sábado, 16 de outubro de 2010

das preces que fazemos

nos altares fora de nós, 


como se as pedras e as conchas e até a própria areia
nos fossem estranhas e alheias
  como se o Deus a quem pedimos que ilumine as nossas estradas
fosse outro que não nós
nós inteiros debruçados sobre a nossa própria alma
pedindo dons que afinal sempre tivémos
e que esperam 
simplesmente
que ao mundo os revelemos.


lume brando


o sonho do granito arde à sombra dos pinheiros e o corpo aquece 
quando o estendo sobre as pedras da infância
e o entrego à acalmia dos poentes
como se no céu se acendesse uma fogueira
e o lume brando no teu peito
resgatasse a urgência do silêncio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

'morrer e renascer'

há vários critérios objectivos que fazem de um livro um 'bom' livro. a qualidade da escrita, a originalidade da história, a construção e consistência dos seus personagens e a forma como se encadeia a narrativa são apenas alguns. e, no entanto, são os motivos subjectivos que nos fazem gostar mais ou menos de um livro. 
gostei mais - leia-se muito! - deste último livro da Maria José Costa Félix. é um livro intimista, quase todo ele contado na primeira pessoa singular de uma mulher que já foi jornalista, que é astróloga e escritora, mãe, avó e, sim, minha amiga. mas nem foi por nada disso que gostei tanto do livro. 
gostei porque, mesmo contado na primeira pessoa, o livro fala de nós. de todos nós que, ao longo desta viagem humana, vamos constantemente morrendo e renascendo para a vida e preparando, dessa forma, o nosso regresso à eternidade. gostei porque é um livro forte, onde as fragilidades ficam à mostra. porque é um livro desassombrado, que desmonta os fantasmas e as assombrações do passado ou da infância ou de onde quer que nos espreitem. porque é um livro claro, que aponta para 'a noite escura da alma'. porque é um livro simples, que nos explica porque somos, afinal, tão complicados. porque é um livro aberto, que não nos deixa mais fechar a porta a tudo o que não queremos ver nem saber. porque é um livro vivo, que nos fala da morte. 
um livro, acabado de nascer e de chegar às livrarias, que nos convida a renascer, a nós também, das nossas cinzas. dos fins doridos e comuns das relações, dos dias tristes, das ausências dos amigos, da solidão das estações frias, das tantas feridas a que a nossa carne é exposta, dos buracos que parecem sem saída e das saudades com que os 'mortos' nos deixaram. 
um livro obrigatório, que afinal não nos obriga a nada senão isto: revirarmo-nos por dentro e sentir onde é que ainda permitimos não nos tornarmos no que realmente somos: seres divinos a viajar por esta terra, humanamente trajados - e tantas vezes artilhados - para experienciar caminhos, mas animicamente dotados da mesma essência de Deus.
 

beijos e bjs

a virtualidade tem destas coisas: em vez de andarmos aos beijos, andamos aos bjs. mas, passe o jeito que dá abreviarmos palavras, saudades ou despedidas, bjs não são beijos. bjs são inodores e não sabem a nada, ao contrário dos beijos, que trazem dentro os sabores e os cheiros de quem os troca entre si. bjs são três letras que, foneticamente, soam esquisitas, beijos são sons e, tantas vezes, fundos suspiros. bjs são à pressa, beijos são demorarmo-nos na pele uns dos outros. bjs são trocas às cegas, beijos são partilhas às claras. bjs são indiferenciados, beijos são no rosto, na testa, nas mãos, na polpa dos dedos, nas curvas do corpo ou onde quer que a nossa boca os ofereça ou procure. bjs são abreviações, beijos são tantas vezes uma imensa extensão de prazer. bjs são inanimados, beijos animam-nos. bjs são impessoais, beijos transmitem-se e contagiam-nos. bjs são meros disparos das teclas do telemóvel ou do computador, beijos são acertarmos na respiração um do outro. bjs são uma invenção da modernidade e da tecnologia, beijos são a própria espécie, na sua origem, manifestando o amor.  



daqui


terça-feira, 12 de outubro de 2010

- posso ligar-te para aqui?

reconheci, sem esforço nenhum, a voz do meu técnico do outro lado do fio.
 - poder, podes - disse-lhe então - mas já contei a toda a gente que tu não existes...
fez-se silêncio e não ouvi nada a não ser a respiração de um poeta que, naturalmente, rimava com o vento de outono e até com a relva, no mesmo tom manso e verdejante da primavera, como se as duas estações se sobrepusessem e fosse possível eu estar a morrer e a renascer no mesmo momento.
 - ah contaste? - perguntou ele nessa altura.
agora já não respirava, sorria-me apenas como quem sabe, e há já muito tempo, que ponho e disponho da sua existência, conforme me dá na cabeça. 
mas mantive-me firme.
 - contei... contei que era tudo mentira e que estas conversas que tu tens comigo não são mais do que pura invenção. um álibi para a escrita, percebes?
calculo que tenha achado engraçada a minha desculpa, pois deu uma gargalhada tão alta que me fez recuar.
 - muito gostas tu de fugir - e aproximou a sua voz, ainda com ecos de gargalhada no timbre, do meu coração. 
batia tão alto que achei que ia saltar-me do peito e que, logo a seguir, eu morria. 
 - e muito gostas tu, também, de morrer...
foi a minha vez de ficar em silêncio. mas, ao contrário de mim, ele não se atrapalha quando eu fico em silêncio, não sei se ouvirá o vento de cada vez que eu respiro, se do jardim de onde me liga já é primavera, se o outono, para os poetas, terá o aroma das folhas mortas que tem para mim. como se pudesse ouvir-me a pensar, o técnico interrompeu-me:
 - pois fica sabendo que aqui é sempre verão. e que inês-xistir não é estação para ninguém e muito menos para ti. 
a evocação da inês-xistência que há anos me espreita fez-me supor que ele mentia e que o inverno estaria para breve.
 - o inverno é apenas o medo do frio. o pavor de que a neve congele os teus gestos, o cinzento a cair rente à tua janela e tu sem vista para o sol. a estação onde as noites são longas, tão longas que te fazem crer que a escuridão se abateu sobre a terra.
era só uma provocação e, por isso, não respondi. em vez disso, olhei lá para fora e de novo para a relva, achei que talvez estivesse na altura de pôr termo à conversa, mas ele impediu-me de golpear este fio que nos une, de cortar a ligação que é de sempre, de entupir o canal ou até de interferir na frequência.
 - és mesmo teimosa! - e riu-se outra vez muito alto e o seu riso era outra vez um poema que rimava com tudo o que existe no mundo. depois voltou ao assunto que tinha dado início à nossa conversa.
 - contar a toda a gente que eu não existo... isso sim, minha querida, é uma grande mentira! arranja  lá os álibis que quiseres para a tua escrita, mas nunca mais digas que eu não existo. se eu não existisse, de facto, o que seria de ti?
estive quase a responder-lhe que seria na mesma muito feliz e talvez até mais tranquila e que esta coisa de ter a voz dele dentro de mim só me trazia problemas e muitas dúvidas que nem sempre sou capaz de gerir e que era muito melhor se ele voltasse lá para o mundo dos técnicos onde, tecnicamente, a perfeição é possível e que, definitivamente, não me ligasse para aqui nunca mais... e, no entanto,  em voz alta, só fui capaz de lhe pedir:
 - deixa-me em paz!
e só então percebi que é isso mesmo que ele faz.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

mããããããe!




reconhece esta voz? este grito? o tom de urgência vindo não se sabe bem de onde que se repete e se estende e ecoa por todos os cantos da casa?
 - mããããããe!
tão insistente que nem sequer dá para nos fazermos de distraídas? de surdas? de parvas?
 - já vou!
- não grites!
- mas o que é agora?
agora - e sempre! - é sempre uma coisa qualquer. fome. sede. sono. chichi. um puxão de cabelos. um brinquedo partido. um pico no pé. uma turra. um desenho rasgado. medo do escuro. uma abelha que entrou pela janela e pousou em cima da cama. um dente a abanar.
 - mããããããe!
 - o que foi?
uma barbie que perdeu a cabeça numa guerra de irmãos. uma tartaruga ninja mutilada pelo primo mais velho. um copo entornado no chão da cozinha. os olhos cheios de champô. um joelho esfolado. um ataque de fúria. um prenúncio de birra. um capricho.
 - ó mããããããe!
a urgência sobe de tom, parece que trepa pelas paredes acima...
 - já vou!
- espera aí!
- mas o que é que se passa contigo?
um dedo entalado na porta do quarto. uma teia de aranha no tecto. um arranhão de nada na perna. um comando de vídeo sem pilhas. um fantasma debaixo da cama. cansaço.
 - mããããããe!
 - diz lá, o que é?
e, então, seja o que for, depois passa, a voz baixa de tom, a casa volta a ficar em silêncio, o nosso nome fica mais curto e mais doce, estamos mais perto.
 - mãin...
 - sim?
e é quando nos saltam para os braços e se enroscam no colo.
 - ó mããiin...
 - diz lá, o que é?
e é mimo. ou também pode ser manha. é bom de qualquer maneira. quando se encostam e ficam molinhos e nos pedem para contar uma história ou nos contam o que fizeram na escola. quando partilham segredos, migalhas, berlindes. quando a urgência, afinal, é só de um afago, de uma festa, de um mimo, de um sinal inequívoco da nossa presença.
 - mãe...
num timbre tão meigo que nos faz ceder aos caprichos. perdoar as ofensas. subestimar o copo de leite entornado no chão da cozinha. ficar meia hora a tentar consertar a ninja desfeita. caçar os fantasmas debaixo da cama. enxotar a aranha ou a abelha ou a mosca que se atreveu a deitar-se na cama. ir à procura de pilhas. jurar que a fada dos dentes existe. pôr betadine na ferida.
 - estás a ver? não é nada...
deitá-los, aconchegar os lençóis até ao pescoço, contar uma história, fazer cóceguinhas nas costas, esperar que adormeçam e, mesmo assim, até dentro dos sonhos, ouvi-los constantemente a chamar.
 - mããããããe!
ouvi-los, desde bebés, a treinar o som debaixo da língua.
 - mamãmãmã....
e nós aprendendo com eles a entoar o amor.
 - mamãmãmã....
crescendo com eles à medida das sílabas.
 - ma... mã!
deixamos de ter nome próprio para sermos apenas as mães. as mamãs. as mãezinhas. deixamos de ter liberdade, tempo, sossego, paciência
 - mããããããããããe!
e volta tudo ao princípio.
 - diz lá?
- o que é?
apenas as mesmas coisas de sempre. consolas estragadas, pulseiras partidas. dores de barriga. ataques de fúria. sono. fome. cansaço. trabalhos de casa. a bola que foi parar ao jardim do vizinho. a casa de banho inundada. o nariz entupido. os pés enregelados. uma saia que deixou de servir.
 - mããããeeee!
coisas diferentes a cada dia que passa e um dia notamos que mudaram de voz e cresceram, embora nos chamem com a mesma urgência de sempre.
 - mããããããe!
 - diz lá?
- o que é?
uma borbulha no queixo. um top fora de moda. roupa espalhada. trancarem-se na casa de banho. pêlos a nascerem debaixo dos braços. um teste no dia seguinte. o volume da aparelhagem no máximo. humores que mudam da noite para o dia. angústias. histerismo. mensagens cifradas."od e k a mae tá?" saídas à noite. vaipes. ressacas.
 - mããããããe!
um estado hormonal em mudança, um tom que se ajusta, um crescimento em conjunto e tudo o mais que houver para partilhar e sentir.
 - mããããããe!
e nem sequer é um nome.
 - mãe.
mas um chamamento interior.




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

sabes?

(eu sei que tu sabes)

no Domingo passado, quando escrevi que nunca mais voltei à Capela do Rato, estava a mentir. de facto, voltámos lá os dois em Abril, a clarabóia no tecto era a mesma, estava um dia de sol e a luz era a pique que entrava por ela, não nos sentámos nos degraus do altar, mas nos lugares das pessoas crescidas. foi um alívio tão grande ver que, em vez do Cristo pregado na cruz, havia agora um paínel com uma pintura de flores e que a viola do Pepe era a mesma e que ambos sabíamos, ainda, as canções, e foi bom termos estado os dois de mão dada, durante a homilia que já não me lembro do que foi que falou, mas que calculo que fosse inspirada, como as homilias do Pe Alberto. 

a seguir fomos para casa e deitei-me na relva...

hoje voltei a sentir esse milagre de haver amor e bondade no mundo, ainda que nem sempre saibamos como é que ele se dá, nem como, nem onde. mas voltei a senti-lo, esse milagre do pão e do vinho que se transformam no corpo e no sangue de Cristo, voltei a sentir-te na minha carne e que estamos unidos em espírito.
onde é que isso nos pode levar ainda não sei. como te disse outro dia, não prevejo um cais de chegada - nem para nós, nem para ninguém nesta Terra - onde um dia atracamos o barco e para sempre ficamos a salvo das tempestades do mar, mas uma rota que vamos traçando ao sabor de marés e correntes. pode até ser que, um dia, o meu barco rume para norte e o teu se aventure a caminho do sul e, mesmo assim, o céu debaixo do qual navegamos seja um só e o mesmo, pintado de azul ou de outra cor que no momento possa compor a paisagem mais certa.
pode ser tudo e tu sabes. pode ser nada, e também sabes. sabes, até, que aquela história, de três capítulos, de eu ter metade da tua idade e tu o dobro da minha e de nos sentarmos os dois, nessa altura, nos degraus do altar da Capela do Rato foi um só 'romance' de escrita.
a verdade é que a nossa história se vai inscrevendo dentro de nós e revelando o silêncio que nenhuma palavra sabe dizer.

é por isso em silêncio que hoje agradeço - de novo - esta fé de que não há como não crer na alegria benigna da luz, não há como não querer a redenção natural de todos os seres através do amor.

mandala do coração

foi precisamente depois de uma conversa com um querido 'pombo-correio', que ofereci esta mandala feita de conchas, pedras, penas e algas, ao céu, à praia e aos anjos.



expressão da gratidão e do amor que nesse dia senti, o tempo que levei a fazê-la passou-se - tive a sensação - fora do tempo do mundo e, enquanto a fazia, cantei sempre a mesma canção, que é para mim como um mantra de poder e abertura do chakra do coração.

Ábrete corazón
Ábrete sentimiento
Ábrete entendimiento
Deja a un lado la razón
Y deja brillar el sol
Escondido en tu interior

Ábrete memoria antigua
Escondida en la Tierra
En las plantas, en el aire
Recuerda lo que aprendiste
Bajo agua, bajo fuego
Hace ya,
Ya mucho tiempo

Ya es hora sí, ya es hora
Abre la mente y recuerda
Cómo el espíritu cura
Cómo el amor sana
Cómo el árbol florece
Y la vida perdura …

(Rosa Giove)


teria ficado para sempre, apenas e só, uma mandala de pedras, penas, conchas e algas, que a maré cheia levaria com ela mais tarde, se não tivesse existido ninguém que a 'fixasse' nesta fotografia a cores... o que me faz crer que estou certa, quando sinto que somos elos de uma mesma cadeia e que, juntos, partilhamos a criação para que a poesia que somos se espalhe...

ao longo dos últimos tempos,

tenho sentido que os meus guias procuram, 'desesperados', alguém que lhes possa servir de 'pombo-correio' e me traduza, em linguagem humana, as suas mensagens celestes. 'desesperados' propositadamente entre aspas, pois se há sentimento que sinto que os guias não têm é desespero... mas calculo que se sintam, de alguma forma, impotentes e um pouco cansados... pelo tanto que me têm soprado para dentro, e eu sempre fingindo que os sopros são, simplesmente, os tais 'distúrbios de personalidade' de que falei no meu último 'post'. vozes às quais não dou a importância devida, mas que apenas copio para a escrita, talvez por sentir que não sou merecedora de ouvir os sopros do céu...

sim, tenho andado confusa...
mais frágil do que é costume, ou então cedendo apenas à fragilidade que sempre existiu e que faz parte de mim, mas que vou tentando esconder. há anos que construo armaduras para poder ir à luta sem correr riscos. coletes de ferro que sobreponho no peito, poços de lacrimosas que seco e toda uma série de artilharia pesada que - acho eu, iludindo-me - me vão defender dos 'golpes mortais' que a minha humanidade, por ser toda ela feita de carne, convoca.
sobretudo desde a morte do Pyppo - pai dos meus filhos mais velhos - que me auto-convenço que a minha força é proprocional à teimosia com que resisto a deixar-me levar pela dor e a mergulhar no meu poço de lágrimas. os guias soprando-me a rendição e eu, teimosamente, encontrando desculpas e formúlas para resistir ao seu sopro divino. chego mesmo a sentir que, muito antes da morte do Pyppo, já eu me tinha tornado numa 'resistente profissional' e que 'perdê-lo' foi apenas mais um sinal do que posso ter a ganhar, assim que baixar as minhas defesas e me render...

felizmente, eles nunca desistem - a não ser, imagino, no dia em que sentirem que eu desisti de mim mesma e que escolhi viver o resto da minha vida sem eles - o que também pode ser uma escolha... 
feliz - e agora tentando deixar a mente de fora desta 'conversa' -, apesar de todas as perdas, de todas as feridas, de todas as dores, de tantas vezes de me ter sentido humanamente incapaz de praticar o que a minha alma revela, apesar de ainda activar a minha armadura de ferro sempre que sinto uma seta a caminho do peito e disposta a furar-me as extensas superfícies de pele de que também sou feita, eu não desisti de mim mesma nem de cumprir-me em tudo aquilo a que me propus, quando escolhi ser a Inês, nesta vida.

e por isso hoje agradeço, não só aos meus guias, mas a todos os pombos-correio que - talvez sem darem por isso - me vão traduzindo, em linguagem humana, os seus sopros divinos. 

a mortalidade comum que todos nós transportamos transpõe-se quando sentimos ser elos de uma mesma cadeia e co-criadores deste universo infinito. e se a língua dos anjos é vento, murmúrio de mar, barulho de chuva a cair, estalido de fogo, canção de seara, bulício de campo, alvoroço de terra, a nós foi-nos dado o dom da palavra. para que possamos exprimir, e transmitir uns aos outros, a poesia da criação e as várias formas de rimarmos com ela.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

a primeira vez que 'falei' com ele ao telefone

a conversa foi esta.
o 'técnico' apareceu-me do nada ou, se quiser dizer mesmo a verdade, desta minha tendência  - vício? mania? capacidade? esquizofrenia? - para inventar personagens dentro de mim. não há originalidade nenhuma neste desdobramento de um ser em várias vozes que, afinal, chegam dos seus vários 'cantos'. para citar apenas um caso, lembro Fernando Pessoa. 
até que ponto isso é bom ou mau, certo ou errado, construtivo ou elucidativo daquilo que os manuais de psiquiatria designam, genericamente, por 'distúrbios da personalidade', não sei. nem me interessa lá muito saber. analisar os porquês, os porque nãos ou os porque sins deixa-nos sempre perante a irrefutável agonia da dúvida. interessa-me mais, neste caso, perguntar-me: para quê?

a primeira vez que me dei conta de ser assim - não uma, mas várias - era muito pequena. a Lucibel, que mais tarde acabou por se tornar, primeiro num personagem que levei para a ilha e, depois, numa fada alegre e bondosa que contava quartos de luz na beira de um lago, está comigo, diria que desde os cinco ou seis anos. lembro-me de falar nela aos meus pais e de eles me olharem com aquele ar de quem não sabe o que fazer com uma filha 'meia tontinha', ou então de me dizerem para parar de inventar, ou mesmo de me acusarem
 tens a mania que és engraçadinha, não é?
ao longo da minha infância, a Lucibel era mais uma sombra do que uma luz, responsável pelas minhas asneiras, autora dos meus disparates, alguém que tomava conta de mim e que era um bom álibi sempre que eu não conseguia ser 'boa'. por exemplo, quando a minha mãe entrava no quarto e via tudo espalhado, desarrumado, e me ralhava, eu explicava
 não fui eu, foi a Lucibel.
ou quando batia nos meus irmãos
 foi a Lucibel 
quando abria as torneiras da casa de banho e deixava tudo inundado
 foi a Lucibel
quando dizia mentiras, a responsável era sempre a pobre da Lucibel.

foi durante a adolescência que os papéis se inverteram: ela passou a ser a boa e eu a má. não sei explicar como foi que o processo se deu, mas a adolescência é sempre um campo minado para a auto imagem e, por isso, o que eu me via a ser por fora - desengonçada, com a pele a regurgitar pontos negros, as hormonas descontroladas e uma série de outros desassossegos - não condizia com aquilo que sentia ter dentro de mim. a tal bondade de que o Pe Alberto falava, a essência tapada pela matéria, a primordial luz da alma. a Lucibel passou, então, a ser uma espécie de Anjo da Guarda. em vez de a culpar pelas minhas asneiras, pedia-lhe que me ajudasse a evitá-las. em vez de a acusar das minhas fragilidades, evocava-a para que me fortalecesse. em vez de me desculpar com a sua existência, agarrava-me à sua presença para me poder perdoar a mim mesma. 
fui crescendo e esta tendência - vicío? mania? capacidade? esquizofrenia? -  de me re-inventar a ser outras não esmoreceu, pelo contrário. foi ganhando contornos - por vezes de paranóia total e desconsolo por não conseguir perceber, afinal, quem sou Eu?
por outro lado, sinto hoje que esse desdobramento me tem trazido para mais perto de um único Eu - com todas as contradições que co-habitam, não só em mim, mas em todos os seres. e as conversas 'telefónicas' com o 'meu' técnico, a título de exemplo, foram, ao longo dos últimos meses, fundamentais para sentir que, sempre que invento alguém para falar comigo de fora, não estou a ser mais do que um canal para que os meus guias se possam exprimir na linguagem humana que falo. ou seja, não são máscaras para me esconder de mim mesma, não sou esquizofrénica e tenho aprendido mais sobre mim mesma quando me ponho à conversa com elas, do que quando as mando calar para que não me falem do que também sou, mas que ainda não gosto de ser.




domingo, 3 de outubro de 2010

hoje chovo

daqui
não sei quem foi que inventou que chover é um daqueles verbos intransitivos, impossíveis de conjugar na primeira - ou em qualquer outra - pessoa. eu hoje chovo e não me interessa a gramática. chovo como chove lá fora, com a mesma cadência da água que o céu nos envia, o mesmo murmúrio de pingo, até o cinzento da mancha é o mesmo que vejo a cair sobre a relva, a humidade rasa-me a pele, sou molhada dos pés à cabeça.
chover e chorar são coisas diferentes e é por isso que digo que
 hoje chovo.
ontem chorei, é verdade, mas hoje chovo como um verdadeiro dia de outono que sente o vento a libertá-lo das folhas mortas das árvores, deixando que os ramos despidos revelem a sua nudez.
talvez já me prepare para o inverno, ou então é apenas a liquidez do amor a tomar conta de mim e não há nenhum desespero nessa entrega.
apenas a confirmação de que passamos pelas estações, aceitando não só o que cada uma nos traz, mas também o que (nos) leva.

aos domingos,

quando eu era pequena, os meus pais levavam-me à Capela do Rato. eles ocupavam os lugares dos crescidos e eu ficava sentada debaixo do altar, a ouvir a viola do Pepe e as homilias do Pe Alberto, que eram sempre inspiradas. 
eram missas felizes, com toda a gente a cantar
 'porque eu sou a Vida, porque eu sou o Amor'
a luz entrava pela abóbada envidraçada do tecto e a única imagem que me afligia era a do Cristo na Cruz, com a cabeça pendendo e o sangue escorrendo das feridas pregadas nos pés e nos punhos. o sofrimento daquele Jesus não condizia com a alegria que eu sentia a cantar, nem com o menino que, na Catequese, me tinham mostrado a nascer numa cama de palha, debaixo da estrela mais luminosa do céu.
nunca mais voltei à Capela do Rato e o Pe Alberto foi morto, há muitos anos, com um tiro na cabeça. nunca ninguém soube porquê ou, se o soube, nunca contou.
baptizou-me tinha eu pouco mais do que um mês, mas por si só a água benta não servia de muito, não há água que nos transforme em pessoas de fé, por muito benzida que esteja. já a graça divina do espírito é outra energia e foi esse o milagre que o Pe Alberto me trouxe, poupando-me aos dogmas e às contradições da Igreja e ensinando-me apenas a ser filha de Deus.
com a simplicidade que lhe era própria, mostrou-me a graça e a fé, essa esperança de crer que reina uma alegria benigna no mundo e de eu tanto poder chamar-lhe Deus como de dar-lhe outro nome qualquer. o que importava, acima de tudo, era ser verdadeira e bondosa. e se a luz interior brilhasse em consonância com a que chegava directamente do céu, não era preciso mais nada.

penitências, pecados, genuflexões e confessionários eram apenas para as pessoas crescidas. para as crianças, o Pe Alberto reservava as canções e o espanto, a certeza de que Deus não castiga ninguém, a redenção natural pelo amor.

e por isso guardava os degraus debaixo do altar da Capela do Rato para, aos domingos, nos sentarmos em fila, de pernas cruzadas. por isso guardava um dia de Verão, em Agosto, para a sardinhada na Caparica, a broa e o Dão do almoço para comungarmos mais tarde, e guardava ainda uma noite de Outono, em Novembro, em que vinha jantar para comemorarmos o meu baptismo e a graça divina do espírito era assim renovada, ano após ano. mais tarde, na adolescência, quando me dediquei às blasfémias próprias do transtorno hormonal e o confrontava com a inexistência de Deus, o Pe Alberto sorria e dizia
 chama-Lhe o que quiseres, minha filha, mas nunca renegues o Seu amor.

a Igreja impingia-me um credo em que o criador do céu e da terra descia dos Céus e incarnava no seio da Virgem Maria para nos redimir dos pecados. ou, nos casos em que isso não era possível, para nos mandar para o inferno expurgar culpas, maldades e vícios. e era precisamente perante esta impossibilidade de todos os corpos conterem o milagre do espírito que eu hesitava e lhe dizia
 ou somos todos filhos de Deus, ou então isto não faz sentido nenhum.
ele voltava então a sorrir - tinha um sorriso amplo e benigno, o Pe Alberto - e apontava-me o céu. uma mancha imensa de azul, nesse tal dia Verão em que vinha à Caparica, e os dois deitados de costas na areia a abarcá-lo não só com os olhos, mas sobretudo a trazê-lo para dentro do peito. 
a seguir era o almoço, as sardinhas, a broa e o Dão consagrados no corpo e no sangue de Cristo, a viola, as canções, a comunhão do amor e Deus sempre connosco, na mancha de azul, no pão e no vinho, mas sobretudo no peito, onde a fé incarnava e nos oferecia o milagre do espírito, habitante do corpo. e foi graças ao Pe Alberto que aprendi que Deus é de facto muito maior do que todos os credos do mundo e que não há como negá-Lo. não há como não crer na alegria benigna da luz, não há como não querer a redenção natural de todos os seres através do amor.

lembro-me, como se fosse hoje, da última vez que nos vimos... e quando, poucos dias mais tarde, soube que o tinham matado, questionei, afinal, a bondade do Deus em que acreditávamos ambos. dei voltas e voltas para tentar descobrir a razão da morte brutal e injusta de um homem da paz e do bem. e, embora nunca tenha encontrado a resposta, hoje tenho a certeza de que ele a soube. no exacto momento em que a bala lhe entrou pela testa, ele soube porquê, soube porque morria daquela maneira e por que razão a dor se esvaía logo à entrada do céu, onde Deus esperava por ele, tenho a certeza, de braços abertos.

e porque hoje é Domingo, deixo-vos um excerto de uma homilia, proferida pelo Pe Alberto, há muitos anos atrás.

'Os santos morrem assim. Sabem porque é que eles morrem assim? Porque vivem assim, e não assado. E nós vivemos assado, e morremos assim. Morremos cheios de medo, de pavor, de aflições, de complicações. Vamos buscar os pecados que fizemos ainda aos 6 anos e já temos 60. Chamamos lá o senhor padre, sabem porquê? Porque não vivemos assim. Ah, se nós vivêssemos assim, Deus recebia-nos com a mão direita na cabeça e entregava-nos, lá onde estão os justos!'

sábado, 2 de outubro de 2010

era tarde quando chegámos a casa

mas nenhum dos dois tinha sono.
abri-lhe a espreguiçadeira no meio do terraço e estendi-lhe uma manta, para o defender do ar fresco da noite, que teimava em insinuar-se nas cartilagens macias.
que farsa!
sorriu-me o anjo, já instalado no seu trono de verga, por debaixo das bunganvílias que tínhamos posto os dois a crescer em vasos de barro, fazia já algum tempo, e a seguir pediu-me um copo de vinho.
fui buscar a garrafa e brindámos
à morte do anjo
disse ele.
as suas asas guardavam ainda a salmoura das ondas, à tona das penas a areia brilhava, um fino vapor cobria-lhe os olhos, o azul mareava-lhe as pálpebras, reparei que pendurara uma concha ao pescoço, presa ao fio dos meus dias, e que nada na sua brancura fora tomado pelas sombras terrestres.
pediu-me para ler o meu texto e mostrei-lho.
que pena não ser capaz de escrever
disse o meu anjo da guarda.
enchi-lhe o copo outra vez e de novo brindámos à farsa
tchim tchim!
a seguir, perguntei-lhe
porquê?
porque queria sentir, como tu sentes, a humanidade a escorregar-me dos dedos e perceber o porquê das paisagens e das metáforas que cria
disse ele.
fez-se um breve silêncio entre nós, bebemos os dois mais um pouco de vinho, a seguir perguntou-me
tens a noção da quantidade de enganos que as palavras convocam?
assenti, com um ligeiro aceno das mãos.
deixa-me lá ler isso outra vez...
abri-lhe a janela e de novo o deixei à mercê da praia mortal, da multidão e das câmaras, do suor das palavras, da repórter excitada com a notícia da morte de um anjo em directo, da orla humana do mundo, do ónus da prova.
imagina que eu tinha mesmo morrido? o que farias sem mim?
perguntou-me, com alguma ironia.
foi a minha vez de sorrir.
nenhuma das minhas palavras seria capaz de te matar
respondi.
a seguir, pousei o meu copo de vinho no chão, fechei a janela, empurrei-lhe a espreguiçadeira para mais perto das estrelas e deitei-me ao seu lado.
quando estávamos quase a dormir, embalados pelo contágio do céu, perguntou-me
diz a verdade, alguma vez duvidaste da minha existência?
por debaixo da manta, estendi-lhe os meus dedos. benignamente, o meu anjo da guarda amparou-os na luz da sua presença, enquanto eu lhe sussurrava ao ouvido
não, mas todos os dias duvido que seja possível escrever o que aprendo contigo.

a notícia abriu ontem os telejornais

um anjo atirou-se do céu e morreu, estão ainda por esclarecer os motivos


a seguir mostraram a praia onde o anjo jazia. pouco mais era do que um novelo de luz a apagar-se na areia, as asas desfeitas pelo embate, a mancha incorpórea de uma qualquer substância divina irrompendo da túnica branca, mas sem que uma única gota de sangue a desfigurasse. à sua volta, a multidão conspirava. porquê estatelar-se no meio de uma praia mortal, se ao seu dispor tinha as extensões imortais do azul? por que razão escolher um destino perene e humano, se ao seu alcance estavam os cumes do céu, as benesses de deus, os esplendores perpétuos da luz? não é todos os dias que se assiste à queda de um anjo, é normal que a multidão se questione se o paraíso terá, afinal, precipícios, abismos, que a câmara ofereça o banquete da morte de um anjo em directo, que a repórter se esmere por recolher impressões, que a notícia dê azo a comentários em estúdio sobre a justiça divina e a sua eficácia, que ninguém compreenda por que razão uma criatura, por natureza mansa e benigna, se atrofia desta forma ridícula, quase perversa, na orla costeira de um mapa terrestre.
espero que todos se afastem, que a multidão se dissipe, que as câmaras se apaguem, que a noite derrame o seu manto sobre ele e que o cubra de estrelas. então, devagar, aproximo-me. é ele, não há dúvida, o meu anjo da guarda, saberia reconhecê-lo entre mil, mesmo sem nunca o ter visto, o anjo que há anos mantenho num pedestal de ficção, ou de fé, hoje já não tenho a certeza de nada, e ao qual pedi vezes sem conta uma prova da sua presença ao meu lado. a custo, endireito-lhe as asas, sacudo-lhe a areia do manto, pego-lhe ao colo e levo-o para casa. afinal, foi do meu coração, e não dos abismos do céu, foi do meu coração que se atirou ontem à noite, quando em segredo lhe disse que tinha deixado de acreditar em anjos da guarda.

os dias da sombra


este chega directamente daqui

parei hoje um pouco para pensar em tudo o que já escrevi e, sobretudo, em tudo o que já publiquei. nove livros ao todo, um muito antigo (tinha 16 anos), outro há mais de uma década, os sete restantes ao longo dos últimos três anos.
parei também para sentir que, à minha volta, quase todos perseguem o mesmo: a paz interior, a luz ao fundo do túnel, a consciência de que não viemos à toa percorrer caminhos sem rumo, o encontro de cada um consigo próprio e com os outros, o tal amor incondicional no qual todos desejamos fluir.
trajectos que, tantas vezes, espelham acima de tudo os momentos mais bem conseguidos, ou tudo aquilo que ressoa pelo lado do brilho. basta-me dar uma volta aqui pelo FB para reparar como são tantos - eu própria incluída - os que inundam os seus murais com links ou citações de gurus e de outros 'mestres iluminados', ou mesmo com frases da sua autoria, e em que a mensagem é sempre 'boa'.
tudo isto para chegar onde?...
que andamos todos a tentar 'resolver-nos', não tenho uma dúvida. mas - e agora falo apenas por mim - a máscara da 'iluminada' - que até escreve, inspirada, sobre fadas, almas, desejos, índigos, dias de luz - só poderá começar a cair quando não existir mais o medo de mergulhar a fundo nas minhas sombras e de as trazer à superfície. quando não tiver mais pudor de espécie nenhuma em revelar o meu lado sombrio. acham o quê? que estou 'resolvida'?... 'crescida'? que pratico tudo o que digo? que a Balança supostamente amorosa não tem também os seus ódios?... as suas crises de auto-estima? que não manipulo, não controlo, que não componho cenários idílicos fingindo que já lá estive?!...
os Dias da Sombra são isso. levantar o tapete para ver para onde é que tenho andando a varrer o meu pó e mostrá-lo a quem quiser vê-lo. todos temos os nossos 'tapetes'. todos varremos o pó para lugares onde os outros não possam vê-lo. todos preferimos mostrar onde é que somos feitos de luz - porque o somos, de facto - e esconder as partes que estão na penumbra.
pois eu deixei de ter medo e vou pôr as sombras à mostra.
nem sequer com o intuito de que, expostas ao ar, se dissolvam e me iluminem, mas por fazerem parte de mim e porque estou mesmo farta de máscaras!

(e não, não é um exercício de auto-flagelação na praça pública, apenas... terapia :))

ultrapassadas as primeiras barreiras

de obstáculos - a saber: escolher o template, as cores, as descrições mais ou menos sumárias do que isto não é ou vai ser ou já se adivinha, a fotografia para que as palavras tenham um rosto - o sábado acaba. sinto que a luz já não se condensa na relva e que, afinal, não fui passear, como e com quem gostaria, nem imprimir uma mandalma, como devia e que tem de estar pronta daqui a dois dias, nem almocei nada de jeito e que passei todo o dia sentada à frente do computador e agora doem-me as costas e adoraria que me fizessem uma massagem.

muito bom, para primeiro dia, portanto. e aquela coisa do 'não faças planos para a vida para que a vida não estrague os planos que tem para ti' também hoje se encaixa de forma perfeita na tarde que acaba. e, no entanto, dentro da minha cabeça - que infelizmente não posso arrancar nem consigo ainda aquietar com nenhuma técnica zen - um porquê azucrina-me. ultimamente, tem sido sempre o mesmo porquê, a inquietação de não estar a ser movida pelo meu coração mas por um quindecile que a minha Vénus faz a uma Lua taurina. o que significa, traduzido para leigos, uma 'obsessão'.

as 'obsessões', todos sabemos, são doentias e raramente conduzem a desfechos felizes. mas parece que insisto - ainda - neste padrão. que ainda só vou a meio do caminho nessa descida ao abismo plutónico e que, volta não volta, desato outra vez a trepar por ele acima, com o pânico de que me engula para sempre e eu asfixie. bem diz o António que o mergulho é sem escafandro e as vezes que foram precisas para, enfim, regressarmos à tona irreconhecíveis. mesmo assim, há dias em que fico uma verdadeira medricas e em que não quero saber de mais nada a não ser voltar para a margem segura onde nada se passa e olhar para o abismo apenas de longe.
isso não cura e eu já sei, ficar na margem não cura ninguém. mas hoje queria tanto ter ido passear de mão dada e, se possível, partilhar as paisagens de olhos fechados e manter-me assim, quieta e feliz, até que a noite chegasse e me levasse ao colo para a cama. 

pois sim, há um tempo para tudo e isso às vezes consola. mas, hoje, esse compasso da espera desafina-me toda, que merda!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

'blogar'

não é uma novidade para mim. durante anos a fio, alimentei uma 'vidinha' que punha a boiar no néon, mas que assinava com o nome Sophia. não era honesta e eu sei. 'esconder-me' noutra 'pessoa' sempre foi um álibi para encobrir as profundas inseguranças que (ainda hoje) sinto. 'escondida', podia escrever tudo o que não ousava dizer de mim mesma e dos outros, podia ser o que não era capaz de assumir que também sou, todo aquele meu lado de sombras vinha à tona sem que eu corresse o risco de alguém saber que, afinal, também existiam sombras em mim - Inês.

hoje, mergulhada nas sombras que trago e que tenho, mas consciente, muito mais consciente, da luz que transporto e que SOU, deixei de ter medo de dar a cara na escrita. do olhar dos outros sobre mim própria, do julgamento, da crítica, dos que aqui poderão vir espreitar e ler tudo o que é íntimo.
quem já me conhece e já leu coisas minhas - fosse na PAIS&Filhos ou nos livros que escrevo - sabe que a escrita é, para mim e acima de tudo, um lugar onde não cabe o pudor do impessoal transmissível. exponho-me, e tantas vezes para além do que é visto por todos à superfície, primeiro porque isso para mim é quase terapia e, depois, porque sinto que, se for verdadeira, poderei fazer algum eco nos outros.

identificamo-nos com aquilo que é autêntico. por isso, hoje, prezo a transparência acima de todas as coisas. sem medo que essa autenticidade traga à tona as minhas fragilidades, fraquezas, carências, pois acredito que é disso mesmo, e hoje mais do que nunca, que faz sentido 'falar'. são os nossos buracos que, eventualmente, nos poderão ajudar a não tropeçar em todos os outros que, lá mais à frente, nos esperam; são as nossas feridas que, postas à vista de todos, poderão trazer o alívio da cura.

a dita 'new age' traz muitas vezes a luz embrulhada em embalagens lindas e leves. há todo um marketing da espiritualidade que nos oferece viagens de sonho e apetrechos para, em cinco, sete ou dez dias, nos tornarmos mais sábios, iluminados e bons. 'pacotes' e livros de auto-ajuda que nos fazem crer que é tão fácil, tão rápido e tão eficaz deixarmos os nossos egos de lado e irmos apenas dançar em torno das estrelas ou rodopiar com os anjos no cosmos.

já a era de Aquário pede verdade, autenticidade, entrega, Serviço. não vem embrulhada num lindo papel cheio de brilho, com um laço gigante para parecer que é o presente que, a cada Natal, desejamos que esteja debaixo da árvore, mas com tudo o que é simples e chega despido de enfeites.

na era de Aquário - que ainda não é a era em que estamos - acredito que seremos capazes, todos e finalmente, de começar a crescer. deixando para trás a human(a)idade em que estamos e em que queremos sempre saber o porquê de tudo o que nos acontece na vida.


e pronto, para primeiro post, já chega.
eu sou a Inês e, calculo que, como todos vocês, ainda estou nessa human(a)idade em que, todos os dias, pergunto
porquê?
hoje é só porque sim.
e depois já se vê.
sejam bem vindos :)