por fora e o escuro que me aflorava por dentro, me desprendi de tudo o que era e me entreguei à mãe terra, como um recém-nascido que não sabe nada das coisas do mundo, mas que se lembra ainda de tudo o que trouxe do céu. lembro-me de estar enroscada, tal como um feto no útero materno, e de ter chamado  baixinho, a chorar, a terra de mãe. e de ela me ter acolhido e me ter abraçado e de só assim ter sido possível suportar tanto suor e tantas lágrimas.
   
✻ ✻ ✻

durante estes últimos anos, repeti o ritual outras vezes e, ontem, pela oitava - número que sempre associo à espiral infinita do movimento do cosmos  - voltei a suar e a chorar nas entranhas da terra.
estava uma noite morna de outono, a lua já não estava tão cheia, mas ainda branca e redonda num céu polvilhado de nuvens e estrelas e, se estou numa 'crise' - e creio que estamos sempre a passar por alguma - a minha é agora de crescimento e de (auto)cura, e já não de  impotência e desespero. não sei se por isso, a minha intenção foi tão clara que não tive uma dúvida quando, em voz alta, a expressei dentro do círculo, de olhos postos no céu e dirigindo-me a Deus
  já pedi tanto, e tantas coisas, e já tanto e tantas coisas me foram dadas ao longo da vida, que hoje venho oferecer-me. a Ti e ao Fogo e à Terra e à Água e ao Ar, para que a cura aconteça, de facto, e curada eu possa Servir na cura dos outros.
posso dizer-vos que foi o temazcalli mais duro, mais difícil e o mais intenso dos oito. e é por isso que me sinto tão grata.

sábado, 23 de outubro de 2010

ando a casar-me

estranha, a expressão? admito que sim. é mais comum ouvir-se dizer 'vou casar-me', 'casei-me', 'sou casada'... mas 'ando a casar-me'? a verdade é que ando. a tentar, pelo menos, que isto de um casamento tem tanto que se lhe diga, tantas voltas e reviravoltas, tantas esquinas e contratempos e, ao mesmo tempo, tantas potencialidades!... a minha sorte é que, desta vez, nenhum noivo espera por mim no altar e o anel que trago no dedo, apesar de ter sido oferecido, foi na condição de ser capaz de assumir um compromisso comigo. é de prata, mas podia ser de latão,  de cobre, de arame ou de outra substância qualquer, já que o mais importante é conseguir 'consubstanciar' corpo e espírito, no sentido mais íntimo, e quase biblíco, do termo: como a presença de Cristo, na Santíssima Trindade, sendo ela mesma. 

pois é, ando a casar-me comigo e a fazer por prometer-me fidelidade, nem sequer até ao fim dos meus dias, mas por toda a eternidade. a jurar amar-me e honrar-me, nas condições favoráveis, mas também nas adversas e a retirar, um a um, todos os véus com que as noivas tapam a cara  e enfeitam cabelos e que, na maior parte dos casos, as deixam às cegas, ou então apenas permitem que vejam o mundo através dos buraquinhos do tule...

não é fácil, creio que é até mais difícil casarmos connosco do que com outro. é muito mais complicado deitarmo-nos todas as noites e sermos capazes de nos abraçarmos sem nenhuma distância ou reserva, mesmo que pareça mais simples ter os braços do outro à nossa espera na cama. é muito mais verdadeiro, embora mais duro, exigirmos de nós fidelidade ao que somos, em vez de andar a morrer de ciúmes com as mentiras e as infidelidades do outro. é muito mais justo dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro nunca dizer 'amo-te'. é fundamental, é visceral,  eu diria, casar-me comigo, para que um dia, então, me case com outro - se for essa a escolha, se for esse o caminho... (e não tenho uma dúvida de que as Balanças é sempre isso que escolhem e sempre esse o caminho que tomam...)

já me casei duas vezes e sei do que falo. a primeira com tudo a que tinha direito - dia marcado, vestido de noiva, alianças, uma capela com vista para o rio, um coro afinadérrimo e uma homilia lindíssima, um copo de água abundante, uma lua de mel numa ilha, dois filhos maravilhosos e oito anos de um dia a dia de enorme partilha e cumplicidade. um casamento que, desconfio, se não tivesse acabado num atropelamento brutal, acabaria de outra maneira (ou talvez não e tudo o que forem especulações não passam de mera retórica e não cabem aqui...)
o segundo não teve dia marcado, nem alianças, nem padre, nem coro, nem capela, mesmo que tenha tido vista para o rio muitas vezes, sobretudo da cama de onde chegaram mais duas filhas maravilhosas, e que me deu, senão um marido, um amigo fiel. foram mais oito anos da minha vida e o facto de ter partido para eles já não vestida de noiva e de branco, mas de viúva e de luto,  talvez tenha feito toda a diferença - mas, mais uma vez, entro no campo das especulações e não quero. separámo-nos há já algum tempo, mas fico contente por termos sabido continuar juntos, partilhando em paz o que nos é comum e assim evitando cair em guerras antigas. 

se o provérbio está certo e 'não há duas sem três', hei-de voltar a casar-me de novo. não faço ideia com quem, nem onde, nem como, nem quando, se vestida de noiva ou de cigana,  se numa capela ou no campo ou na praia, se haverá coro ou apenas um mantra dito em silêncio por ambos, se a lua será de mel ou de uma luz ainda mais doce. por mais que neste momento até possa ter sonhos e desatar a fazer mil projecções sobre o futuro, o presente que tenho para me oferecer é só um: casar-me comigo e prometer ser minha para sempre.

amén.

Lua cheia em ♈

em assuntos de astrologia, não sou leiga nem sábia e o pouco que sei é mais intuído do que fruto de estudos profundos. aqui e ali vou lendo umas coisas e aprendendo outras tantas, já fui vezes sem conta ouvir quem realmente percebe a linguagem dos astros falar do meu mapa, eu própria pinto mapas da alma, mas sempre guiada por intuições e por cores, mais do que por definições ou conceitos mentais. afinal, a astrologia é uma linguagem simbólica, onde podemos ver tudo e todos. onde, mesmo sem sermos peritos ou sábios nas coisas dos astros, intuímos do seu movimento as energias que nos dizem respeito e que de nós fazem parte.
uma Lua cheia em Carneiro diz-me respeito, não só porque é nesse signo que a tenho e que, por estar oposta ao meu Sol, em Balança, significa que, quando nasci, às dez e um quarto da noite, estava uma noite de Lua cheia, mas também porque neste momento da minha vida o meu oposto e complementar é Carneiro. sim, Carneiro é sempre o signo oposto e complementar de Balança, mas nem sempre foi o signo do 'meu' companheiro.

hoje, ao ler este texto e a reflexão que propõe, se a isso estivermos dispostos, mergulhei no tal eixo Carneiro-Balança que é, afinal, a relação do eu com o outro. há muitas formas de relacionarmos o eu com o outro. a mais fácil, mais comum e mais tentadora é projectar sobre o outro os desejos e as expectativas que o eu que é nosso transporta e esperar que ele as cumpra. mais cedo ou mais tarde, a frustração de o outro, afinal, ter desejos e expectativas diferentes e não poder, por isso, ajudar a que se cumpram as nossas virá ao de cima. com Saturno neste momento em Balança, as relações que funcionam no pressuposto de que virá um outro fazer-nos felizes para sempre têm os dias contados. a ilusão de que o alívio para as nossas feridas chega em regime de ambulatório pelas mãos de um 'enfermeiro' disponível, gentil, amoroso, impede que se manifeste o dom de curadores que todos nós temos. e o eu tem sempre feridas algures a precisarem de cura, buracos que ao longo dos anos não soube tapar, frinchas por onde a luz escapa, arestas que urge limar. pôr no outro essa responsabilidade é um equívoco a que já cedi muitas vezes. 'anda cá e dá-me colinho e diz que vais amar-me para sempre' é ladainha de belas adormecidas - patetas e alimentadas por anos e anos de contos de fadas - que decidiram que só acordavam quando o princípe viesse beijá-las.

eu dormi muito tempo esse sono encantado e até tive alguns princípes que me beijaram  e que prometeram amar-me para sempre, é verdade. e, afinal, tudo em mim continuava dormente. as feridas, ainda, todas latentes, os buracos à vista e eu a escapar-me por eles, a afundar-me e sem querer sair lá de dentro para não ter de enfrentar o mundo da Alice, de pernas para o ar, sem as maravilhas  - e sobretudo os maravilhosos - que julgava merecer. 
mas a vida não é um conto de fadas e ainda bem que não é. o que não quer dizer que a magia não esteja presente em cada dia das nossas vidas... o perigo é confundirmos magia com ilusionismo e deslumbramo-nos com os seus truques banais. quantas vezes não me deslumbrei  eu com coelhos que foram saíndo de tantas cartolas e não achei que o milagre da multiplicação de lenços de seda a sairem dos bolsos eram a prova provada de que, finalmente, um mágico tinha chegado aos meus braços? quantas vezes não quis entrar no baú forrado de estrelas para que as espadas me trespassassem e eu, afinal, saísse inteira e incólume do seu interior de fundos falsos e outras quimeras? quantas vezes não me entreguei a valetes de copas achando que, com esse trunfo nas mãos, o jogo só podia estar ganho?

ilusão e magia são mesmo coisas diferentes! e não há nenhum jogo, a não ser o dos espelhos - e mesmo esse está cheio de armadilhas e permite um sem fim de batotas, de cada vez que não temos coragem para mudar no eu o que o outro nos mostra, e preferimos esperar que seja o outro a mudar o que nele, afinal, não gostamos de ver. a própria Lua, que esta noite será Lua cheia, em Carneiro, não ilumina o meu Sol em Balança, porque o Sol, ao contrário da Lua, tem sempre luz própria. 

hoje, o desenho que ilustra este texto e que fiz numa altura em que ainda me deixava iludir pelo brilho ofuscante da Lua - quiça pela personalidade esquizóide que alguém com o Sol e a Lua opostos no mapa sempre revela - vem mostrar-me que o eixo que liga o eu e o outro, apesar de contínuo, é feito de etapas, estações e apeadeiros e que talvez nem agora, depois de tanto caminho já feito, as duas espirais possam unir-se para dar origem ao movimento do oito infinito... 
primeiro, é preciso que cada uma seja infinita em si mesma, e inteira, acima de tudo, já que o mito da 'cara metade' é só e apenas outra versão dos contos de fadas. relações assentes na divisão de um ser em metades - tu completas a minha e eu eu troca completo-te a tua - são coisas de telenovela e das tais Belas que adormeceram a vê-las.

talvez eu própria ainda tenha algum sono e outros tantos resquícios de anos e anos de encantamentos, diria que quase genéticos, mas a verdade é que me sinto cada vez mais desperta. bela, mas acordando do sonho infantil das princesas patetas que se enfiam em redomas de vidro e ficam à mercê da chegada dos príncipes. Balança capaz de equilibrar tudo o que em mim não é complementar, mas oposto, tapando os buracos com terra e com ar e com fogo e com água. sarando o que tanto, e ainda, me dói, limando as arestas e ouvindo o meu coração que bate 
e que bate 
e que bate 
e que bate 
e desta vez entrando na dança que me propõe, muito mais do que caindo na ilusão de me agarrar a esse pulsar e lhe contar as batidas, para que encaixe numa qualquer pauta pré-concebida que só serve de banda sonora aos romances dos filmes.

a Lua não se agarra, preenche-se

daqui
quantos quartos de Lua ainda terei de contar para perceber que é só uma? uma só lua que se enche e esvazia como as marés de sal nos meus olhos, até atingir a novidade do escuro e recolher-se ao silêncio?
uma só lua renascendo num traço crescente, crescendo ao relento e curvando no colo o embalo da infância, sentindo que a cada noite que passa preenche mais uma frincha de corpo e dá mais um passo no céu.
aos poucos, a luz torna-se cheia, redonda,
lua de shakti,
lua de fecundidade e prazer, de magias, de branco, de âmbar, das ilhas que aos poucos se encontram para formar arquipélagos ou, simplesmente, baloiçar no mar alto ao sabor das correntes.
não dura mais do que uma noite e logo a seguir emagrece.
aos poucos, também,
- que tudo leva o seu tempo-
e recolhe-se em busca do acto minguante, voltando a atingir a novidade do escuro e a ser lua de shiva.
a lua da transformação.
da solidão.
da cegueira.
do silêncio dos deuses.

o ciclo repete-se noite após noite,
mês após mês,
ano após ano,
toda uma vida.
assim como nos enche, a lua esvazia-nos.
querer agarrá-la é loucura.
mas preencher o vazio em que nos deixa enquanto mingua é ir ao encontro do Sol que escolhemos vir ser nesta vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quando eu era pequena

era quando? e quanto é o tempo que me separa desse tamanho de mim e por que razão me lembrei dele agora? agora e aqui e eu já muito crescida, 
  - ou nem tanto!
aqui e agora e eu ainda menina
  - menina?!
'a nossa menina', como diziam as tias, 'ai a menina!', ralhava o meu pai, 'sempre a fazer disparates'
 - ai, ai!
calculo que para chamar a atenção, mais do que por ser realmente uma menina disparatada, 
 - mimada!
a menina inesinha, como dizia a Joaquina e ainda diz, vejam lá que ainda me chama,
  - inesinha!
e eu, aqui e agora, já deste tamanho, quarenta anos mais quatro, quando é que algum dia, quando eu era pequena, imaginei poder vir a ser tão crescida?

'quando eu era pequena', na escrita, é sempre a frase que me leva de volta aos lugares mais seguros e às memórias mais doces.  a não ser que o tempo nos amoleça as recordações, como a calda faz com a fruta quando a transforma em compota, e a minha infância não tenha sido, afinal, nem tão feliz nem tão boa. além disso, quando eu era pequena era quando? quando tinha dois anos, três anos, cinco, sete, dez a caminho dos onze? e há quanto tempo foi isso? matematicamente, foi há mais do que trinta, mas a contagem dos anos não é apenas a soma dos dias ou das estações, há que subtrair-lhes as dores e as feridas, multiplicar as assombrações que nunca expulsámos de debaixo da cama, dividir o que um dia quisémos que fosse só nosso pelos irmãos que vieram mais tarde.

quando eu era pequena, aos dois ou três anos, era esta em Fiais. vestido aos quadrados vermelhos e pretos, ainda que o meu pai os fotografasse de acordo com a tecnologia da época, a preto e branco,  portanto, sandálias, cabelo cortado à rapaz e os pinhais todos por  conta. e era feliz, tenho a certeza que era, tenho a certeza que as tias estavam sentadas ali muito perto, sou bem capaz de lhes estar a mostrar o que seja que tenho nas mãos, que tenho ou que tinha, já não sei em que tempo estou afinal, se quando eu era pequena continua a ser hoje ou se foi há mais tempo, em que é que ficamos?

ficamos aqui, nesse caso. aqui e agora, no tempo sem horas e na estação que é sempre a que mais docemente perdura nas minhas memórias. e que apesar de estar retratada em tons de cinzento era cheia do verde do verão e do rumor desbravado e azul dos pinheiros, rendendo-se ao céu. por isso, quando eu era pequena é agora. neste exacto momento em que escrevo, esta sou eu. aqui e agora, eu sou quem eu era quando era pequena. a 'nossa menina', como diziam as tias ou, simplesmente,
  - a menina
tão querida!, provavelmente mimada, é possível, e disparatada
 - ai, ai!
a caber no tamanho que tinha e em todos os sonhos que ainda mantenho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

das fadas e das magias que fazem

sempre que vou a uma escola falar do Pede um Desejo, há três ou quatro, ou mesmo cinco crianças que logo me avisam, com caras de caso
 olha que eu cá não acredito em fada nenhuma!
há outras que me pedem provas da sua existência, algumas querem saber coisas prosaicas, como o que é que elas comem ao pequeno-almoço ou se também lavam os dentes antes de irem para a cama, há muitas que partilham da minha crença e que dizem, com um brilhozinho nos olhos,
 eu cá acredito e até já vi uma!
no imaginário infantil, as fadas são sempre as fadas dos contos de fadas. as fadas madrinhas da Bela Adormecida, a da Cinderela, a Sininho da Terra do Nunca, as Winx - numa versão mais moderna - e milhares de outras parecidas. 
são sempre brilhantes, com asas, varinhas, pozinhos de perlimpimpim, capazes de transformar desejos em realidades, borralheiras em princesas magníficas, com poderes, dons e bondades que em muito transcendem a humanidade comum. 
quando, então, essas três ou quatro ou mesmo cinco crianças me dizem que não acreditam em fadas - e  que felizmente são sempre a minoria -,  em vez de tentar provar-lhes que as fadas do Pede um Desejo são verdadeiras, eu falo-lhes das 'tias mágicas'. 

as tias mágicas eram minhas tias-avós. nunca casaram e viviam as três, com os meus avós, num casarão em Pedrouços. eram bondosas e mansas, magrinhas, mas com uma largura de colo onde cabíamos todos (e, ao todo, somos dez primos), disponíveis para qualquer emergência ou urgência que pudesse surgir - ficarmos doentes em casa, esfolarmos um cotovelo, precisarmos de quem nos levasse ao ballet, de enxovais para as bonecas, de aprender a coser, de companhia para ir ao jardim - e lembro-me delas sempre a sorrir.
não tinham asas, não tinham varinhas e, em vez de pozinhos de perlimpimpim, costumavam brindar-nos com a sua paciência, infinita, com leite creme queimado por cima, com histórias de quando eram pequenas, com beijos e mimo e tudo o mais que vissem que nos faria crescer e, mesmo assim, continuar a acreditar em magias. 
os seus nomes verdadeiros eram Maria Emília, Maria Helena e Maria Eugénia, mas os seus nomes de fadas eram Mimi, Melé e Mejé, e a presença benigna das três, ao longo das nossas infâncias, trouxe alívios e curas que talvez só muito mais tarde tenhamos, realmente, entendido.
quando a primeira partiu - e que foi uma das gémeas - e pela primeira vez me confrontei com a morte, tinha dezasseis anos. já era um bocadinho crescida, portanto, mas custou-me imenso aceitar que as fadas fossem mortais. a segunda, a Mimi e a mais velha das três, partiu três anos depois e já não me custou assim tanto, pois começava a ser capaz de ver o fio contínuo que liga a Terra e o Céu e, até, de falar com elas quando olhava para as estrelas.
a Mejé viveu muitos anos e só morreu muito velhinha e ainda a vi com os meus dois filhos mais velhos ao colo e apresentei-lhe a Madalena, quando ainda só estava na minha barriga. tinha uma fé que movia montanhas, uma capacidade de aceitar dias de chuva e de sol, sempre com a mesma alegria e nem as extra-sístoles que lhe agoniavam o coração o faziam pulsar longe de nós. 
nos últimos tempos, vivia sozinha no casarão de Pedrouços, mas todos os dias um de nós ia vê-la, retribuíndo assim as magias que tinha feito connosco durante anos a fio e que eram coisas tão simples como as que tinha feito por nós. companhia, um chazinho de tília para o lanche, acompanhá-la à missa ao domingo, dar-lhe o braço para subir as escadas, levá-la a uma praia, a um jardim ou ao teatro, convidá-la para almoçar num restaurante com vista, dar-lhe muitos abraços e muitos beijinhos e fazer com que nunca sentisse que tinha ficado sozinha.
perante as minhas fadas humanas, mesmo as crianças mais cépticas sentem que a magia, afinal, não é exclusiva dos personagens dos livros e, menos ainda, uma mentira que lhes contamos para as fazermos felizes, mas que pode ser qualquer pessoa que até existe nas suas vidas. seja uma tia, uma prima, a professora da escola, a senhora que se sentou ao lado delas no autocarro e que tinha um sorriso maravilhoso, a mãe quando dá beijinhos nas feridas, o pai quando canta, a amiga que empresta os lápis de cor e por aí fora...
sim, é muito importante contar às crianças as histórias das fadas dos contos de fadas, mas mais importante é dizer-lhes que, também elas, são poderosas e muito capazes de fazer grandes magias no mundo. sem asas e sem varinhas e sem pozinhos de perlimpimpim que, isso sim, só existe nos filmes...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

a 'espiritualidade lindinha'

daqui
a expressão foi 'roubada' ao António e espero que ele não se importe que a use. e a sensação que me dá ao ouvi-la é que temos andado a tratar do nosso espírito - ou alma, ou o que preferirem chamar-lhe - um pouco como quem trata das unhas dos pés, do cabelo, da gordura a mais na barriga, das rugas, dos pêlos e por aí fora. 
a par dos inúmeros institutos de estética que proliferaram um pouco por toda a parte nos últimos anos,  onde vamos cuidar da nossa imagem exterior para ficarmos 'lindinhos' por fora, houve também a proliferação dos 'centros anímicos' - onde vamos tratar da beleza interior, para ficarmos 'lindinhos' por dentro. a oferta é para todos os gostos, todos os géneros e todas as bolsas e contempla um sem fim de técnicas, experiências, vivências e posições. do yoga às massagens, dos tratamentos de reiki às regressões a vidas passadas, dos retiros de silêncio às curas xamânicas, das leituras da aura ao alinhamento dos chakras, das meditações aos círculos de cura, das consultas e cursos de astrologia às palestras sobre os mais variados assuntos, das canalizações ao transe assistido, dos livros de auto-ajuda aos 'manuais de instruções' dos gurus, nunca, como nesta dita 'nova era' nos esforçámos tanto por ser (parecer?) 'lindinhos' por dentro.
mas, afinal, lindos por dentro nós sempre fomos... ou não? lindos e... feios! e é aí que reside o engodo da 'espiritualidade lindinha'. ao prometer-nos mundos e fundos para a alma, exactamente da mesma forma e na mesma medida que a indústria estética promete fundos e mundos para o corpo, o resultado, na maior parte das vezes, é a vivência de uma espiritualidade plástica, asséptica e aquém dos resultados que, neste momento, o universo nos pede para, realmente, ascendermos e elevarmos a humanidade à raça dos anjos.
e isso, pese embora a importância e a influência que cursos, palestras, retiros, livros, encontros, massagens, cristais e etc. e etc. e etc. poderão ter... isso não chega! e não há ninguém neste mundo, a não ser cada um, em silêncio e consigo, quem poderá encontrar a 'receita' para que o seu espírito se manifeste neste tumulto  em que transformámos a Terra.
ainda no outro dia, pasmei perante uma 'lista de regras para a nova era' que vi por aí. fiquei que tempos a tentar perceber o que era que me incomodava naquilo. pode ser uma mera questão de conceitos, mas 'lista' e 'regras' não condizem de todo com o que entendo por 'nova era'. a Era de Aquário, acredito, será uma manifestação de excepções - e as velhas 'listas de regras' um vício caduco da Era de Peixes, em que tentámos impor uns aos outros as nossas meias verdades. acredito, então, que manifestar a excepção  - e o ser excepcional - que cada um de nós É, deixando os 'supostos', as 'regras' e o 'by the book' de lado é a única forma de fazer emergir a espiritualidade de que todos somos dotados.
diz o António que a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados e eu estou de acordo. chega de andar a brincar aos iluminados, exibindo 'egos' que estão tão bem trabalhados que já quase nem damos por eles, curriculos que não têm fim de tanto que já andámos de um lado para o outro a acumular conhecimentos e cursos, asas que - para já - ainda não estão tão abertas como as dos anjos e que apenas nos deixam voar baixinho e em círculos.
a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados porque, primeiro, é necessário sentir, assumir, aceitar, que somos lindos e... feios! e que a luz que emanamos não brilharia se não fossem as sombras, que todos somos também.



domingo, 17 de outubro de 2010

espantar os espíritos

conta-se que ao sétimo dia, criadas que estavam todas as coisas do Céu e da Terra, Deus foi descansar e maravilhar-se com a obra criada. 
porque hoje é domingo, sétimo dia, e eu ando cansada das coisas da Terra, pus-me a pensar como seria possível criar algo que tivesse a ver com o Céu. 
desde o verão que tinha um saco de conchas, apanhadas na praia pela minha filha mais nova, quase todas partidas, porque a Luísa prefere as conchas partidas às outras perfeitas, inteiras
  coitadas, mãe, estas também têm direito e quase ninguém gosta delas e eu tenho pena, sabias?
e outro saco com paus de pinheiro, também apanhados no verão, mas por mim e no campo. hoje, domingo, dia do descanso de Deus e dia de os homens espantarem cansaços acumulados durante a semana, peguei nos paus e nas conchas e convidei as minhas filhas mais novas para espantarmos os espíritos que sentia rondarem-me. a Madalena estava amuada e não quis, mas a Luísa concordou de imediato e então fomos lá abaixo, ao chinês que nunca descansa e que não sei se partilha da história do sétimo dia e das coisas criadas por Deus no Céu e na Terra, mas que tem sempre um sorriso nos lábios e que nos vendeu prontamente um rolo de corda por noventa cêntimos. depois foi só montar a bancada, pegar no black&decker para furar o pau e as conchas e deitar mãos à obra.
à medida que as ia furando, os maus espíritos iam partindo e sentia que os bons iam chegando. lembrei-me então de umas contas de vidro que tinha guardadas - e essas não sei de onde vieram - e fui buscá-las e a Luísinha ajudava-me a ajustar a bancada à medida das conchas e proibi-a de mexer no berbequim e a Madalena continuava amuada, deitada na rede, e de vez em quando espreitava-nos para dizer
  isso está a ficar mesmo mal.
a seguir, foi enfiar a corda nos buraquinhos do pau, depois as conchas, as contas e os espíritos - maus - espantando-se com a criação de tanta simplicidade, no dia que Deus reservou ao descanso. quando a obra ficou acabada, a Luísa quis ir mostrá-la à Francisca - a mana mais velha - que disse
 boa, ficou mesmo querido.
e então pendurámos o espanta-espíritos ao alcance do sol e tirámos uma fotografia e depois fomos pô-lo onde, a partir de hoje, vai ficar, numa parede do hall da entrada. pode ser que, assim, os espíritos maus não se atrevam mais a entrar cá em casa... ou, pelo menos, que não o façam com tanto à vontade...

sábado, 16 de outubro de 2010

e das preces que fazemos

nos altares dentro de nós 




onde nada nos é estranho nem alheio.
onde não pedimos nada
mas apenas oferecemos.

das preces que fazemos

nos altares fora de nós, 


como se as pedras e as conchas e até a própria areia
nos fossem estranhas e alheias
  como se o Deus a quem pedimos que ilumine as nossas estradas
fosse outro que não nós
nós inteiros debruçados sobre a nossa própria alma
pedindo dons que afinal sempre tivémos
e que esperam 
simplesmente
que ao mundo os revelemos.


lume brando


o sonho do granito arde à sombra dos pinheiros e o corpo aquece 
quando o estendo sobre as pedras da infância
e o entrego à acalmia dos poentes
como se no céu se acendesse uma fogueira
e o lume brando no teu peito
resgatasse a urgência do silêncio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

'morrer e renascer'

há vários critérios objectivos que fazem de um livro um 'bom' livro. a qualidade da escrita, a originalidade da história, a construção e consistência dos seus personagens e a forma como se encadeia a narrativa são apenas alguns. e, no entanto, são os motivos subjectivos que nos fazem gostar mais ou menos de um livro. 
gostei mais - leia-se muito! - deste último livro da Maria José Costa Félix. é um livro intimista, quase todo ele contado na primeira pessoa singular de uma mulher que já foi jornalista, que é astróloga e escritora, mãe, avó e, sim, minha amiga. mas nem foi por nada disso que gostei tanto do livro. 
gostei porque, mesmo contado na primeira pessoa, o livro fala de nós. de todos nós que, ao longo desta viagem humana, vamos constantemente morrendo e renascendo para a vida e preparando, dessa forma, o nosso regresso à eternidade. gostei porque é um livro forte, onde as fragilidades ficam à mostra. porque é um livro desassombrado, que desmonta os fantasmas e as assombrações do passado ou da infância ou de onde quer que nos espreitem. porque é um livro claro, que aponta para 'a noite escura da alma'. porque é um livro simples, que nos explica porque somos, afinal, tão complicados. porque é um livro aberto, que não nos deixa mais fechar a porta a tudo o que não queremos ver nem saber. porque é um livro vivo, que nos fala da morte. 
um livro, acabado de nascer e de chegar às livrarias, que nos convida a renascer, a nós também, das nossas cinzas. dos fins doridos e comuns das relações, dos dias tristes, das ausências dos amigos, da solidão das estações frias, das tantas feridas a que a nossa carne é exposta, dos buracos que parecem sem saída e das saudades com que os 'mortos' nos deixaram. 
um livro obrigatório, que afinal não nos obriga a nada senão isto: revirarmo-nos por dentro e sentir onde é que ainda permitimos não nos tornarmos no que realmente somos: seres divinos a viajar por esta terra, humanamente trajados - e tantas vezes artilhados - para experienciar caminhos, mas animicamente dotados da mesma essência de Deus.
 

beijos e bjs

a virtualidade tem destas coisas: em vez de andarmos aos beijos, andamos aos bjs. mas, passe o jeito que dá abreviarmos palavras, saudades ou despedidas, bjs não são beijos. bjs são inodores e não sabem a nada, ao contrário dos beijos, que trazem dentro os sabores e os cheiros de quem os troca entre si. bjs são três letras que, foneticamente, soam esquisitas, beijos são sons e, tantas vezes, fundos suspiros. bjs são à pressa, beijos são demorarmo-nos na pele uns dos outros. bjs são trocas às cegas, beijos são partilhas às claras. bjs são indiferenciados, beijos são no rosto, na testa, nas mãos, na polpa dos dedos, nas curvas do corpo ou onde quer que a nossa boca os ofereça ou procure. bjs são abreviações, beijos são tantas vezes uma imensa extensão de prazer. bjs são inanimados, beijos animam-nos. bjs são impessoais, beijos transmitem-se e contagiam-nos. bjs são meros disparos das teclas do telemóvel ou do computador, beijos são acertarmos na respiração um do outro. bjs são uma invenção da modernidade e da tecnologia, beijos são a própria espécie, na sua origem, manifestando o amor.  



daqui


terça-feira, 12 de outubro de 2010

- posso ligar-te para aqui?

reconheci, sem esforço nenhum, a voz do meu técnico do outro lado do fio.
 - poder, podes - disse-lhe então - mas já contei a toda a gente que tu não existes...
fez-se silêncio e não ouvi nada a não ser a respiração de um poeta que, naturalmente, rimava com o vento de outono e até com a relva, no mesmo tom manso e verdejante da primavera, como se as duas estações se sobrepusessem e fosse possível eu estar a morrer e a renascer no mesmo momento.
 - ah contaste? - perguntou ele nessa altura.
agora já não respirava, sorria-me apenas como quem sabe, e há já muito tempo, que ponho e disponho da sua existência, conforme me dá na cabeça. 
mas mantive-me firme.
 - contei... contei que era tudo mentira e que estas conversas que tu tens comigo não são mais do que pura invenção. um álibi para a escrita, percebes?
calculo que tenha achado engraçada a minha desculpa, pois deu uma gargalhada tão alta que me fez recuar.
 - muito gostas tu de fugir - e aproximou a sua voz, ainda com ecos de gargalhada no timbre, do meu coração. 
batia tão alto que achei que ia saltar-me do peito e que, logo a seguir, eu morria. 
 - e muito gostas tu, também, de morrer...
foi a minha vez de ficar em silêncio. mas, ao contrário de mim, ele não se atrapalha quando eu fico em silêncio, não sei se ouvirá o vento de cada vez que eu respiro, se do jardim de onde me liga já é primavera, se o outono, para os poetas, terá o aroma das folhas mortas que tem para mim. como se pudesse ouvir-me a pensar, o técnico interrompeu-me:
 - pois fica sabendo que aqui é sempre verão. e que inês-xistir não é estação para ninguém e muito menos para ti. 
a evocação da inês-xistência que há anos me espreita fez-me supor que ele mentia e que o inverno estaria para breve.
 - o inverno é apenas o medo do frio. o pavor de que a neve congele os teus gestos, o cinzento a cair rente à tua janela e tu sem vista para o sol. a estação onde as noites são longas, tão longas que te fazem crer que a escuridão se abateu sobre a terra.
era só uma provocação e, por isso, não respondi. em vez disso, olhei lá para fora e de novo para a relva, achei que talvez estivesse na altura de pôr termo à conversa, mas ele impediu-me de golpear este fio que nos une, de cortar a ligação que é de sempre, de entupir o canal ou até de interferir na frequência.
 - és mesmo teimosa! - e riu-se outra vez muito alto e o seu riso era outra vez um poema que rimava com tudo o que existe no mundo. depois voltou ao assunto que tinha dado início à nossa conversa.
 - contar a toda a gente que eu não existo... isso sim, minha querida, é uma grande mentira! arranja  lá os álibis que quiseres para a tua escrita, mas nunca mais digas que eu não existo. se eu não existisse, de facto, o que seria de ti?
estive quase a responder-lhe que seria na mesma muito feliz e talvez até mais tranquila e que esta coisa de ter a voz dele dentro de mim só me trazia problemas e muitas dúvidas que nem sempre sou capaz de gerir e que era muito melhor se ele voltasse lá para o mundo dos técnicos onde, tecnicamente, a perfeição é possível e que, definitivamente, não me ligasse para aqui nunca mais... e, no entanto,  em voz alta, só fui capaz de lhe pedir:
 - deixa-me em paz!
e só então percebi que é isso mesmo que ele faz.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

mããããããe!




reconhece esta voz? este grito? o tom de urgência vindo não se sabe bem de onde que se repete e se estende e ecoa por todos os cantos da casa?
 - mããããããe!
tão insistente que nem sequer dá para nos fazermos de distraídas? de surdas? de parvas?
 - já vou!
- não grites!
- mas o que é agora?
agora - e sempre! - é sempre uma coisa qualquer. fome. sede. sono. chichi. um puxão de cabelos. um brinquedo partido. um pico no pé. uma turra. um desenho rasgado. medo do escuro. uma abelha que entrou pela janela e pousou em cima da cama. um dente a abanar.
 - mããããããe!
 - o que foi?
uma barbie que perdeu a cabeça numa guerra de irmãos. uma tartaruga ninja mutilada pelo primo mais velho. um copo entornado no chão da cozinha. os olhos cheios de champô. um joelho esfolado. um ataque de fúria. um prenúncio de birra. um capricho.
 - ó mããããããe!
a urgência sobe de tom, parece que trepa pelas paredes acima...
 - já vou!
- espera aí!
- mas o que é que se passa contigo?
um dedo entalado na porta do quarto. uma teia de aranha no tecto. um arranhão de nada na perna. um comando de vídeo sem pilhas. um fantasma debaixo da cama. cansaço.
 - mããããããe!
 - diz lá, o que é?
e, então, seja o que for, depois passa, a voz baixa de tom, a casa volta a ficar em silêncio, o nosso nome fica mais curto e mais doce, estamos mais perto.
 - mãin...
 - sim?
e é quando nos saltam para os braços e se enroscam no colo.
 - ó mããiin...
 - diz lá, o que é?
e é mimo. ou também pode ser manha. é bom de qualquer maneira. quando se encostam e ficam molinhos e nos pedem para contar uma história ou nos contam o que fizeram na escola. quando partilham segredos, migalhas, berlindes. quando a urgência, afinal, é só de um afago, de uma festa, de um mimo, de um sinal inequívoco da nossa presença.
 - mãe...
num timbre tão meigo que nos faz ceder aos caprichos. perdoar as ofensas. subestimar o copo de leite entornado no chão da cozinha. ficar meia hora a tentar consertar a ninja desfeita. caçar os fantasmas debaixo da cama. enxotar a aranha ou a abelha ou a mosca que se atreveu a deitar-se na cama. ir à procura de pilhas. jurar que a fada dos dentes existe. pôr betadine na ferida.
 - estás a ver? não é nada...
deitá-los, aconchegar os lençóis até ao pescoço, contar uma história, fazer cóceguinhas nas costas, esperar que adormeçam e, mesmo assim, até dentro dos sonhos, ouvi-los constantemente a chamar.
 - mããããããe!
ouvi-los, desde bebés, a treinar o som debaixo da língua.
 - mamãmãmã....
e nós aprendendo com eles a entoar o amor.
 - mamãmãmã....
crescendo com eles à medida das sílabas.
 - ma... mã!
deixamos de ter nome próprio para sermos apenas as mães. as mamãs. as mãezinhas. deixamos de ter liberdade, tempo, sossego, paciência
 - mããããããããããe!
e volta tudo ao princípio.
 - diz lá?
- o que é?
apenas as mesmas coisas de sempre. consolas estragadas, pulseiras partidas. dores de barriga. ataques de fúria. sono. fome. cansaço. trabalhos de casa. a bola que foi parar ao jardim do vizinho. a casa de banho inundada. o nariz entupido. os pés enregelados. uma saia que deixou de servir.
 - mããããeeee!
coisas diferentes a cada dia que passa e um dia notamos que mudaram de voz e cresceram, embora nos chamem com a mesma urgência de sempre.
 - mããããããe!
 - diz lá?
- o que é?
uma borbulha no queixo. um top fora de moda. roupa espalhada. trancarem-se na casa de banho. pêlos a nascerem debaixo dos braços. um teste no dia seguinte. o volume da aparelhagem no máximo. humores que mudam da noite para o dia. angústias. histerismo. mensagens cifradas."od e k a mae tá?" saídas à noite. vaipes. ressacas.
 - mããããããe!
um estado hormonal em mudança, um tom que se ajusta, um crescimento em conjunto e tudo o mais que houver para partilhar e sentir.
 - mããããããe!
e nem sequer é um nome.
 - mãe.
mas um chamamento interior.




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

sabes?

(eu sei que tu sabes)

no Domingo passado, quando escrevi que nunca mais voltei à Capela do Rato, estava a mentir. de facto, voltámos lá os dois em Abril, a clarabóia no tecto era a mesma, estava um dia de sol e a luz era a pique que entrava por ela, não nos sentámos nos degraus do altar, mas nos lugares das pessoas crescidas. foi um alívio tão grande ver que, em vez do Cristo pregado na cruz, havia agora um paínel com uma pintura de flores e que a viola do Pepe era a mesma e que ambos sabíamos, ainda, as canções, e foi bom termos estado os dois de mão dada, durante a homilia que já não me lembro do que foi que falou, mas que calculo que fosse inspirada, como as homilias do Pe Alberto. 

a seguir fomos para casa e deitei-me na relva...

hoje voltei a sentir esse milagre de haver amor e bondade no mundo, ainda que nem sempre saibamos como é que ele se dá, nem como, nem onde. mas voltei a senti-lo, esse milagre do pão e do vinho que se transformam no corpo e no sangue de Cristo, voltei a sentir-te na minha carne e que estamos unidos em espírito.
onde é que isso nos pode levar ainda não sei. como te disse outro dia, não prevejo um cais de chegada - nem para nós, nem para ninguém nesta Terra - onde um dia atracamos o barco e para sempre ficamos a salvo das tempestades do mar, mas uma rota que vamos traçando ao sabor de marés e correntes. pode até ser que, um dia, o meu barco rume para norte e o teu se aventure a caminho do sul e, mesmo assim, o céu debaixo do qual navegamos seja um só e o mesmo, pintado de azul ou de outra cor que no momento possa compor a paisagem mais certa.
pode ser tudo e tu sabes. pode ser nada, e também sabes. sabes, até, que aquela história, de três capítulos, de eu ter metade da tua idade e tu o dobro da minha e de nos sentarmos os dois, nessa altura, nos degraus do altar da Capela do Rato foi um só 'romance' de escrita.
a verdade é que a nossa história se vai inscrevendo dentro de nós e revelando o silêncio que nenhuma palavra sabe dizer.

é por isso em silêncio que hoje agradeço - de novo - esta fé de que não há como não crer na alegria benigna da luz, não há como não querer a redenção natural de todos os seres através do amor.